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Revista de Administração de Empresas

Print version ISSN 0034-7590On-line version ISSN 2178-938X

Rev. adm. empres. vol.58 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0034-759020180501 

EDITORIAL

PESQUISAS QUALITATIVAS, PESQUISAS QUANTITATIVAS E ALÉM

1 Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil


O recente artigo de Cassell (2018) sobre as similaridades existentes entre as habilidades necessárias para a condução de pesquisas qualitativas e as habilidades e competências necessárias para o exercício de funções gerenciais traz de volta um velho debate sobre a oposição entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa. O argumento da autora é que, ao conduzir pesquisas qualitativas pela primeira vez, alunos de MBAs adquirem, para além dos resultados da pesquisa em si, competências para o desempenho da função de gestores, como analisar ambientes complexos, habilidade fundamental para o cenário das organizações hoje. A pesquisa traz dados empíricos descritos por esses alunos/gestores sobre as diversas competências adquiridas no processo de pesquisar.

Apesar de várias décadas de uso intensificado da pesquisa qualitativa na área de Administração, temos a impressão de que ainda se faz necessário reforçar a importância da pesquisa qualitativa na formação de alunos dos mestrados profissionais, supostamente voltados para a condução de pesquisas aplicadas, ou mesmo para alunos de doutorado, supostamente voltados para pesquisas científicas. Fazer pesquisa qualitativa não é para principiantes. A sofisticação que as estratégias de pesquisa qualitativa adquiriram ao longo dessas décadas é impressionante (Alvesson & Skoldberg, 2009; Prasad, 2005; Symon & Cassell, 2012), e, ao nos dedicarmos ao ensino de pesquisa qualitativa em programas stricto sensu, consideramos necessário que os alunos sejam expostos às diversas perspectivas, complementares, que permitam uma formação mais substantiva e que apontem para as dificuldades, bem como para os ganhos potenciais com a utilização das pesquisas qualitativas.

O mesmo se pode dizer das pesquisas quantitativas. Os métodos evoluíram também (Hodis & Hancock, 2016). A disponibilidade de dados, proveniente de um ecossistema digital alavancado por negócios on-line e dispositivos móveis, somada aos avanços tecnológicos envolvendo de software a hardware, tem permitido maior complexidade em estudos quantitativos no que se refere à expansão de períodos de análise e à realização de experimentos naturais e de campo. Contudo, tais avanços ainda esbarram na superficialidade dos métodos empregados por praticantes, seja por conta da demanda por resultados urgentes, seja pelo alto custo de aquisição de habilidades em análise quantitativa de ponta, que requer tempo e grande investimento em termos de esforço.

Esse desenvolvimento nos leva a pensar que pesquisar, cada vez mais, é algo para além dos métodos e um exercício fascinante que temos a sorte de praticar no mundo acadêmico. Pesquisas de qualidade podem ser qualitativas ou quantitativas. Podem ser críticas ou funcionalistas. Um bom resultado de pesquisa nos leva, muitas vezes, ao óbvio, mas ainda não registrado.

Nesta edição, apresentamos artigos elaborados a partir de pesquisas qualitativas e quantitativas que, esperamos, possam enriquecer o leitor. A seção Perspectiva traz reflexões de Roberto Patrus sobre "Desigualdade social e o papel da avaliação da pós-graduação em Administração no Brasil ", e de Edson Guarido com "Desigualdade social, responsabilidade e responsividade da pesquisa". Completam esta edição as resenhas dos livros Jugaad innovation: Think frugal, be flexible, generate breakthrough growth, de Navi Radjou, Jaideep Prabhu e Simone Ahuja, escrita por Dennys Eduardo Rossetto e Felipe Mendes Borini, e La alianza: Cómo gestionar el talento en la era de internet, de Reid Hoffman, Ben Casnocha e Chris Yeh, escrita por María Carmen Sánchez-Sellero e Pedro Sánchez-Sellero; e as indicações bibliográficas "Perspectivas culturais sobre a dominação financeira da economia e das or­ganizações", de Silvio Eduardo Alvarez Candido, e "Epistemologia da Administração", de Pedro Jaime.

Boa leitura!

Versão original

REFERÊNCIAS

Alvesson, M., & Skoldberg, K. (2009). Reflexive methodology: New vistas for qualitative research. London, UK: Sage. [ Links ]

Cassell, C. (2018). "Pushed beyond my comfort zone": MBA student experiences of conducting qualitative research. Academy of Management Learning & Education, 17(2), 119-136. doi:10.5465/amle.2015.0016 [ Links ]

Hodis, F. A., & Hancock, G. R. (2016). Introduction to the special issue: Advances in quantitative methods to further research in education and educational psychology. Educational Psychology, 51(3-4), 301-304. doi:10.1080/00461520.2016.1208750 [ Links ]

Prasad, P. (2005). Crafting qualitative research: Working in the postpositivist traditions. New York, USA: Sharper Inc. [ Links ]

Symon, G., & Cassell, C. (Eds.) (2012). Qualitative organizational research: Core methods and key challenges. London, UK: Sage. [ Links ]

Maria José Tonelli Editora-chefe

Felipe Zambaldi Editor-adjunto

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.