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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.41 n.1 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77011998000100003 

De onde surgem os modelos? As origens e expansões Tupi na Amazônia Central

 

Michael J. Heckenberger
(Museu Nacional - UFRJ)

Eduardo G. Neves
(Museu de Arqueologia e Etnologia - USP)

James B. Petersen
(University of Vermont)

 

 

RESUMO: Este artigo apresenta subsídios arqueológicos para o debate - revisitado por Franciso Noelli, Eduardo Viveiros de Castro e Greg Urban nas páginas da Revista de Antropologia - sobre a suposta origem das línguas do tronco Tupí na Amazônia central. Apresentamos aqui os resultados preliminares de nossas pesquisas arqueológicas na área de confluência dos rios Negro e Solimões que levantam restrições às premissas arqueológicas desse modelo, primeiramente apresentadas por Donald Lathrap em 1970.

PALAVRAS-CHAVE: arqueologia Amazônica, grupos tupí, arqueologia do baixo Rio Negro, arqueologia, linguística

 

 

I. Introdução

Desde a publicação de The Upper Amazon em 1970, a obra fundamental de Donald Lathrap sobre a história cultural amazônica, tomou corpo a hipótese que propõe a precedência temporal de cerâmicas policromas na Amazônia central. Do mesmo modo, estabeleceu-se a hipótese de que essas cerâmicas, associadas à chamada "tradição policroma da Amazônia" (TPA), seriam correlacionadas arqueológicamente à populações falantes de línguas do tronco Tupi, principalmente as línguas da família Tupi-Guarani. Lathrap tentou explicar a distribuição dos grandes grupos lingüísticos e estilos cerâmicos na Amazônia através de seu "modelo cardíaco". Esse modelo preconizava que a pressão populacional nas áreas ribeirinhas da Amazônia central, que ele acreditava ter sido o centro mais antigo de desenvolvimento de agricultura e sedentarismo no continente americano (Lathrap 1974, 1977), resultaram em um êxodo populacional contínuo centrífugo através da colonização das bacias dos principais afluentes do Amazonas, como o Negro e o Madeira, assim como pela colonização do Solimões e do baixo Amazonas. Lathrap concentrou seu foco em duas migrações principais: de um lado na migração de grupos falantes de línguas da família Maipuran do tronco Arawak, que ele associou à série ou tradição cerâmica "Barrancóide" ou Incisa-Modelada1 (TB/IM) (Lathrap 1970a: 113); de outro lado, à migração de grupos da família lingüística Tupi-Guarani, que de acordo com Lathrap seriam representados nessa expansão pela distribuição de cerâmicas policromas (com pinturas em preto, vermelho ou preto e vermelho sobre engobo branco) associadas à TPA (Lathrap 1970a: 150-151; 1972).

O modelo geral brevemente apresentado acima foi posteriormente expandido pelas dissertações de doutorado de dois alunos de Lathrap: o brasileiro José Brochado (1984) refinou o componente referente às expansões Tupi e Guarani pelo leste e sul do Brasil enquanto que o porto-riquenho José Oliver (1989) trabalhou com os problemas da expansão Maipuran pelo norte da América do Sul e Caribe. Recentemente, a questão da expansão dos grupos Tupi e Guarani foi retomada em um artigo publicado nessa revista por um dos estudantes de Brochado, Francisco Noelli (1996). O artigo de Noelli apresenta uma elaboração engenhosa da modelos de Lathrap e Brochado, em particular da "hipótese da pinça" - ilustrada por Brochado através da figura da boca de um jacaré gigante que tem como maxilar o baixo Amazonas e como mandíbula o rio Madeira, (Brochado 1984, 1989).

O trabalho de Noelli tem o mérito de chamar a atenção para a contribuição indispensável que a arqueologia pode fazer para os estudos de história indígena. Estranhamente, no entanto, nenhum dos dois especialistas convidados pela Revista de Antropologia para debater as idéias do artigo é arqueólogo, um reflexo do já consumado divórcio entre a arqueologia e a etnologia no Brasil. O presente trabalho é oferecido como uma contribuição à discussão desencadeada pelo artigo de Noelli. Pretendemos aqui apresentar elementos arqueológicos para questionar a suposta origem na Amazônia central das línguas proto-Tupi ou proto-Tupi-Guarani. Tal questionamento é baseado nas recentes, e ainda preliminares, pesquisas arqueológicas realizadas pelos autores na área de confluência dos rios Negro e Solimões, Estado do Amazonas (fig. 1).

 

 

A modelos de Lathrap, Brochado e Noelli

O modelo sobre a origem e rotas de expansão dos antigos falantes de línguas Tupi apresentado por Lathrap, Brochado e Noelli baseia-se em duas premissas básicas: em primeiro lugar, cerâmicas policromas da TPA estariam associadas a falantes de línguas do tronco Tupi; em segundo lugar, essas cerâmicas seriam mais antigas na Amazônia central do que em qualquer outra área da América do Sul. A primeira dessas premissas foi criticada por Viveiros de Castro (1996:57) e Urban (1996: 81) em seus comentários à Noelli (1996). Embora concordemos com essas críticas, gostaríamos de acrescentar três outras ressalvas que consideramos pertinentes:

·  algumas áreas com cerâmicas policromas semelhantes as supostamente produzidas pelos Tupi, como o baixo e médio rio Negro, não foram aparentemente ocupadas por grupos Tupi (Nimuendajú 1982), um fato aliás do conhecimento de Lathrap (Lathrap & Oliver 1987);

· não há nenhuma ligação histórica ou etnográfica estabelecida entre a TPA e falantes de línguas da família Tupi-Guarani tradições Tupinambá e Guarani, na Amazônia, ao contrário da chamada tradição Tupiguarani - ou das como quer possível exceção na Amazônia, Brochado (1984) - do leste e sul do Brasil. Os Kokama/Omágua, uma não tem sua (1996: 82-93). origem Tupi-Guarani satisfatoriamente atestada , conforme sugeriu Urban

· as evidências de troca e comércio de bens utilitários e de prestígio - como cerâmicas - entre diferentes grupos lingüísticos na Amazônia devem ser integradas ao modelo;deve-se reconhecer que estilos cerâmicos, dentre outros estilos de cultura material, são freqüentemente imitados, como acontece na Amazônia e em outros locais (DeBoer 1990).

Nessa discussão discutiremos o problema referente à justificação empírica para a escolha da Amazônia central como o centro de desenvolvimento da TPA. Afirmamos aqui, juntamente com Urban (1996: 63, 80-82), que as bases desse argumento, malgrado sua elegância, baseiam-se mais em expectativas hipotéticas que em evidências arqueológicas concretas, já que por uma série de problemas resultantes de guerras acadêmicas da arqueologia Amazônica nas décadas de 60 e 70 (ver Roosevelt 1991:capítulo II), Lathrap nunca teve oportunidade de fazer pesquisas de campo na Amazônia brasileira. Como nem Lathrap, Brochado ou Noelli trabalharam na Amazônia central, os métodos rigorosos de escavação estratigráfica empregados por Lathrap na Amazônia peruana não foram duplicados na Amazônia central. Tal lacuna dificulta o estabelecimento de comparação regionais, já que associações seguras entre complexos cerâmicos e datas radiocarbônicas não foram apresentadas para os sítios da Amazônia central estudados por autores como Peter Hilbert (1968) - o pioneiro da arqueologia moderna na Amazônia central - e Mário Simões (1974, Simões & Kalkmann 1987), mesmo nos casos em que as datas foram obtidas a partir do próprio antiplástico da cerâmica. Do mesmo modo, o contexto estratigráfico de sítios individuais foi minimamente reportado (Heckenberger, Petersen & Neves 1998). É compreensível que Lathrap, Brochado e Noelli tenham aceito as partes do trabalho de Hilbert que estejam de acordo com suas interpretações, mas é necessário que se reconheça que há problemas sérios com os sítios investigados, tais como o alto grau de perturbação dos depósitos; os métodos de escavação, atualmente superados, cujo objetivo principal foi o de coletar amostras cerâmicas para seriação; os métodos utilizados para se construir os tipos e realizar as seriações, baseados em variações de antiplástico. Todos esses problemas eram ou são do conhecimento de Lathrap (1970b), Brochado (1984, Brochado & Lathrap 1982) e Noelli (s.d).

Lathrap inicialmente - e posteriormente Brochado e Noelli - propôs que a subtradição Guarita surgiu como um desenvolvimento antigo da tradição Barrancóide/Incisa e Modelada (TB/IM) na Amazônia central. Em uma reinterpretação do trabalho de Hilbert (1968), Lathrap sugeriu que as evidências apresentadas "indicavam que todas as características cruciais da subtradição Guarita da TPA já estavam presentes na Amazônia central ao redor de 500-600 D.C., se não antes" (1970a : 157). De acordo com Brochado e Lathrap (1982: 86): "cauixí (TB/IM) foi substituído como caraipé (TPA) como antiplástico; incisões em linhas largas foram gradualmente substituídas pela pintura policroma, que manteve os motivos característicos da tradição TB/IM tardia" A variedade simples de formas de vasilhame, no entanto, não se modificou muito, resultando na hipótese de que a TPA foi uma transformação gradual de TB/IM ao longo de um intervalo de tempo de um milênio: 500 AC a 500 D.C. (Brochado 1984: 319-320; Brochado 1989: 72; Lathrap 1970a: 156).

Lathrap (1970, 1970a), Brochado (1984: 328) e Brochado & Lathrap (1982) identificaram duas subtradições na Tradição Policroma da Amazônia: Miracanguera e Guarita. Para eles, ambas subtradições foram desenvolvimentos na tradição TB/IM da Amazônia central. Miracanguera foi vista como um desenvolvimento paralelo à Guarita que incluía um "grupo mais complexo de formas de vasilhame, incluindo vasilhames com bocas ovalada ou quadrangular, em alguns casos com bordas com decoração acastelada ou onduladas, bem como jarros antropomórficos". De acordo com esse raciocínio, diferenças entre as duas subtradições estariam também ligadas à sua distribuição geográfica: Guarita estava restrita apenas à Amazônia central, enquanto que Miracanguera seria a denominação para cerâmicas policromas encontradas no resto da bacia Amazônica. Betty Meggers, que normalmente discordava de Lathrap em quase todos aspectos, parece também concordar que a distribuição regional da subtradição Guarita foi limitada por manifestações mais recentes e sofisticadas da TPA, como Miracanguera, no alto e baixo Amazonas (Meggers & Evans 1983: 311; Meggers et al. 1988: 290). Nossa pesquisa no baixo rio Negro tem indicado que Guarita não é necessariamente mais tardia, nem menos sofisticada, que complexos cerâmicos da TPA localizados no alto ou baixo Amazonas, com a possível exceção da fase Marajoara. da ilha de Marajó. Do mesmo modo, Guarita não parece ser apenas um desenvolvimento gradual de complexos TB/IM na Amazônia central, representando de fato uma mudança abrupta e uma inovação radical em tradições locais, relacionada ao movimento de populações ou de idéias ao longo de áreas amplas .

 

II. A seqüência cerâmica da Amazônia Central revista: o complexo Açutuba

Pesquisas arqueológicas sob nossa coordenação no baixo rio Negro e no rio Solimões, têm trazido evidências de que a TPA não é muito mais antiga na Amazônia central que em outras partes da bacia amazônica2. Pesquisas no complexo sítio de Açutuba, uma série de áreas de habitação com terra preta localizadas em terraços fluviais adjacentes no baixo rio Negro, têm documentado uma seqüência de ocupação para a área diferente da proposta por Lathrap, Brochado ou Noelli. Pesquisas nessas áreas de habitação, designadas Açutuba I, II e III, têm incluído mapeamento sistemático, coletas superficiais, e escavações. Análises detalhadas de artefatos, vestígios macro-botânicos, fitólitos e de química de solo estão sendo atualmente realizados (Heckenberger, Neves & Petersen 1997). Nesse trabalho, faremos apenas um sumário dos aspectos da pesquisa relevantes para o teste do modelo de Lathrap, Brochado e Noelli.

Conforme o indicado, a história da ocupação do baixo rio Negro, tal como ela é documentada pelas cerâmicas de Açutuba, difere marcadamente do que foi proposto por Lathrap, e do que está no cerne de sua modelos sobre a origem Tupi na Amazônia central, em três maneiras fundamentais:

1)TB/IM foi a tradição cerâmica predominante na Amazônia central até cerca de 900 D.C.;

2)TPA (subtradição Guarita) aparece no complexo Açutuba apenas depois de 900 D.C.;

3)a subtradição Guarita, em geral, não é menos sofisticada ou tem menos diversificação interna que a subtradição Miracanguera.

Baseado em contextos arqueológicos seguramente datados por C14 em várias unidades de escavação no complexo Açutuba, percebe-se que atributos cerâmicos associados à TB/IM predominam até cerca de 900 D.C. no local (Tabela 1). Uma data radiocarbônica de 920 ± 100 D.C. obtida de uma concentração cerâmica intacta é a data mais recente disponível para TB/IM. Cerâmicas relacionadas foram obtidas na escavação de Açutuba II-B em contextos datados em 960 ± 70 A.C; 360 ± 140 A.C.; 360 ± 60 D.C.; 680 ± 60 D.C.; 720 ± 70 D.C. e 120 ± 80 D.C. e 850 D.C. em outras escavações (fig. 3). É interessante notar que há, na estratigrafia da escavação de Açutuba II, uma mudança qualitativa, em termos do grau de transformação antropogênica do solo (formação de terra preta), e uma mudança quantitativa, em termos do aumento da quantidade de restos cerâmicos, a partir de 960 AC. Essas mudanças indicam um aumento na intensidade do uso do sítio a partir desse período, talvez relacionada ao processo de crescimento demográfico sugerido por Lathrap, Brochado, Noelli e outros autores (Roosevelt 1994, Carneiro 1995). Baseando-se na data de 150 D.C. para a base dos depósitos culturais em Açutuba I, infere-se que houve, a partir do anno domini, uma aparente expansão das áreas de ocupação desde Açutuba II para outras áreas do complexo, tais como Acutuba I e III.

 

 

 

 

Em Açutuba I, uma variante antiga de cerâmicas policromas, datada em 150 D.C. (Beta-90724)3, foi encontrada próximo à base dos depósitos culturais da área escavada; esse variante policroma é bastante diferente dos materiais Guarita tardios. Sua posição estratigráfica é também bastante específica dentro do depósito: cerca de 60-80 cm. de profundidade. Esse material está associado à outra variedade específica datada do mesmo período constituída por cerâmicas com incisões lineares finas (fig. 2b). Nós interpretamos essas cerâmicas como uma variedade policroma de pequena duração temporal não associada à tradição Guarita que se desenvolveu posteriormente na região, mas sim à fase Paredão definida por Hilbert (1968).

As cerâmicas relacionadas à TB/IM encontradas em Açutuba, com exceção da variedade policroma mais antiga mencionada acima, estão bem correlacionadas à materiais normalmente atribuídos à fase Manacapurú, identificada por Hilbert (1968: 302-6) na Amazônia central. Cerâmicas semelhantes foram identificadas por Hilbert (1968: 256) em depósitos datados nos sítios Manacapurú (425 D.C.), Paredão (870 e 880 D.C.), Coarí II (763 D.C.) e Caiambé (ca 640 e 730 D.C.).

Cerâmicas da TPA não foram até o momento encontradas em contextos estratigráficos intactos nas escavações de Açutuba II ou I realizadas em 19954 , que produziram seqüências datadas em, respectivamente, ca. 5000 AC5 a 720 D.C. e 150 D.C. a 920 D.C.. Cerâmicas associadas à subtradição Guarita têm uma ampla distribuição pela superfície dos terraços de Açutuba I, II e III, todos eles parcialmente perturbados por agricultura mecanizada (fig. 4). Algumas dessas cerâmicas tiveram seus antiplásticos orgânicos datados diretamente por AMS (acelerador de espectômetro de massa). Dentre as técnicas decorativas dessas cerâmicas há pinturas com motivos complexos em vermelho e negro sobre engobo branco (antiplástico de caraipé); incisões largas e acanalado (antiplástico de caraipé) e com bordas ponteadas (antiplástico de cauixí) datadas, respectivamente, em 970 ± 60 D.C.; 1160 ± 40 D.C. e 1260 ± 40 D.C. (Figs.. 4a e 4b).

 

 

As formas de decoração do material datado representam claramente a subtradição Guarita no baixo rio Negro e, por conseguinte, toda a região onde a antiga fase Guarita6 foi inicialmente definida (a área localizada dentro de um raio de 100 km a partir de Manaus). As datas recentes e a distribuição localizada das cerâmicas Guarita nas partes superiores da estratigrafia demonstram que Guarita foi mais ou menos contemporânea a outros complexos cerâmicos da TPA localizados no médio e alto Amazonas: Zebu na Colômbia; Napo no Equador e Caimito no Peru (Brochado e Lathrap 1982). Cerâmicas similares foram encontradas no rio Uatumã, localizado a leste do rio Negro e foram atribuídas à fase Caparú, datada entre 890-1520 D.C. (Miller et al. 1992: 17-20). No rio Apuaú , afluente do baixo rio Negro, Simões e Kalkmann (1987) dataram cerâmicas Guarita entre 825 e 1560 D.C.. No sítio Coarí II, no médio Solimões, Hilbert (1968: 256) datou materiais Guarita em 1150 D.C.. Os dados de Açutuba permitem então que se insira a subtradição Guarita no baixo rio Negro desde 900/1000 até 1500 D.C. ou mesmo depois.

A asserção de Lathrap e Brochado (1982) de que as cerâmicas Guarita são mais simples em forma e decoração que as cerâmicas Miracanguera parece também prematura. Um amplo leque de formas, incluindo urnas antropomorfas e vasos com morfologia de borda quadrangular ou oval foi identificado em Açutuba, bem como em outros locais na Amazônia central. Essas formas e estilos estão bem correlacionados à outras formas e estilos policromos na Amazônia, embora em alguns casos, como por exemplo a fase Marajoara, tenha havido desenvolvimentos mais sofisticados.

Como foi sugerido por Brochado (1984) e Lathrap (1970a; 1970b: 500), nossas pesquisas têm indicado que houve, na Amazônia central, pelo menos em linhas gerais continuidade entre formas cerâmicas e certas técnicas decorativas (incisão, ponteado e decoração modelada), bem como na escolha dos campos decorativos: lábios, bordas e a parte superior das paredes. Essa continuidade estendeu-se ao longo de uma longa história de manufatura cerâmica desde antes de 1000 AC até depois de 1000 D.C., baseado nas datações radiocarbônicas seja de fragmentos cerâmicos, seja de contextos arqueológicos bem estabelecidos7. A única ruptura significativa verificada nas cerâmicas de Açutuba está relacionada ao surgimento das cerâmicas policromas (Guarita) a partir de 900-1000 D.C. Esta ruptura pode ser notada nas inovações decorativas que se introduzem na indústria cerâmica tais como a ocorrência de policromia (vermelho e negro sobre engobo branco); a ocorrência de flanges mesiais com decoração na superfície dorsal; a ocorrência do acanalado e a ocorrência do ponteado nas bordas.

Outras mudanças notáveis na cerâmica são visíveis, por exemplo, na breve ocorrência de cerâmicas pintadas em vermelho, laranja ou roxo sobre branco, e também incisões em linhas finas, datadas de 150 D.C. Esse último caso não descaracteriza no entanto a impressão geral de continuidade tecnológica e estilística na cerâmica. Nesse sentido, é interessante notar que as cerâmicas mais elaboradas, particularmente as policromas, estão concentradas próximo ao centro do terraço onde está Açutuba II (que é também o centro do complexo de sítios). Essa localização levanta a possibilidade de terem sido essas cerâmicas restritas a algumas áreas do sítio (por exemplo, uso ritual ou de elite específico e exclusivo para algumas funções).

 

III. Conclusões

Nesse momento, as reconstituições das origens e dispersões dos Tupi baseadas em evidências lingüísticas e etnológicas são mais seguras que as reconstituições baseadas em evidências arqueológicas. Assim, lingüistas e etnólogos parecem concordar no que se refere a alguns aspectos chave sobre as origens Tupi e a dispersão dos Tupi-Guarani (Fausto, 1992; Urban 1992, 1996; Viveiros de Castro, 1992, 1996). Em primeiro lugar, não há consenso entre o lingüistas (Rodrigues, 1985) sobre uma eventual relação genética entre o Proto-Tupi e o Proto-Arawak, ao contrário do proposto por Noble (1965) e Lathrap (1970a). Em segundo lugar, parece haver um consenso quanto uma origem das línguas proto-Tupi no sul da Amazônia, provavelmente na área situada entre o alto rio Tapajós e alto rio Madeira (Migliazza, 1982; Denny Moore, com. pessoal, 1996; Rodrigues, 1964; Urban, 1992, 1996). Em segundo lugar, parece que as línguas da família Tupi-Guarani aparentemente se expandiram rapidamente a partir de um centro localizado ao sul da Amazônia, mas provavelmente mais ao norte a ao leste do centro de origem proto-Tupi (Urban, 1992; 1996; Viveiros de Castro, 1992; 1996). Poucos autores discordam seriamente de uma origem fora da Amazônia para o proto-Tupi e em particular para família Tupi-Guarani8 . Assim, Brochado (1984: 352) está correto quando afirma que essa origem deva ser tomada como um fato e não como hipótese. Concordamos, no entanto, com Urban (1997: 62-3) quando afirma que Lathrap e Brochado tinham em mente "as margens dos curso principais do médio Amazonas", o que não é apoiado pelas evidências arqueológicas muito menos lingüísticas ou etnológicas.

A pesquisa em Açutuba pode esclarecer alguns dos problemas arqueológicos. Embora preliminares, esses resultados questionam algumas das premissas que guiam a reconstituição feita por Lathrap, Brochado e Noelli para uma suposta origem da TPA antes da era cristã, e conseqüentemente, para uma localização na Amazônia central para o centro de dispersão inicial dos grupos Tupi. Nossos dados não corroboram a hipótese de Brochado (1989: 73) que associa os grupos "Guarita" a populações Tupi-Guarani com origem na área de Manaus (sítios de Paredão e Refinaria) cerca de 400-500 AC. Do mesmo modod, parece igualmente falsa sua reconstiuição de uma expansão Guarita rio acima em direção a Manacapurú ao redor de 400-500 D.C., e em direção a atual fronteira entre o Brasil e a Colômbia ao redor de 700 D.C.

É necessário que se reconheça a ampla distribuição e a distribuição quase contemporânea em outras palavras, o florescimento - da Tradição Policroma Amazônica em um período já tardio, a partir de 900 D.C. Não está ainda claro se a TPA foi intrusiva na Amazônia central, mas ela foi certamente representou uma inovação para indústrias cerâmicas locais. O problema com as reconstituições de Brochado resulta da aglutinação de TB/IM (fase Manacapurú) com a TPA (subtradição Guarita), já que elas são claramente duas coisas diferentes. Embora esses complexos apresentem algumas características formais e decorativas em comum, as características decorativas de Guarita, como flanges mesiais, o acanalado e particularmente a elaborada pintura policroma, freqüentemente usados em combinação, são bastantes distintas e em Açutuba estão associadas à depósitos datados a partir de 900 D.C.. Urnas antropomorfas e outras formas "sofisticadas" parecem também estar relacionadas a essas ocupações tardias (1000-1500 D.C.) devido à sua distribuição restrita aos depósitos superficiais ou ligados estratigráficamente à ocupações tardias. É importante reconhecer também que a distribuição superficial limitada das formas elaboradas de vasilhames Guarita pintados está restrita à parte central do sítio que delimita uma depressão quadrangular que interpretamos provisoriamente como uma praça central de mais de quatro hectares de área. Embora tal interpretação, bem como as impressões iniciais sobre a distribuição de cerâmicas Guarita elaboradas, necessitem ser confirmadas por pesquisas posteriores, essas observações permitem que se sugira que algumas formas de vasilhames no período pré-colonial tardio estejam relacionadas com uso ritual e talvez de elite. Assim, sua ampla distribuição pela Amazônia pode ter sido relacionada à produção especializada e troca, talvez troca de elite, tal como foi sugerido por Helms (1979) para os "cacicados" do Panamá do final do século XV e século XVI.

As variedades antigas de cerâmicas policromas e de incisões finas são diferentes tanto da TB/IM como da TPA, datando em Açutuba de cerca 1-300 D.C.. Essas cerâmicas parecem estar relacionadas às cerâmicas da fase Itacoatiara (100 AC - 100 D.C.) definida por Hilbert (1968) e caracterizada por incisões em linhas finas, mas diferem bastante das cerâmicas "clássicas" TB/IM ou TPA. Pode-se presumir, conforme Lathrap e Brochado, que essas formas mais antigas estão relacionadas à falantes antigos de línguas Tupi que emergiram de um substrato ainda mais antigo na Amazônia central enquanto que Guarita e Miracanguera (TPA) estariam relacionadas à uma expansão contemporânea mais tardia? Essa hipótese contradiz as evidências lingüísticas atualmente disponíveis, sendo por isso, no mínimo, especulativa. Dado que Guarita não parece ser mais antiga nem menos sofisticada ou diversificada que Miracanguera, parece não haver no momento uma boa razão para separá-las como dois ou mais fenômenos regionais distintos, o que não impede que no futuro possa-se estabelecer padrões de variabilidade regional. Assim, deve-se ter cautela com reconstruções de movimentos populacionais dentro da Amazônia relacionados à distribuição de cerâmicas policromas, particularmente o modelo de pinça proposto por Lathrap e Brochado. Nesse momento, as cerâmicas policromas da Amazônia parecem mais ser manifestações regionais mais ou menos contemporâneas, mas com um certo grau de variabilidade geográfica e cronológica, de uma mesma grande tradição cerâmica. A exceção para essa regra pode ser a fase Marajoara, que aparentemente tem cerâmicas policromas mais antigas e que parece ser tecnicamente mais sofisticada e diversificada que Açutuba, Napo, Caimito e outros complexos da TPA (Roosevelt 1991). Esteve essa expansão tardia da TPA ligada à uma expansão tardia e relativamente rápida de grupos Tupi-Guarani, talvez associada ao desenvolvimento e adoção de uma língua geral como foi sugerido por Urban (1996) e Viveiros de Castro (1992; 1996)? Nenhuma dessas perguntas pode ser ainda respondida, o que não é uma surpresa em face da confusa massa de dados empíricos a partir das quais modelos devem ser desenvolvidos na arqueologia amazônica, um problema já apontado pelo próprio Brochado (1984: 317). Respostas a essas perguntas não aparecerão tão cedo, mas a pesquisa em Açutuba, o artigo de Noelli e os comentários que o acompanham indicam que nós já temos tido ao menos algum sucesso em definir melhor a escala dos problemas.

Retornando à questão mais ampla das migrações pré-históricas, é importante reconhecer que havia um padrão dinâmico de movimentação populacional na Amazônia pré-colonial, um fato que deve ser considerado pelos antropólogos que atuam na região. Mesmo nos melhores dos casos, no entanto, hipóteses de migração - utilizadas inclusive por um de nós (Heckenberger 1996) - são difíceis de provar em arqueologia (Renfrew 1987, Rouse 1986). Independente dessas ressalvas, migração, dispersão, difusão e invasão têm na arqueologia um papel explanatório semelhante, ou mesmo mais importante, que hipóteses que postulam processos de desenvolvimento interno para explicar mudança cultural (Anthony 1990). Brochado e Noelli, ao dar continuidade ao projeto de arqueologia humanística iniciado por Lathrap, merecem nesse sentido nossos elogios. Além de apresentar um modelo refinado, o artigo de Noelli demostra que é impossível se fazer história indígena na Amazônia ignorando os difíceis mas fundamentais problemas de distribuição de línguas e movimentos populacionais, problemas esses caros à arqueologia. Nossa única ressalva consiste na dependência em premissas baseadas em dados arqueológicos vagos ou incompletos. É óbvio, nesse caso, que a pobreza documental não é responsabilidade de Brochado ou Noelli, que conhecem muito bem a informação disponível sobre a Amazônia, mas sim um reflexo da falta de pesquisas sistemáticas - ou da falta de publicação dos resultados dessas pesquisas, como no caso do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica (Simões 1974) - nessa imensa região. Nesse sentido, esperamos ansiosamente pela resposta criativa de Noelli e Brochado para os novos dados obtidos no baixo rio Negro.

 

Notas

1 Tradição Borda Incisa, no sentido de Meggers & Evans (1961, 1983).

2 O "Projeto Amazônia Central" tem o apoio institucional do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo e do Carnegie Museum of Natural History de Pittsburgh. Os trabalhos de campo, laboratório e as análises conduzidas entre 1995 e 1997 foram financiados por fundos cedidos pela William T. Hillman Foundation (1995-1996), pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological research (1997), pelo Archaeology Research Center, University of Maine (1996-1997), pela Pró-Reitoria de Pesquisas da Universidade de São Paulo (1997) e pelo Carnegie Museum of Natural History (1995). O projeto é autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, portaria n° 177, 19/4/96.

3 As datas radiocarbônicas apresentadas no texto não estão calibradas. As datas calibradas, com seus respectivos desvios padrão, são apresentadas em Heckenberger, Neves e Petersen (1998a).

4 Escavações recentes em Açutuba II, realizadas em julho de 1997, revelaram uma grande densidade de materiais Guarita em estratigrafia. Esse material está sendo datado, mas os resultados não estão ainda disponíveis.

5 Um fragmento associado estratigráficamente ao carvão de onde foi obtida essa data foi datado diretamente por AMS, fornecendo uma data de 430 D.C.. Assim é necessário que novas datações sejam feitas para que seja aceita a origem arqueológica da data de 5.000 B.C..

6 A substituição taxonômica de Guarita de fase à subtradição foi proposta por Simões (1974).

7 Como foi indicado por Urban (1996: 93) o modelado é um importante elemento decorativo tanto da TB/IM como da TPA, mas não é característico das cerâmicas das Tradições Tupinambá e Guarani.

8 Ver Dias Jr. (1994) para uma origem "carioca" para os Tupi.

 

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ABSTRACT: This article presents archaeological data for the debate - revisited in the Revista de Antropologia by Franciso Noelli, Eduardo Viveiros de Castro and Greg Urban - on a putative origin of the Tupí languages in the Central Amazon. We present here the preliminary results of the archaeological research we have been undertaking in the area of confluence of the Negro and Solimões rivers which seem not to support the archaeological premises of this model, first presented by Donald Lathrap in 1970.

KEY WORDS: amazonic archeology, tupi groups, lower Rio Negro archeology, archeology, linguistic.

 

 

Aceito para publicação em maio de 1998.

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