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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.45 no.2 São Paulo  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012002000200011 

Fabíola Andréa Silva

Museu de Arqueologia e Etnologia – USP

 

 

Gomes, Denise Maria Cavalcante.
Cerâmica arqueológica da Amazônia. Vasilhas da Coleção Tapajônica MAE–USP, São Paulo, Edusp/Fapesp/Imprensa Oficial do Estado, 2002, 355 p.

Este livro de Denise Maria Cavalcante Gomes constitui-se de um estudo sobre a Coleção de Cerâmica Arqueológica Tapajônica existente no acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, desde o ano de 1971. A mesma foi adquirida com o auxílio da Fapesp tendo sido formada a partir da agregação de duas coleções particulares pertencentes, respectivamente, a Ubirajara Bentes e José da Costa Pereira que coletaram as peças, ao longo de vinte anos, em uma área desde Santarém até o rio Xingu. Trata-se de uma coleção bastante diversificada e que totaliza mais de 8 mil peças cerâmicas (exemplares inteiros e fragmentos de vasilhas cerâmicas e estatuetas) e material lítico.

Em seu trabalho a autora analisou um universo de 1.256 exemplares de vasilhas cerâmicas e apêndices, ressaltando os seguintes aspectos: forma, tecnologia, técnicas decorativas e iconografia. Seu objetivo era contribuir para o debate arqueológico sobre a cronologia da área Tapajós-Trombetas bem como, sobre o desenvolvimento cultural nesta área da Amazônia, no que tange às hipóteses sobre complexidade social e a existência de cacicados. Cabe ressaltar que na bibliografia etno-histórica essa área foi descrita como densamente ocupada, cuja população estaria distribuída em grandes assentamentos de milhares de pessoas, com uma organização social hierarquizada e com a presença de lideranças políticas e guerreiras. Alguns autores apontam inclusive que poderia haver uma hierarquia entre os assentamentos e uma interdependência regional entre eles.

Para alcançar seus objetivos a autora organizou seu trabalho em cinco capítulos. No primeiro, procurou sintetizar o conhecimento existente sobre a Arqueologia da área Tapajós-Trombetas, desde as primeiras escavações no século XIX, até as pesquisas recentes levadas a cabo pelo Projeto Baixo-Amazonas. A fim de contextualizar cientificamente essas pesquisas. No segundo capítulo, evidenciou os diferentes modelos teóricos que nortearam as mesmas e, conseqüentemente, definiram o teor das interpretações sobre os registros arqueológicos. No capítulo seguinte descreveu os seus procedimentos de análise da Coleção Tapajônica, explicando sua metodologia e critérios de investigação da forma, tecnologia e decoração dos objetos cerâmicos. Ao mesmo tempo, estabeleceu um perfil da coleção estudada que, por sua vez, se revelou como um conjunto artefatual muito diversificado em termos estilísticos. No quarto capítulo a autora propôs uma ordenação cronológica para os conjuntos cerâmicos e, para tanto, fez uso da seriação e do método estatístico de análise modal. E, finalmente, no último capítulo reproduziu a discussão sobre a questão da existência de cacicados na Amazônia, ressaltando a importância, bem como as limitações, da bibliografia etno-histórica e a necessidade da continuidade das pesquisas arqueológicas na região.

O estudo da Coleção Tapajônica possibilitou à autora identificar o que ela chamou "de um estilo Santarém-Aldeia que, possivelmente, estava sendo copiado por outras comunidades do Baixo-Amazonas" (: 160). Segundo ela, essa situação refletiria processos de interação entre comunidades mas com a existência de centros de poder. Ela concluiu seu trabalho ressaltando que à existência de uma cultura tapajônica homogênea deve ser questionada e que se deve reconhecer "a diversidade da cultura material, no tempo (seqüência cronológica) e no espaço (variações estilísticas)" (: 166). Com relação à existência de cacicados manteve-se cautelosa mas apontou que as características extremamente elaboradas da cerâmica poderiam ser um possível indicador da complexidade social das comunidades que as produziram.

Nesse sentido, pode-se entender a importância deste trabalho não como uma tentativa de apresentar novas e definitivas conclusões sobre os temas pesquisados, mas, acima de tudo, como um acréscimo de novos dados às discussões já existentes sobre a ocupação e desenvolvimento cultural da região Tapajós-Trombetas.

Além desse aspecto, o trabalho de Denise Maria Cavalcante Gomes também possui relevância no contexto das discussões que vêm sendo levadas a cabo sobre a importância dos estudos de coleções de museus e, ao mesmo tempo, sobre o papel dos museus enquanto instituições que devem ser vistas não como depósitos de objetos mas como locais de produção de conhecimento a respeito dos mesmos.

Na história dos museus, o trabalho de colecionar os artefatos das populações ameríndias iniciou-se desde o descobrimento do Novo Mundo e foi levado a cabo por viajantes e naturalistas embebidos do espírito colecionista da época. Cabe lembrar que as coleções por eles produzidas geraram os chamados Gabinetes de Curiosidades que atraíam o público pelo caráter exótico e peculiar dos materiais que apresentavam.

O entendimento das coleções etnográficas enquanto objetos de estudo, porém, somente ocorreu no final do século XIX, quando a Antropologia se desenvolveu como disciplina. Esta passou a realizar um trabalho de classificação desses objetos a partir de aspectos como o meio ambiente, a técnica e a forma. Tratava-se, principalmente, de um trabalho descritivo que procurava ordenar os mesmos tanto em áreas geográficas como culturais, mas que negligenciava a investigação sobre a sua dimensão social e simbólica.

Com o tempo, a Antropologia perde o interesse por esses materiais e as coleções, enquanto objetos de estudo, passam a ser abandonadas. Isso foi um reflexo da desvalorização da cultura material nas pesquisas etnológicas, cuja ênfase era direcionada para outros aspectos dos sistemas culturais como, por exemplo, a organização social e a cosmologia das populações pesquisadas. Somente após a percepção de que a cultura material traz uma riqueza de informações sobre aspectos da vida social e sobre o simbolismo daqueles que a produziam, é que essa temática readquiriu importância no interior da disciplina e, conseqüentemente, o estudo de coleções transformou-se em uma abordagem a mais para a compreensão do modo de vida das populações indígenas.

Atualmente, embora se compreenda que os objetos existentes nos museus são dotados de significados e valor cultural, os estudos sobre coleções etnográficas ainda não são muito abundantes, inclusive porque as condições dos acervos não são muito animadoras. Tais coleções podem estar armazenadas sob condições precárias, sem uma boa documentação associada, podem estar incompletas etc. No entanto, tem-se reconhecido o potencial de se trabalhar com esses documentos, tomados como fontes de pesquisa e conhecimento.

O trabalho de Denise Maria Cavalcante Gomes é um exemplo disso, pois muito embora a Coleção Tapajônica apresentasse problemas de coleta, documentação e contextualização, a autora conseguiu, de forma bastante pertinente, traduzir alguns dos possíveis significados que esses objetos possuem, acrescentando novos dados à importante reflexão sobre a história cultural da Amazônia.

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