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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.44 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012001000100003 

Chico Xavier e a cultura brasileira 1

 

Bernardo Lewgoy
Professor do Departamento de Antropologia UFRGS

 

 

RESUMO: O presente artigo propõe uma interpretação do fenômeno Chico Xavier na cultura e na sociedade brasileira. A partir do reconhecimento da importância crucial de seu modelo mítico de espírita exemplar, o lugar de absoluto destaque ocupado pelo médium mineiro na história do kardecismo brasileiro será interpretado à luz de um código cultural articulado em sua biografia, que busca sintetizar os personagens paradigmáticos do "santo" e do "caxias". Desdobrado na unidade de sua obra mediúnica e trajetória pública, o tipo de espiritismo construído em Chico Xavier evidencia a proposta kardecista dominante ao longo do século XX, enquanto modelo de cidadania, prática religiosa e projeto nacional.

PALAVRAS-CHAVE: espiritismo, Chico Xavier, religião, cultura brasileira.

 

 

Exatamente um ano após a partida de minha mãe eu fazia parte de um grupo de pessoas que, com Chico Xavier à frente, participavam de uma peregrinação a um bairro humilde de Uberaba.

Fazia-se o "culto do Evangelho no lar" em frente a um casebre previamente escolhido e ao ar livre.

A circunstância de me achar ali na condição de um forasteiro em visita a uma cidade bela e acolhedora não me impediu de observar e registrar mentalmente algo que, desde logo, me pareceu significativo. Ante aquelas seis ou sete centenas de criaturas humildes, com dezenas de crianças maltrapilhas ou seminuas, a figura simples e veneranda do médium de Uberaba, ele próprio a encarnação da humildade pregando a céu aberto e em amplo contato com a natureza, me parecia a genuína revivescência dos primeiros cristãos na Terra, lembrava a figura de São Francisco de Assis junto aos pobres da Úmbria. (Worm, 1993: 55 )

Autor de prodigiosa obra literária, que ultrapassa os 400 livros psicografados em setenta anos de produção e contando com milhões de leitores em diversos países, Francisco Cândido Xavier ¾ conhecido como Chico Xavier ¾ é a principal referência do espiritismo no Brasil. É minha intenção interpretar as linhas básicas da trajetória social e religiosa de Chico Xavier à luz da relação entre cultura letrada e espiritismo kardecista no Brasil, considerando-se que a aparição do médium mineiro mudou a face da crença e das práticas espíritas no século XX.

O lugar de destaque absoluto de Chico Xavier no espiritismo brasileiro, o nível de fabulação em torno de sua vida por parte de seus leitores, admiradores, adversários ou simplesmente curiosos, a redundância das histórias contadas numa razoável quantidade de biografias escritas, tudo isto sugere a operação de um esquema mítico. Ponto de inflexão na história do movimento espírita, o mito Chico Xavier opera em mais de um nível, tendo contribuído tanto para firmar um paradigma de práticas religiosas não anteriormente estabelecidas, como o "Culto do Evangelho no lar", quanto para estabelecer um conjunto autônomo de referências para a escrita espírita no Brasil, a partir dos anos 40. Saliento que, ao interpretar algumas linhas mestras da construção mítica em Chico Xavier, não tenho um interesse historiográfico ou mesmo de biógrafo em "diferenciar a vida da obra". Ambas pertencem ao mesmo "texto" como camadas indissociáveis de uma construção narrativa elaborada socialmente. No entanto, chamo atenção para determinadas repercussões concretas, sociais e históricas, da circulação de idéias, narrativas e textos de sua autoria, na medida em que impliquem novidade e transformação na consciência e na prática do kardecismo no Brasil.

A vida e a obra de Chico Xavier se conjugam não apenas por se tratar do maior médium do país, ou porque sua trajetória religiosa se confunde com os rumos do espiritismo brasileiro ou ainda porque seus livros psicografados se apresentam como testemunhos religiosos2. Isto ocorre porque o nexo entre uma vida devotada a uma missão e a obra escrita mediúnica é geralmente lido no registro do extraordinário, do mítico e do santificado, apesar da oposição doutrinária de muitos espíritas e do próprio Chico Xavier ao "culto dos santos". Em qualquer leitura, trata-se de um personagem cercado de uma aura paradigmática, depositário e modelo biográfico de uma proposta religiosa de alta ressonância na sociedade brasileira, além de ter cumprido um papel central na criação de um espiritismo "à brasileira". Maior protagonista da história do kardecismo no Brasil moderno, sua trajetória ilustra os dilemas enfrentados por esta alternativa religiosa ao longo do século XX, principalmente no que tange ao sincretismo de sua proposta com a "cultura católica brasileira" 3 e com um certo modelo de Estado-Nação.

Chico Xavier é o espírita modelar porque praticamente tudo em sua vida e obra dão testemunho do sistema de valores do espiritismo kardecista, além de realizar, como nenhum outro médium, o ideal de uma "interautoria" ou parceria autoral psicógrafo versus espírito.4 Essa parceria, em verdade, é a afirmação de uma dependência voluntária dos homens perante a esfera religiosa, cuja máxima expressão é uma espécie de renúncia a uma vida ordinária, exemplificada pela biografia do médium. Trata-se de um personagem cujos percalços biográficos nunca permitiram que construísse ou "optasse" por uma história individual: ele viveu a sua vida, cumprimento de uma missão programada, no eixo cristão do sacrifício/doação ao outro. Chico Xavier é freqüentemente representado como o "homem coração", o que representa uma renúncia à individualidade material ou à fixação de laços e compromissos numa rede de relações de amizade ou de parentesco. Nesse sentido proponho que o modelo mítico atualizado em sua biografia busca realizar uma síntese entre os paradigmas culturais que Roberto DaMatta (1979) denominou de "renunciante" e de "caxias": dificilmente uma vida reuniu numa única pessoa a renúncia e a adequação resignada às normas de disciplina no mundo secular.

A tentativa de síntese operada entre os paradigmas do "santo" e o do "caxias" expressará, ainda, a composição espírita entre duas vertentes separadas na sociedade brasileira do século XX, cada qual com o seu ethos, a religião e o Estado, o sagrado e a ordem secular. Nesse sentido, sustento que este é um dos dilemas centrais que o mito Chico Xavier elabora, como um problema não apenas do espiritismo mas da própria realização da cultura brasileira no século da problematização de uma identidade cultural para o Brasil.

Inspirado na tradição estruturalista de análise de mitos, destaco o valor paradigmático da infância e da juventude do médium, cuja temporalidade é dotada de maior densidade, atualidade e valor que muitos outros eventos posteriores, na verdade desdobramentos secundários dos grandes temas e episódios ali relatados. Assim, o período formativo de Chico Xavier terá um peso decisivo na explicação de outros períodos, ou seja, a maioria das questões que posteriormente são formuladas ganha uma presença em sua narrativa desde tenra idade.

Muitas biografias e artigos foram escritos sobre Chico Xavier, assim como um incontável número de entrevistas, a imensa maioria escrita por espíritas. Entre as várias consultadas, selecionei as obras de Ubiratan Machado (1996), Suely Schübert (1986), R. A. Ranieri (s. d.), Ramiro Gama (1986) e Marcel Souto Maior (1994), entendendo-as como variações convergentes de uma mesma narrativa mítica5.

 

Elementos biográficos

Filho de um modesto vendedor de bilhetes de loteria e de uma dona de casa católica e piedosa, Francisco Cândido Xavier nasce em 1910 na pequena cidade de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais. A mãe, dona Maria João de Deus, morre quando o pequeno Chico tem apenas cinco anos de idade. Incapaz de criá-los, o pai distribui os nove filhos entre a parentela. Nos dois anos seguintes, Chico será criado pela madrinha e antiga amiga de sua mãe, Rita de Cássia, que logo se mostra uma pessoa cruel, vestindo-o de menina e aplicando-lhe surras diariamente, a qualquer pretexto e, mais tarde, sob a alegação de que o "menino tinha o diabo no corpo". Não se contentando em açoitá-lo com uma vara de marmelo, Rita passa a cravar-lhe garfos de cozinha no ventre, não permitindo que o garoto os retirasse, o que lhe ocasiona terríveis sofrimentos. Os únicos consolos do garoto consistiam nos diálogos com o espírito de sua mãe: o menino viu-a após uma prece, junto à sombra de uma bananeira no quintal da casa. A mãe recomenda "paciência, resignação e fé em Jesus" ao garoto.

A madrinha ainda criava outro filho adotivo, Moacir, que sofria de uma ferida incurável na perna. Rita decide seguir a simpatia de uma benzedeira, que consistia em fazer uma criança lamber a ferida durante três sextas-feiras em jejum, sendo a tarefa atribuída ao pequeno Chico. Revoltado com a tarefa, Chico conversa novamente com a mãe, que lhe aconselha a "lamber com paciência". A mão lhe explica que a simpatia "não é remédio, mas poderia aplacar a ira da madrinha", esta sim colocando em risco a sua vida. Os espíritos se encarregariam da cura da perna. Sarado o irmão de criação, Rita de Cássia melhora o tratamento dado a Chico.

Seu pai casa-se novamente. A nova madrasta, dona Cidália Batista (invariavelmente descrita como uma mulher "generosa", de "grande coração") exige a reunião dos nove filhos, pondo fim à diáspora familiar. Dona Cidália ainda terá mais seis filhos com o pai de Chico, João Cândido Xavier. Por insistência da madrasta, o garoto é matriculado na escola. Nessa época, o espírito Maria João de Deus pára de manifestar-se. Chico começa a trabalhar vendendo os legumes da horta da casa.

Freqüenta poucos anos de escola. Ali, como na igreja, as faculdades paranormais do pequeno Chico continuam a causar-lhe problemas. Durante uma aula do 4o ano primário, Chico afirma ver um homem que lhe dita as composições, mas ninguém lhe dá crédito e a professora não se importa. Sua redação ganha menção honrosa em concurso estadual de composições escolares comemorativas do centenário da Independência, em 1922. Enfrenta o ceticismo dos colegas, que lhe acusam de plágio, aliás, acusação que sofrerá a vida inteira. Desafiado a provar os seus poderes, Chico submete-se com êxito ao desafio de improvisar uma redação (com o auxílio do espírito) sobre o grão de areia, um tema escolhido ao acaso.

Cidália pede que Chico aconselhe-se com o espírito da mãe sobre como evitar que uma vizinha continuasse a furtar hortaliças de sua casa e esta lhe diz para torná-la responsável pelo cuidado da horta. Findam-se os roubos.

Assustado com a mediunidade de Chico, seu pai pensa em interná-lo. O padre Scarzelli examina-o e conclui que seria um erro a internação, tratando-se apenas de "fantasias de menino". Scarzelli simplesmente aconselha a família a restringir as leituras do garoto (tidas como responsáveis pelas fantasias) e a colocá-lo no trabalho. Chico, então, ingressa como operário numa fábrica de tecidos, onde é submetido à rigorosa disciplina de trabalho, função que lhe deixará seqüelas para o resto de sua vida.

Chico pára de estudar e muda de trabalho, empregando-se como caixeiro de venda, ainda em rigorosos horários. Apesar de católico devoto e das incontáveis penitências e contrições prescritas pelo padre confessor, Chico não pára de ter visões e conversar com espíritos.

Aos dezessete anos, em 1927, Chico perde a madrasta Cidália, e se depara com a loucura de uma irmã, que descobre ser causada por um processo de "obsessão espiritual". Orientado por um amigo, Chico inicia-se no estudo do espiritismo, fundando o centro espírita Luís Gonzaga num barracão de madeira de seu irmão. Recebe nova mensagem de sua mãe, na qual lhe é recomendado o estudo das obras de Allan Kardec e o cumprimento de seus deveres. Por ordem dos espíritos mentores, inicia-se na prática da psicografia, que aperfeiçoará nos quatro anos subseqüentes. Pela sua pena começam a manifestar-se diversos poetas falecidos, somente identificados a partir de 1931. Apoiado pela Federação Espírita Brasileira, Chico publica sua primeira obra, Parnaso de além-túmulo, coletânea de poesias ditadas por espíritos de poetas brasileiros e portugueses. A obra causa espécie dentro e fora do movimento espírita. Começa a sofrer ofensas de críticos e adversários. O espírito de Maria João de Deus aconselha-o a não responder aos críticos. Nesse período descobre ser portador de uma catarata no olho, problema que o acompanhará a vida inteira. Os espíritos mentores, Emmanuel e Bezerra de Menezes, orientam Chico para tratar-se com os recursos da medicina humana e não contar com quaisquer privilégios dos espíritos.

1931 é o ano da maioridade do médium e do encontro com seu mentor Emmanuel, "à sombra de uma árvore, na beira de uma represa" (Souto Maior, 1995: 31). Informando-lhe sobre a sua missão de psicografar uma série de trinta livros, Emmanuel lhe diz que são exigidas três condições: "disciplina", "disciplina" e "disciplina". Severo e exigente seu mentor lhe instrui a manter-se fiel a Jesus e a Kardec, mesmo em caso de conflito com a sua orientação. Mais tarde, Chico descobre que Emmanuel havia sido o senador romano Publio Lêntulus, posteriormente renascido como escravo e simpatizante do cristianismo. Na encarnação seguinte seu mentor reencarnaria como o padre jesuíta Manoel da Nóbrega, ligado à evangelização do Brasil.

Em 1932, a publicação do Parnaso de além-túmulo causa espécie entre os literatos brasileiros, cujas opiniões se dividem entre o reconhecimento e a acusação de pastiche. O impacto é aumentado quando se sabe que o livro tinha sido escrito por um "modesto caixeirinho" de armazém do interior de Minas Gerais, que mal completara o primário. Os direitos autorais de suas obras são concedidos à Federação Espírita Brasileira. Inicia a sua relação com Manuel Quintão e com Wantuil de Freitas, prócere da Federação Espírita Brasileira (FEB), responsável pela publicação de sua obra. Chico continua com seu emprego de caixeiro e com suas funções no centro espírita Luís Gonzaga, atendendo aos necessitados com receitas, conselhos e psicografando as obras do além.

Paralelamente, inicia uma longa série de recusas de presentes e distinções, que perdurará por toda a sua vida, como no caso do milionário Federico Figner, cuja vultosa soma concedida em testamento ao médium foi repassada à Federação Espírita Brasileira. Com a notoriedade, prosseguem os ataques de adversários ¾ que tentam desmoralizá-lo ¾ e de inimigos espirituais, que buscam atingi-lo com fluidos e tentações6.

Nos anos 30 as obras mais importantes posteriores ao Parnaso de além-túmulo consistem nos romances ditados por Emmanuel e pela famosa obra atribuída ao espírito de Humberto de Campos, Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, em que a história do país recebe uma interpretação mítica e teológica.

Após o aparecimento do espírito de Humberto de Campos, Chico Xavier, já célebre, não apenas surpreende o país e o próprio meio espírita, mas começa a enfrentar problemas com a viúva de Humberto, resultando no famoso processo em que se pleiteava os direitos autorais pelas obras psicografadas, caso se confirmasse a autoria do famoso escritor maranhense. A defesa de Chico foi bancada pela Federação Espírita Brasileira (que resultou posteriormente no clássico espírita A psicografia perante os tribunais, do advogado Miguel Timponi). O juiz decidiu que os direitos autorais referiam-se à obra reconhecida em vida do autor, não havendo condição do tribunal se pronunciar sobre a existência ou não da mediunidade. No entanto, o nome Humberto de Campos é substituído pelo pseudônimo "irmão X".

Chico passa a trabalhar como funcionário público no Ministério da Agricultura, na função de auxiliar de serviço. Não há nenhum registro de falta ao trabalho em toda a sua carreira de funcionário público.

Maior clássico do espiritismo brasileiro, o romance Nosso lar, de 1943, é de longe o livro mais vendido e divulgado da extensa obra mediúnica de Chico Xavier. Trata-se do primeiro de uma extensa longa série de livros cuja autoria é atribuída ao mais científico e "sociológico" dos autores espirituais que lhe ditaram mensagens, o espírito André Luiz. A celebridade de Chico Xavier não cessa de crescer. Cada vez mais pessoas acorrem em busca de curas e mensagens ao médium da pequena Pedro Leopoldo, que se torna um centro informal de peregrinação.

Morre na miséria o seu antigo patrão, José Felizardo. Chico empenha-se em arranjar um enterro digno ao antigo amigo, pleiteando doações de casa em casa. Segundo Ubiratan Machado, "até mesmo um mendigo cego doou-lhe toda a féria do dia" (1996: 53). Em 1958 Chico enfrenta um novo escândalo, dessa vez por conta das denúncias do sobrinho, Amauri Pena, filho da irmã curada de obsessão. O sobrinho, ele mesmo médium psicógrafo, anuncia-se pela imprensa como falso médium, um pastichador muito capaz, acusação que estende ao tio. Chico defende-se em seu estilo habitual, extremamente suave, negando ter qualquer proximidade com o sobrinho. Já com antecedentes de alcoolismo e com sérios remorsos pelos danos causados à reputação do tio, Amauri é internado num sanatório psiquiátrico em São Paulo, onde vem a falecer.

Nessa época Chico conhece o jovem médico e médium Waldo Vieira, com quem psicografará várias obras em comum, até a ruptura de ambos, alguns anos depois. Muda-se para Uberaba em 1958, onde reside até hoje. Continua a psicografar inúmeras obras, passando a abordar os temas que marcam a década de 1960, como o sexo, as drogas, a questão da juventude, a tecnologia, as viagens espaciais, o homem artificial, etc. Uberaba vira centro de peregrinação informal de caravanas que chegam diariamente com a esperança de um contato com parentes falecidos através de Chico Xavier. Popularizam-se os livros de "mensagens": cartas ditadas a familiares por mortos comuns. Continuam as campanhas de distribuição de alimentos e roupas para os pobres da cidade. Chico visita a América do Norte e a Europa para tratamento de saúde e missão de divulgação do espiritismo.

Na década de 1970, Chico participa de programas de televisão, que têm uma enorme audiência. Além dos problemas de pulmões e da catarata, passa a sofrer de angina. Em 1981 é proposto ao Prêmio Nobel da Paz, que não ganha. Sua fama se amplia internacionalmente, tendo várias de suas obras vertidas em diversas línguas, assim como ganha adaptações para telenovelas. Ao final dos anos 90, Chico já conta com mais de 400 títulos de livros psicografados, estando ainda em atividade no momento em que escrevo essas linhas.

Nos anos 90 calcula-se em aproximadamente 50 milhões os livros espíritas circulando no Brasil, dos quais 15 milhões são atribuídos aos livros de Chico Xavier e 12 milhões às obras de Kardec (Santos, 1997: 89).

 

Entre duas religiões: espiritismo e catolicismo em Chico Xavier

O ponto mais importante na consideração do lugar de Chico Xavier na cultura e na religiosidade do Brasil do século XX reside na peculiar combinação que este realiza, através de sua biografia, entre o espiritismo kardecista com um catolicismo familiar e popular bastante tradicional. É o resultado desta síntese ¾ posteriormente articulada a uma perspectiva mito-histórica e corporativa de nacionalidade ¾ que definirá a face dominante do espiritismo kardecista no Brasil a partir da década de 1940.

Da morte da mãe até a morte da madrasta Cidália, dos cinco aos dezessete anos, a vida de Chico Xavier é marcada por intensos sofrimentos, provas e descobertas. Nessa etapa formativa as influências decisivas no menino Chico giram completamente em torno da figura materna ou de suas substitutas. A morte da mãe inicia a diáspora familiar, só terminada com o novo casamento do pai com Cidália. A ênfase na mãe ¾ assim como na prática familiar do espiritismo ¾ nunca deixará de povoar desde as manifestações públicas de Chico Xavier até os seus textos psicografados7. É justamente esse destaque atribuído à "mãe" como formadora moral, influência decisiva no âmbito familiar e intercessora privilegiada junto ao plano espiritual, que é afirmada nessa trajetória de juventude. Desde cedo inspirado pela devoção católica da bondosa mãe, esta continua a orientá-lo após a morte, como tutora espiritual e elo de ligação com a continuidade familiar.

Em oposição ao papel da mãe, não há destaque algum para o pai, João Cândido, na vida de Chico. Sempre em potencial tensão com o filho, o pai tem um papel distante, mostrado como um personagem fraco e dependente da ação alheia, incapaz de manter por si só a coesão familiar. Mero coadjuvante, ele entrega o pequeno Chico em tenra idade para a cruel madrinha. Mais tarde, pouco compreensivo com as faculdades mediúnicas do filho, considera a possibilidade de interná-lo num sanatório. Na fase adulta de Chico, João Cândido meramente se conforma com a celebridade do filho, não sem antes ter insistido para que o médium usasse os seus poderes para o sustento da casa. Depois da morte de Cidália, não é João Cândido, mas Chico que assume a criação de seus meio-irmãos menores. Com o desenrolar da narrativa, o papel do pai vai sendo obscurecido, não tendo influenciado a formação moral, religiosa ou outros aspectos da vida de Chico. Também não são registradas manifestações mediúnicas do espírito do pai após a sua morte, em 1960.

À piedade e bondade da mãe natural opõe-se a extrema crueldade da madrinha, que será a primeira a acusá-lo de ter o "diabo no corpo", ao modo de alguns de seus futuros oponentes. Rita de Cássia, que o cria após o falecimento de Maria João de Deus, não tem uma relação de parentesco "natural" com Chico: é uma mulher aparentemente sem uma família definida, sem portanto uma integração consistente numa estrutura moral que lhe pudesse atribuir um papel como mãe e esposa. Ou seja, do ponto de vista da ideologia moral, ela tem um status altamente ambíguo, como mulher sem laços e frouxamente relacionada com a família de Chico. "Madrinha", ou seja, definida através de uma relação de pseudoparentesco, ela forma uma pseudofamília com os enteados Chico e Moacir, revelando-se perigosa ao tornar-se "madrasta". A despeito da amizade prévia com Maria João de Deus, ela permanece como uma pessoa "de fora", uma estranha, alheia aos imperativos códigos de sangue. Como madrasta substituta, sua influência é forte, mas negativa. No entanto, ela representará o primeiro contato de Chico com a descoberta de sua missão junto ao mundo externo à família, ligada ao exercício de seus poderes mediúnicos.

Nesse sentido, as histórias de infância de Chico Xavier carregam esse caráter iniciático que partilha com xamãs e profetas: a diferença altamente individualizadora e o "chamado", assim como os intensos sofrimentos e provas sacrificiais, reveladores de uma santidade, que se revelará como "missão programada no Plano Espiritual".

Iniciática e probatória, é na relação com a madrinha que Chico aprende a suportar sofrimentos e humilhações com resignação, relacionando-se com o mundo exterior à família como numa espécie de escola. Na versão de Ramiro Gama, a madrinha é descrita como "obsidiada", ou seja, Gama enquadra os malefícios sofridos pelo menino na típica explicação espírita, abrindo uma lacuna para a operação de catálises narrativas8, mas é preciso salientar que Chico jamais falou mal de Rita, como de resto jamais revidou qualquer ofensa ou golpe sofrido pelos inimigos ao longo da vida. A simpatia escolhida ¾ "uma criança lamber a ferida em jejum durante três sextas-feiras" ¾ coroa a narrativa de sofrimentos morais e corporais do garoto com uma hipérbole de humilhação e de "ignorância" ¾ elementos fundamentais em sua história de santidade. Os claros ingredientes de injustiça dessa história são atenuados pelas intervenções do espírito de sua mãe, que sempre o aconselha a nunca desobedecer às figuras de autoridade e nem a tomar a justiça em suas próprias mãos. Ou seja, nos ensinamentos de Maria João de Deus há o gérmen da concepção de cidadão que o acompanhará pelo resto da vida: o "caxias" obediente e cumpridor das regras, num sistema cosmológico e ético no qual a correção da injustiça sempre conta com alguma participação do Plano Espiritual. Cedo ele aprende que, se os postos de autoridade são eventualmente ocupados por indivíduos indignos, isto não configura um motivo para revolta ou vingança, nem para desacreditar na validade da Ordem como um todo. Na versão de Ramiro Gama, por exemplo, ocorrem os seguintes diálogos do pequeno Chico com o espírito de sua mãe:

¾ Estou apanhando muito, mamãe!

¾ Tenha paciência meu filho. Você precisa crescer mais forte para o trabalho. E quem não sofre não aprende a lutar. (Gama, 1986: 38)

Numa tarde muito fria, quando entrou em colóquio com Dona Maria João de Deus, Chico implorou:

¾ Mamãe, se a senhora vem nos ver, por que não me retira daqui?

O espírito consolou-o e explicou:

¾ Não perca a paciência. Pedi a Jesus para enviar um anjo bom que tome conte de vocês todos. (idem: 39)

A intervenção do espírito da mãe, no episódio da ferida de Moacir, já revela a tensão do espiritismo com outros sistemas de cura (neste caso a benzeção, sobre a qual o espírito afirma que "não é remédio") em benefício da presença mediadora de agentes espirituais no desenlace do drama, estes sim os protagonistas eficazes. O pedido a Jesus pelo "anjo bom" é também exemplar: trata-se da nova madrasta, Cidália, a legítima sucessora da mãe na tarefa de recompor a família. Não há meio termo nas relações de Chico com suas figuras maternas: elas são ou bondosas ou perversas, mas sempre mediadoras, ou seja, intercessoras junto ao domínio do sagrado. Assim, Maria João de Deus volta após a morte como guardiã espiritual e intercessora do filho junto aos "benfeitores espirituais" e "espíritos de luz". Rita de Cássia é "obsidiada", ou seja, mediadora das forças do mal. E, finalmente, Cidália é o "anjo bom que virá para salvá-lo", todas as três em posição de mediadoras em relação ao jovem Chico. Esta matrifocalidade na história familiar de Chico desempenhará um papel estratégico na aproximação com o catolicismo popular, conciliando o espiritismo com a dinâmica religiosa de uma importante vertente da sociedade brasileira. O espiritismo de Chico Xavier absorverá do catolicismo popular o circuito da intercessão e da graça (típico do culto aos santos) e a devoção familiar centrada na figura materna.

Estamos ainda num tempo em que impera um modelo hierárquico e complementar de distribuição de papéis na família, no qual as disposições morais e espirituais são ligadas ao lugar estrutural da categoria "mãe", penhor da honra e da espiritualidade da família, semelhante a outras culturas de influência mediterrânea9.

Neste modelo, o papel mediador é prioritariamente maternal e feminino e o espiritismo de Chico reelaborará mitica e teologicamente essa ênfase. Inúmeras são as referências, nas obras de Chico Xavier, aos "benfeitores espirituais" que, "a pedido de mães devotas", "intercedem a favor de um irmão", que conquistam graças, atualizando um sistema de relações pessoais em que opera uma lógica personalizada, relacional e mediadora, da dádiva e da compensação, bem diferente da inexorabilidade presente em formulações anteriores sobre a categoria carma:

Elias Barbosa ia mais além:

¾ Se você quiser evitar o suicídio de seu filho, vá para a cadeia e ajude os presos. Escreva cartas para eles, dê cobertores aos detentos, vire pai e mãe deles.

Muitos não entendiam nada. De acordo com a lógica do guru Chico Xavier, os presos quase sempre eram acompanhados pelos espíritos das mães mortas. E elas retribuíam toda a ajuda dada a seus filhos pedindo aos benfeitores espirituais atenção a quem os auxiliasse. No dia das mães, a cada ano, Chico reunia um grupo de amigos e visitava os presos. (Souto Maior, 1995: 151)

Respondendo a uma questão de um entrevistador a respeito do carma, em 1991, Chico é mais explícito ainda na reelaboração desta categoria à luz de uma cultura religiosa povoada de mediações:

P - Deve-se aceitar a lei do carma passivamente ou temos condições de modificá-la, talvez, para uma condição melhor?

R - Aquilo que ficou estabelecido como sendo nossa dívida é uma determinação que devemos pagar. Se comprei e assumi a dívida, devo pagar. É o que consideramos destinação, é o carma. Mas isso não impede a lei da criatividade com a qual nós podemos atuar todos os dias para o bem, anulando o carma, chamado de sofrimento. Vamos supor que uma criatura está doente e precisa de uma intervenção cirúrgica. É o caso de perguntarmos: ela deve ou não se submeter à intervenção cirúrgica, que tem todas as possibilidades de êxito? Ela deve sim, deve preservar o seu próprio corpo, é um dever procurar a medicina e se valer do socorro médico para reabilitação do seu próprio organismo. Então, aí está uma resposta a esta questão. A misericórdia de Deus sempre nos proporciona recursos para pagar ou reformar os nossos títulos de débito, assim como uma organização bancária permite que determinadas promissórias sejam pagas com grande adiantamento, conforme o merecimento do devedor. Assim como temos grande número de amigos avalistas a nos tutelar nos bancos, temos também os espíritos extraordinários que são os santos, os anjos, os nossos amigos espirituais que pedem por nós, que auxiliam, que nos dão mais oportunidades para que a gente tenha mais tempo. Por isso que a pessoa deve cuidar bem de seu corpo, porque ele é a enxada com qual a criatura está semeando e lavrando o terreno do tempo e das boas ações. De modo que existe o carma, mas existe também o pensamento livre, porque nós somos livres por dentro da cabeça. (entrevista de Chico Xavier ao jornal O Espírita Mineiro, apud Barbosa, 1992: 71)

Seria difícil ser mais claro com respeito à presença da concepção católica de intercessão e de graça. É curiosa a intervenção da figura eminentemente hierárquica do "terceiro", do avalista, do amigo, do intercessor espiritual a relativizar e mudar o perfil da dívida, fazendo-a transitar da lógica impessoal, segmentar e absoluta da dívida cármica para a lógica personalizada, relacional e mediadora da dádiva. Assim, a admissão de entidades intercessoras "a pedir por nós" evidencia o sincretismo de suas posições com a cultura católico-brasileira, com seus anjos, santos e benfeitores, estranhos a uma concepção mais linear, impessoal e individualista de carma, presente no espiritismo de Allan Kardec.

É justamente esta relação conciliadora com um catolicismo que lhe era freqüentemente hostil da parte dos padres e intelectuais católicos, mas tido como autenticamente devoto, familiar e benéfico, quando encarnado em pessoas "simples", "humildes" e "mães devotas", que constitui o tema central na fase infantil e formativa das biografias de Chico Xavier. Em Chico, as pontes do espiritismo brasileiro com o universo popular católico, estremecidas em décadas de atritos com as autoridades leigas e eclesiais10, começam a ser lentamente recompostas na direção de uma suave continuidade entre universos religiosos até então bem distintos. Com o médium de Pedro Leopoldo, o espiritismo sofre uma reordenação sem precedentes na direção de enfatizar a devoção doméstica através do Culto do Evangelho no lar11, conquistando um público habituado a uma vivência mais popular e oral do catolicismo, que cultuava santos locais, que acreditava na força das rezas e das simpatias, e cujas práticas muitas vezes eram apanágio das mães de família.

O ciclo formativo de infância e juventude de Chico Xavier é pontuado por uma série de provas, ligadas ao papel desempenhado pelas diferentes figuras maternas, pela relação com a religiosidade católica e pela descoberta da mediunidade. A redação escolar com que ganhou o prêmio estadual, assim como os conselhos de obediência e de humildade dados pelo espírito da mãe prenunciavam o tipo de espírita modelar que viria a simbolizar: de um lado, Chico é herdeiro dos valores ligados à família e ao tradicional ethos católico e, de outro, propõe uma espécie de religião cívica, na qual a celebração de uma ordem colocava-se acima de considerações críticas e individualistas. Para o espiritismo cristão de Chico Xavier, ser espírita é ser reverente a Deus, ser letrado, piedoso, obediente e caridoso, assim como um bom cidadão, um trabalhador disciplinado e um membro amoroso de um núcleo familiar, combinando um ideal religioso com um ideal cívico.

A morte de Cidália e a obsessão da irmã, que o leva a descobrir o espiritismo, marcam o fim do ciclo de infância e juventude do jovem Chico. Ele deixa de ser tutelado pelas mães (Maria João de Deus só reaparece em 1931, uma única vez), passando ele mesmo a funcionar como tutor ¾ mais maternal do que paternal, bem entendido ¾ de suas jovens meias irmãs.

O problema com a irmã obsidiada Maria Xavier ¾ apenas uma das diversas crises na vida de Chico ¾ tem um nexo com a crise do sobrinho, Amaury. Coerente com o sistema de representações sobre o parentesco, que venho discutindo, Amaury "herda" da mãe a predisposição a perturbações pessoais e espirituais (ou seja, é portador de uma mediunidade distorcida), mas não de seu pai, que veio a público lamentar suas atitudes. Novamente, é a admirável verve mitologizante de Marcel Souto Maior que capta a reação espírita diante do caso:

Amauri morreu e deixou como herança um mistério para os espíritas. Por que ele tinha atacado o tio? A versão mais aceita no meio é a de que ele assumiu a autoria dos poemas e levantou suspeitas contra Chico para impressionar e agradar uma moça católica por quem estava apaixonado. Outra versão, mais apimentada, coloca dinheiro na roda: ele teria sido subornado por um padre para desmoralizar o espírita de Pedro Leopoldo. Amauri nunca mandou explicações do além. (1995: 125)

Em verdade, os boatos são variantes da mesma narrativa: falam de um espírita de baixo grau de evolução, dominado por paixões ligadas à matéria ¾ como a que redunda no vício do álcool ¾, sem convicção nem firmeza de caráter, assediado por um catolicismo hostil, que busca manipulá-lo: 1) pela sensualidade ¾ uma forma de apego corrupto à matéria, por meio da paixão por uma "moça católica", e 2) pelo suborno, oferecido pelo padre, típico personagem ligado ao poder nas narrativas espíritas, ardiloso e maligno. O tema de um catolicismo inimigo do espiritismo ajuda a formar a base de uma identidade contrastiva do kardecismo, como permanente vítima de incompreensões e perseguições. Ele afirma-se principalmente em oposição às autoridades eclesiásticas católicas que, nestas narrativas, buscam ora minar a sua legitimidade ora corromper os espíritas através de tentações sensuais e materiais12. Ainda que seja onipresente como possibilidade, o Mal reside aqui na relação promíscua de Amaury com o mundo material, cujo verdadeiro agente maligno é representado pela Igreja. Nesta narrativa, cujo núcleo dramático é a traição do tio pelo sobrinho, há uma transmissão feminina de qualidades mediúnicas, distorcida pela exposição ao Mal, primeiro no caso da irmã obsidiada, por intermédio da qual Chico encontra a doutrina espírita e, depois, por conta do escândalo envolvendo o sobrinho.

A ligação com o catolicismo encontra um máximo de ambivalência na relação com a Igreja. Padre Scarzelli, representante de um catolicismo condescendente e bem-intencionado, mas descrédulo dos fenômenos espíritas, ajuda a salvar Chico da psiquiatria, ou seja, foi um aliado em alguns contextos, em oposição à incompreensão médica. Mas prescreveu a restrição das leituras, atitude inspirada por um ânimo completamente oposto ao do espiritismo, embora de acordo com os preceitos católicos tradicionais13. A própria carolice de Chico na juventude expressa essa relação de diferenciação e conciliação em relação à Igreja Católica, que lhe acompanhará a vida inteira, causadora de animosidades e críticas entre alguns companheiros espíritas.

Assim, a desobsessão da irmã sela a adesão definitiva de Chico ao espiritismo sem uma ruptura definitiva com o catolicismo. Do contrário, no relato de Souto Maior sobre o seu último encontro com o padre Scarzilli, quando o devoto Chico lhe conta suas práticas espíritas e pede a sua benção, há um forte sabor de continuidade entre os dois sistemas religiosos:

¾ Seja feliz, meu filho. Rogarei à Mãe Santíssima para que te abençoe e proteja. (1995: 21)

Estamos aqui diante do impasse espírita perante a "cultura católica brasileira", de tão profundas raízes no Brasil: um catolicismo eivado de uma fé cristã cuja presumida "sinceridade de propósitos" dos fiéis é interpretada como mais profunda do que as intenções de muitos clérigos e que, por isso, não podia ser simplesmente afrontada na consolidação do espiritismo. Por meio da vida e obra de Chico Xavier, o espiritismo abre um leque de trocas com um catolicismo familiar, em que se destaca o papel moral, espiritual, educacional e mediador das mães. Amplia-se também a interface do espiritismo com o ethos católico das camadas populares, enfatizando a vivência ritual da religião no âmbito familiar, permeada de crenças na atuação de entidades invisíveis, pelo apadrinhamento espiritual e pela concessão de favores e de graças ¾ visão de mundo de ampla disseminação no Brasil.

Nada mais representativo dessa disposição sincrética do que a construção da identidade de seu Emmanuel. A essência sincrônica desse personagem, como espírito de luz, está ligada à absorção metonímica de características de vidas passadas: a nobreza (como o senador romano Publio Lentulus), os valores cristãos e o martírio (na encarnação seguinte como escravo romano) e, finalmente, o caráter apostólico e fundador da nacionalidade do padre jesuíta Manoel da Nóbrega, que combina herança católica e portuguesa com a brasilidade, em que a novidade do espiritismo aparece como a conseqüência de uma "missão" estabelecida desde tempos imemoriais.

Os "jesuítas" são os personagens que simbolizam essa síntese entre cristianismo, educação, disciplina e nacionalidade, atualizada na obra de Chico Xavier. São por assim dizer "bons para pensar" essa síntese. Ligada à evangelização do Brasil, a Companhia de Jesus é simultaneamente missionária e escolar, realizadora da bandeira do Cristianismo em terras ultramarinas e, ao mesmo tempo, depositária e transmissora do saber da Grande Tradição Ocidental. E isso não é de pouca monta para uma alternativa religiosa que se caracteriza justamente pela valorização do saber erudito e letrado.

Outra síntese operada pela identidade "jesuítica" de Emmanuel (Manoel da Nóbrega, evangelizador e fundador de cidades, como São Paulo) cruza a religião com os valores militares, a disciplina, a obediência e o mérito, pois a Companhia de Jesus sempre foi conhecida como uma espécie de ordem religiosa militarizada. Como numa hierarquia militar, Emmanuel comanda uma falange de espíritos de luz, assim como está subordinado a Ismael (patrono espiritual do Brasil) e este, por sua vez, subordinado a Cristo, governador espiritual da Terra na versão veiculada em Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho.

Curiosamente, a resignação e alegria de Chico Xavier são freqüentemente comparadas a São Francisco de Assis. Tudo se passa como se a boa ordem no mundo, para o espiritismo de Chico Xavier, consistisse no jesuíta comandando com mão severa e senso militar de organização e o franciscano obedecendo com satisfação, humildade e bonomia.

É esta elaboração sincrética, que relaciona Chico Xavier (e seu mentor Emmanuel) tanto com o catolicismo popular quanto com tendências corporativas do catolicismo institucional, que será a principal responsável pela popularização do espiritismo no Brasil a partir de 1940, época em que passa a sofrer a concorrência de outras religiões mediúnicas, como a umbanda14. A antiga apresentação do kardecismo no Brasil, antes de Chico Xavier, combinava uma ênfase no teor moral da doutrina com a popularidade clientelística do receitismo mediúnico. Ou seja, uma elite letrada atendia aos pobres nos centros espíritas. Presente no modelo representado por Kardec, a orientação racionalista da doutrina espírita é paulatinamente substituída no Brasil, primeiro pelas diretrizes da atuação de Bezerra de Menezes à frente da Federação Espírita Brasileira e, depois, pelo carisma atribuído à mediação e à dupla mediadora médium/mentor no modelo religioso de Chico Xavier. Como acentuo no quadro a seguir, o destaque dado à noção de espíritos missionários e na mediunidade com Jesus , mais a introdução do sistema da dádiva, coroa esse esforço de renovação no espiritismo de Chico Xavier.

 

 

Ora isto não significa que há uma capitulação completa da especificidade espírita diante do catolicismo. Em Chico, as concessões feitas ao catolicismo implicam transigências feitas pelos antigos católicos que se aproximam do espiritismo: uma aceitação maior do infortúnio como decorrência de um carma ("lei de causa e efeito"), ou seja, a introdução de um nível mais alto de racionalização e de auto-responsabilização moral na explicação de doenças e desgraças pessoais. Implicam ainda uma competição com sistemas mágicos alternativos, como a benzeção, e os cultos afro-brasileiros15. Outra conseqüência extremamente importante pode ser localizada na difusão de livros espíritas como veículos de uma religiosidade, de um cultivo literário de si e de uma distinção pelo saber, juntamente com a introdução de práticas eruditas de estudo, leitura, comentário e citação, tão distantes quanto originais em face do catolicismo doméstico brasileiro, tradicionalmente realizado da boca para o ouvido.

Tudo isso acontecia no bojo de conversões que tinham um alto custo social no Brasil, até pelo menos a década de 1960, quando o catolicismo ainda identificava-se informalmente com a própria nacionalidade.

Já as atitudes de seu mentor Emmanuel revelam que para o indivíduo Chico Xavier não há elementos de graça, privilégio ou particularização possível. Emmanuel é um severo chefe, que exige de Chico a observância de uma disciplina de caserna, inflexivelmente igualitária, mas não propriamente individualista. O médium de Pedro Leopoldo é regulado por um autêntico código militar de conduta, em que imperam a "disciplina", o "trabalho" e o "estudo". Mesmo quando à beira da morte por uremia, em 1940, Emmanuel lhe advertiu que "não poderia auxiliar-lhe em seu desencarne, que procurasse outros amigos espirituais, pois não era melhor do que ninguém" (Gama,1995: 69). Nessas histórias esboça-se uma noção original de pessoa espírita, em Chico Xavier: ela está dividida entre um ethos católico de santidade, "graça" e de "caridade" na relação com os outros e um modelo meritocrático e militar na relação consigo próprio, no qual todos os indivíduos ingressam idealmente iguais e tornam-se pessoas pelo mérito. Ora, para o indivíduo Chico funciona, nessas ocasiões, uma idéia impessoal e legalista de carma que aqui estou designando, sinteticamente, como sistema da dívida.

 

Entre dois modelos: o santo e o caxias

Diferentemente de seus contatos corriqueiros com os espíritos, que aconteciam em qualquer hora e lugar, os encontros iniciais de Chico com seus mentores espirituais ocorrem em regiões de fronteira entre o mundo natural e o mundo cultural: primeiro com a falecida mãe, no quintal da casa de Rita, à sombra de uma bananeira e, depois, com Emmanuel, em frente a uma represa. Na periferia dos ambientes culturais, nem por isso eles deixam de relacionar-se e portar marcas de ambos os mundos, simbolizando, especialmente no segundo caso, a atitude permanentemente limítrofe do médium entre o plano material e o plano espiritual, entre este mundo e o outro mundo. As marcas do ambiente urbano construído, especialmente a represa, funcionam antes como um signo da dualidade entre o mundo dos homens e o mundo dos espíritos e não da plena exterioridade, como nas visões de santos no deserto. Mostram-nos que Chico Xavier não realiza uma renúncia completa das coisas mundanas, individualizando-se "fora do mundo" ao modo dos renunciantes clássicos, mas numa desistência seletiva e integrada que consiste basicamente num estar "entre dois mundos", simultaneamente dualidade e liminaridade. A santidade do médium está ligada a uma proposta de renúncia ao complexo de valores e atitudes ligados ao papel emblemático da categoria matéria na cosmologia espírita. Assim, Chico não desiste do mundo: desiste da matéria em nome da vivência exemplar dos valores do espírito, transformando essa atitude numa condição de exercício de seus poderes mediúnicos. Ele participa do mundo porque o segmenta de acordo com a metafísica espírita, numa essência espiritual e noutra material, tornando-se individualizado "entre dois mundos" para, após, classificar hierarquicamente as espiritualidades das pessoas e das situações, realizando uma manipulação espiritual do mundo16.

Assim a fase adulta da vida de Chico consiste na consolidação de sua santidade pela revelação de sua missão: difundir, por seus livros psicografados, um espiritismo letrado, brasileiro e sincrético, o que se depreende pelas diferentes fases de sua produção mediúnica, mas também pelas suas renúncias, em que a condição singular de "indivíduo entre dois mundos" implica a observância de um código de conduta reservado a seres especiais.

Nesta construção espírita de uma carreira de santidade, há uma reorganização da visão de mundo e de algumas práticas rituais do espiritismo, aproximando-o de um culto nos moldes mais tradicionais. Ou seja, o sincretismo católico versus espírita, representado por Chico Xavier, implicou um relevo todo especial dado à figura de Jesus e aos personagens da mito-história espírita, principalmente através de narrativas exemplares, de manuais resumidos de moralidade e de pequenos livros de conselhos a serem lidos e comentados em família, durante o culto do Evangelho no lar.

Chico, pela sua vivência "entre dois mundos", evidencia alguns dos núcleos da cultura brasileira. As formulações de Roberto DaMatta (1979) são de grande valor na consideração do caso de Chico Xavier. Para este autor, o Brasil é uma sociedade relacional que desliza num continuum ideológico, que vai da hierarquia à igualdade. Assim, a cultura brasileira é fortemente tributária de um ethos e de uma cosmologia hierárquica (ainda que cruzada ao individualismo), podendo ser representada por um modelo triangular, onde os vértices são a "ordem", a "desordem" e o "outro mundo". Os típicos personagens que a representam são em primeiro lugar o "caxias", o inflexível cumpridor de ordens, amante das normas e legalista até o extremo em seus posicionamentos. Em segundo, há o "malandro", navegador dos interstícios sociais, personagem ligado à inversão carnavalesca que desfaz burlesca e momentaneamente as distâncias hierárquicas entre os grupos. Finalmente temos o renunciante, que se relaciona à perspectiva do religioso, neutralizador das diferenças diante da morte, do sagrado e do "outro mundo". Personagem dos limites, intérprete e intercessor privilegiado entre este mundo e o outro mundo, o renunciante incorpora o modelo católico de virtude e santidade, altamente diferenciado com relação ao mundo, suas paixões, laços e trocas.

O ideal espírita de homem público modelar, encarnado pelo exemplo de Chico Xavier, combina dois dos paradigmas culturais muito caros à sociedade brasileira, analisados por DaMatta: o "caxias", o cidadão obediente e honesto, disciplinado, cumpridor de horários, seguidor de normas, inflexivelmente igualitário e legalista; com o "renunciante" ou santo, aquele que se pauta pelos princípios do "outro mundo", combinando renúncia com caridade cristã. Nesse sentido, as qualidades sincréticas da santidade de Chico Xavier, como figura dúplice e liminar, traduzem-se também no acúmulo pessoal das características do "santo" e do "caxias". O indivíduo concebido em sua biografia insere-se num campo de possibilidades muito específico, sem autonomia ou individualização como mônada moral. Sua margem de escolhas aloja-se entre regulamentos divinos e uma pré-história cármica que o conforma a escolhas prévias ao nascimento. Sua única saída é conscientizar-se da teia hierárquica e orgânica em que está envolvido, pagando suas dívidas através de "trabalho". Dessa forma, Chico não encarna um ideal de cidadão crítico da realidade circundante, mas sim o de um membro disciplinado de uma comunidade orgânica e hierarquizada, concepção espírita com importantes afinidades com o ethos militar da disciplina e com sua concepção de "evolução pelo mérito", tornando-se compreensível a forte atração que esta alternativa religiosa sempre exerceu neste grupo social.

Não se trata apenas de uma cosmologia em que a hierarquia conjuga-se com o mérito, mas é preciso salientar que a atração "militar" articula a idéia de "carma" com um senso de ordem e justiça ao qual nenhuma ação humana é insignificante17, sobretudo quando se liga à crença de que "o plano espiritual" ¾ que engloba e dá sentido ao material ¾ "é muito organizado", frase que se ouve com freqüência nos centros espíritas. Não se trata de uma racionalização da crença religiosa que aponta na direção de um individualismo autonomizante, mas sim na ênfase numa "comunidade orgânica" regida pelo império da lei18.

Alternando os modelos de santo e de caxias, Chico encarna também a forte rejeição do espiritismo para com a vertente carnavalizante na sociedade brasileira, que engloba as possibilidades da malandragem e da celebração momentânea e lúdica de personagens marginais. Para o espiritismo, não tem cabimento a inversão da ordem, a quebra momentânea ou permanente das convenções sociais, bem como as misturas e os excessos carnavalescos19. O contato e os valores religiosos "antimaterialistas" do espiritismo podem, enquanto perspectiva do mais alto ou do outro mundo, suprir essa necessidade de aproximação conciliatória de domínios culturalmente heterogêneos na medida em que as únicas diferenças que contam são as de mérito e elevação espiritual aos olhos de Deus. Ou seja, o religioso promove um nivelamento das diferenças diante do "plano espiritual".

A própria relação do médium com a espiritualidade, através de sua ligação com Emmanuel, é de subordinação e serviço, sintetizada na categoria nativa mandato mediúnico ou mediunato. Ela carrega um tipo de delegação, mas também de obrigatoriedade. Nessa lógica, a extensão do poder mediúnico é proporcional à responsabilidade da tarefa imposta pelo Plano Espiritual:

P - Em seu primeiro encontro com Emmanuel, ele enfatizou muito a disciplina. Teria falado algo mais?

R - Depois de haver salientado a disciplina como elemento indispensável a uma boa tarefa mediúnica, ele me disse: "temos algo a realizar".

Repliquei de minha parte qual seria esse algo e o benfeitor esclareceu: "trinta livros pra começar!". Considerei, então: como avaliar esta informação se somos uma família sem maiores recursos, além do nosso próprio trabalho diário, e a publicação de um livro demanda tanto dinheiro? Já que meu pai lidava com bilhetes de loteria, eu acrescentei: será que meu pai vai tirar a sorte grande? Emmanuel respondeu: "nada, nada disso. A maior sorte grande, a do trabalho com a fé viva na Providência de Deus. Os livros chegarão através de caminhos inesperados".

Algum tempo depois, enviando as poesias de Parnaso de Além-túmulo para um dos diretores da Federação Espírita Brasileira, tive a grata surpresa de ver o livro aceito e publicado, em 1932. A este livro seguiram-se outros e, em 1947, atingimos a marca dos trinta livros. Ficamos muito contentes e perguntei ao amigo espiritual se a tarefa estava terminada. Ele, então, considerou, sorrindo: "agora, começaremos uma nova série de trinta volumes". Em 1958, indaguei-lhe novamente se o trabalho finalizara. Os sessenta livros estavam publicados e eu me encontrava quase de mudança para a cidade de Uberaba, aonde cheguei a 5 de janeiro de 1959. O grande benfeitor explicou-me, com paciência: "você perguntou, em Pedro Leopoldo, se a nossa tarefa estava completa e quero informar a você que os mentores da Vida Maior, perante os quais devo também estar disciplinado, me advertiram que nos cabe chegar ao limite de cem livros". Fiquei muito admirado e as tarefas prosseguiram. Quando alcançamos o número de cem volumes publicados, voltei a consultá-lo sobre o termo de nossos compromissos. Ele esclareceu, com bondade: "você não deve pensar em agir e trabalhar com tanta pressa. Agora, estou na obrigação de dizer a você que os mentores da vida superior, que nos orientam, expediram certa instrução que determina seja a sua atual reencarnação desapropriada, em benefício da divulgação dos princípios espíritas cristãos, permanecendo a sua existência, do ponto de vista físico, à disposição das entidades espirituais que possam colaborar na execução das mensagens e livros, enquanto o seu corpo se mostre apto para as nossas atividades".

Muito desapontado, perguntei: então devo trabalhar na recepção de mensagens e livros do mundo espiritual até o fim da minha vida atual? Emmanuel acentuou: "sim, não temos outra alternativa!". Naturalmente, impressionado com o que ele dizia, voltei a interrogar: e se eu não quiser, já que a Doutrina Espírita ensina que somos portadores do livre-arbítrio para decidir sobre os nossos próprios caminhos? Emmanuel, então, deu um sorriso de benevolência paternal e me cientificou: "a instrução a que me refiro é semelhante a um decreto de desapropriação, quando lançado por autoridade na Terra. Se você recusar o serviço a que me reporto, segundo creio, os orientadores dessa obra de nos dedicarmos ao Cristianismo Redivivo, de certo que eles terão autoridade bastante para retirar você de seu atual corpo físico!". Quando eu ouvi sua declaração, silenciei para pensar na gravidade do assunto, e continuo trabalhando, sem a menor expectativa de interromper ou dificultar o que passei a chamar de "Desígnios de Cima". (entrevista concedida ao jornal O Espírita Mineiro, n. 137, abr.-mai.-jun. de 1970)

Descrevendo passagem muito conhecida da relação de Chico com o Plano Espiritual (categoria que conota um Mundo, uma Ordem, uma Equipe e um Plano), esses trechos evidenciam sinais de uma tensão entre as aspirações humanas e a missão imposta ao indivíduo Chico. Ele quer ser "normal", resgatando as dívidas para seguir como uma pessoa comum, mas Emmanuel, a cada resgate parcial de compromissos, impõe-lhe novas tarefas, a ponto de cogitar a "desapropriação de seu corpo" caso haja uma definitiva recusa ao prosseguimento no "mandato mediúnico"20.

Esse mediunato significa que o corpo do médium está a serviço de uma "missão" projetada na "espiritualidade". Ou seja, sua doação material é feita ao mundo espiritual funcionando como médium ou receptor material. Para usarmos uma fórmula condensada, tudo se passa como se Chico Xavier tivesse como princípio uma relação material com o mundo espiritual e uma relação espiritual com o mundo material. Chico entrega como receptor a materialidade de seu corpo aos espíritos desencarnados e, para os homens (para quem é um grande receptor de demandas), ele doa a sua espiritualidade, no duplo sentido de testemunho de valores cristãos e de exercício caritativo de poderes mediúnicos.

As categorias empregadas, "serviço", "trabalho", "mandato mediúnico" (ou "mediunato"), decreto de desapropriação, remetem ao coração de uma linguagem burocrática, administrativa, impessoal e abstrata, que contrasta com a piedosa linguagem catolicizante de outras situações mas que se liga a uma concepção corporativista de sociedade, presente nas descrições do mundo espiritual em Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho e em Nosso lar. A esse respeito, é bastante instrutivo um depoimento de Chico Xavier, relatado por Barbosa:

Temos no Espiritismo o cumprimento da promessa do Cristo: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos fará livres", ao que o nosso abnegado Emmanuel acrescenta: "e a Verdade vos fará livres para sermos servos felizes de nossas obrigações e para sermos mais responsáveis perante Deus". (1992: 142)

Essa visão cívica, orgânica e corporativa de cidadania e de pessoa afina-se com certas tendências ideológicas dos segmentos militares ao modernismo racionalizante, que pregava a tutela da sociedade pelo Estado (Carvalho, 1998; Castro, 1995) e, mais tarde, com as tendências conservadoras do pensamento social nos anos 20, 30 e 40 inclusive na doutrina social da Igreja21. Originalmente católica, essa visão é também encarnada na perspectiva que lançava o Estado e o exército como instrumentos modernizantes e laicos o suficiente para, de um lado, desidentificar-se com a religiosidade conservadora, mas não o bastante a ponto de prescindir da tradição cristã, como fez o positivismo, quando convertido à doutrina política. Ou seja, na moderna realização de sínteses religiosas no espiritismo exposto na vida e obra de Chico Xavier, este situa: 1) o sincretismo da umbanda como "primitivo", 2) a mistura da religião e política do positivismo, como "promíscua" e 3) a síntese espírita de religião, filosofia e ciência como desejável, "racional" e "evoluída".

 

 

 

Entre dois mundos: os códigos da santidade

Chico vê e fala com os Espíritos como se estes pertencessem ao plano material. Vive ele entre os dois mundos, o físico e o espiritual. Isso sem falar na natureza de sua missão, nos preparativos que antecederam à sua reencarnação e na assessoria de Emmanuel. (Worm, 1993: 18)

Desde que iniciou sua carreira de escritor mediúnico de renome nacional, Chico abriu mão de quaisquer benefícios que poderiam ser oriundos de suas faculdades psíquicas, como direitos autorais, favores pessoais e empregos. Pelo contrário, sempre insistiu em sua desimportância, comparando-se a animais de carga, a pó ou a vermes ¾ aquilo que estaria metaforicamente mais em baixo. Trata-se de uma ética da humildade e caridade, um dos itens que conformam a sua imagem de homem público e espírita modelar. Perante as pretensões morais dos homens, ele coloca-se no plano mais baixo possível, como se o canal de comunicação com o mais alto não dependesse apenas de uma recusa aos valores da matéria, mas também de uma diminuição voluntária do self. Já os seus comportamentos evidenciam uma atitude prudente de quem anda nas margens do mundo social, uma alegria franciscana diante da pobreza e das adversidades, articulados às qualidades de fraternidade, caridade cristã e humilde, e resignação diante da própria sorte.

A perspectiva da santidade "entre dois mundos" do modelo de Chico Xavier pode ser lida tanto como duplicidade quanto como liminaridade. Duplicidade significa que as propriedades e regras de ambos os mundos convivem em sua pessoa, assim como fazem-no interagir com os membros desses mundos de um modo como os outros não o fariam. Assim, ele convive com os espíritos com a mesma familiaridade com que interage com os homens. Essa duplicidade, vivida como cumprimento estrito de uma regra religiosa, é apreciada como "santidade" na leitura dos peregrinos que acorrem semanalmente a Uberaba em busca de um encontro com o médium.

Em cada mundo de que participa, Chico Xavier realiza um código de prudente alteridade: médium receptor dos espíritos, recebe suas mensagens como intermediário material entre estes e o mundo dos homens. Aos "encarnados" ele oferece sua espiritualidade, sua mediunidade e seu exemplo de comportamento e linguagem.

O médium mineiro comporta-se como um ser das margens, essencialmente liminar, no sentido desenvolvido por Turner (1974), à diferença de que não é apenas um momento, mas toda a vida de Chico Xavier que tem esse caráter liminar, como se fosse obrigado a viver a sua relação com a humanidade em constante communitas. Construindo a sua santidade com base na absolutização de sua liminaridade, ele se mantém estritamente na fronteira entre os dois mundos, espiritual e material, numa espécie de communitas intermundana.

Participando de uma essência humana e de outra espiritual, ele se quer apenas um "humilde intermediário" ou, então, um mero "trabalhador cumprindo uma missão". Para os fiéis e admiradores, a ostentação pública de sua humildade vale como confirmação de sua santidade.

Santo popular espírita e modelo de virtudes cristãs, a aliança com os valores da espiritualidade superior impõe ao indivíduo Chico severas renúncias às esferas sociais de troca e compromisso que denotariam aliança, como matrimônio, contração de dívidas ou aceitação de favorecimentos pessoais. Com relação ao uso de sua mediunidade, Chico age como um cumpridor de ordens disciplinado, aplicando estritamente o preceito "dai de graça aquilo que de graça recebeste" na reinterpretação espírita da tradição cristã. Ora, esse preceito da doutrina espírita foi historicamente utilizado para combater o uso pago da mediunidade, além de ajudar a criar a tão almejada imagem de respeitabilidade do movimento espírita na sociedade brasileira, afastando-o do "baixo espiritismo", prática desde sempre suspeita de "charlatanice" e "exploração da credulidade popular"22.

A relação material com o plano espiritual implica, assim, um rígido código de disciplina para o médium. Chico é comandado por um senso inflexível de dever, supervisionado estritamente por Emmanuel, que não lhe confere privilégios. Do contrário, sofre duras provas ao longo de toda uma vida de sofrimentos causados por doenças e privações materiais. É "caxias" em todos os seus hábitos pessoais, inclusive na recusa de qualquer privilégio material, qualquer situação que pudesse configurar o que poderíamos chamar de "peculato espiritual".

Com os espíritos e com os valores da espiritualidade, ele é preferencialmente um receptor material (pois "o telefone só toca de lá para cá", como costuma dizer) e toda a sua biografia pode ser lida à luz de uma "missão". Tanto que o médium é comumente representado como "espírito missionário", "apóstolo" ou "espírito superior", no meio espírita.

Como pessoa social, Chico Xavier é celibatário, renuncia ao sexo e ao código da aliança em nome de uma "aliança com o mais alto" ¾ ainda que não recusasse as tarefas de tutor de suas irmãs em sua juventude ¾ para cuidar de sua família espiritual:

Chico ouviu, meditou e hoje está convencido de que Deus e os orientadores espirituais privaram-no do amor físico para que ele se dedique ao amor por todos. (Machado, 1983: 110)

Também aqui a renúncia de Chico não implica uma fuga do mundo, mas de praticar a sua versão do Imitatio Christi, enquanto um irmão "entre dois mundos", na ambivalência e na fragilidade liminar de quem vive em communitas com o resto dos homens. Chico é um espírita de cunho eminentemente "evangélico", tanto que as obras de Emmanuel não cansam de propagar o culto do Evangelho no lar como a mais relevante das práticas espíritas.

O seguinte caso ilustra a relação de Chico Xavier com os presentes materiais. Fernando Worm relata que tentou enviar a Chico um presente de uma vigem que havia feito à Itália, um azulejo comprado numa loja nas ruínas de Pompéia:

Respondendo-nos, Chico Xavier ponderou que talvez a "relíquia pompeana" (sic) viesse a quebrar-se no trajeto postal e sugeriu aguardar uma eventual viagem a Uberaba para levá-la pessoalmente.

Algum tempo depois entregávamos pessoalmente a Chico a nossa modesta lembrança prometida. Contemplando longamente a pintura da nobre e esbelta figura da jovem romana, carcomida pelo tempo e com visíveis rachaduras na reprodução do original, e após escrever uma dedicatória na face posterior da peça, devolve para nós dizendo: "agora peço-te que a leves de volta. Guarda-a contigo".

Surpreso pelo inesperado do gesto, embora sabedor de que o médium kardecista não recebe presentes nem aceita recompensas materiais, redargüi: "mas Chico, a lembrancinha é tão simples, veio de tão longe (...) por que não a aceitas? Toma, ela é tua..."

A resposta não deixou de ser igualmente surpreendente para mim: "Sim, a partir deste instante ela passou a ser minha pela retina espiritual. A ti e aos teus familiares peço que fiquem de guardiães desta preciosa relíquia. Deus nos abençoe sempre".( Worm, 1993: 9)

O recorte de todas as coisas em espirituais e materiais permite a Chico realizar uma manipulação espiritual da dádiva. Com os "encarnados" ele é preferencialmente doador (de mensagens psicografadas, livros, exemplos, consolo, curas), reservando-se a participar de um circuito de dádivas apenas na perspectiva "espiritual". O caso do presente devolvido de Worm ilustra o código a que Chico Xavier estava submetido e a habilidade ímpar de desvencilhar-se de situações como essa: o presente retorna ao doador sem configurar uma recusa da intenção que o animou. De início, Chico alega riscos de extravio, mas não se furta a dar uma satisfação posterior ao ofertante. Na clássica lógica da dádiva, a não-aceitação do presente significa a recusa em participar de uma troca entre parceiros, mas a dedicatória escrita junto com a peça devolvida (em que pede que a família de Worm seja guardiã do presente), somada à justificativa pessoal em que afirmava que "a relíquia já era sua pela retina espiritual", resolveu a questão ao reduzir o circuito da troca à sua estrutura essencial. Chico aceitou "espiritualmente" a dádiva (ou o hau do presente) mas se negou a aceitar seu invólucro material, potencialmente arriscado por ser uma permanente fonte de dúvidas sobre os compromissos que a sua recepção encerraria. Assim, ele aceita apenas a intenção desinteressada, sublimada de qualquer chance de obrigá-lo a uma contraprestação material ou a obrigações pessoais, como se, ao segmentar um presente em matéria e espírito ("ele é meu pela retina espiritual") e conferir substância autônoma à sua face imaterial, ele se envolvesse de forma purificada no circuito da troca. Por ser capaz de aceitar apenas a parte espiritual de um presente recusando seu lado material, para Chico Xavier pode-se aplicar literalmente o provérbio "o que vale é a intenção": para o médium mineiro a dimensão espiritual é ontologicamente mais real e intensa do que a material. Assim, é a relação espiritual que tem com o mundo material, no qual ocupa sobretudo o posto de doador, que permite a Chico manipular espiritualmente o próprio dom imaterial, ou hau contido no presente, recusando seu invólucro material sem caracterizar inaceitação ou desfeita.

Uma mulher, agradecida por ter recebido do médium uma mensagem do falecido pai, tentou pagar Chico em dinheiro, tendo recebido dele a seguinte resposta:

¾ Não posso aceitar, minha irmã, nenhum dinheiro. Tudo o que recebo é de graça, vem do mais Alto, por misericórdia imensa do Pai, devo também dar de graça para continuar digno do Amparo que lhe recebo. (Gama, 1986: 167)

Se a arquicategoria carma remete a uma regulação impessoal e abstrata por uma ordem superior, cuja analogia privilegiada é, em Chico, com uma concepção de "estadania"23antes que de indivíduo, a relação do médium mineiro com os homens é condicionada pela lógica da dádiva com o mundo espiritual. Como receptor material dos espíritos e doador espiritual dos homens, ele relaciona-se com cada membro dos mundos como se relacionasse com o seu conjunto, com a "série", para usarmos um termo classificatório. Assim, ele está numa típica situação de dom para com a série dos "espíritos amigos", resgatando suas dívidas através do cumprimento de sua missão: passar para a série dos "encarnados" as mensagens, bens, curas, graças e intercessões, como contraprestação mediata pelo mundo espiritual ter-lhe concedido os seus dons.

Por outro lado, sua relação material com o mundo espiritual faz com que ele, paradoxalmente, possa tanto ser o médium de espíritos amigos quanto ser vítima de espíritos inimigos ou baixos, que seguidamente tentam atingi-lo materialmente com armas espirituais. Estas atingem-no como qualquer arma do mundo material o atingiria. No sistema espírita, os espíritos das trevas, pouco evoluídos, estão para os espíritos de luz como a matéria está para o espírito24. Logo, eles estão em posição equivalente à "matéria", no duplo sentido de densidade e inferioridade, de valores e de comportamento. Nesse sentido, a resposta de Chico às agressões materiais dos espíritos é uma resposta "elevada", "espiritual" e cristã, nunca revidando às agressões, respondendo-lhes de forma sublimada, com a prece, a compreensão bondosa e a resignação. Ou seja, relaciona-se com os espíritos inimigos também como doador espiritual, comportamento inspirado pela mesma lógica com que se relaciona com tudo aquilo que é "material" (o que os "espíritos trevosos" não suportam.

A magnífica lição se repete e se repetirá, por muitas vezes durante a sua vida.

Diante do alarido ¾ o silêncio.

Diante da calúnia ¾ a prece.

Diante da ofensa ¾ o perdão.

(...) Qualquer outra atitude que expresse revide, ali [na FEB, a "Casa de Ismael"] não encontra ressonância.

Nenhuma defesa, nenhum revide.

Não há do que se defender.

A linha do comportamento é a do Evangelho de Cristo.

É aquela traçada pelo Divino Amigo faz qual ele se faz o exemplo.(Schübert, 1986: 135)

A calúnia, a ofensa e a desmoralização pelos homens também são presentes ou dádivas envenenadas pois, além de desafiarem ao revide (uma forma de contraprestação, sem dúvida), é ali que a linguagem atinge o máximo de sua densidade e materialidade, na acepção espírita. Prender-se a ela seria não apenas rebaixar-se a um padrão vibratório condicionado por espíritos baixos, comprometendo-se diante da Lei, inclusive com riscos de anulação de seus poderes mediúnicos. Reagir a ofensas na visão espírita equivale a acionar o código da vingança, ou seja, um circuito condenado de prestações e contraprestações, ainda que de alto interesse narrativo nas histórias de obsessão, na medida em que faz equivaler o par de papéis obsessor/obsidiado a uma relação circunstancial e transitiva entre algoz e vítima. Essas narrativas, abundantes na literatura espírita, são exemplares das disposições e comportamentos que o espírita não deve cultivar e Chico, nesse sentido, dá o completo testemunho desses valores em suas histórias e atitudes.

Assim, o médium renuncia aos diversos circuitos de trocas que o comprometeriam pela lógica da dádiva: troca de presentes, troca de favores, trocas matrimoniais, direitos autorais, oriundos de encarnados, restringindo-se, como intermediário, ao circuito da intercessão e da graça. No entanto, há uma situação em que Chico Xavier doa bens materiais em abundância, é na prática da caridade aos pobres, para quem ele doa roupas, víveres, cobertores, travesseiros, etc. Ali, Chico está doando como mediador de uma missão, ou seja, como intermediário exemplar de atos cristãos para a série social e religiosa dos pobres, espécie de Imitatio Christi que caracteriza a realização de sua "missão"25.

Mesmo em nítida composição com o catolicismo, Chico recusa a qualificação de "santo" sem, entretanto, poder escapar da dinâmica imperativa de relações sociais, representações e expectativas de santidade que as procissões e romarias a sua casa engendraram, tendo que se amoldar a elas na forma de atendimentos no centro espírita a familiares em busca de mensagens e consolo. Trata-se de um efeito não intencional de sua fama de intercessor, que dialoga com os costumes da religiosidade popular no Brasil, ainda que viabilizada pelas sugestões míticas contidas na unidade de sua vida e obra. Apesar da coerência do modelo que venho discutindo, é preciso salientar que, se examinada em filigrana etnográfica, essa santidade acaba se tornando um depósito semântico em aberto para os fiéis, no interior do qual os significados atualizados extravasam um único mito ou modelo, ainda que a ele(s) não cessem de se referir.

Como santo, ele também tem a capacidade de manipular espiritualmente as situações adversas, reinterpretando-as pela "lógica do mais alto", como quando foi a um bordel e, ao reconhecê-lo, todos se puseram a rezar (Souto Maior, 1995:30) ou, então, quando conseguiu a arrecadação diária de um mendigo de Pedro Leopoldo no auxílio ao enterro de seu ex-patrão. Pela mediunidade, ele reinterpreta o sentido de males e infortúnios de doentes. Ranieri conta que, ao visitar um menino de nome Emmanuel, entrevado numa cadeira de rodas, cuja mãe era extremamente pobre e doente, Chico contou a seguinte história:

¾ Pois é Ranieri, nosso amigo Emmanuel foi Robespierre, outrora, na França; governou o povo francês, no terror, e conquistou uma legião de inimigos. Como prova renasceu assim; aleijado e, nessas condições, torturado. Com ele acontece um fato interessante:

¾ Quando dorme e o seu espírito desprendido sai do corpo, aqueles a quem mandou matar na Revolução avançam contra ele, desesperados e o atacam. Aflito, aterrorizado, retorna ao corpo físico, onde se oculta, e desperta, deste lado, aos gritos. Este corpo deformado desse jeito é ainda assim, uma fortaleza e um refúgio. No começo, eram centenas. Mas no correr dos anos, têm sido esclarecidos pelo espírito de Emmanuel e outros amigos espirituais. Agora, restam poucos. Quando esses inimigos não o atacam, ele então procura a mãe e a obseda. Aí ela fica louca. Já esteve internada por isso.

¾ Quando ele se afasta dela, a pobrezinha fica boa, volta ao normal.

¾ Diz nosso Emmanuel que, "quando essas últimas entidades inimigas forem doutrinadas", ele desencarnará.

Fitamos estarrecidos aquela criaturinha indefesa que ali estava. Poderoso tirano, que mandara milhares para a guilhotina, jazia agora, depois de quase dois séculos, num berço de enfermidade, sob o guante do desespero e da dor. (Ranieri, s. d: 24)

O mesmo procedimento pode ser observado nesta narração da visita que o médium fez a uma senhora muito doente, que morava numa choupana miserável com sua filha:

Esta mãe com a filha sempre nos braços me faz lembrar um quadro da Madona. Estes dois espíritos, naturalmente em resgate de existências anteriores, são para mim nobre exemplo de fé e de aceitação que muito me edificam. Muitas vezes, em horas difíceis, ou em momentos de provação dos quais preciso e mereço, meu pensamento se volta para esta casa e aqui encontro novas forças. (Worm, 1993: 11)

Da mesma forma, os eufemismos que predominam na retórica de Chico Xavier também podem ser analisados pelo processo de segmentação e hierarquização a que o médium submete todas as coisas do mundo: da mesma forma que as pessoas, os presentes e as ofensas, a linguagem é uma espécie de "dom" que também pode ser dividida numa parte espiritual (pensamento, conteúdo e intenção) e noutra material, como veículo de expressão (sons, texto). O passo seguinte à divisão classificatória é a hierarquização do objeto, pessoa ou situação em "superior" e "inferior", "sutil" ou "densa", de "vibração elevada" ou de "baixa vibração"26. Para usar uma fórmula condensada, o médium mineiro realiza uma manipulação espiritual do mundo, neste caso convertida a uma manipulação espiritual da linguagem.

Além de interpretar acertadamente a concepção espírita das implicações morais e fluídicas das vibrações contidas nas palavras, o biógrafo Souto Maior registrou a maestria de Chico em lidar com metáforas e eufemismos:

No seu mundo não havia prostitutas, mas "irmãs vinculadas ao comércio das forças sexuais". Os presos eram "educandos", os empregados eram "auxiliares", os pobres eram "os mais necessitados", os mongolóides eram "os nossos irmãos com sofrimento mental", os adversários eram "nossos amigos estimulantes" e os maus eram os "ainda não bons". Ninguém fazia anos e sim, "janeiros" ou "primaveras". Os filhos de mães solteiras deveriam ser encarados como "filhos de pais ausentes". (1995: 93).

A despeito de possíveis aproximações com o "politicamente correto" o estilo de linguagem empregado por Chico Xavier aponta para uma direção diversa. Enquanto o politicamente correto tem uma inspiração puritana de reconceitualizar o mundo sem ambigüidades nem discriminações, ou seja, o politicamente correto corrige injustiças através da linguagem27, Chico atualiza uma verve católica e "mineira", que não abole as distinções hierárquicas mas suaviza-as em virtude da crença na desimportância relativa de todos diante do Plano Espiritual. Difere da linguagem encontrada nos livros de Allan Kardec, mais árida e pontificadora. Difere ainda da linguagem severa de seu mentor Emmanuel, freqüentemente comparada à de um rígido sacerdote jesuíta. Nesse sentido compreende-se a opção pelo uso do eufemismo: este é o uso mais "sutil" e "superior" de um instrumento evolutivamente "denso" e "inferior" que é a linguagem. O eufemismo ¾ como figura de linguagem marcada pela sutileza ¾ é usado como a forma mais suavizante possível de falar, estando para a linguagem assim como o espírito está para a matéria. Ele é uma espécie de linguagem purificada, aproximando-se de um "pensamento desmaterializado", ou seja, é o máximo de espiritualização a que a linguagem humana de Chico Xavier poderia atingir.

Além disso não se trata apenas de identificar o "politicamente correto" em sua linguagem, mas o que poderia ser chamado de "liminarmente correto". Além de transfigurador de situações, ele transfigura conceitos densos em sutis através de eufemismos. Ou seja, em Chico Xavier, o eufemismo é o tropo retórico espiritual por excelência.

Os eufemismos abaixo não tentam afrontar o senso comum mas suavizar o estigma a eles associado. A inclusão fraterna de excluídos, subalternos e vítimas de preconceito resulta de uma reinterpretação da categoria renomeada, com base na infusão de um significado transitório: preso é o "educando" e o rico é o "administrador dos tesouros de Deus". A transfiguração metafórica dos eufemismos de Chico suaviza a violência real dos preconceitos e operações de rotulação, de exclusão social, das relações sociais de violência simbólica e dominação, apenas na medida em que essa transfiguração não se percebe como restrita ao terreno retórico mas, como venho sustentando, é uma manipulação espiritual da linguagem, decorrente de seu código liminar de santidade. Tudo se passa como se, mesmo nas conversas e discursos, também formas de troca de dons, Chico Xavier procurasse emitir suas frases e mensagens numa forma lingüisticamente purificada dos "pesados fluidos" ligados às palavras duras, cujo máximo limite possível de expressão, no ethos espírita, é o eufemismo. Ou para empregarmos uma terminologia espírita, trata-se de uma relação sublimada com a linguagem ¾ bem entendido, no sentido etimológico de "tornada sublime" e não no sentido psicanalítico.

 

 

Um espiritismo letrado e nacional

Todas as revelações de Chico Xavier em relação à obra de André Luiz levam-nos a uma série de reflexões.

Por que razão Emmanuel não escreveu, ele mesmo, tais livros? Ou Bezerra de Menezes, que foi médico na Terra? Quais os motivos que teriam levado à escolha de André Luiz? Quais os critérios adotados para essa escolha? A verdade é que houve atenta, meticulosa e completa preparação.

André Luiz foi o escolhido para transmitir os novos ensinamentos. E o fez, absolutamente com a orientação segura e sábia de Emmanuel e Bezerra. E ambos trabalhando em conformidade com as altas autoridades espirituais.

A forma da narrativa foi planejada, visando facilitar o entendimento. André Luiz corporifica o aprendiz, que se torna, depois, repórter da vida além-túmulo. Conta as suas próprias experiências ou, quem sabe, um conjunto de outras experiências que ele, com um recurso de escritor, as transforma em suas, sem que isto invalide em nada a força de seu discurso ou autenticidade.

Se ele fosse um iniciante na Doutrina Espírita, nem por isso haveria o perigo de prejudicar o trabalho, já que ele era ali, também ele, MÉDIUM de outros Espíritos mais elevados. (Schübert, 1986: 101)

Ao mesmo tempo em que busca conciliar-se com a cultura católica brasileira, Chico Xavier concretiza uma proposta simultaneamente cívica e letrada. Nacionalista, sua obra transmite a imagem de uma religião das letras, que difunde a literatura e o hábito da leitura, assim como o respeito ao saber científico e ao panteão da língua portuguesa.

É nos anos 30 e 40 que surge a parte mais famosa das obras de Chico Xavier, inicialmente representada pelo Parnaso de além-túmulo, pelos romances de Emmanuel Há dois mil anos, Cinqüenta anos depois, Paulo e Estevão, Renúncia, por Brasil coração do mundo, pátria do evangelho, de Humberto de Campos e pelo best seller Nosso lar, de André Luiz.

Chico atinge a notoriedade, não só pela difusão de suas obras pela Federação Espírita Brasileira, mas também pelo espanto causado quando se soube que o "Parnaso" havia sido escrito por um "caixeirinho de venda do interior", um "mineirinho pobre e inculto, que mal havia terminado o primário", imagem que ele não apenas nunca desmentiu, como sempre fez questão de reforçar.

O próprio incentivo de Manuel Quintão, jornalista e prócere da FEB, no início de sua carreira é significativo novo posicionamento do espiritismo em direção às diversas classes médias urbanas. Como Chico, Quintão é um ex-comerciário e autodidata, tendo ascendido socialmente a partir de uma origem humilde. Assinando o prefácio do Parnaso de além-túmulo, Quintão salienta:

Quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto, um bacharel formado, um rotulado desses que por aí vão felicitando a Família, a Pátria e a Humanidade? Nada disso. O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos, um quase adolescente, nascido ali, assim em Pedro Leopoldo, pequeno rincão do estado de Minas Gerais. Filho de pais pobres, não pôde ir além do curso primário, dessa pedagogia incipiente e rotineira, que faz do mestre-escola, em tese, um galopim eleitoral e não vai, também em tese, muito além das quatro operações e da leitura corrida, com borrifos de catecismo católico, de contrapeso.

Órfão de mãe aos cinco anos, o pai infenso a literatices e, ao demais, premido pelo ganha-pão, é bem de ver-se que não tinha, que não podia ter o estímulo ambiente, nem uma problemática hereditariedade, nem um, nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Calíope e de Polímnia. (prefácio, apud Xavier, 1938: 18)

Em vista dessas afinidades, é compreensível que Quintão tenha funcionado como padrinho de Chico, juntamente com seu grande amigo Wantuil de Freitas, que foi presidente da Federação Espírita Brasileira. Tratava-se de uma fase em que se iniciavam as atividades da editora da FEB e a caudalosa produção de Chico insere-se perfeitamente no projeto de uma promoção mais agressiva do espiritismo através do livro, que caracterizou a gestão de Guilhon Ribeiro à presidência da entidade28.

Compatibilizando-se com a cultura beletrista e bacharelística das elites brasileiras nos anos 30, entende-se o impacto causado por Parnaso de além-túmulo, em que dezenas de poetas desencarnados escreveram pela pena do médium Chico Xavier, passando a defender os ideais espíritas. Não é casual a escolha da poesia como forma de expressão do médium. Consagrada como um gênero literário de suma importância, ser capaz de ler e declamar poesias fazia parte da formação escolar e até de certos jogos de salão, a esta época29. Não raro os poetas, como Olavo Bilac, eram celebrados e identificados com ideais nacionalistas. Não é simples reconstituir o clima simultaneamente oral e letrado dessas situações, mas com certeza há uma relação entre a posse ornamental da capacidade de declamação poética e o pertencimento às elites letradas, o que dificilmente se encontraria na atualidade e que contribuiu decisivamente para chamar a atenção dos literatos da época para o espiritismo.

Em segundo lugar, a questão do estilo tinha uma maior ressonância do que a mera comunicação de conteúdos. A disputa em torno da interpretação do fenômeno Chico Xavier jamais pôs em dúvida o seu "dom", mas sim o seu significado: uns o tinham na conta de realizador de pastiches, outros como médium extraordinário30. O debate travado, à época, que reuniu na imprensa alguns críticos e literatos, atualizava uma curiosidade pública sobre o espiritismo, cujas raízes datam da metade do século XIX. Com o boom das mesas girantes (e na esteira das ênfases românticas em experiências transcendentes), os homens de letras do Ocidente sentiram-se atraídos por experiências místicas. Não houve grande literato que não tivesse presenciado ou comentado sessões espíritas, de Victor Hugo a Monteiro Lobato (Lantier, 1971; Machado, 1983; Inglis,1992). Nesse sentido Laplantine & Aubrée (1990) salientam as relações do espiritismo francês e brasileiro através da reivindicação de uma "herança cultural comum" em que, por exemplo, o aparecimento de um Victor Hugo e de um Balzac nas psicografias não são de forma alguma fenômenos inusitados, apenas atualizando uma antiga e complexa relação com a cultura francesa.

A novidade do Parnaso de além-túmulo era a plêiade de autores que compareciam na psicografia, muitos oriundos do mais seleto clube da alta literatura de língua portuguesa, como Casemiro de Abreu, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza e Olavo Bilac. Em médiuns anteriores a Chico Xavier, como Zilda Gama, são escritores célebres do Velho Mundo que comparecem, tal como Victor Hugo, e a poesia não tem tanta importância.

Essa concentração da obra psicográfica nos escritores de língua portuguesa não tinha precedentes no espiritismo brasileiro. Ao reunir poetas brasileiros e portugueses no Parnaso, Chico compromete-se desde o início com uma nacionalização das referências espirituais do kardecismo, incorporando um beletrismo português e brasileiro no proselitismo espírita. Atingindo a notoriedade na década de 1930, época de surgimento e difusão da umbanda e de emergência de propostas políticas de efetivação de uma identidade nacional, o movimento espírita brasileiro encontra em Chico Xavier um médium símbolo na implementação de uma nova proposta de relação com a religiosidade e com a nação, exposta em Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, pelo espírito de Humberto de Campos.

O livro atribuído ao espírito de Humberto de Campos representa, juntamente com Nosso lar, um marco na história do espiritismo brasileiro, sendo reconhecido como uma das obras mais influentes a nortear a prática dos espíritas, principalmente a partir do Pacto Áureo (o congresso de unificação das federações espíritas, em 194931).

Neste livro há uma reflexão sobre a missão histórica da implantação do espiritismo em solo tupiniquim, onde emerge uma certa vocação brasileira triunfante no kardecismo, e no qual a própria história da formação desta nação passa a ser lida à luz de uma programação no plano espiritual superior. Esgotadas as possibilidades das civilizações européias regenerarem a humanidade, Cristo trava diálogo com seu assistente Ismael, designando-a para a missão de transplantar a árvore do Evangelho para o país do Cruzeiro, que será a futura "Pátria do Evangelho". A história da formação da nação confunde-se com os desígnios da equipe espiritual de Ismael. Rio de Janeiro e Minas Gerais são os grandes centros de irradiação da proposta evangélica de brasilidade, combatendo os excessos indiáticos do Amazonas e a influência platina no Sul 32.

O Brasil é celebrado por conseguir manter a unidade territorial ao longo do tempo e não ter derramado sangue nas grandes transformações históricas, coisa que a civilização hispânica não conseguiu concretizar. As características do povo brasileiro associam-se à idéia, de grande circulação na época, do congraçamento harmonioso das três raças num povo com tendências pacíficas. Bondade, fraternidade e religiosidade são os traços distintivos do povo brasileiro. Os principais personagens da história nacional são encarnações de "espíritos missionários", em cumprimento da tarefa delegada pelo próprio Cristo a Ismael. Toda a seqüência da narrativa conduz ao aparecimento do espiritismo, produzindo uma mito-história espírita da nação e de sua responsabilidade no "concerto dos povos", liderada pelos "espíritos missionários". Já Tiradentes, ao morrer, resgata a dívida cármica contraída por ter sido um cruel inquisidor em vida anterior, tornando-se, no mesmo gesto, símbolo da luta pela independência da nação. Assim, na visão espírita a nação é construída paulatinamente pela ação de espíritos missionários, ela mesma um indivíduo coletivo dotado de um telos glorioso, cuja origem remontaria a um plano do próprio Cristo.

Não é o caso de se analisar a extensa obra de Chico Xavier, mas de detectar algumas tendências gerais e articulá-las à trajetória do médium e às transformações do público leitor das obras espíritas. Em primeiro lugar, seu caráter de intercessor privilegiado com o plano espiritual, especialmente no domínio das letras, liga-se à formação de um cânone ritual, literário e narrativo para o espiritismo brasileiro. Este assume uma feição literária e nacional tanto pelo Parnaso de além-túmulo quanto por Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, e um decidido caráter cristão nos primeiros romances ditados por Emmanuel. Mas é com a série André Luiz, iniciada em Nosso lar, que Chico consolida uma proposta de articulação entre as esferas religiosa e científica, em livros cujo cenário privilegiado é o chamado "plano espiritual"33.

Novamente há uma fusão de valores oriundos de uma matriz sincrônica mas que pretendem se realizar no tempo como "evolução" e, por isso, ganham necessariamente a forma de narrativas34. Nosso lar, ditado a Chico Xavier em 1943 pelo espírito André Luiz, é um dos livros paradigmáticos do espiritismo brasileiro. Espécie de romance de formação, nele é relatada a experiência pós-morte do autor espiritual na colônia "Nosso lar", situada acima da Terra. Ao narrar a sua experiência, André Luiz detalha as crenças espíritas sobre a substância do cotidiano no plano espiritual, aproveitando para reafirmar a profissão de fé numa evolução adquirida pelo aprendizado, pela caridade e pelo trabalho. O texto é formado por uma série de capítulos curtos, com predomínio de longos diálogos doutrinários sobre os valores espíritas, apresentando uma forma de organização social num mundo governado burocraticamente por ministérios, onde os habitantes se dedicam a tarefas edificantes, atualizando uma espécie de utopia de vida comunitária.

Do ponto de vista enunciativo, o texto é narrado em primeira pessoa num foco onisciente e tom memorialista em que a organização retrospectiva das vivências do narrador é coroada de juízos morais sobre as situações e as personagens. Senhor da situação, o narrador espiritual insere em cada capítulo um metadiscurso teológico. Cada episódio é interpretado de acordo com o referencial espírita, num movimento espiralado de descobertas progressivas, rumo à aquisição da cidadania plena na colônia "Nosso lar". Ou seja, estamos diante de um romance doutrinário em que o narrador, ou algum dos personagens, comenta os acontecimentos através de um metatexto, longa dissertação doutrinária inserida em cada capítulo, que funciona sempre ao modo de uma lição ou ensinamento.

Reza a tradição oral espírita que, em encarnação anterior, o espírito André Luiz foi Oswaldo Cruz, médico sanitarista heróico de fortes ideais republicanos. E, anteriormente, teria sido Estácio de Sá, Capitão-mor e fundador do Rio de Janeiro, onde se situava a capital federal e a sede da Federação Espírita Brasileira, até a década de 1960. Como Emmanuel, André Luiz também constitui sua identidade pelo recolhimento de traços metonimicamente disseminados em encarnações anteriores, no caso a partir de heróis nacionais. Também aqui o sincrônico veste máscaras diacrônicas: Estácio de Sá, pela bravura e espírito pioneiro, que combina a raiz portuguesa com a origem da nacionalidade brasileira e Oswaldo Cruz, pelo espírito público e pela fusão do ideal médico com o científico. Todas essas características somam-se no personagem e autor André Luiz, tido como o mais "científico", "jornalístico" e "sociológico" dos espíritos que ditam mensagens a Chico Xavier. A entrada em cena de André Luiz estabelece uma divisão do trabalho espiritual com Emmanuel, este funcionando como ponto de referência para questões doutrinárias e aquele para as científicas, esclarecendo pontos polêmicos sobre a vida após a morte, problemas experimentais da mediunidade e da obsessão, assim como ministrando conselhos práticos para o convívio intrafamiliar.

Ao formar um conjunto próprio de referências, o espiritismo brasileiro autonomiza-se em relação a seus confrades franceses, através de uma ampla base literária para estudo e citações que colocavam o segmento ligado à FEB em companhias literárias mais familiares ao público do que o polêmico francês Jean-Baptiste Roustaing35.

Um grande espectro de autores espirituais manifestou-se na pena mediúnica de Chico Xavier. Após a colaboração com Waldo Vieira, em que os livros de André Luiz passam por um período de complexificação extrema na linguagem, ganha força a publicação de "livros de mensagens", a partir dos anos 60. Trata-se de cartas psicográficas a familiares que consultavam o médium em Uberaba. As temáticas do sexo livre, da juventude e das drogas passam a ter destaque em seus escritos e a linguagem fica mais leve e direta, com parágrafos mais curtos e sintéticos. Acompanhado o espírito de reestruturação editorial por que passou a indústria do livro36, a partir dos anos 70, especialmente com Jovens no além (1975) e Somos seis (1976), a linguagem dos escritos assinados pela mediunidade de Chico modifica-se na direção dos novos padrões do público, tão ávido por concisão quanto curioso pelas respostas do médium às questões surgidas nos anos 60]37.

Findo o período mais erudito e orgânico de implantação de um espiritismo sincrético, a mudança na orientação editorial em Chico Xavier indicará um privilégio da vertente mais popularizante em suas psicografias. Desse modo, pavimentava-se o caminho para a modernização da linguagem dos textos espíritas, em direção ao estilo que aparecerá nos livros assinados, por exemplo, pelas médiuns Zibia Gasparetto e Vera Lúcia de Carvalho. Essas mudanças antecipavam uma pluralização nos modos de ser e de participar do espiritismo, inspiradas no médium de Pedro Leopoldo: mais voltado a públicos maiores, menos científico, mais "evangélico" e simplificado em sua linguagem, mais aberto em sua referência aos santos católicos e à figura de Maria. Com Chico Xavier, o espiritismo atinge uma espécie de ápice de uma vocação mediadora, centrado na preeminência carismática dos médiuns e dos espíritos.

Ademais, Chico Xavier contribuiu para criar um núcleo espírita de valores na sociedade nacional, fortemente enraizado em religiosidades vividas no Brasil. Tudo indica que esta fase heróica de popularização de um espiritismo sincrético religioso-cívico, centrada no carisma do médium de Pedro Leopoldo, esteja sendo substituída pelas atuais tendências de privatização da experiência religiosa, que remetem à pluralização das matrizes de produção de significado para a religiosidade, em que se introduz a influência da Nova Era, da auto-ajuda, do individualismo reflexivista com ênfase no self e no qual se difundem uma infinidade de romances mediúnicos, ligados ou não ao movimento espírita organizado. Ora isto nos remete à formação de novas modalidades de ser e de pertencer à cultura espírita, especialmente relacionada a um público que lê livros espíritas, mas se identifica só parcialmente com a participação em atividades de centros espíritas.

 

Conclusão: as sínteses do mito Chico Xavier

A biografia e obra de Chico Xavier são paradigmáticas dos caminhos e dilemas que o espiritismo percorre em sua relação com a sociedade brasileira no século XX. Religião letrada e racionalista, ela principia por ser adotada pelos segmentos de elite do Brasil pré-republicano. Ainda que alguns de seus pioneiros tenham participado de causas progressistas como o abolicionismo, o espiritismo se populariza não pelo heroísmo ou pelo profetismo de seus pioneiros, mas sim através da oferta de serviços de cura (o chamado "receitismo mediúnico", cf. Damazio, 1994 e Giumbelli, 1997) passando, após, por movimentos de fragmentação interna e concorrência com outras religiões mediúnicas, especialmente a partir dos anos 20, como aconteceu em sua relação com a umbanda38.

Leigo e anticlerical, o espiritismo kardecista sofre transformações no século XX, absorvendo tendências que pareciam correr em leitos ideológicos, culturais e políticos distintos: uma cultura letrada erudita de um pequeno e nunca inteiramente autônomo campo intelectual, cultivada na crítica literária dos jornais, na Academia Brasileira de Letras e nos colégios da República Velha39; um certo modernismo cientificista, meritocrático e nacionalista, que absorvia com um pesado viés militarista o humanismo racionalista do kardecismo e que extravasava suas conseqüências para uma composição com outros segmentos sociais, através da extensão desse modelo pelo corporativismo profissional, que incluía profissões ligadas a um projeto de nação, como a educação e a medicina.

A composição entre determinismo e livre-arbítrio, base da noção de pessoa espírita (Cavalcanti, 1983), pouco espaço ensejou para a autonomia individual como princípio ético e valor religioso, restringida que estava pelos dispositivos doutrinários e rituais no espiritismo brasileiro de boa parte do século XX. Tratava-se, ali, de uma concepção minimalista de indivíduo, não apenas vinculado sincronicamente a espíritos e homens mas também a leis, regulamentos, estatutos e graus de evolução e, é claro, a uma noção cármica de justiça, no interior do que denominei de "sistema da dívida". Havia certamente uma exacerbação da racionalidade no espiritismo, mas não a racionalidade individualista, liberal e psicologizante mas outra, ligada a uma vertente organizada da sociedade brasileira, mais conservadora, cujas bases sociais eram as camadas médias urbanas da população, de onde saíam os funcionários públicos, professores de escola, advogados, militares e médicos, profissões de tradicional expressão no espiritismo. Diferente de certas tendências psicologizantes e new age de parte das camadas médias urbanas da atualidade, uma das fontes do espiritismo de Chico Xavier, dos anos 40 aos anos 70, enraiza-se numa estrutura religiosa formalmente federativa e doutrinariamente ligada a uma visão corporativista de mundo social, próxima, portanto, do pensamento conservador que circulava na sociedade brasileira da primeira metade do século XX.

Ora, se essa concepção religiosa podia ser muito sedutora para setores organizados das camadas médias brasileiras ou mesmo da elite letrada, durante a primeira metade do século XX, ela ainda pouco ecoava entre pessoas que vivenciavam uma religiosidade popular, tão forte junto às faixas sociais subalternas da população, em boa parte marcada pelo catolicismo, pela benzeção e pelos cultos afro-brasileiros e que não dispunha de recursos culturais e simbólicos que lhe permitissem criar uma identidade espírita, mesmo que dela fizessem uso como recurso de cura. É justamente nesses setores sociais que o modelo de espiritismo de Chico Xavier alcançará um sucesso sem precedentes, não obstante a inegável liderança dos segmentos intelectualizados.

Essa dureza racionalista na concepção espírita de Chico Xavier ¾ de resto vinculada à concepção cármica de justiça ¾ é compensada pela força de sua composição com as crenças e práticas oriundas de um catolicismo familiar, de culto aos santos e à figura de Maria, transformadas através da moeda comum do circuito da intercessão e da graça, da relação personalizada com Jesus e com benfeitores espirituais, tudo isto numa construção eminentemente sincrética, ainda que nunca reflexivamente enunciada.

A relação do espiritismo de Chico Xavier com projetos de organização social e de identidade nacional é basicamente datada, circunscrita a conjunturas históricas específicas do Brasil antes e depois da Segunda Guerra Mundial, quando ocorre uma série de transformações sociais sem precedentes em termos de urbanização, industrialização e padrões da sociabilidade, incluindo-se o degelo da autoridade religiosa, fundada no antigo primado da Igreja Católica sobre a identificação da nacionalidade. Se o caminho pavimenta-se no sentido da pluralização das modalidades de crer e participar das religiões, o modelo de Chico Xavier ofereceu uma alternativa religiosa de pertencimento à sociedade brasileira com uma plena identificação com símbolos laicos de ordem, como a nação, bem como com estratégias de prestígio e distinção ligadas à posse de um capital cultural que valorizava a leitura, o estudo, a erudição e a ciência, de indiscutível valor no mundo contemporâneo. Ele viabilizou ao participante viver a integridade de uma relação com um ethos religioso tradicional pleno de hierarquias, mediações e súplicas a santos, mas também de se sentir participando do mundo da "alta cultura", dos saberes escolares, da erudição e dos conhecimentos científicos, ou seja, de tudo aquilo que goza da reputação social conferida pela cultura letrada.

Ora, é a dimensão de Chico Xavier como santo, letrado e informal, mas também caracterizado como "homem coração", que promete realizar uma série de sínteses que foram fundamentais para a implementação do espiritismo no Brasil do século XX. Em DaMatta (1979) a dimensão simbólica do coração é associada ao improviso do malandro, própria à vertente carnavalesca da sociedade brasileira. Em Chico Xavier o coração tem a conotação homóloga de um englobamento hierárquico da razão, mas sob a influência de um código religioso, indicando uma irrestrita abertura para o Outro, encarado basicamente como um "irmão". Ou seja, trata-se de uma alternativa religiosa à carnavalização, por meio de um estilo communitas ou fraternal de ultrapassar diferenças sociais e individuais sem inversão de ordem. Recusando a vertente carnavalesca na cultura brasileira e não havendo espaço para a criação de uma nova alternativa mediadora, o modelo de Chico Xavier sofrerá uma permanente oscilação entre os paradigmas culturais do "santo renunciante" e do "caxias", assim como o espiritismo oscila entre religião e ciência, entre o religioso e o secular e entre fato e ficção em sua literatura. O ethos hierárquico, fundado na face "religiosa" da doutrina ¾ pois a parte "filosófica" e "científica" nunca aboliu a verve deslegitimadora da razão crítica ¾, transita em Chico Xavier entre uma hierarquia relacional ligada à dádiva e outra, do mérito, ancorada na noção de justiça cármica. Trata-se, assim, de tentativas de composição religiosa e ética que expressem dilemas que não são apenas do espiritismo kardecista, mas da ordem da sociedade e da cultura brasileira no século XX.

Como racionalizar o mundo, como pregar a igualdade de todos, como ser moderno sem afrontar as hierarquias estabelecidas, de tão largas raízes no Brasil? Através da combinação de um ideal cívico de religião, combinando a ordem secular com a ordem transcendente, que não implicasse numa exacerbação da verve crítica ou atomizadora do individualismo moderno. Da mesma maneira que criou modelos de pessoa e de cidadão, a literatura de Chico Xavier formatou aos leitores o convívio interpessoal e institucional no chamado mundo espiritual. Ou seja, ao mesmo tempo em que reintegrou o secular num modelo religioso, contribuiu para dessacralizar o além.

Como ser moderno, letrado, científico e laico sem ser ateu, indiferente à caridade, "subversivo" e desprovido de valores? Como ser cristão sem ser católico num país sem uma massiva tradição protestante? Não apenas pregando as concepções de carma e de reencarnação como indistinção da ordem natural e da ordem sagrada, mas também conciliando alguns dos modelos modernos de autoridade e poder, como a encarnada pela burocracia, com a tradicional devoção aos mediadores, que trilham atalhos e personalizam a rigidez dos formalismos do mundo legal brasileiro, este transposto à condição de ordem transcendente no espiritismo, como se vê em Nosso lar. Conciliar o sistema relacional da dádiva com o sistema cármico da dívida, o país tradicional com o moderno, a hierarquia com a igualdade (ainda que sem o individualismo liberal), a tradição familiar e o corporativismo, a linguagem dos espíritos com o culto aos santos, o letramento com a humildade, o coração e a razão, eis as promessas de síntese embutidas no modelo mítico de santidade de Chico Xavier.

 

Notas

1 Este artigo baseia-se em capítulo de minha tese de doutorado (Lewgoy, 2000). Agradeço a Paula Montero, orientadora, Otávio Velho, Nádia Farage, Maria Lúcia Montes e José Guilherme Magnani, membros da banca examinadora, de quem aproveitei parcialmente as sugestões.

2 "Testemunhos" nos dois sentidos, provas candentes de fé e depoimento em que supostamente o fato engloba a ficção.

3 A idéia de uma cultura "católico-brasileira" foi desenvolvida por Pierre Sanchis (1994). É também neste autor que vou me basear ao falar de sincretismo, especialmente quando ele propõe a dessubstantivação deste conceito, inspirada na discussão de Lévi-Strauss sobre o totemismo (Sanchis, 1994). Para Sanchis, o sincretismo é uma tendência conceitual abstrata do pensamento humano, resultante da influência que costumes, sistemas simbólicos e estruturas do pensamento alheias exercem sobre os seus vizinhos. A implantação social do espiritismo no Brasil não é alheia a esse fenômeno, mas não há um reconhecimento explícito da influência católica, a não ser da parte de críticos e dissidentes do movimento espírita. Ora, o fenômeno Chico Xavier mostra-nos que o espiritismo kardecista está longe de ser apenas uma tendência européia, branca e de classe média ou uma mera matriz de religiosidades vividas em nosso país. Ao contrário, a dominante cultura católica brasileira impregnou os diferentes espaços sociais, tradições e atores que vivenciam o espiritismo no cotidiano das grandes cidades brasileiras, operando-se de uma síntese original de catolicismo e de kardecismo, que ganha uma definitiva referência nacional na vida e na obra do médium mineiro.

4 Falo aqui de uma "interautoria", na qual os leitores de livros espíritas identificam uma colaboração entre espírito e médium como uma indissociável unidade, especialmente quando se trata de um médium de grande carisma, como Chico Xavier, mesmo reconhecendo-se a divisão do trabalho psicográfico e a despeito das inúmeras nuanças e pesos diferenciados de um e de outro no trabalho final. Ou seja, mesmo sendo psicógrafo, idealmente desempenhando um papel meramente instrumental, Chico é lido por seu público como imprimindo uma espécie de marca de autoridade difusa no texto, sem entretanto poder-se sustentar uma "co-autoria", como idêntica responsabilidade intelectual pela mensagem. A interautoria espírita ¾ bem entendido, não se trata de uma categoria nativa, mas do antropólogo ¾ pressupõe um composto de autoridade religiosa e autoria pelos espíritos. Reconhecendo a grande complexidade do tema, tratei-o em minha tese de doutorado (Lewgoy, 2000).

5 Os livros de Ramiro Gama e de R. A. Ranieri aproximam-se de modos populares e orais de contar casos, com intervalos descontínuos entre as pequenas narrativas, enquanto os de Marcel Souto Maior e Ubiratan Machado aproximam-se do gênero biográfico. Suely Schübert teve acesso às cartas pessoais de Chico a companheiros da Federação Espírita Brasileira, especialmente às trocadas com Wantuil de Freitas, com quem se correspondeu intensamente durante a década de 1940. Seu estilo é mais sóbrio do que dos outros autores, destacando mais aspectos íntimos da personalidade de Chico do que feitos mediúnicos, sem no entanto destoar do padrão mitologizante geral encontrado nas narrativas. A despeito das compreensíveis objeções de Chico e do movimento espírita ao livro de R. A. Ranieri (s. d.), Chico Xavier: um santo para nossos dias, ele expressa toda a ambivalência da relação desta religião com o catolicismo, da qual retira a gramática simbólica e os valores subjacentes ao modelo de santidade atualizado por sua imagem e mito.

6 Souto Maior relata uma tentativa de "linchamento pelos espíritos" assim como o episódio dos espíritos de moças nuas tentando o médium em sua banheira. Ora ambos os episódios contêm a articulação narrativa da prova ¾ comum em histórias de santidade.

7 A devoção doméstica e o papel familiar e religioso da mãe são objeto de um sem número de orientações psicográficas do mentor Emmanuel, assim como de outros espíritos, como o de Meimei, em capítulo sobre o dia das mães em Evangelho em casa (1959), ou de André Luiz, no romance Libertação (1949), em que a relação entre mãe e filho tem um papel central no desenrolar da trama.

8 Essas catálises, como na discussão de Barthes (1971), implicam a abertura da fabulação mítica para incluir um sem-número de histórias e revelações em pontos pouco explorados da biografia de Chico. Por exemplo, a relação com a madrinha obsidiada pode ser considerada uma provação expiatória, resultante de uma relação prévia em outras vidas, etc.

9 Para a influência dos códigos morais mediterrâneos no Brasil bem como sobre o lugar estrutural da categoria mãe na sociedade brasileira estou me baseando em Tarlei de Aragão (1983) .

10 Sobre as tensões entre o espiritismo e as autoridades leigas no início do século XX, ver Giumbelli (1997).

11 No culto do Evangelho no lar, o espiritismo é praticado como uma religião familiar, com preces e comentários de livros espíritas. Essa prática religiosa, que enfatiza a unidade familiar, é simultaneamente popular e polêmica no meio espírita. Há espíritas, por exemplo, que denunciam o caráter católico da prática, embutido na categoria culto.

12 É interessante que não se produz aqui uma conexão anterior dos parentes de Chico em vidas passadas como em sua relação com Emmanuel, de quem teria sido a filha mártir, durante o Império Romano. Trata-se, como boato, de uma dinâmica oral, agonística e situacional, nos termos de Walter Ong (1982).

13 Sobre as tendências católicas à censura de leituras, há o trabalho de Aparecida Paiva (1997).

14 Saliento que esta atitude não surge com Chico, mas já estava presente com os chamados "místicos", desde Bezerra de Menezes e a ascensão do "rustanguismo", um espiritismo influenciado pelo catolicismo na Federação Espírita Brasileira (Santos, 1997).

15 "Baixo-espiritismo" na acepção espírita, ainda que Chico sempre tenha se referido respeitosamente a umbanda como simplesmente diferente, o fato é que nem pretos velhos, nem exus ou outros espíritos ligados a divindades africanas, comparecem em suas histórias.

16 Como se vê, há uma inspiração maussiana nessa fórmula, de caráter metafórico e na qual pretendo condensar os princípios que norteiam a ação simbólica de Chico Xavier no mundo.

17 Para uma conceituação de "carma" no sentido mais racionalizante ver Cavalcanti (1983). Em Chico Xavier o carma é manipulável e composto com a possibilidade da graça, como faço alusão a seguir.

18 Dessa forma, Chico tem uma relação de caxias com a ordem, é formal e discursivo, passivo e legalista. Em qualquer dos casos, sua posição é sempre de subordinado, aos espíritos e aos homens.

19 Nas recomendações espíritas o carnaval, como as festas e os prazeres em geral, deve ser vivido com moderação. Como resultado, entre os espíritas praticantes, há aqueles que se retiram durante o carnaval e outros que dele participam.

20 Essa atualização de uma tensão entre um humano, que considera seriamente a opção de dedicar-se aos negócios privados, e um plano espiritual divino, que lhe atribui uma missão, ganha um decisivo espaço no mundo do moderno individualismo. A esse respeito, o instigante ensaio "Jesus Cristo na literatura", de André Dabezies (1998), discute as apropriações literárias da figura de Jesus ao longo dos tempos. É com o romantismo e a crítica bíblica, ou seja, nos séculos XVIII e XIX, que o destaque à "divindade" de Jesus começa a sofrer questionamentos e nuanças em prol da sua "humanidade", ainda que um vínculo pessoal e próximo com o "mestre" fosse um tema medieval muito tradicional. Creio que no caso de Chico Xavier, essa atração do individualismo é apenas um recurso de verossimilhança a elevar o valor de sua santidade e não propriamente uma fonte de tensão.

21 Comuns nos anos 30, esses posicionamentos ecoarão nos mais diversos setores, desde militares até clérigos e intelectuais da Igreja Católica, como mostra o seguinte texto de revista eclesiástica da época: "Enquanto indivíduo, o homem deve obediência ao Estado ; enquanto pessoa sujeita-se aos princípios morais ditados pela Igreja". (Editorial de A ordem, ano XIII, n. 26, abr. de 1932: p. 242, apud Sadek., 1977: 98). Há também semelhanças com o corporativismo de Oliveira Viana, crítico tanto do individualismo quanto da efervescência pregada pelos totalitários (como Plínio Salgado) e entusiasta de uma concepção orgânica de Estado: "O conceito chave [de Viana] era o de pessoa, tirado da tradição católica. A pessoa é o indivíduo inserido numa rede de relações, um indivíduo que mantém sua identidade, que deve ter seus direitos respeitados". (Carvalho, 1998: 225)

22 Sobre a questão do "baixo espiritismo" e sua relação com a implantação social do espiritismo, ver Giumbelli (1997).

23 Estou entendendo estadania no sentido de Carvalho (1998), como a impossibilidade de realização da cidadania fora de uma ordem que sujeita o indivíduo antes ao Estado do que à sua consciência.

24 No sistema simbólico em questão temos um conjunto homólogo de oposições instaurado pela oposição abstrata "alto" x "baixo": espíritos superiores: espíritos inferiores :: espírito:matéria :: alto:baixo :: sutil :denso :: Plano Espiritual: Plano Terreno, logo os espíritos desencarnados estão numa posição materializada e densa, próxima à situação dos homens, de onde se explica o seu comportamento "baixo".

25 Em minha pesquisa, ouvi de alguns interlocutores espíritas restrições à prática da doação material. Para eles, uma necessidade material pode ser uma provação necessária e a caridade, neste caso, estaria mais no esclarecimento espiritual do que na ajuda material.

26 Deve-se evitar a tentação de fazer esta oposição equivaler à concepção saussuriana do signo, que pressupõe a unidade indissociável de significante e significado. Desde o Livro dos espíritos, Allan Kardec assume uma espécie de platonismo, que valoriza o conteúdo em detrimento da forma tanto em arte (na qual o conteúdo moral é superior, mais verdadeiro e mais belo em face da apresentação formal) como na linguagem, em que o "pensamento" é distinto da linguagem. Só os espíritos "menos evoluídos" a utilizam e a tendência do progresso evolutivo implica a eliminação da necessidade da articulação verbal, da linguagem utilizada por espíritos menos evoluídos, em benefício do pensamento. É óbvio que a oposição hierárquica entre espírito x matéria está replicada na oposição entre pensamento e linguagem.

27 Não pretendo esgotar a discussão de um tema tão amplo e complexo quanto o politicamente correto num pequeno texto. Há uma boa discussão do assunto em Ribeiro (2000).

28 Sobre a gestão de Guilhon Ribeiro à presidência da FEB, ver Giumbelli (1997).

29 Sobre a cultura brasileira ser tradicionalmente mais oral do que letrada, ver Cândido (2000).

30 Sobre a polêmica ensejada pelo caso Humberto de Campos, ver Timponi (1984) e Bertolli Silva (1997).

31 Sobre o pacto áureo, ver Aubrée & Laplantine (1990) e Santos (1997).

32 Interessante como Chico Xavier foi recebido com reservas por espíritas gaúchos, à mesma época, conforme relata Sueli Schubert. No espiritismo, esses conteúdos são quase sempre sintomáticos de disputas entre grupos, com apelo a referências espirituais como fontes de autoridade na condução da disputa.

33 A categoria "plano espiritual" é fundamental no espiritismo. Trata-se de um termo polissêmico, que designa o lugar onde habitam os espíritos e um conjunto de valores que orientam as suas ações, simultaneamente um parâmetro de seu ethos e um projeto para o mundo.

34 Paul Ricoeur (1995) sustenta que a narrativa é uma forma de inovação através da linguagem, em que há um "agenciamento de elementos heterogêneos através do tempo". O discurso narrativo, no caso do espiritismo, dá concreção e didática a uma doutrina fortemente abstrata, mas a ela coaduna-se em vista da crença no carma (ou "lei de causa e efeito", no kardecismo) no qual toda a ação tem conseqüências no tempo, exatamente um dos princípios da narrativa em geral.

35 Os quatro evangelhos, psicografados por Jean-Baptiste Roustaing, um contemporâneo de Kardec, pretendiam apresentar uma nova versão dos Evangelhos e, desde então, tem sido um objeto de polêmica entre os espíritas brasileiros.

36 Para um estudo sobre as mudanças no público e no mercado editorial brasileiro a partir dos anos 60, ver o trabalho de Sandra Reimão (1996).

37 Sem pretender extrair conclusões taxativas da evolução cronológica, pode-se arriscar a hipótese de que essas transformações sinalizam uma nova relação do espiritismo com o seu público leitor, especialmente na época do desenvolvimentismo econômico, entre os anos 40 e os 60, quando se expandem os setores sociais médios da população.

38 Para o caso da umbanda, ver Ortiz (1991).

39 Sobre a formação do campo intelectual no Brasil centrado na literatura, ver Cândido (2000), Castro Rocha (1998) e Miceli (1979).

 

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ABSTRACT: The present article is a reading of the place of the phenomenon Chico Xavier in the Brazilian culture and society. Starting from the recognition of his crucial importance as a mythical model of exemplary spiritualist, the absolute prominence of the medium in the history of the Brazilian spiritualism will be interpreted in the light of a cultural code articulated in his biography, that synthesizes the Brazilian mythical characters of the "saint" and of the "caxias". Unfolded from his life and works the model of spiritualism built by Chico Xavier evidences the kardecismo's dominant religious point of view along the 20th Century, while citizenship model, religious practice and national project.

KEY-WORDS: Spiritualism, Chico Xavier, Religion, Brazilian Culture.

 

 

Recebido em maio de 2001.

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