SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.48 issue2Chimpanzés não amam! Em defesa do significadoContemporary art and anthropology author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista de Antropologia

Print version ISSN 0034-7701

Rev. Antropol. vol.48 no.2 São Paulo July/Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012005000200009 

ARTIGOS

 

Assistir, ouvir, ler e narrar: o papel da mídia nas construções identitárias étnicas1

 

 

Maria Catarina Chitolina Zanini

Professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais – UFSM-RS

 

 


RESUMO

Este artigo objetiva analisar algumas relações existentes entre as identidades étnicas e a mídia, em especial a televisão. Partindo-se de pesquisa etnográfica entre descendentes de imigrantes italianos na região central do Rio Grande do Sul, no Brasil, tomou-se como estudo de caso a recepção da novela Terra Nostra, exibida pela Rede Globo de Televisão em 1999-2000. A recepção da telenovela favoreceu a reflexividade acerca da noção de pertencimento "italiano" e promoveu uma série de diálogos entre a tradição imaginada e alimentada em nível local e aquela transmitida pela televisão. Esses diálogos centravam-se, em particular, sobre a questão de gênero, a sexualidade, as narrativas do processo colonizador e os elementos diacríticos presentes na italianidade paulista, que entravam em desacordo com os padrões valorativos locais.

Palavras-chave: identidade étnica, italianos, televisão.


ABSTRACT

This paper aims to analyze some of the relations that exist between ethnic identities and the media, especially television. Springing from ethnographic research on the descendants of Italian immigrants in the state of Rio Grande do Sul, in Brazil, the reception of the television soap opera Terra Nostra, broadcasted by Globo broadcasting network in 1999-2000, was used as a case study. The reception of the soap opera favored the reflection of the notion of "Italian" belonging and encouraged a series of dialogs between the imagined and locally perpetuated tradition and that, which was transmitted on television. In particular, the questions of sex, sexuality, narratives of the colonization process and the diacritical elements present in the community of Italian descendants in São Paulo were some points in which there was a divergence from local value patterns.

Key-words: ethnic identity, italians, television.


 

 

Partindo de experiência etnográfica (de 1997 a 2001) entre descendentes de imigrantes italianos da região central do Rio Grande do Sul2, pretendo tecer algumas considerações, preliminares ainda, acerca da influência dos meios de comunicação, especialmente da televisão, nos processos de construção das identidades étnicas3. De que forma os meios de comunicação dialogam com os processos de construção das identidades étnicas? Há tensão em tais diálogos? A identidade étnica é um mediador de recepção da mídia ou esta interfere diretamente nos processos identitários? De que forma a televisão ou a imprensa fortaleceriam ou mesmo criariam memórias familiares e grupais? Enfim, essas são algumas das questões que pretendo problematizar no presente artigo.

No ano de 1999, enquanto realizava pesquisa etnográfica, estava sendo exibida, pela Rede Globo de Televisão, no horário nobre das "8", a novela Terra Nostra, que narrava a saga dos emigrados italianos para o Brasil: a saída da Itália, a travessia, a chegada a São Paulo, os desencontros, as expectativas e suas trajetórias enquanto imigrantes em solo brasileiro. Escrito por Benedito Ruy Barbosa e dirigido por Jayme Monjardin4, o melodrama televisivo possuía como eixo central as desventuras de um casal de jovens emigrados, Matteo e Giulianna, que se apaixonaram durante a travessia e que, posteriormente, acabam por ser separados um do outro pela força das circunstâncias. A novela apresentava também a proletarização dos imigrantes italianos nos cafezais paulistas, a situação dos negros recém-libertos, a edificação da cidade de São Paulo e suas elites. Em suma, tentava proporcionar um panorama do Brasil em finais do século XIX.

Durante a etnografia, muitas conversas e diálogos com informantes tiveram início nos comentários sobre o desenrolar da novela. Não que eu provocasse isso, mas, ao começar as entrevistas, uma das primeiras questões era: "você viu o capítulo de ontem, o que você achou?". E assim prosseguia. Eram especialmente as mulheres que me indagavam dessa forma, apesar de Terra Nostra ter sido uma novela muita assistida pelos homens também. O melodrama me permitiu uma inserção em domínios específicos, tais como relações de gênero, padrões sexuais, histórias familiares, herança, casamento, trabalho, racismo, alimentação, vestuário, noções de tempo e de espaço, de lazer, dialetais etc. Enfim, cada capítulo me possibilitava conhecer um pouco mais dos descendentes de imigrantes italianos locais e dos seus valores. Como eu já estava efetuando trabalho de campo desde 1997, observei que a novela proporcionou uma nova linguagem para a italianidade local. Tive bastante trabalho para conseguir estabelecer parâmetros comparativos entre as narrativas, pois, após a exibição da novela, as histórias dos "antigos", dos antepassados, eram, muitas vezes, narradas conforme a linearidade emprestada pelo drama televisivo. Os acontecimentos presentes nos primeiros capítulos, tais como a morte de emigrantes na travessia5, o medo de que as famílias fossem desfeitas, as doenças, o desrespeito por que alguns imigrantes passavam eram postos centralmente nas narrativas, o que no período anterior à novela não ocorria dessa forma. O que ocorria eram narrativas acerca das italianidades que enfocavam marcadamente eventos e personagens localmente conhecidos, integrantes de uma certa familiaridade assentada no passado e, por meio das quais, o descendente situava a si mesmo e aos demais. Eram narrativas que privilegiavam o projeto colonizador e o papel dos pioneiros mais do que o trajeto migrantista e suas particularidades e subjetividades, como fez a novela. Não havia espaço para romance, e os detalhes anteriores à chegada das famílias aos lotes coloniais praticamente inexistiam. Embora a travessia fosse sempre mencionada, eram raros os descendentes que a narravam em "detalhes". Depois da novela, falar sobre a travessia se tornou algo muito importante (e obrigatório). Somavam-se narrativas locais, familiares e de outros descendentes àquelas emprestadas pela novela, e cada família refazia o que teria sido a travessia de seus antepassados de acordo com sua capacidade interpretativa e sua posição social atual – ressalto.

Antes da novela Terra Nostra, outro aspecto já havia chamado a minha atenção: a forma como determinados agentes interétnicos6 influenciavam as narrativas das memórias familiares. Mesmo que cada família tivesse a própria história para contar, a maneira como os entrevistados entendiam que essa deveria ser narrada a mim era algo que me inquietava. Havia uma tendência de supor que eu acharia relevante se falassem de alguns episódios, em especial da morte de vários italianos no Barracão, no qual foram instalados os primeiros imigrantes em 1877-1878, na localidade denominada de Val de Buia, onde hoje está construído o Monumento do Imigrante. A morte daqueles imigrantes está narrada nas páginas do memorialista Julio Lorenzoni, jovem migrante de 14 anos que deixou registradas suas lembranças da travessia, do processo colonizador e das particularidades do encontro entre o velho e o "novo mundo" representado pela América7. Muitos dos memorialistas locais ou dos indivíduos que escreveram as memórias familiares fizeram uso das informações ali contidas, o que permitiu que essas fossem usadas como versões oficiais da migração e do processo colonizador local. Essas versões "oficiais" findaram por imprimir uma marca narrativa às histórias particulares de cada família, um determinado eixo. Ressalto novamente: isso não quer dizer que cada família não possuísse sua trajetória particular, contudo, o caminho narrativo escolhido era aquele que já estava sedimentado em nível local como "o acontecido". A ele se acresciam fatos pitorescos, genealogias e o colorido dado a eventos lidos, do presente, sobre o passado, processo esse que denominei memórias em construção8.

Quanto à imprensa, durante meu trabalho de campo de 1997 a 2001, tive acesso a várias memórias familiares escritas por descendentes sobre as sagas familiares e também sobre a história de determinadas localidades. A influência de algumas dessas narrativas é bastante grande e deixa marcas nas reconstruções coletivas. Antes da novela Terra Nostra, tal aspecto já me chamara a atenção, e em cada conversa, em cada entrevista que fazia, estava atenta para isso. Por vezes, refiz entrevistas sobre as trajetórias familiares para observar melhor como o processo se dava, contudo é importante ressaltar que a novela emprestou uma certa tonalidade (e subjetividade) à ancestralidade que antes não existia. Penso que os estudos etnográficos sobre grupos étnicos devem dialogar com os meios de comunicação e suas linguagens e estar atentos às narrativas por eles divulgadas para poder perceber a dinâmica dos movimentos discursivos, como os que presenciei em minha pesquisa. Tais movimentos podem ser sutis, por vezes, contudo desvelam as ricas dinâmicas das construções identitárias.

 

Por que estudar as relações entre os meios de comunicação de massa e as identidades étnicas?

Essa é uma questão para a qual tenho procurado respostas. A importância dessa relação me foi ressaltada por meio da experiência em campo, como acima relatado. Antes dela, refletir acerca da dialética relação que se estabelece entre os meios de comunicação e as identidades étnicas seria algo, talvez, não muito relevante. Contudo, foi a pesquisa etnográfica que me possibilitou observar que as identidades, que são construtos individuais e coletivos que se refazem constantemente, têm na contemporaneidade dialogado intensamente com os meios de comunicação, em especial com a televisão e suas linguagens. Segundo Martín-Barbero (2003), a identidade étnica seria um mediador entre o receptor e a mensagem recebida. Para o autor, os receptores não seriam seres passivos, mas fariam leituras culturalmente mediadas, partindo de sua condição de classe, étnica, familiar, religiosa etc. Concordo parcialmente com ele, contudo, penso que não se pode esquecer, no contexto latino-americano e particularmente no brasileiro, que o modelo de televisão que se tem é hegemônico no sentido de transmitir um determinado estilo de vida e padrões de consumo tidos como mais "modernos" e aceitáveis. Dessa forma, diria que as identidades étnicas, ao sofrerem o impacto das mensagens televisivas, também são renegociadas. O que quer dizer, enfim, que a televisão ou a literatura seriam meios amplamente reflexivos por meio dos quais os grupos e os indivíduos podem reconsiderar suas opções e tradições. Esses meios possibilitam inúmeras leituras, como se verá.

A questão da reflexividade da televisão foi muito bem exemplificada por Lila Abu-Lughod (1997 e 2003) por meio de seu trabalho etnográfico no Egito. Segundo ela, escrever sobre televisão naquele país, na Indonésia ou no Brasil é escrever sobre a articulação entre o transnacional, o nacional, o local e o pessoal (1997, p. 13)9. O aspecto reflexivo adviria da possibilidade da mensagem televisiva permitir ao indivíduo e aos grupos pensarem a si mesmos10. A novela Terra Nostra promoveu esse debate, seja do ponto de vista do reconhecimento do italiano local na telenovela ou do não reconhecimento, este advindo do fato de os descendentes considerarem muitos dos aspectos apresentados na telenovela como promíscuos e distantes da realidade de seus antepassados. Os italianos vistos em nível nacional eram italianos, mas "não eram os italianos daqui". Com essa ressalva, negociavam-se estereótipos, representações, gostos e comportamentos, seja "dos italianos" ou de alguns personagens em particular, o que conduzia, inevitavelmente, a questionamentos pessoais e à revivificação das memórias pessoais, familiares ou mesmo grupais. Estava aberto o processo reflexivo.

Concordo com Kottak (1990) quando aponta que a televisão tenderia a mudar alguns hábitos comportamentais e conformaria uma teleconditioning, pela qual, em níveis muito subjetivos e específicos, transformaria a relação das pessoas umas com as outras e com o mundo à sua volta11, constituindo novas formas de sentimento comunitário. No caso do Brasil, diz ele, não seria uma cultura norte-americana que a televisão promoveria, mas sim uma cultura nacional "pan-brazilian" (id., p. 16). Nesse pan-brasilianismo, há que se considerar as hierarquias internas, nas quais ocorre a valorização de determinados tipos sociais em detrimento de outros. Portanto, se a televisão, em certa medida, reflete a sociedade e suas contradições e complexidades, não se pode dizer que esse veículo não tem um enorme potencial para trabalhar positivamente determinadas características de grupos, como foi feito por meio da novela Terra Nostra com os descendentes de italianos, principalmente na primeira parte da novela.

Já os personagens negros presentes nesta não elevaram a auto-estima da população negra na época, tanto que, em vários momentos, alguns membros do movimento negro e intelectuais se manifestaram por meio da mídia criticando a representação dos negros. Sueli Carneiro (1999), em artigo denominado "Terra Nostra, só para italianos", afirmava que a subserviência e o infantilismo dos personagens negros da novela tenderiam a reiterar a versão preconceituosa "de uma humanidade incompleta do negro", a qual se contradiria à completude humana do branco, mesmo, segundo ela, de brancos de classes subalternas como os italianos apresentados no drama. Os diálogos em que os negros apareceriam levariam a tais conclusões, bem como algumas considerações tecidas sobre eles por parte dos personagens brancos.

Diria que, do ponto de vista que este artigo pretende trabalhar, pode-se afirmar que a novela serviu não somente para que os descendentes de italianos refletissem acerca de sua condição social, mas também para os afro-descendentes, talvez de pontos de vista distintos nos diferentes momentos da novela. A celeuma teria sido forte o suficiente para que o autor do melodrama, Benedito Ruy Barbosa, segundo o informativo Brava gente brasileira, remediasse a situação no decorrer da novela, especialmente no tocante às crianças negras. Segundo a reportagem, Benedito teria afirmado que os personagens negros dos meninos Tiziu e José Alceu cresceriam e conquistariam posições sociais de destaque por meio do estudo (Masson, 2000, p. 3).

Episódios como esse mostram o poder que a televisão tem de formar, transformar ou mesmo de conformar estereótipos. O receptor, como sujeito ativo, contudo, pode com eles concordar ou não. Segundo Médola (2004, p. 8), o texto televisual de ficção possuiria como característica fundamental a verossimilhança que, por meio das estratégias discursivas empregadas, criaria o efeito de parecer verdade, mesmo não sendo. Observei em minha etnografia que os indivíduos lidam bem com essas contradições. Irritam-se quando as cenas não condizem com o que pensam ou gostariam que fosse, no entanto, entendem que é uma novela e que a "televisão é uma máquina de fazer dinheiro" (descendente, sexo masculino, 21 anos). Enfim, aceitam o que gostam e se desfazem do que não gostam considerando a lógica na qual esse tipo de lazer está incluído.

Os portugueses e seus descendentes também estariam reclamando do tratamento a eles dado na televisão brasileira, almejando transformar o estereótipo presente nas novelas. Segundo reportagem da Revista Época de 8/7/2002, alguns consideravam que estavam sendo ridicularizados pela ficção nacional, enquanto os italianos seriam heróis. Na novela Esperança12, exibida em horário nobre na Rede Globo de Televisão, isso tenderia a mudar, segundo reportagem da revista. É dito que o personagem português que comporia o drama não iria usar "tamancos nem bigodão". Essa novela narrava a história de vários grupos de imigrantes em São Paulo, inclusive italianos, tanto no meio urbano como rural já no século XX. A reportagem afirmava que, se o autor Benedito Ruy Barbosa, que "teria sangue das duas culturas nas veias", pudesse definir o traço fundamental da cultura italiana, diria que seria a passionalidade, e o da portuguesa, a severidade. Com isso, pode-se perceber a complexidade do campo da produção das telenovelas e das representações interétnicas ali inseridas, que vai desde concepções pessoais de autores a interesses mercadológicos de amplo alcance13.

Compreendo a televisão como um meio reflexivo e a recepção como um processo dialógico e criativo pelo qual os grupos e indivíduos podem pensar sobre si mesmos e sobre suas trajetórias. Concordo com Borelli quando critica aquela visão que concebe a novela somente como um produto de uma indústria, um simples entretenimento distante dos bens culturais (2001, p. 3). Segundo ela, mediados por suas experiências cotidianas e por repertórios oriundos de suas posições de classe, gênero, geração, etnia e formas de subjetivação, os receptores mergulhariam nas narrativas, dialogando com as dimensões da videotécnica, "estabelecendo conexões de projeção e identificação e construindo uma competência textual narrativa" (id., p. 18). Para Orozco-Gomez (2003, p. 2), os estudos de recepção seriam uma opção para entender não somente os sujeitos sociais contemporâneos nas interações que estabelecem entre os meios e as tecnologias de informação, mas também os processos socioculturais, políticos e econômicos maiores dos quais participam. Embora durante meu trabalho de campo nem cogitasse efetuar um ER (estudo de recepção), mesmo porque considero a televisão um veículo cultural que interage no interior de um contexto maior que não poderia ser analisado isoladamente, foi por meio da literatura oriunda dessa produção científica que consegui visualizar a riqueza do material que tinha em minhas mãos, isso tempos depois da novela Terra Nostra já ter terminado. Por exemplo: não cogitei visitar rotineiramente meus informantes à noite para com eles assistir à novela e fazer uma "etnografia da recepção" propriamente dita. Muitas vezes, ao chegar à casa das pessoas, assistia com elas ao Video Show14, e dali surgiam comentários e assim a conversa prosseguia. Contudo, em minha família extensa e na de meu marido, ambas descendentes de imigrantes italianos, pude, com certa densidade, participar do processo de recepção da novela, sempre assistida e comentada.

Ainda durante meu trabalho de campo nos anos de 1999 e 2000, devido à importância delegada à novela pelos descendentes de imigrantes italianos, optei por elaborar um questionário-padrão com perguntas sobre a novela como um todo. Apliquei esses questionários em turmas de estudantes de língua italiana nos cursos da Associação Italiana de Santa Maria e da Agência Consular local em abril de 200015. Justifiquei, na época, a aplicação desse instrumento como um recurso a mais para compreender os elementos que, por meio da pesquisa etnográfica, eu já havia detectado. Ele foi elaborado com 11 questões dissertativas, tais como: Você assiste a novela e por que? Você acha que a novela reflete a realidade dos imigrantes italianos no Brasil? Quais seus personagens preferidos? Por quê? Uma das questões solicitava que avaliassem se o drama, nos aspectos apresentados de sexualidade, moral, religiosidade, família, trabalho e alimentação, refletia a realidade dos imigrantes e por quê. Elaborei também questões específicas sobre a mulher e os comentários que estariam, porventura, ouvindo acerca da novela. As questões foram oriundas de tensões que observava no trabalho de campo, especialmente no tocante ao comportamento sexual e aos valores religiosos dos personagens italianos que eram severamente criticados por meus pesquisados. Solicitei aplicar os questionários nos cursos de italiano, pois considerava que os mesmos, por congregarem estudantes em vários turnos e de várias idades e classes sociais, possibilitariam um olhar mais atento sobre determinadas questões para os descendentes de imigrantes italianos. Serão as respostas dadas a esses questionários utilizadas para fins de análise no presente artigo.

 

"Nem polenta tinha" – era só festa

A polenta, um dos símbolos culinários locais que remetem à imagem dos pioneiros italianos, foi apontada pelos descendentes de italianos questionados como pouco presente na novela16. O excesso de festas e dança associado à comida também não agradou. Segundo os descendentes, se havia festas, estas se davam em dias e ocasiões especiais e não com tanta freqüência como mostrava a novela. Era como se o italiano daqui trabalhasse mais e de forma mais árdua do que a televisão estava mostrando. Contudo, uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, diz que sua mãe, uma senhora já idosa, ficava "fascinada" assistindo às cenas de festa na novela, e que seriam justamente estas que a fariam "retornar ao passado". Esse tipo de comentário faz supor que, conforme Halbwachs (1990), permanecendo na memória aquilo que é partilhado socialmente, a novela, mesmo não fazendo justiça ao que os descendentes locais considerariam correto, promoveu a revivificação de determinadas memórias. Nesse processo, dialética de indivíduo e coletivo, não importaria tanto como as festas seriam mostradas na ficção, mas aquela outra festa, que estava lá na memória da descendente e que, partindo das imagens televisivas, pôde ser narrada, comentada ou citada em um questionário, como feito pela filha daquela senhora a mim.

Uma descendente salientou que, quanto à alimentação, a novela em nada reproduzia a realidade dos italianos locais: "Não há pão, salame, polenta!", respondeu ela. A mesma entrevistada diz que utensílios típicos da cozinha italiana não apareceram na novela. Outra entrevistada, de 21 anos, diz que na novela "só aparece o macarrão". Em matéria publicada no Clipping Diário do Povo, de 20/2/2000, é colocado que "Novela dispara o ibope do macarrão – Novela de italianos dá água na boca e aumenta a receita dos fabricantes de macarrão caseiro". Segundo a reportagem, os fabricantes do setor estariam sentindo reflexos positivos nas vendas, e a novela seria "uma propaganda gratuita dos costumes italianos". A indústria Adria teria, inclusive, lançado um macarrão com o nome Terra Nostra. Nessa mesma reportagem, era exposto por um dono de Pastifício de Campinas que, após a novela, o ponto alto das vendas seria o macarrão tipo talharim e que o cliente já chegaria pedindo o "macarrão da Paola"17. Para Almeida, que realizou pesquisa etnográfica da recepção da novela O Rei do Gado em Montes Claros-MG, não se pode esquecer que a televisão brasileira se desenvolve similarmente ao crescimento do mercado consumidor e de uma cultura consumista no país (2005, p. 1). Enfim, elementos que se intercruzam na televisão como expressão cultural e como veículo comercial e que poderíamos denominar de campo de produção e recepção das telenovelas.

Um entrevistado de 37 anos diz que não era possível nem fazer comparações com a alimentação da IV Colônia de Imigração Italiana, ou seja, a comida daqui seria mais italiana e melhor do que aquela mostrada na televisão. Ele mesmo critica que, na novela, não aparecem os animais, tão apreciados na alimentação dos italianos, como o porco, por exemplo. Uma entrevistada, descendente de terceira geração, 28 anos, quando questionada se a novela refletia historicamente a realidade dos imigrantes no tocante à alimentação respondeu que:

"Sim, reflete. Na casa de Leonora, sempre a polenta está presente nas refeições e, na colônia italiana, tudo é motivo de comida".

Nessa resposta se observa o quanto a novela, mesmo se passando em um cenário espacial distinto daquele dos imigrantes italianos locais, fez com que as imagens espaciais dialogassem. O espaço das fazendas de café passa a ser interpretado como o "espaço da colônia", ou seja, evoca na descendente referências ao que ela atribui significação como um "espaço de italianos", e a polenta, embora apontada como ausente por muitos, esteve presente na resposta dessa entrevistada em particular. Essas questões nos possibilitam refletir sobre as múltiplas leituras que a imagem televisiva proporciona, permitindo, por vezes, ressignificações que dialogam com as categorias locais e que fazem com que ficção e "não ficção" se intercruzem abertamente nos imaginários individuais.

Outro entrevistado, 37 anos, descendente de terceira geração, respondeu que "tem a polenta e o vinho, mas falta a salada". Os elementos de uma culinária reconhecida como tipicamente italiana em nível local são, portanto, reivindicados, e a novela, por não exibi-los ou por exibi-los pouco, faz com que, nesses espaços de tensão, o indivíduo possa refletir acerca de seus hábitos culturais e afirmar positivamente, como opção, determinados hábitos e gostos que seriam "típicos e os melhores" porque seus. Há que se compreender que, quanto à questão da alimentação, os descendentes de italianos locais a colocam como parte de um determinado "estilo de vida" e, quando reivindicam italianidade, fazem-no também aludindo a todos os elementos que estariam presentes nela, como pratos, preferências gastronômicas e técnicas de preparo que conotam determinado controle de emoções e disciplina. As saladas verdes representaram uma fronteira adscritiva importante entre eles e os "brasileiros", considerados pouco apreciadores de verduras no início do processo colonizador, fato referenciado em várias passagens literárias. Remetem também ao trabalho da terra, na qual os italianos produziam o que os nativos não conseguiam, segundo eles, fazer. As verduras representam um gosto calcado na disciplina sobre a terra e o trabalho constante nela. No mesmo gosto alimentar promovedor de fronteiras identitárias, estariam a polenta, o pão colonial, a "cuca"18, a sopa de capeletti, o risoto, o vinho, o salame, o queijo colonial, as "chimias"19, entre outros. Percebe-se que a televisão permitiu uma certa visibilidade das fronteiras adscritivas locais em referência à comida, seu preparo e consumo e aquele que era apresentado na novela. Para se comer, entre os descendentes por mim pesquisados, ainda se observam determinadas regras: primeiro as mulheres servem aos homens, depois servem às crianças e finalmente elas se alimentam. A novela apresentava a refeição como algo "de festa", o que fazia desaparecer toda uma estrutura hierárquica familiar que está envolta no "ato de comer". Tanto o que se comia na novela como a forma de se comer não condiziam com as leituras locais. Nesse aspecto, a questão da comida possibilitou não somente reflexões sobre a alimentação, mas sobre valores também, e o relevante, creio eu, é que tenha se mantido como algo narrativamente importante na definição das fronteiras das italianidades locais.

 

A novela do "casa-separa, casa-separa" – redefinições de gênero, família e sexualidade

As mulheres italianas presentes na novela só foram reconhecidas por sua dedicação ao trabalho. A personagem principal, Giulianna, foi alvo constante de severas críticas, pois não seria boa mãe, nem corajosa e forte, como os descendentes atuais pensam que devem ter sido suas antepassadas. Giulianna foi o antiexemplo: infiel, egoísta, pouco dedicada aos filhos e à família e chorona em demasia. Além do mais, segundo os questionários, as mulheres da novela seriam pouco submissas. As "antigas" não teriam vida própria, viveriam para a família, obedecendo às ordens do pai e depois às do marido e filhos, modelo que ainda pode ser encontrado entre camponeses descendentes de italianos20.

A infidelidade das personagens femininas e sua falta de apego aos filhos foram fortemente criticadas também. Segundo os estrevistados, isso estaria produzindo estereótipos negativos sobre a "mulher italiana". Para uma entrevistada de 22 anos, sexo, entre italianos, era permitido somente depois do casamento. Para ela, as mulheres da novela seriam muito promíscuas e agora "falam mal das mulheres italianas". Outra entrevistada, de terceira geração, diz que a sexualidade das italianas era muito reprimida e que muitas a negavam e, talvez, houvesse algumas que conseguissem vivê-la sem pensar em pecado. Contudo, a noção de pecado não aparece nas principais personagens italianas femininas: Giulianna engravida solteira e Paola tem amantes. Da mesma forma, foi respondido que "a mulher da época não andava solta" como aquelas presentes na novela (descendente de terceira geração, 37 anos). Enfim, as noções de corpo, sexualidade e padrões sexuais apresentadas na novela, de certa forma, chocavam-se com as representações ideais acerca da "mulher italiana", fosse a do passado ou a do presente que, embora inserida em universos mais individualistas, mantém ainda uma vinculação forte com a família enquanto um valor a ser preservado, o que, por vezes, demanda-lhe sacrifícios e que abdique de projetos pessoais que tragam risco à unidade familiar. Para os descendentes por mim pesquisados, fossem os do meio urbano ou rural, a sexualidade feminina é ainda um tabu e a "boa conduta" das mulheres é altamente valorizada e exigida. As sanções ao desvio desse "ideal feminino" podem ser a fofoca, o isolamento, a exclusão, o que finda por estigmatizar aquela identidade feminina, tornando-a não mais potencialmente apta ao mercado matrimonial ou ao convívio público mais amplo. As descendentes mais jovens reclamam disso, contudo estão cientes do peso de suas opções quanto à sexualidade.

Um dos elementos que fez com que a novela, a partir de determinado momento, deixasse de ser apreciada e assistida em algumas famílias foi o fato de que o casamento não era uma instituição levada a sério entre os personagens. A novela não teria sido fiel à noção de casamento monogâmico presente entre os italianos locais. Uma entrevistada, de 21 anos, descendente de quarta geração, diz que a família italiana era muito mais conservadora e patriarcal, "na qual o pai era o último e único a dar palpite". Outro entrevistado, 59 anos, comenta que a mulher italiana não se expunha tanto, era mais conservadora do que aquelas presentes na novela. Além disso, ressalta ele, aquelas famílias italianas da novela tinham poucos filhos, diferente do padrão camponês local. Ou seja, a mulher italiana ideal era a mamma, pouco sensual, religiosa, com uma prole extensa e totalmente devota aos seus.

Os personagens preferidos foram, em disparada, o casal Leonora e Bartolo que, segundo as respostas, mais perto chegavam do ideal do imigrante: fiéis, trabalhadores, ambiciosos, respeitosos, apegados à família e empreendedores. Um entrevistado, do sexo masculino, com 21 anos, diz que o casal parece

"ser um retrato mais fiel da imigração, não fazendo cenas que ofendam a imagem dos italianos vindos para o Brasil".

O mesmo entrevistado diz que, na novela, não aparecia, de forma nenhuma, o papel importante desempenhado pela mulher imigrante no repasse da religião a seus filhos. Segundo ele, "não há religião nas famílias", e a moral das italianas atuais e do passado estaria sendo ofendida pela da novela. Outra entrevistada, 40 anos, fala que aquelas mulheres seriam avançadas demais para a época, e as italianas seriam "mais recatadas, trabalhavam e se dedicavam à família e à religião". O comentário entra em consonância com as características ainda pouco individualistas dos imigrantes em finais do século XIX. Numa sociedade tradicional, em sua maior parte camponesa, na qual as regras familiares e coletivas eram rígidas, as mulheres não se davam o direito de vivenciar o amor romântico, separando-se, deixando filhos e pensando somente em seus interesses, como fez a personagem Giulianna21. A figura ideal da mulher italiana é a da mulher abnegada, que pensa primeiramente no coletivo e depois em si mesma. Pode-se dizer, assim, que o individualismo atribuído àquelas personagens é, em muitas famílias, irrealizável ainda hoje. Como um padrão urbano, classe média, ele não condiz com as representações do feminino e de gerações existentes entre os descendentes de italianos em Santa Maria. Assim responde uma entrevistada de 23 anos:

"Independentes e saidinhas demais. Acho que as italianas obedeciam mais aos maridos".

A mesma entrevistada disse que o comportamento masculino apresentado na novela também não estava sendo bem retratado, citando o exemplo do personagem Francesco, que teve uma amante (Paola), parecendo tudo muito "normal". Segundo ela, "é muito absurdo". O casal Bartolo e Leonora, escolhido como modelo, representaria o amor respeitoso, a luta e o trabalho, características idealizadas nos antepassados22. A falta de respeito pela instituição familiar demonstrada pelos outros personagens italianos chocava. "Como", perguntou um entrevistado, "sendo eles tão tementes a Deus, fariam sexo antes do casamento ou abandonariam suas famílias daquela forma?" Uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, questiona o carinho dos homens italianos da novela para com as mulheres. Diz ela: "Eles não eram tão carinhosos com suas esposas".

Outra entrevistada, do sexo feminino, de 38 anos, diz:

"Creio que na época não existia tanta troca. Troca de marido e mulher, acho ridículo isso. Acredito que não acontecia isso, e também muitas cenas pesadas para o horário e a época".

Segundo um entrevistado de 66 anos, a novela teria "desdourado o caráter italiano" devido aos padrões sexuais transmitidos. Um descendente de 24 anos ressaltou que:

"Era um tempo em que a mulher se dava muito valor: trabalhar em casa, cuidar dos filhos etc.".

Durante meu trabalho de campo, as reclamações que mais ouvia eram de que a personagem Giulianna chorava muito e que "as antigas" não eram assim, não teriam tempo para isso. Primeiro sob a autoridade paterna e posteriormente sob a autoridade do marido, sempre com muitas ocupações, as imigrantes são representadas como mulheres fortes e não chorosas. Em minhas conversas, ao mesmo tempo em que as descendentes demonstravam certa piedade dela, cravavam-lhe críticas. Era por meio dela que distinguiam e reconstruíam a imagem das "antigas", completamente opostas à dela.

Nesse sentido, penso que a novela promoveu debates acerca dos papéis femininos atuais e passados. Quando fazia entrevistas com mais de uma geração presente, encantava-me com as tensões provocadas pelo drama televisivo, fosse sobre casamento, sexualidade ou maternidade. As gerações mais novas, apesar de não concordarem com a personagem, entendiam que, contemporaneamente, algumas mulheres italianas poderiam agir assim. Contudo, "as antigas" não agiriam como Giulianna23.

Uma entrevistada de 30 anos, descendente de quarta geração, respondeu no questionário que

"em parte, no passado havia traição como hoje, mas nunca na voz de todos, à frente de todos".

Outro entrevistado, de 55 anos, descendente de terceira geração, respondeu que a sexualidade apresentada na novela

"é uma filosofia [...] enfraquecer e desvirtuar a família, promovendo a promiscuidade".

O caráter sério e respeitoso atribuído às antepassadas foi, de certa forma, violado pelas imagens televisivas: muito erotismo e uma sexualidade diferente daquela experimentada entre os italianos do passado e, mesmo, entre os descendentes de italianos atuais. Ou seja, houve e ainda há entre os descendentes de italianos uma sexualidade marcada pela noção de pecado, destinada à procriação e não ao prazer, o que faz com que o comportamento dos personagens fosse largamente chamado de promíscuo, uma vez que estes colocavam seu desejo acima das normas coletivas.

 

O "pioneiro" não estava lá

Uma entrevistada, quando questionada se havia, por parte dela, identificação com a história narrada pela novela, respondeu que não,

"porque meus avós se estabeleceram nessa região e passaram muitas dificuldades, tiveram que começar do zero".

A colocação faz sentido quando se observa a tônica local acerca dos "antigos", ou seja, de que foram desbravadores, que derrubaram matas, que desenvolveram as localidades para as quais se dirigiram, que trouxeram progresso e civilização. Na novela, o italiano se dirigia para fazendas de café com plantações já em andamento ou ficava nas cidades, o que fez com que a figura do pioneiro não tivesse tanto sentido como teve aqui. Outra entrevistada, de 20 anos, descendente de quarta geração, declarou que não assistia à novela porque esta não caracterizava a vida do "nosso italiano":

"Tanto é que a novela está mostrando mais a boa vida da sociedade paulistana do que o trabalho árduo e penoso de nossos imigrantes".

A categoria trabalho, da forma como estava sendo apresentada na novela, não criava identificações. Outra entrevistada, de 22 anos, descendente de quinta geração, respondeu que:

"Primeiramente, acho que a realidade da imigração italiana é muito triste e, se fosse relatada na sua 'real', não daria tanto Ibope. A novela reflete um pouco do que gostaríamos que tivesse sido a imigração".

A mesma entrevistada quando questionada acerca dos comentários que estaria ouvindo da novela reforça que o amor estaria sendo bem relatado, mas que a imigração italiana não estava sendo retratada em seu aspecto sofrido, árduo, mas como um processo tranqüilo, o que ela consideraria mentiroso. As únicas cenas que foram dignas de consideração para ela são as "do navio":

"Cenas de muito realismo, cenas que emocionaram todos os filhos de imigrantes que conheço".

Outra entrevistada, descendente de terceira geração, respondeu que a novela não contou a história dos imigrantes:

"Em relação às dificuldades que são mostradas, parecem 'adocicadas'. Os relatos passados por meus familiares são tristes".

A tristeza foi algo constante em vários questionários, como se o excesso de festa e cantoria presente entre os imigrantes apresentados na novela desmerecesse a saga dos antepassados24. Outra entrevistada, descendente de terceira geração, diz que a novela passou uma visão distorcida para os adolescentes e as crianças, uma vez que a realidade dos imigrantes foi muito mais "cruel". Diz ela:

"As pessoas de mais idade podem rever algumas cenas que relembram o que passaram ou ouviram falar de seus pais. O bom é estar próximo deles para ouvir suas críticas".

Havia a preocupação com que a novela subtraísse a força com que a saga dos pioneiros é contada, pois muito da positividade do italiano local adviria de seu empreendedorismo, de sua capacidade de abnegação e trabalho, elementos que a novela não estaria mostrando a contento. Além disso, no melodrama, o imigrante não é o civilizador, ele vem substituir a mão-de-obra escrava, e sua relação com a terra é mediada pela figura do patrão. Enfim, a América mostrada não é a da liberdade e da propriedade, símbolos fortes entre os imigrantes locais quando justificam a travessia efetuada por seus antepassados.

 

A religiosidade que não apareceu

A religiosidade, um dos sinais diacríticos mais fortes entre os descendentes de italianos locais, segundo eles, não esteve presente na novela. Não havia missas, terços, procissões, práticas presentes entre os mesmos. Aqueles imigrantes apresentados na televisão seriam pouco religiosos se comparados com os daqui. Uma entrevistada, descendente de quarta geração, disse:

"Italiano é o católico fervoroso e de amor aos santos e a Deus. Reza seu terço todas as noites, faz novena, vai à igreja, e o padre é o grande conselheiro familiar".

Contudo, o tipo ideal de católico religioso muitas vezes é atenuado quando se faz pesquisa sobre a prática religiosa entre os descendentes atuais. A religiosidade é um sinal diacrítico importante, porém mais como uma referência de vida do que propriamente pela prática dos rituais católicos. A mesma entrevistada acima exposta respondeu no questionário que a sua religião era o espiritismo. O que causava indignação em alguns descendentes era a figura dos antepassados que não encontrava respaldo nos imaginários locais, pois aqueles são tidos como exemplos a serem seguidos através das gerações, e o imigrante italiano seria católico25, mesmo que seus descendentes tenham feito opção por outra religião.

Outro entrevistado, 59 anos, diz que a religiosidade dos italianos era muito diferente, e não era só nos batismos e casamentos que havia obediência à doutrina. Enfim, o italiano vivia a religião como algo que encompassava a totalidade de sua vida e não simplesmente os aspectos rituais. O padre que apareceu na novela foi amplamente criticado por beber demais e não ser convicto de sua vocação, o que desagradou a alguns descendentes daqui, que ainda consideram o padre um exemplo coletivo. O espaço doméstico do italiano apresentado na novela não condizia com o local, no qual as casas dos descendentes têm, em sua quase totalidade, fortes referências ao catolicismo, como imagens de santos, "santinhos", crucifixo, terços etc. Há casas, inclusive, nas quais encontrei "altares" em que eram postos imagens de santos, fotos de familiares, flores, folhetos de novenas, folheto de orações, terços e outros objetos "bentos". Nesses "altares", é comum, durante algum momento do dia, alguém parar para fazer uma oração, uma petição ou mesmo para "pensar na vida", uma vez que é considerado um espaço sagrado dentro do mundo doméstico. O hábito de rezar o terço à noite e fazer as orações antes de dormir também não fora apresentado na novela, o que provocou descontentamentos. Os descendentes de italianos locais, em contraste com "aqueles" da telenovela, poderiam reafirmar a importância da religião em suas vidas e, dessa forma, esse sinal diacrítico adquiriria maior sentido, uma vez que muitos não conseguem conceber uma existência sem o preenchimento de uma prática religiosa, mesmo que não seja a católica.

 

Reflexividade, memórias e subjetivação

Uma descendente de segunda geração, 45 anos, respondeu o seguinte ao ser questionada sobre sua identificação com a novela:

"Sim, como descendente, a novela me toca, e o sangue fala mais alto".

Essa resposta remete à recorrente relação entre sentimento de pertencimento étnico e subjetivação. Compreendo que algumas identificações étnicas contemporâneas e, especialmente, a dos descendentes de italianos por mim estudados se configuram como tentativas dos indivíduos de elaborarem acerca de si mesmos uma noção de trajetória na qual as origens desempenham um papel decisivo. A saga dos antepassados, as histórias familiares se elencam no rol dos elementos que contribuem para tal empreitada. Na medida em que a identidade de ítalo-brasileiro é positivada localmente, a linhagem de ascendência também elevaria a auto-estima dos descendentes nos mercados de bens simbólicos locais. Da mesma forma, os elementos presentes nos processos de pertencimento trazem uma série de atributos com forte carga emotiva, o que permite que os indivíduos se expressem de forma mais subjetivada. A novela Terra Nostra, em minha compreensão, possibilitou essa subjetivação.

Quando as mulheres descendentes se questionavam, comparavam e criticavam os comportamentos das personagens femininas, estavam refazendo leituras de si mesmas, de suas opções e trajetórias de vida. Repensavam suas famílias, a educação de seus filhos, seus casamentos, a fidelidade e os tabus envolvidos nas questões sexuais. Constatei que a novela abriu uma porta para que muitas mulheres, mesmo discordando do comportamento liberal das personagens femininas, pensassem sobre aqueles temas, em especial sobre sua sexualidade26.

Diria que esse processo reflexivo tenso, pelo qual se procura afirmar aquilo que se é através da negativa do que não deveria ser, efetivou-se entre os descendentes não somente na questão dos papéis femininos e masculinos, da religiosidade, do trabalho e da alimentação, mas também na própria noção de pertencimento ítalo-brasileiro. Para Lopes, a ficção é um lugar privilegiado para se narrar a nação, seja ela representada, imaginada ou disseminada (2004, p. 32). A teleficção tenderia a criar uma comunidade emocional. No caso por mim estudado, diria que se estabeleceu uma comunidade emocional virtual de descendentes de imigrantes italianos que, embora separados imaginariamente como "os de lá" e "os daqui", evocavam sentimentos de pertencimento similares, em especial na primeira parte da novela. Considero importante observar como os indivíduos e grupos se posicionam diante das narrativas midiáticas, que são também disseminadoras de noções de tempo, espaço e papéis sociais específicos. A resposta que segue se inscreve nessa perspectiva, quando a descendente diz que a novela

"recria a história para que possamos resgatar o conhecimento de nossa identidade como italianos".

Um descendente, cuja mãe seria filha de italianos, respondeu que

"ela espera ansiosamente o horário da novela, porque vê, retratados na tela, cenas de sua infância, objetos, roupas, veículos etc.".

Outro descendente de terceira geração, 31 anos, diz que as famílias que ele conhecia assistiam à novela, criticavam-na muito, entretanto, continuavam a assisti-la. Da mesma forma, nos cursos de italiano, houve um consenso de que a novela provocou uma "moda" que aumentou significativamente o número de alunos em nível local. Pode-se pensar como Martín-Barbero, quando salienta que os meios debilitam "el pasado y diluyen la necesidad de futuro" (2001, p. 3). Embora não concordando de todo com o autor, respaldo sua idéia de que não há memória sem conflito27, pois os descendentes de italianos locais percebiam que a história dos antepassados poderia estar, segundo eles, sendo distorcida e criticavam severamente a novela, alguns, inclusive, deixando de assisti-la. Contudo, não há como negar o orgulho que sentiam ao verem exposta, no horário nobre da televisão brasileira, uma novela que narrava a imigração italiana. Chamou-me a atenção que a escritora Zélia Gattai, descendente de italianos, publica, em 2000, Cittá di Roma, obra na qual narra a vinda de seus avós para o Brasil. Segundo reportagem publicada no Estadão.com.br, de 1/5/2000, a autora teria declarado que a idéia de contar a saga dos avós surgiu ao acompanhar a novela Terra Nostra28, mostrando, assim, a força da mensagem televisiva sobre os descendentes como um todo, em especial no começo da exibição da novela29.

De acordo com Bonin, que realizou estudo de recepção da novela Suave Veneno30 entre camponeses descendentes de alemães e italianos na cidade de Urubici-SC, as categorias de trabalho, poupança, planejamento do futuro e religiosidade operariam mediações significativas na recepção daquela telenovela, funcionando como sistema de referência pelo qual o melodrama seria interpretado (2002, p. 23). Observo que esse processo também se deu entre os descendentes que pesquisei. Pode-se dizer que a alteridade dialogava no tempo e no espaço da recepção (e após esta também). Os personagens eram elogiados ou desmerecidos conforme suas atitudes perante determinadas circunstâncias e, assim, o indivíduo poderia questionar "Eu, como descendente de italianos, agiria desta ou daquela forma?", exercitando a reflexividade que tal tipo de narrativa midiática propicia. Isso não quer dizer que, no caso da novela Terra Nostra, os valores individualistas apresentados no melodrama enfraqueceriam uma noção de pertencimento coletivo, mas sim que a força de muitas regras tidas como tradicionais entre os descendentes (como a religiosidade, o apego à família e ao casamento) acabou, inclusive, por ser fortalecida. Foi por meio do processo reflexivo que muitos valores vigentes foram justificados e que a saga idealizada dos antepassados foi revitalizada.

Uma descendente, 21 anos, de quarta geração, respondeu que sua avó não assistia mais à novela porque tudo ali seria mentiroso e

"só teria cenas de sexo. Ela prefere assistir ao Ratinho que é mais 'real'".

Como salienta Sousa, a relação entre mídias e sociedade e entre emissor e receptor é conflitiva (2004, p. 8). O que interessa ao antropólogo nesse processo é perceber como os conflitos se desenvolvem e quais os elementos presentes neles. No que concerne às identidades étnicas, observar, especial e atentamente, quais sinais diacríticos são acionados para interpretar os personagens, suas falas e ações, para estabelecer fronteiras entre "eu" e "eles". Isto é, aquilo que gera desacordos e o que não geraria. Ronsini, ao elaborar estudo de recepção entre mulheres camponesas descendentes de italianos na localidade de Três Barras-RS, observou que os membros mais velhos da comunidade acreditavam que os jovens se deixavam influenciar pelo que viam na televisão e, por isso, apoiavam, sem êxito, as tentativas da Igreja para inibir, por meio de sermões nas missas ou de interdições, tais comportamentos tidos como urbanos ou muito modernos (2001, p. 101)31. Penso, como Almeida (2003), que a televisão e a novela promoveriam uma certa "educação dos sentimentos", que se daria concomitantemente a um processo reflexivo, no qual os indivíduos, ao "lerem" as representações televisivas, começam a se comparar32. Compreendo ser nessas identificações-distinções que residem muitos dos elementos que interessam ao antropólogo investigar.

Concordo com Orozco-Gomes (2003) quando salienta que, nos intercâmbios comunicacionais, deve ser observada a criatividade e iniciativa pessoal dos sujeitos. Em reportagem do Clipping Diário do Povo, de 20/2/2002, o presidente da Casa D'Itália de Campinas teria declarado que concordava com a influência da novela Terra Nostra na vida do campineiro (e de todo o país) "no sentido de ela estar resgatando a cultura italiana – um resgate do próprio orgulho de se ter descendência italiana". Não somente entre italianos esse processo se daria. Quando a Rede Globo de Televisão escolheu a atriz Taís Araújo para protagonizar a novela das 19 horas, Da Cor do Pecado, no ano de 2004, também ocorreram questionamentos sobre a forma como os negros eram retratados no melodrama. A atriz teria declarado à revista Raça Brasil que veria sua participação como um degrau importante para o fim do preconceito (Oliveira & Pavan, 2004, p. 2).

Partindo da literatura consultada na área de comunicação, observei que faltam pesquisas mais específicas para analisar como os processos de negociação de significado se desenvolvem33. A etnografia34, dessa forma, em muito poderia contribuir para desvendar os bastidores dessas tensões. Contudo, as pesquisas deveriam estar voltadas para o universo cultural mais amplo, no qual a televisão é um entre tantos outros elementos presentes. Do mesmo modo, penso que deveriam ser conduzidos estudos de outros meios de comunicação, como o rádio35, a imprensa, a Internet, a indústria musical etc.

 

Considerações finais

Compreendo que os meios de comunicação influenciam direta e indiretamente no processo de construção das identidades étnicas, seja no mundo rural ou urbano. Não há como negar a importância, no caso por mim estudado, das memórias familiares e individuais escritas e divulgadas, dos programas de rádio, dos jornais e, especialmente, da televisão. Para Ronsini, a televisão se consolidaria como um veículo privilegiado de informação e lazer e que funcionaria como "mediação fundamental entre a realidade vivida e o mundo sonhado" (2001, p. 102). Concordo amplamente com a autora e compreendo, assim, porque a novela Terra Nostra, apesar de não agradar aos descendentes locais, continuava a ser assistida por muitos. O indivíduo exercia o distanciamento reflexivo de saber que aqueles personagens eram também italianos, "mas não os daqui", e que a novela era de época, "mas ficcional". Mesmo que fosse para discordar, ali estavam todos os dias prontos a assistir à "Giulianna chorar". E, quanto mais discordavam dos "italianos de lá", mais reforçavam os sinais diacríticos dos "italianos daqui", tais como a religiosidade, o apego à família e aos filhos, o trabalho árduo e o cultivo de determinados hábitos alimentares.

Esses elementos mostram que o receptor dialoga com as informações recebidas e sabe reconhecer que a telenovela é também uma forma de lazer e de entretenimento. O que não quer dizer, contudo, que não se preocupe com a repercussão que imagens e estereótipos negativos tenham na coletividade mais ampla. Especialmente no caso do comportamento das mulheres italianas, as descendentes sentiram que a forma como essas se comportavam na novela interferia na imagem que os "outros" poderiam fazer delas. O que mais desagradava, contudo, eram os arranhões provocados nas tipificações idealizadas dos antepassados, modelos a serem admirados e seguidos36. A literatura local acerca dos antepassados, por outro lado, poderia ser considerada como uma glorificação constante desses. Ela tem sido crescente, em tom memorialista, e, em meu entendimento, deve ser compreendida dentro do crescente autobiografismo que se tem observado na literatura como um todo.

Futuramente, devido às novas tecnologias, penso que haverá a necessidade de se estudar como se processam as negociações identitárias por intermédio da Internet e outros meios de comunicação37. Somente etnografias que estudem os grupos numa amplitude maior, numa thick description (Abu-Lughod, 1997, p. 9), podem conseguir compreender as interseções entre esses mundos que se encontram intercruzados nos processos de emissão e recepção das mensagens dos media.

 

Notas

1 Este artigo foi originalmente apresentado no XXIX Encontro Anual da Anpocs, em Caxambu, 2005.

2 Por região central, compreendo a cidade de Santa Maria e os municípios vizinhos, inclusive aqueles formadores da denominada IV Colônia (Silveira Martins, Agudo, São João do Polêsine, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Restinga Seca, Nova Palma Ivorá e Pinhal Grande).

3 Atualmente, desenvolvo um projeto de pesquisa intitulado Os "italianos" na imprensa santa-mariense (1990 a 2005), que pretende acompanhar a trajetória de visibilização desse grupo em nível local por meio da mídia impressa. Para tanto, estou formando uma hemeroteca, na qual tenho arquivado a aparição não só dos italianos, mas também dos alemães, judeus, sírio-libaneses, negros, poloneses, ciganos, entre outros. Pretendo, futuramente, fazer uma análise comparativa da forma de aparição desses grupos na mídia impressa local.

4 Ambos descendentes de italianos.

5 A cena da travessia apresentada no primeiro capítulo marcou fortemente os descendentes locais. Ela teria sido gravada no Porto de Southampton, na Inglaterra, no vapor SS Shieldhall, de 1940, e teria custado 1 milhão de reais. Cerca de 300 figurantes teriam participado da mesma.

6 Denomino de agentes interétnicos aqueles indivíduos que trabalham, voluntariamente ou não, em prol da valorização e da visibilização da cultura italiana em nível local, seja por intermédio das entidades italianas ou não. Santa Maria possui vários programas de rádio que exaltam e promovem o sentimento de italianidade. Alguns mais voltados para o meio rural e outros para camadas médias urbanas. Esses programas trazem uma forte carga emotiva em seus desfechos. A história do barracão é uma das narrativas que está constantemente sendo lembrada por meio deles. Da mesma forma, em nível local, há uma literatura crescente de memórias familiares e de lugares que acabam sendo interpretadas como versões oficiais acerca do processo imigratório.

7 Em artigo denominado "Lorenzoni: homem, migrante, letrado", analiso parte da trajetória desse migrante e a forma como retratou a experiência migratória.

8 Desenvolvido em minha tese de doutoramento denominada Italianidade no Brasil Meridional – a construção da identidade étnica na região de Santa Maria-RS.

9 Segundo a autora, "No Egito, assim como em outros contextos pós-coloniais, formas culturais como o melodrama televisivo, exibido pelas indústrias nacionais de televisão, são consideradas pelos agentes estatais e produtores profissionais de classe média como instrumentos eficazes de desenvolvimento social, consolidação nacional e 'modernização'" (2003, p. 77).

10 Concordo com Giddens quando ressalta que "a auto-identidade torna-se particularmente problemática na vida social moderna, particularmente nos períodos mais recentes" (1993, p. 40).

11 Segundo ele, "I became interested in television because I saw that its effects are comparable to those of humanity's most powerful traditional institutions – family, church, state, and education. Television is creating new cultural experiences and meanings. It is capable of producing intense, often irrationally based, feelings of solidarity and communitas ('community feeling') shared widely by people who have grown up within the same cultural tradition" (1990, p. 9).

12 Essa novela estreou em 17/6/2002 e seria uma espécie de "Terra Nostra II".

13 O campo de construção das telenovelas e o papel dos agentes nele envolvidos foram objeto de análise de Maria Carmem Jacob de Sousa. A autora, inspirada em Bourdieu, alerta que este, ao analisar o campo literário francês, observou que a oposição entre a criação artística desinteressada e as dimensões comerciais estruturaria o campo da produção cultural e artística como um todo. Partindo dessas premissas, Souza, ao analisar a trajetória de Benedito Ruy Barbosa, diz que o autor, mesmo escrevendo para uma televisão comercial, tem sido importante ao enfatizar em suas novelas a questão do poder, desde as práticas e instituições governamentais e sociais até as relações de dominação presentes na intimidade e nos relacionamentos amorosos (2000, p. 17). Enfim, ele seria considerado um agente transformador e polemizador e gostaria disso.

14 Programa exibido de segunda a sábado, pela Rede Globo de Televisão, às 13h45, no qual são reprisadas algumas cenas das novelas e entrevistados atores, atrizes, autores e diretores, o que faz com que o público tenha acesso aos "bastidores" das produções.

15 Os questionários foram aplicados solicitando informações sobre sexo, idade, religião, profissão e procedência geracional de ascendência italiana para os descendentes em abril de 2000. Contudo, deixei claro que poderiam responder somente aquilo que desejassem. Os não descendentes também responderiam, pois pretendia fazer uma análise comparativa. Esse material me permitiu um olhar diferente sobre a televisão e suas linguagens. Os questionários foram aplicados durante as aulas de italiano, na presença dos professores, após eu explicar os objetivos da pesquisa. Eu mesma apliquei os questionários, evitando debates a fim de que cada resposta pudesse ser o mais particular possível. Um dos professores de italiano que me auxiliou na pesquisa gostou tanto da temática que quis aplicar os questionários em uma pequena cidade da IV Colônia na qual também dava aulas. Estes últimos questionários não foram utilizados neste artigo, contudo, em termos comparativos, foram muito úteis. Utilizei-me somente dos questionários respondidos por descendentes, cerca de 55.

16 As falas utilizadas neste artigo são todas oriundas dos questionários respondidos por escrito e aplicados em abril de 2000. Sua grafia foi mantida na forma original.

17 Personagem descendente de italianos que começa a industrializar sua massa de macarrão na São Paulo urbana.

18 A "cuca" é uma espécie de pão doce. É um prato que possui a versão italiana, com mais massa e menos recheio, e a versão alemã, com menos massa e muita cobertura. A "cuca" local se assemelha a um pão colonial com cobertura doce.

19 Esse é o nome atribuído aos doces de frutas pastosas para passar no pão. Possuem textura cremosa, e o mais apreciado é o de uva.

20 Uma entrevistada, descendente de segunda geração, 58 anos, respondeu que "a mulher italiana era uma escrava do marido e dos filhos".

21 O personagem Matteo, que também abandona a mulher e o filho, não é criticado por isso. Seu comportamento não foi lembrado isoladamente em nenhum questionário.

22 Outros personagens lembrados foram Francesco, o banqueiro, em razão de sua ascensão econômica enquanto imigrante, e Paola, a jovem que abre uma fábrica de macarrão, por ser empreendedora e muito bonita.

23 Uma descendente, de quarta geração, 21 anos, respondeu que "as mulheres italianas eram mais ignorantes sobre sexo e nunca abandonavam os filhos (como Giulianna), nem respondiam aos pais e aos maridos (como Paola)".

24 Em artigo denominado "Sangue, suor e lágrimas", analiso o tom em que as sagas familiares e as histórias dos antepassados são narradas.

25 Ainda que se saiba do papel importante desempenhado pela maçonaria em Silveira Martins, sede da colônia no passado.

26 Como bem salienta Thomson, "ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica" (2002, p. 12).

27 Diz Martín-Barbero que "para cada memoria activada hay otras reprimidas, desactivadas, enmudecidas, por cada memoria legitimada hay montones de memorias excluidas" (2001, p. 7).

28 Segundo o jornal, ela teria declarado que "assistir àquelas imagens dos imigrantes italianos sofrendo nos navios, e depois também em terra firme, fez com que todas as histórias que ouvi dos meus pais voltassem à minha memória" (2000, p. 1).

29 A força da mensagem televisiva sobre os descendentes foi muito sentida na fase inicial da novela, levando inclusive a que alguns desses escolhessem a novela como objeto de estudo. Strohschoen (2003), ao justificar a escolha de seu objeto para a tese de doutorado em comunicação social, declara que: "Qual é a sensação que você teria ao rever algo que fez parte de sua vida em tempo distante... De repente, você se depara com isso que pensava não saber, mas que era verdade... olhando de novo a mesma coisa que você escutou anos atrás como uma estória da vovó, reaparece agora como uma história de italianos numa telenovela" (p. 1-2).

30 Exibida pela Rede Globo de Televisão no ano de 1999.

31 Santos, ao efetuar a etnografia entre descendentes de alemães em Santa Maria do Herval-RS, observou que "a televisão aparece, portanto, como um bem simbólico demarcador e aglutinador de um conflito geracional e cultural. Através da oposição geracional entre jovens e idosos frente às mensagens televisivas, pode-se perceber a presença e a tensão entre os valores individualistas veiculados pela televisão e os valores mais tradicionais e hierárquicos presentes na comunidade" (1995, p. 99).

32 Diz ela, "Nesse sentido, proponho aqui uma leitura do conceito de Geertz de educação dos sentimentos (1989) junto com o processo reflexivo do eu proposto por Giddens (1991; 1993) acerca da alta modernidade. As novelas (entre outros programas dos meios de comunicação) ensinam ao público uma sensibilidade, uma estrutura de sentimentos, nos termos de Williams (1973; 1977; 1992), ou uma "educação de sentimentos", nos termos de Geertz" (2002, p. 42).

33 Excelentes estudos que têm trilhado esse caminho são as pesquisas de Esther Hamburger (2001), Veneza Ronsini (2000) e Heloísa Buarque de Almeida (2002).

34 Aquilo que Lila Abu-Lughod denomina de uma "thick description of television", a qual, segundo ela, "only a mobile ethnography can do justice to the ways these different worlds intersect" (1997, p. 9).

35 Exemplo disso está exposto no paper "A cultura ucraniana na radiodifusão paranaense", escrito por Zeneida Assumpção e Sérgio Luiz Gandini, apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação, em Belo Horizonte, de 2 a 6 de setembro de 2003.

36 Para finalizar, gostaria de resgatar uma reflexão de Lila Abu-Lughod, quando diz que "I suggest that the study of television encourages an anthropology that engages not just with the academy and its 'big words' but with other social fields of the world in which we work" (1997, p. 4).

37 Mohammed Elhajji, em artigo denominado "Memórias das comunidades étnicas entre tempo e espaço", reflete acerca disso. Em Santa Maria, mediante a atuação dos Circolos (vêneto, vicentino, fiulano, lombardo etc.), criou-se uma rede internacional de pertencimento, que tem agregado e estabelecido novas linguagens de italianidade. Compreendo que pesquisas futuras deverão, necessariamente, deter-se nessas novas formas de sociabilidade criadas por essas novas tecnologias.

 

Bibliografia

ABU-LUGHOD, L. 1997 The interpretation of culture(s) after television. Disponível em <www.haussite. net/haus.o/script/txt2001/01/lughod.html>. Acesso em 17/8/2005.         [ Links ]

_______.2003 "Melodrama egípcio: uma tecnologia do sujeito moderno?", Cadernos Pagu, Campinas, n. 21, p. 75-102.         [ Links ]

ALMEIDA, H. B. de 2000 "Na TV – pressupostos de gênero, classe e raça que estruturam a programação", paper apresentado no I Simpósio Internacional O desafio da Diferença, Salvador, abril. Disponível em <www.desafio.ufba.br/gt4-008.html>. Acesso em 7/8/2005.         [ Links ]

_______. 2003 Telenovela, consumo e gênero "muitas mais coisas", Bauru, EDUSC.         [ Links ]

ASSUMPÇÃO, Z. et al. 2003 "A cultura ucraniana na radiodifusão paranaense", paper apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Belo Horizonte. Disponível em <www.intercom.org.br>. Acesso em 26/8/2005.         [ Links ]

BONIN, J. 2002 "Identidade étnica e telenovela", Ciberlegenda, n. 10. Disponível em <www. uff.br/mestcii/jianni1.htm>. Acesso em 26/7/2005.         [ Links ]

_______. 2003 "Memória familiar e recepção de telenovela", Ciberlegenda, n. 12. Disponível em <www.uff.br/mestcii/jianii2.htm>. Acesso em 7/8/2005.         [ Links ]

BORELLI, S. H. S. 2001 "Telenovelas brasileiras. Balanços e perspectivas", São Paulo em perspectiva, São Paulo, vol. 15(3). Disponível em <www.scielo.gov.br>. Acesso em 15/8/2005.         [ Links ]

CANCLINI, N. G. 2002 "Cidades e cidadãos imaginados pelos meios de comunicação", Opinião Pública, Campinas, vol. VIII(1), p. 40-53.         [ Links ]

CARNEIRO, S. 1999 "Terra Nostra, só para italianos". Disponível em <www.mulheresnegras.org/terra.htm>. Acesso em 26/7/2005.         [ Links ]

CLIPPING DIÁRIO DO POVO 2000 Novela dispara o Ibope do macarrão, 20/2. Disponível em <www.becapi.com.br/impressao/novela-print.html>. Acesso em 27/7/2005.         [ Links ]

ELHAJJI, M. 2004 "Memórias das comunidades étnicas entre tempo e espaço", paper apresentado no XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Porto Alegre. Disponível em <www.adtevento.com.br/intercom/resumos>. Acesso em 17/8/2005.         [ Links ]

GATTAI, Z. 2000 A SAGA de uma família italiana. Estadão.com.br, 1/5/2000. Disponível em <www.estadao.com.br/divirtase/mat/div05014.htm>.         [ Links ]

GIDDENS, A. 1993 A transformação da intimidade, São Paulo, Edunesp.         [ Links ]

GONÇALVES FILHO, A. 2002 "Portugueses reclamam que são ridicularizados pela ficção nacional, enquanto italianos são heróis", Revista Época, ed. 216, 8/7. Disponível em <www. epoca.globo.com/edic/216/cultitaliaa.htm>. Acesso em 2/8/2005.         [ Links ]

HALBWACHS, M. 1990 A memória coletiva, São Paulo, Vértice/Editora Revista dos Tribunais.         [ Links ]

HAMBURGER, E. et al. 2001 "Telenovela, gender and demography in Brazil", paper apresentado no S-31 Mass Media and Demographic Behavior, no XXIV General Population Conference, IUSSP. Disponível em <www.iussp.org/Brazil>. Acesso em 17/8/2005.         [ Links ]

HAMBURGER, E. 2004 "TV brasileira hoje", Revista USP, São Paulo, n. 61, p. 110-15.         [ Links ]

KOTTAK, C. P. 1990 Primi-time society. An Anthropological analysis of television and culture, Belmont, Wodsworth Publishing Company.         [ Links ]

LOPES, M. I. V. de 2004 "Televisões, nações e narrações", Revista USP, São Paulo, p. 30-39.         [ Links ]

LORENZONI, J. 1975 Memórias de um imigrante italiano, Porto Alegre, Sulina.         [ Links ]

MARTÍN-BARBERO, J. 2001 "Medios: olvidos y desmemorias debilitan el pasado y diluyen la necesidad de futuro", Ciberlegenda, n. 6. Disponível em <www.uff.br/mestcii/barbero1.htm>. Acesso em 8/8/2005.        [ Links ]

____. 2003 Dos meios às mediações, 2. ed., Rio de Janeiro, Editora UFRJ.         [ Links ]

MASSON, C. 2000 "Maledetta Polêmica", Brava Gente Brasileira. Disponível em <geocities.yahoo. com.br/bravagentebrasileira/veja1.html>. Acesso em 27/7/2005.         [ Links ]

MÉDOLA, A. S. L. D. 2004 "Construção discursiva e memória na ficção televisiva", paper apresentado no XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Porto Alegre. Disponível <www.intercom.org.br>. Acesso em 24/7/2005.         [ Links ]

OLIVEIRA, D. de & PAVAN, M. Â. 2004 "Identificações e estratégias nas relações étnicas na telenovela Da Cor do Pecado", paper apresentado no XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Porto Alegre. Disponível em <www.adtevento.com.br/intercom>. Acesso em 15/8/2005.         [ Links ]

OROZCO-GOMEZ, G. 2003 "Los estudios de recepcion: de un modo de investigar, a una moda, y de ahí a muchos modos", Revista InTexto, ed. 9. Disponível em <www.intexto/ppgcom/ufrgs>. Acesso em 16/8/2005.         [ Links ]

RONSINI, V. V. M. 2000 Entre a capela e a caixa de abelhas (identidade cultural de gringos e gaúchos), São Paulo, tese, USP.         [ Links ]2001 "Mulheres e melodrama: sonhos vicários e vida rural", in SILVEIRA, A. M. da. Representações e identidades: três estudos em comunicação, Santa Maria, FACOS-Fipe/UFSM, p. 83-106.         [ Links ]

SANTOS, J. A. dos 1995 Televisão: cultura local e cultura de massa global, Porto Alegre, dissertação, UFRGS.         [ Links ]

SOUSA, M. C. J. de 2000 "Representação do popular e campo da telenovela: histórias e história de Benedito Ruy Barbosa", paper do XXIV Encontro anual da Anpocs, Petrópolis, 23-27 de outubro.         [ Links ]

SOUSA, M. W. de 2004 "Recepção televisiva: mediações contextuais", Revista USP, São Paulo, n. 61, p. 6-15.         [ Links ]

STROHSCHOEN, A. M. 2003 "Mídia e memórias coletivas", paper apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Belo Horizonte, 2003. Disponível em <www.intercom.org.br>. Acesso em 5/8/2005.         [ Links ]

THOMSON, A. 2002 "Histórias (co)movedoras: história oral e estudos de migração", Revista Brasileira de História, São Paulo, vol. 22(44), p. 341-64.         [ Links ]

ZANINI, M. C. C. 1999 "Sangue, suor e lágrimas – narrativas da colonização italiana em Santa Maria", in QUEVEDO, J. (org). Rio Grande do Sul – 4 séculos de história, Porto Alegre, Martins Livreiro, p. 259-64.        [ Links ]

____. 2002 Italianidade no Brasil Meridional – a construção da identidade étnica na região de Santa Maria-RS, São Paulo, tese, USP.        [ Links ]

____. 2004 "Lorenzoni: homem, migrante, letrado", Estudos Íbero-Americanos, Porto Alegre, vol. XXX(1), p. 123-38.        [ Links ]

 

 

Aceito em novembro de 2005.