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Revista de Antropologia

versão impressa ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. v.44 n.2 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012001000200009 

Keifenheim, Barbara. Wege dv Sinne. Wahrnehmung und Kunst beiden Kashinawa-Indianern Amazoniens. [Campus Verlag], Frankfurt/New York, 264 pp. (Caminho dos sentidos. Percepção da arte entre os índios Kashinawa da Amazônia).

 

Renate Brigitte Viertler
Professora aposentada do Departamento de Antropologia ¾ USP

 

 

Este livro representa um estudo muito bem feito da arte ornamental dos Kashinawa, da região Purus-Curanja, em território peruano.

A autora, de forma sensível e inteligente, ilumina de modo original a relação entre modalidades de percepção e arte ornamental expressa em padrões que caracterizam a tecelagem e a pintura facial entre os Kashinawa por ela estudados por um longo período de pesquisas, de 1977 a 1996.

Desenvolve a teoria de Antropologia da Arte e contempla o leitor com constatações surpreendentes no contexto de um universo de sentidos e de percepções dos Kashinawa que, diferentemente do universo cultural europeu, não confere primazia aos aspectos visuais.

A autora inicia a sua obra com um balanço crítico das várias teorias relativas à arte (Capítulo 1: Problematização e fundamentos teóricos), ressaltando que o seu interesse consiste em demonstrar a complementaridade entre "visualização" e "visualizado", entre "olhar" (Blick) e "representação pictórica" (Bild), dinâmica de sentidos esta que permite compreender a arte ornamental kashinawa. Parte também do pressuposto de que todas as formas de visualização e de representação gráfica ou pictórica seguem códigos culturais específicos que se relacionam com várias modalidades de imaginação (de pensamento, de sonhar, de alucinação, de rememorização).

Os ornamentos kashinawa são interpretados enquanto "objetos visuais", e destacam vários princípios formais que engendram a sua constituição. A autora se propõe a compreender o modo específico pelo qual os Kashinawa conferem sentidos a partir da dinâmica entre o observador (olho) e o ornamento (quadro, representação), sugerindo um novo paradigma em que se acentua, a processualidade e a performatividade da construção de sentido, em vez de focalizar a estrutura e o sistema tal como o faz a abordagem iconográfica.

A partir dessas hipóteses, a autora tece considerações críticas a respeito de vários limites teóricos ligados ao estudo antropológico da arte (obras clássicas de Anthropology of Art, Antropologia Estética tal como é desenvolvida no Brasil, Antropologia Visual e Antropologia dos Sentidos).

O contexto etnográfico dos Kashinawa nos é apresentado num segundo capítulo (Introdução ao contexto etnográfico) em que a autora apresenta dados históricos e informações relativas à situação dos Kashinawa no contexto do contato interétnico, bem como mudanças sociais mais dramáticas por eles sofridas, representações da identidade étnica kashinawa ante a outros grupos não kashinawa, tensões e conflitos internos, tendências à sedentarização e seus efeitos.

Num terceiro capítulo (Conceitos fundamentais e compreensão do mundo), a autora nos familiariza com conceitos dos Kashinawa importantes à compreensão da percepção do seu universo (o conceito de realidades múltiplas que se interpenetram, o conceito de "espírito", representações das almas dos mortos e do além, o espírito das fezes, o espírito da urina, o espírito dos olhos, o espírito do "corpo-sombra", a consciência integrativa).

O processo complexo da percepção e da determinação de sentidos nos vários domínios do sentido é magistralmente examinado num quarto capítulo (Percepção e outorgação de sentido), em que a autora também discute formas de percepção que emergem em contextos de estados alterados de consciência (sonhos, delírios, alucinações provocadas por drogas). Ressalta o excelente domínio por parte da autora no manejo de referências lingüísticas, indispensáveis ao tipo de abordagem por ela desenvolvida. Nesse capítulo, a autora trata da percepção e da outorgação do sentido nos seguintes domínios: gosto ou paladar (com especial ênfase ao gosto da carne, à diferença entre preferências gustativas de vivos e mortos, de brancos e Kashinawa, às implicações psicossócioculturais do "amargo", da "doçura"), tato (enfatizando-se o "frio", o "calor", a "moleza", a "dureza", a "pele como órgão de conhecimento"), audição ("ouvir durante a caçada", "ouvir e ver em lugares distantes", "ouvir por meio de notícias", "ouvir no espaço interno à aldeia", "ouvir e interação social", "qualidades vocais e sua diferenciação entre os sexos", "vozes de chefes e de xamãs", "a voz dos brancos e perigos da transferência de substâncias"), o olfato (dos "órgãos sexuais", do "suor", dos "menstruos", dos "animais", da "decomposição", de uma "espécie viva", de "camuflagem", de "atração entre os sexos", de "comunicação com o sobrenatural"), a inibição das percepções sensoriais cotidianas (os alucinógenos e seus efeitos, alterações do dispositivo perceptivo, diferença nos estados alterados da consciência entre cantadores e outros participantes, a visualização das vozes dos cantores, síntese dos conceitos relacionados à percepção visual e diferenciações do "olhar").

Enfim, com todo este pano de fundo, a autora logra chegar ao seu objeto de estudo: a ornamentação Kashinawa (Capítulo 5: Análise da ornamentação Kashinawa), lugar em que, partindo da consideração de motivos ornamentais feitos em artefatos, tecidos, cestaria e pinturas faciais, banquinhos rituais, máscaras de cabaça e outros objetos rituais, ela se propõe a demonstrar a relação dinâmica entre ornamento e olhar, com o intuito de focalizar os princípios, que regem a composição das formas ornamentais bem como os depoimentos dos Kashinawa sobre os efeitos de percepção que podem surgir ao olharem tais motivos designados na língua como kene na língua Kashinawa. Após desenvolver as implicações semânticas da categoria kene, a autora abre mão da hipótese de que os motivos poderiam representar marcas diacríticas no contexto interacional. Passa a discorrer sobre as origens míticas dos kene e os rituais associados com a sua transmissão às jovens que se submetem a condições de dieta especiais e são obrigadas a se absterem de falar a fim de se deixarem impregnar pelo espírito da anaconda (boa), a origem dos kene.

Os ensinamentos assim obtidos pela mulher conferem-lhe alto prestígio, estando igualmente associados à transgressão sexual e a conhecimentos femininos de ordem sigilosa.

A autora trata ainda de aspectos de significado das cores no contexto dos motivos decorativos faciais e corporais, além de apresentar uma análise e interpretação das formas kene, encerrando este capítulo com considerações interessantes sobre a vivência da visão ornamental enquanto processo de percepção em constante transformação.

No seu último capítulo (Síntese dos resultados da pesquisa), deparamo-nos com a comprovação da indissolubilidade entre aquele que olha e aquilo que é olhado, dinâmica constitutiva do motivo ou representação decorativa, kene. Assim, há uma relação dialética entre o sentido e significado dos motivos e a vivência de quem "olha ornamentalmente", ambos partes de um todo, constituindo-se como um processo de vivência em constante movimento. Assim, desvendar os kene não significa decodificá-los apenas no sentido semântico, mas envolve vivenciá-los a partir de movimentos de percepção humana culturalmente contextualizados, induzidos por um jogo processual de capacidades cognitivas e imaginativas ¾ uma dinâmica de síntese entre o percebido e o pensado, que juntos constróem o significado das formas da beleza.

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