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Revista de Administração de Empresas

Print version ISSN 0034-7590On-line version ISSN 2178-938X

Rev. adm. empres. vol.58 no.3 São Paulo May/June 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0034-759020180315 

RESENHA

SEM ESCAPE DA LÓGICA IMPLACÁVEL DA CONQUISTA DO CAPITALISMO E DA MERCANTILIZAÇÃO

1New York University, Department of Nutrition and Food Studies, New York City, NY, Estados Unidos da América

A HISTORY OF THE WORLD IN SEVEN CHEAP THINGS: A guide to capitalism, nature, and the future of the planet. Patel, Raj; Jason W., Moore. Berkeley, USA: University of California Press, 2017. 328pp.

A history of the world in seven cheap things é extraordinário porque associa o capitalismo ocidental com os males do sistema alimentar global, e mostra como as questões epistemológicas sobre as escolhas para dividir e separar a natureza da sociedade, nativos de colonialistas, e mulheres de homens, são cúmplices em refazer o mundo à imagem de valores capitalistas. Isso é notável para um livro destinado a um público não acadêmico. Em contraste com a maioria das críticas consumistas do sistema alimentar escritas no mundo desenvolvido, este livro conecta de maneira incisiva a destruição natural global e a dizimação das populações indígenas com a própria lógica de acumulação do capital, argumentando que relações extrativas baseada em classe, raça e gênero são estruturalmente ligadas à primeira e à terceira divisão mundial e, assim, definindo a própria natureza do Capitaloceno (em vez da formulação mais ampla do Antropoceno). Não há escape da exploração capitalista da natureza e da cultura. Não há nenhum espaço para o bom capitalismo neste livro. Esse é um argumento obrigatório e necessário que muitas vezes não é feito, especialmente nos Estados Unidos, onde uma variedade de propaganda positiva sobre o capitalismo baseado em valores é rotineiramente vendida, mesmo pelos membros do movimento da boa comida. A history of the world in seven cheap things oferece uma síntese rara que conecta o trabalho teoricamente distinto de críticos de cultura, economia, política e filosofia; no final, é uma crítica político-ecológica incisiva que engloba tanto a economia política quanto a política cultural. Isso é teorização bem-sucedida no mais alto nível.

O livro começa por discutir a natureza barata antes de escalpelizar o dinheiro barato, trabalho barato, cuidado barato, comida barata, energia barata, e terminando com vidas baratas. A natureza barata começa com a execução de uma "feiticeira" de Tlaxcala, Nova Espanha, num domingo, 18 de julho de 1599. Essa mulher anônima supostamente partia cruzes e instigava os índios Chichimec a rebelar-se, mas seu pior crime foi sonhar com um veado a cavalgar um cavalo. Sendo um símbolo de natureza Chichimec local, o veado cavalgava a subsistência dos colonizadores. Foi, assim, considerada um desafio sedicioso ao cosmos do conquistador. Os autores recontam a história dessa mulher, executada como uma feiticeira, que sonhava com uma ecologia radicalmente diferente, como um bálsamo contra alternativas negligenciadas pela "ecologia-mundo" do capitalismo.

A hifenização da "ecologia-mundo" ecoa a análise "sistema-mundo" dos sociólogos Wallerstein (2011) e Arrighi (2010), que serviu como fonte teórica fulcral para este livro sobre o sistema alimentar. O sistema alimentar em questão é aquele que é global na origem. Os autores argumentam que se trata de um sistema que só pode ser derrubado por um movimento global e internacionalista. Seu lamento é que as pessoas podem facilmente imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo. Essa acusação está subjacente a todo o livro.

Vou focar principalmente o conceito de natureza barata para transmitir o escopo e a profundidade de trabalho dos autores dentro dos limites da presente revisão. "Nossa mulher Chichimec", argumentam, "foi morta por uma sociedade civilizada, pois sua natural selvageria quebrou as suas regras" (p. 45). Tanto recentemente quanto em 1330, observam os autores, selvagem significava valente. No entanto, essa associação positiva desapareceu durante o século XV. Não coincidentemente, os termos natureza e sociedade foram produzidos como um binário que exigia separação para que as regras da sociedade pudessem ser impostas à natureza e a qualquer coisa natural. O objetivo era controlar populações indígenas, raças inferiores, mulheres e a própria natureza. Os autores argumentam que essa classificação continua hoje com consequências análogas. Para entender a ambição e o alcance do trabalho de Patel e Moore, é necessário citá-los substancialmente aqui:

Damos por certo que algumas partes do mundo são sociais e outras são naturais. Violência racializada, desemprego em massa e encarceramento, culturas de consumo - são questões de problemas sociais e injustiça social. Clima, biodiversidade, esgotamento de recursos - são questões de problemas naturais, de crise ecológica. Mas não é só sobre o mundo que pensamos dessa maneira. É também porque o fazemos assim, agindo como se o social e o natural fossem domínios autônomos, como se as relações do poder humano estivessem de alguma forma intocadas pela teia da vida. Neste livro, usamos essas palavras - natureza e sociedade - de uma maneira que é distinta do seu uso diário. Estamos a capitalizá-las como um sinal de que elas são conceitos que não descrevem meramente o mundo, mas nos ajudam a organizá-lo e a nós mesmos. Os estudiosos chamam esses conceitos como "abstrações reais". Essas abstrações fazem declarações sobre a ontologia - O que é? - e sobre a epistemologia - Como sabemos o que é? - As abstrações reais descrevem o mundo e fazem-no (p. 47, tradução nossa).

É digno de nota mencionar que, uma vez que elas são construídas, abstrações reais ajudam a governar o mundo. Esse conceito de natureza-cultura é poderoso porque aborda os problemas de poder que os construcionistas sociais têm estudado, mas sem descurar o natural ou o narcisismo humano que, por vezes, é incorporado no social.

A natureza é uma forma de organizar e baratear a vida. É uma forma de juntar e dividir um contínuo (isto é, seres humanos, animais, plantas e outros seres vivos) em polos que podem ser governados separadamente por indivíduos com dinheiro e poder. Patel e Moore argumentam que o capitalismo não poderia ter surgido sem o barateamento da natureza e a dominação de algo natural, incluindo as florestas, planícies, rios, nativos americanos e mulheres. O capitalismo é uma ecologia-mundo do poder com limites entre o preto e o branco, a natureza e a cultura, o masculino e feminino. Mas existe uma esperança nos desafios dos movimentos sociais para colmatar os binários, como vemos hoje com gênero, sexualidade e identidade baseada em espécies. O que é radical acerca dessa gama é que os autores afirmam que classe, raça, género, sexualidade ou mesmo a natureza não são mais importantes um do que o outro.

Os seres humanos têm repetidamente se considerado diferentes do resto da natureza, mas o que foi forjado pelo capitalismo e sua serva (formados pelos epígonos da filosofia ocidental, tais como René Descartes (1596-1660)) é a solidez dessa separação. Os autores afirmam que Descartes aprendeu muito da sua fundamentação filosófica ao estudar o filósofo mexicano Antonio Rubio (1548-1615). Esse mal, estendendo os limites do que é "mexicano", permite aos autores fazer duas coisas. Primeiro, trocar o local de filosofia da metrópole para a periferia. Em segundo lugar, posicionar a margem como o foco da história capitalista (tradicionalmente contada como transformações no centro). Os argumentos habituais envolvem a criação de mercados e honra a contratos, ideologias de mão de obra gratuita, ética protestante, a democracia e os estados com poder limitado, nenhum dos quais estão na origem do capitalismo. O que está na sua origem está na expansão na natureza e supremacia sobre as coisas naturais e dos povos.

Os autores associam, de modo convincente, capital monetário e poder territorial para comandar a vida, trabalho e recursos. Não há dinheiro sem autoridade; não há autoridade sem dependência monetária. Essa autoridade é principalmente capaz de fazer guerra e policiar sujeitos recalcitrantes. Aqui, Patel e Moore conectam a prata do Novo Mundo com bancos genoveses à construção militar moderna (a vantagem singular do Ocidente moderno) com base na financeirização econômica. Assim, os banqueiros precisam de governos apesar do casamento frágil entre dinheiro e territorialismo. "Se o trabalho, alimentos, energia e matérias-primas baratos são as condições necessárias para ganhos capitalistas, o crédito barato torna tudo possível" (p. 68). Aqui, o seu trabalho depende das concepções de Braudel (1992) e Arrighi (2010).

O capítulo sobre cuidados baratos mostra que a origem do lar moderno assenta em alterações ecológicas capitalistas europeias. Baseados na obra The Working Lives of Women in the Seventeenth Century, de Clark (1993), os autores expõem a mudança na geografia econômica do cuidado e da produção. O trabalho das mulheres nos bens comuns incluía a coleta de combustível, recolhimento e fornecimento de seguro social, que geralmente se baseava em trabalho de parentesco religioso, pessoal e social. No entanto, esses arranjos eram incompatíveis com inovações agrícolas como o arado, propriedades fechadas, monoculturas e sistemas de propriedade privada que deserdavam e empobreciam as mulheres. O trabalho barato, em que a industrialização se baseava, precisava de um "trabalho de cuidados" para se transformar em trabalho não remunerado, que era esmagadoramente atribuído às mulheres. A expansão do "trabalho de cuidados" (estimada em 70% nos EUA até 2020 (p. 134)) depende da movimentação dos cuidadores, historicamente como escravos, criados e amas de leite, e hoje como profissionais de saúde, babás e barrigas de aluguel. "O lar global sempre fez o trabalho que possibilita a fábrica global e a fazenda global" (p. 134). Os autores concluem que um mundo em que o cuidado é valorizado requer um ambiente pós-capitalista.

O capítulo sobre alimentos baratos mostra como tais alimentos torna possível a mão de obra barata. O capitalismo usa energia barata para baratear outros fatores de produção. Ele começa com o desmatamento (ou seja, a colheita de madeira), seguido pelo vento e turfa (dominado pelos holandeses do século XVI) e, em seguida, o carvão (Reino Unido) e o petróleo (EUA). Eles preveem que, sem fronteiras naturais do século XXI para externalizar os custos de desenvolvimento, movimentos sociais difíceis de conter surgirão.

Conquistar e baratear a vida global requer mapeamento. Portanto, bastante atenção é dada ao mapeamento e outras formas de conhecimento do mundo moderno europeu em sistemas de conhecimento. Dominação não pode ser separada do conhecimento. Os autores argumentam que o materialismo moderno foi concebido para interpretar o mundo e controlá-lo. Essa é uma homenagem a Marx. O livro termina exigindo o reconhecimento de binários capitalistas e um pedido de compensação, redistribuição, reimaginação e recreação. Esse último conceito envolve a celebração das alegrias da ociosidade e bom trabalho, portanto inferindo o conceito de alienação em Os manuscritos econômicos e filosóficos de 1844, de Marx (2011).

Aqui, os críticos julgarão o livro como tendo antolhos marxistas. Os autores essencialmente ignoram o registro do socialismo de Estado na devastação dos mundos natural e indígena. Se o capitalismo veio da conquista violenta, pode ser separado da história socialista? Eles subsomem estado-socialismo com ecologia-mundo capitalista, mas o argumento necessita de elaboração para além de duas reivindicações, como segue: "Para Stalin (como para os americanos), a natureza foi um objeto a ser manipulado… [e] um inimigo a ser subjugado" (p. 114-115), e citam o assalto de Mao sobre os quatro flagelos de pulgas, moscas, ratos e pardais, que contribuiu para a Grande Fome Chinesa de 1959-1961. Isso levanta uma pergunta que, fundamentalmente, assombra o livro: Serão capitalismo e territorialismo sempre coerentes e nunca contraditórios? E quanto à vasta literatura, incluindo aspectos da análise de sistemas mundiais que argumentam que o capitalismo não poderia ter surgido dentro de um império mundial? A history of the world in seven cheap things deve ser acompanhado por uma crítica igualmente incisiva das consequências ambientais e metodológicas do socialismo do Estado. No entanto, essa crítica não é urgente, na minha opinião, dada a irrelevância do Estado-socialismo como uma alternativa contemporânea real. Em contraste, o capitalismo impera, de modo que o alvo deste livro é bem escolhido.

Versão traduzida

REFERÊNCIAS

Arrighi, G. (2010). The long twentieth century: Money, power and the origins of our times. London, UK: Verso. [ Links ]

Braudel, F. (1992). Civilization and capitalism, 15th-18th c.: Perspective of the world. Berkeley, USA: University of California Press. [ Links ]

Clark, A. (1993). The working lives of women in the seventeenth century. New York, USA: Routledge. [ Links ]

Marx, K. (2011). The economic and philosophic manuscripts of 1844. New York, USA: Wilder. [ Links ]

Wallerstein, I. (2011). Historical capitalism. London, UK: Verso . [ Links ]

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