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Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.46 no.2 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012003000200007 

Depoimento

 

 

Renato da Silva Queiroz

Professor titular do Departamento de Antropologia – USP

 

 

O ano: 1978, salvo engano. O professor João Baptista Borges Pereira anunciava que o professor Egon Schaden decidira entregar a prestigiosa Revista de Antropologia, órgão oficial da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), aos nossos cuidados. "Nossos" traduzia o restrito número de professores que integravam a área de Antropologia do então Departamento de Ciências Sociais da FFLCH-USP.

A Revista seria nossa, mas sob certas condições. Em primeiro lugar, dever-se-ia manter seu tradicional projeto gráfico, sobretudo a cor amarela, sobre a qual se destacavam, na capa, as letras impressas em preto. Cláusula de preservação da identidade do periódico, não caberia justamente aos antropólogos desacatá-la. Em segundo, era preciso reorganizar e ampliar o arquivo de endereços dos pesquisadores e das instituições para os quais o professor Schaden remetia, pessoalmente, os exemplares da Revista, e com isto obtinha, mediante permuta, preciosos periódicos nacionais e estrangeiros para o acervo de nossa biblioteca. Foi providencial um auxílio financeiro da Fapesp para que essa tarefa se completasse. E, por último, a cada novo número um artigo de etnologia deveria abrir a publicação, em respeito à política editorial até então adotada (reconhecedora da importância dos povos indígenas), que incluía, ademais, o incentivo à elaboração de resenhas.

Ficou estabelecido que a direção da Revista caberia ao professor João Baptista, e a mim, a função de secretário. A cada nova edição apresentavam-se os mesmos problemas: avarias nas máquinas da gráfica da Faculdade de Filosofia, funcionários recém-contratados que pelejavam com o novo ofício etc. etc. A revisão de artigos, resenhas e comunicações, bem como a correção das diversas provas, que a gráfica nos encaminhava, exigiam bastante trabalho. Naquela época não se contava com os modernos equipamentos informatizados disponíveis atualmente. A propósito, convém que todos saibam que o professor João Baptista reservava para si a revisão dos artigos, impressos em letras grandes, deixando aos meus cuidados os textos estampados em letras miúdas – resenhas, comunicações e notícias.

Durante muitos anos a Revista de Antropologia foi praticamente o único periódico brasileiro especializado em nossa área de conhecimento. E, fiel aos princípios antropológicos, aceitava contribuições variadas, fossem elas oriundas da sociologia, arqueologia, Pré-história etc. Tal linha editorial talvez se deva à rica pluralidade disciplinar que configura o curso de ciências sociais ministrado na USP, cujos estudantes recebem sólida formação em antropologia, sociologia e ciência política.

Anos mais tarde outros colegas assumiriam a direção da Revista, que, em 2003, completa 50 anos de existência, apresentando agora um perfil mais profissionalizado do que aquele vigente em seus anos "românticos". Trata-se de um prolongado período, considerando que os periódicos nacionais têm, habitualmente, curta expectativa de vida. Numerosos trabalhos da maior importância encontraram acolhimento na Revista de Antropologia, que jamais estabeleceu qualquer discriminação entre autores nacionais e estrangeiros, nem se preocupou em definir temas considerados de maior ou menor relevância acadêmica. Afinal, é essa a sua identidade.

Cabe mencionar, por fim, os aparentemente despretenciosos noticiários estampados pela Revista, por meio dos quais a comunidade dos antropólogos tomava ciência de assuntos relevantes, como a notícia do sepultamento dos restos mortais de Curt Nimuendaju, iniciativa da professora Tekla Hartmann, num gesto de profundo respeito à memória do grande etnólogo teuto-brasileiro.

 

 

Recebido em dezembro de 2003.