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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.43 n.1 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012000000100008 

Máquina da Notícia (Coordenação geral). Siamo Tutti Oriundi!: a presença italiana no Brasil. São Paulo, Parmalat, 1996, 271 pp.

 

Renato da Silva Queiroz
Professor do Departamento de Antropologia - USP

 

A maciça transferência de contingentes demográficos europeus para territórios do Novo Mundo encerrou-se já há algum tempo, dando origem às chamadas "Neo-Europas", isto é, aos países localizados nas três Américas, aos quais se agregam a Austrália e a Nova Zelândia. Em O imperialismo ecológico, A. Crosby observa que "as Neo-Europas são intrigantes, mas não só pela desarmonia entre sua localização e a identidade cultural da maioria dos seus habitantes", mas também porque despertam a inveja da maior parte da humanidade graças à elevada produtividade agrícola que alcançaram, assumindo papel hegemônico no comércio internacional de alimentos.

A essas observações devem ser adicionadas algumas outras, de feitio propriamente antropológico, destacando a riqueza cultural — igualmente invejável — das Neo-Europas, produto da interação de diferentes povos e etnias com suas tradições plurais.

Em nosso território, além do colonizador primeiro, grupos indígenas sobreviventes às práticas sistemáticas de extermínio, africanos escravizados e imigrantes mais tardios, sobretudo italianos, encontraram-se para dar à luz uma cultura singular em meio a uma estrutura social de todo assimétrica. O livro Siamo Tutti Oriundi! ocupa-se justamente da saga dos imigrantes italianos que aqui desembarcaram à procura de riquezas, oportunidades de trabalho, refúgio político ou ainda motivados pelo sonho do viver igualitário prefigurado nas utopias anarquistas. Como se sabe, vieram eles aos milhares, legiões de imigrantes que se concentraram nas regiões meridionais do país, mão-de-obra para suprir a necessidade de braços, especialmente nas lavouras de café. Estima-se que entre 1875 e 1914 transferiram-se para o Brasil cerca de um milhão e duzentos mil italianos.

Costuma-se dizer que a vinda de imigrantes naquele período deveu-se em grande parte à agonia do sistema escravista. Entretanto, a prioridade concedida aos italianos explica-se porque constituíam eles um contingente branco, europeu, latino e católico-romano, bem ao gosto da ideologia nacional e seu ideal de branqueamento, tido como indispensável à sustentação de um país europeizado. Não fosse isso, corria-se o risco de ver a população branca numericamente suplantada pelos negros e mulatos.

Siamo Tutti Oriundi! oferece ao leitor um vasto repertório de informações, desvelando a variada riqueza das contribuições dos italianos para a vida política, econômica e cultural de nosso país. Por meio dele tomamos ciência dos saberes de que eram portadores estes imigrantes e seus descendentes e que aqui se materializaram em obras artísticas (música, artes plásticas, teatro, cinema), arquitetônicas, educacionais etc., ademais das marcas que deixaram na culinária, no idioma, na medicina, nos esportes, na política, enfim, em todos os domínios da vida nacional.

A presença de italianos em terras brasileiras não é recente, pois data de 1530, com a chegada dos irmãos Adorno, integrantes da frota de Martin Afonso de Souza, ou mesmo antes, como postulam alguns historiadores, lembrando que o florentino Americo Vespucci já havia tocado o nosso solo em 1499. O livro em apreço evoca também a colaboração de aliados italianos na resistência armada aos holandeses e a militância revolucionária de Giuseppe Garibaldi, cuja participação na Guerra dos Farrapos e na efêmera República de Piratini ainda hoje habita a memória de brasileiros e italianos.

O ideal libertário dos anarquistas italianos marcou presença entre nós com a implantação da Colônia Cecília, experiência infelizmente mal sucedida, levada a cabo numa gleba paranaense doada por D.Pedro II a Giovanni Rossi e seus seguidores. Todavia, os italianos fixaram-se também nas áreas urbanas, devotando-se a um sem-número de atividades e ocupações. Calcula-se, por exemplo, que em 1900 eram italianos 81% dos trabalhadores fabris da cidade de São Paulo. Compreende-se assim a intensa difusão de idéias anarco-sindicalistas entre os operários paulistas, que fizeram história nas lutas (sobretudo na organização das famosas greves do início deste século) contra as nefastas modalidades de exploração a que se encontravam submetidos.

As páginas do livro abrigam farta documentação visual, reproduções fotográficas que ultrapassam o mero capricho da ilustração para oferecer ao leitor uma autêntica iconografia de fisionomias, paisagens, indumentária e posturas corporais de italianos e seus descendentes aqui radicados, sem deixar de lado o registro da diversidade das obras por eles concebidas e que abarcam praticamente todos os domínios da atividade humana. Personagens pretéritas e contemporâneas ganham vida no livro, associadas sempre àquilo que produziram para abrigar o corpo ou afagar o espírito, com o que enriqueceram a cultura brasileira. Nesta medida, Adoniran Barbosa (nascido João Rubinato), Camargo Guarniere, Lina Bo Bardi, Pietro Maria Bardi, Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Alfonso Bovero, Zélia Gattai, Francisco Matarazzo, Maria Bonomi, entre muitos outros, são figuras notórias e justamente louvadas. No entanto, as fotos mais marcantes são as que registram e imortalizam italianos humildes e anônimos no quotidiano árduo do trabalho. Estes trabalhadores urbanos e rurais adotaram a nova pátria e contribuíram para o seu enriquecimento, sem terem sido, contudo, por ela da mesma forma acolhidos.

Temas, personagens e documentação visual harmonizam-se aqui na composição de um livro concebido para atender a um público exigente e variado. Observando-se ainda o zelo adotado na pesquisa documental, que vem acompanhada da necessária contextualização histórica e de interpretações teóricas pertinentes, fica claro que Siamo tutti oriundi! foi planejado e elaborado por um renomado especialista no estudo dos fenômenos imigratórios, o professor João Baptista Borges Pereira, ao qual, lamentavelmente, não se concedeu o devido destaque.