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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.46 no.2 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012003000200004 

Depoimento

 

 

Gustavo Lins Ribeiro

Presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

 

 

Em novembro de 2002, compareci, como presidente da ABA, a um café-da-manhã de trabalho oferecido pelo presidente da Associação Americana de Antropologia (AAA) a todos os presidentes e representantes de associações presentes na reunião da AAA que, em Nova Orleans, comemorava seus 100 anos de criação. No início dos trabalhos, vários de nós cumprimentamos Don Brenneis, o então presidente da AAA, pelo centenário da associação. A representante do Instituto Real Antropológico, da Grã-Bretanha, após enaltecer o grande momento, relembrou, em tom de brincadeira, que 100 anos eram certamente um período de tempo expressivo mas que seu instituto já existia há 150 anos. Aproveitei e informei que no Brasil estávamos, em 2003, por comemorar os 50 anos da primeira reunião de antropologia e que a fundação da ABA só havia ocorrido dois anos depois, em 1955, em Salvador, na Bahia. Vários manifestaram surpresa ao saber que no "Sul" havia uma associação tão antiga e forte que promovia reuniões nacionais juntando entre 1.500 a 2.000 pessoas, talvez as maiores após as norte-americanas.

De fato, uma associação científica, apoiada no trabalho voluntário e na contribuição de seus membros, ter atravessado diferentes períodos da história do Brasil – inclusive uma ditadura militar de mais de duas décadas – e ter crescido e se consolidado como a legítima voz dos antropólogos brasileiros é fato merecedor de curiosidade e destaque. Na América Latina, inclusive em países com forte tradição antropológica como o México, não existe algo semelhante. Todos sabemos como a história das instituições dependem de lideranças que, com seu entusiasmo, sua perseverança e capacidade de articulação, alcançam objetivos do interesse maior de uma coletividade.

Esse é o caso não apenas da ABA mas da Revista de Antropologia, fundada em junho de 1953, sob a direção do professor Egon Schaden, da Universidade de São Paulo, uma das principais lideranças da antropologia brasileira no século XX. É bom lembrar que o apoio a publicações científicas à época não equivalia ao que hoje conhecemos. Não por outra razão, Egon Schaden, na apresentação da revista em seu primeiro número, após verificar a necessidade de um periódico para fazer frente ao "notável impulso" dado à antropologia por sua inclusão nos cursos universitários do Brasil, afirmava a "boa dose de temeridade" do "empreendimento, que, embora contando com o patrocínio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, não tem ainda os alicerces econômicos garantidos. Sem o sacrifício e a cooperação ativa e eficiente dos que, em nossa terra, se interessam pelo desenvolvimento da antropologia, a revista não poderá firmar-se". Atualmente, dessa posição privilegiada de quem se debruça sobre 50 anos passados, podemos ver que, felizmente, as apreensões do professor Schaden foram mais do que tudo um alerta pois, nessas décadas, graças aos esforços de gerações de colegas da USP, a Revista de Antropologia manteve-se como um dos principais órgãos de divulgação de nossa disciplina.

Nesse período, a história da ABA e da Revista de Antropologia se entrelaçaram de várias formas. Já em seu primeiro número, na seção denominada "Pequenas Comunicações e Noticiário", consta a chamada, na página 72, da I Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), que viria a ser realizada, de 8 a 14 de novembro de 1953, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro; organizada por uma comissão secretariada pelo professor Luiz de Castro Faria, que viria a ser o primeiro presidente da ABA. É interessante reproduzir os "centros de interesse para as comunicações", pois que permitem observarmos tanto como eles refletem aquele momento da prática antropológica quanto como certos tópicos são prioritários há algum tempo:

problemas de ensino da antropologia; possibilidades de pesquisa e de exercício da atividade técnico-profissional (instituições oficiais e particulares); o indígena; o negro, o branco povoador, imigrantes de diferentes origens; estudo de comunidades; áreas regionais; cultura e personalidade; antropologia física; arqueologia; lingüística.

A Revista de Antropologia é, em diversos aspectos, uma grande fonte sobre a história da antropologia no Brasil, em especial por ter contado, durante anos, com uma seção denominada "Noticiário", onde vários dos principais eventos vinculados à construção do campo da antropologia eram registrados. No mesmo primeiro volume da revista, nota-se, ainda, como as relações entre a antropologia e a sociologia são estreitas há muito tempo. Na página 144, está uma chamada para o I Congresso Brasileiro de Sociologia que seria realizado de 21 a 27 de junho de 1954, em São Paulo, sob o patrocínio da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Nele podiam "inscrever-se também antropólogos e etnólogos". De fato, dentre os três grandes conjuntos de tópicos que compunham o programa do congresso encontravam-se "Organização Social" e "Mudança Social"; que se subdividiam em temas como estrutura de comunidade (indígena, rural, urbana, rural-urbana), família e parentesco, relações étnicas, correntes migratórias internas e estrangeiras. Além disso, o relacionamento próximo entre sociólogos e antropólogos revelava-se na própria comissão organizadora, constituída por Fernando de Azevedo (presidente), Antônio Rubbo Müller (1º secretário), Vicente Unzer de Almeida (2º secretário), Egon Schaden (tesoureiro), Luiz Aguiar da Costa Pinto e L. Pinto Ferreira. A Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo patrocinou, igualmente, o XXXI Congresso Internacional de Americanistas, cuja primeira circular encontra-se na página 71, do mesmo volume da Revista de Antropologia. Sua comissão organizadora tinha a seguinte composição: presidente, Hebert Baldus; 1º secretário e tesoureiro, Antônio Rubbo Müller, da Escola de Sociologia e Política; 2º Secretário, Harald Schultz, do Museu Paulista; conselheiros, Paulo Duarte, da Consultoria Técnica do Serviço de Congressos da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, Plínio Ayrosa, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

O segundo volume da Revista, publicado em 1954, apresenta notícias sobre os mencionados congressos. A I Reunião Brasileira de Antropologia (1953) teve como presidente de honra Edgard Roquette-Pinto e foi claramente organizada nos moldes dos quatro campos boasianos. A Revista de Antropologia publicaria duas comunicações apresentadas na primeira RBA: um artigo sobre "Problemas de ensino da antropologia", de Egon Schaden (vol. 2, n. 1, p. 1-10), e outro intitulado "Possibilidades de exercício de atividades docentes, de pesquisa e técnico-profissionais por antropólogos no Brasil", de Mário Wagner Vieira da Cunha (vol. 3, n. 2, p. 105-14), demonstrando o longo interesse que os antropólogos têm com relação ao aperfeiçoamento de sua prática no país. A reunião contou com a participação de profissionais como Egon Schaden, Antônio Rubbo Müller, Heloísa Alberto Tôrres, Mário Wagner Vieira da Cunha, José Loureiro Fernandes, Herbert Baldus, Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, Edison Carneiro, Roger Bastide, José Bonifácio Rodrigues, Manuel Diégues Júnior, Luiz A. Costa Pinto, Oracy Nogueira, Thales de Azevedo, Fernando Altenfelder Silva, René Ribeiro, Bastos de Ávila, Maria Júlia Pourchet, Pedro de Lima, Renato Locchi, Tarciso Tôrres Messias, Odorico Machado de Souza, Luiz de Castro Faria, Matoso Câmara, Serafim da Silva Neto e Jürn Philipson. Na primeira RBA estabeleceu-se uma convenção para a grafia dos nomes de populações indígenas no Brasil.

Já o XXXI Congresso Internacional de Americanistas (1954), cujo presidente de honra foi o então general Cândido Mariano Rondon, teve a participação de mais de 300 pessoas de 35 países. Foi presidido por Paul Rivet e secretariado por Herbert Baldus. Dentre os "trabalhos programados" encontravam-se os de Luiz de Castro Faria, Gerardo Reichel-Dolmatoff, Arion Dall'Igna Rodrigues, Florestan Fernandes (apresentando "O continuum rural-urbano em São Paulo"), Charles Wagley, Egon Schaden, Antonio Cândido, Gioconda Mussolini, Heloísa Alberto Tôrres, Betty J. Meggers, Fernando Altenfelder Silva, David Maybury-Lewis (lendo um texto de Robert H. Lowie e apresentando um trabalho sobre bordunas xavantes), Fernando de Azevedo, Oracy Nogueira, Marvin Harris, Alberto Rex Gonzalez, Darcy Ribeiro, Fernando Ortiz, Duglas Teixeira Monteiro, René Ribeiro, Roger Bastide, Melville J. Herskovits e muitos outros.

Além de ser uma excelente fonte sobre a história da antropologia no Brasil, a partir do seu quarto volume, editado em junho de 1956, a Revista passa a ser "órgão oficial" da Associação Brasileira de Antropologia, atributo que manteve por mais de duas décadas até o volume número 23, de 1980. É particularmente interessante o relatório detalhado, publicado no oitavo volume, sobre a IV Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em Curitiba, de 15 a 18 de julho de 1959. Além do conteúdo científico do encontro, nele estão várias resoluções da ABA que demonstram o inequívoco comprometimento da associação com o bem-estar das populações indígenas e a preocupação constante de relacionar o conhecimento e a pesquisa antropológicos com os problemas enfrentados pelo país.

A Revista de Antropologia atravessou meio século cumprindo um papel central na difusão do conhecimento antropológico de ponta no Brasil por meio da publicação de textos de autores nacionais e internacionais. Seu fundador, Egon Schaden, tinha uma visão do futuro da revista quando, no primeiro número de seu segundo volume publicado em 1954, agradecia a "acolhida que se lhe dispensou, bem como a boa vontade demonstrada por autores nacionais e estrangeiros, que a honraram com sua excelente colaboração. Se continuar a merecer esses favores, a Revista poderá ir se aperfeiçoando em vários sentidos e contribuir, ao que esperamos, para a elevação do nível dos estudos antropológicos em nossa terra". Os antropólogos brasileiros, 50 anos depois, podem nesse circuito kula do qual fazemos parte, afirmar, em sintonia com a generosidade do reconhecimento precoce feito pelo professor Schaden, que muito se deve à presença da Revista de Antropologia em nosso meio. Estou certo de que o presidente ou a presidenta da ABA, daqui a 50 anos, louvará o trabalho dos colegas da Universidade de São Paulo, pois a Revista de Antropologia continuará demonstrando a qualidade da antropologia que se faz no Brasil e no mundo.

 

 

Recebido em outubro de 2003.

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