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Revista de História (São Paulo)

Print version ISSN 0034-8309On-line version ISSN 2316-9141

Rev. Hist. (São Paulo)  no.177 São Paulo  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2018.138003 

Articles

O GRANDE MASSACRE DE DARNTON OU O PULO DO GATO EM UMA HERMENÊUTICA GEERTZIANA?*

THE GREAT DARNTON MASSACRE OR THE CAT LEAP IN A GEERTZIAN HERMENEUTICS?

1Universidade Federal da Grande Dourados. Dourados - Mato Grosso do Sul - Brasil

Resumo

Este artigo é produto da análise de uma polêmica entre os historiadores Giovanni Levi e Robert Darnton. Três questões, entre outras, foram tratadas: a primeira se refere à indicação de que Darnton teria feito a transposição mecânica da antropologia interpretativa para o campo da história cultural; a segunda diz respeito à problemática do relativismo em razão da interpretação sempre continuada por Darnton; a terceira segue as pistas de influências hermenêuticas em Geertz e em Darnton demonstradas por Levi. Por fim, tenciona-se avaliar as implicações teóricas dos textos escritos por Levi sobre O grande massacre de gatos de Darnton.

Palavras-chave: Teoria da história; história cultural; micro-história; antropologia interpretativa; hermenêutica

Abstract

This article is the product of the analysis of a controversy between historians Giovanni Levi and Robert Darnton. Three issues were, among others: the first refers to the indication that Darnton would have done the mechanical transposition of the interpretative anthropology for the field of cultural history; the second relates to the problem of relativism in the grounds of interpretation always continued by Darnton; the third follows the hermeneutics influences in Geertz and Darnton demonstrated by Levi. Finally, will be evaluated the implications of theoretical texts written by Levi about the Great cat massacre written by Darnton.

Keywords: Theory of history; cultural history; micro-history; interpretative anthropology; hermeneutics

Introdução

O meu mundo era o apartamento

Detefon, almofada e trato

Todo dia filé-mignon

Ou mesmo um bom filé...de gato.

A história de uma gata.1

Das polêmicas construídas nos liames do território fronteiriço entre a história e a antropologia, destaca-se, neste artigo, aquela originada de questionamentos teóricos do micro-historiador Giovanni Levi ao historiador cultural Robert Darnton.2 No centro da polêmica e da problemática, está o emprego da descrição densa de Geertz por Darnton no interior de uma história cultural, assim como as implicações do que Levi considerou ser o geertzismo como exacerbação da metodologia oferecida pela antropologia interpretativa.3 Com retraços críticos que excederam as divergências de fáceis resoluções - características de uma crise epistemológica vivenciada entre as décadas de 1970, de 1980 e com forte impacto sobre os anos 1990 -, emergiram controvérsias candentes para um debate em torno das seguintes produções: de Darnton, O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa4 e, especificamente, o capítulo “Os trabalhadores se revoltam: o grande massacre de gatos na rua Saint-Séverin”; de Levi, Sobre a micro-história5 e Os perigos do geertzismo.6 Mais do que buscar a resolução da pergunta intrincada que deu título ao presente artigo - O grande massacre de Darnton ou o pulo do gato em uma hermenêutica geertziana? -, pretende-se problematizar sem escapar da questão destacada ou procurar por soluções de esgotamento: (1) Em que medida Darnton, segundo indicou Levi, realizou a transposição mecânica dos pressupostos da antropologia interpretativa, tais como concebidos por Geertz, para o interior da história cultural?; além disso, (2) se Darnton incorreu em relativismos por meio das minudências apontadas por Levi, não o teria feito para escapar às hierarquizações culturais e às teorizações axiais ou de determinado epicentro epistêmico, bem como para preterir o que nominou de “provincianismo”?; ademais, (3) Levi estava correto sobre as influências hermenêuticas de Geertz, e, consequentemente, de Darnton - embora este último tenha sido comprovadamente influenciado por muitos outros não sinalizados por Levi -, mas cabe a testagem de seu alcance pelos meandros analisados. Ulteriormente, cumpre responder, a partir dos distintos lugares epistemológicos dos autores supramencionados, se Darnton sofreu, pelo conteúdo, pela contundência da abordagem de Levi, um grande massacre teórico (tomando de empréstimo a palavra “massacre” da obra do próprio Darnton), ou se, de forma arguta, soube utilizar o pulo do gato em uma hermenêutica geertziana no favorecimento epistêmico de sua produção e como sagacidade interpretativa. Com tais cadências analíticas, retraça-se, neste artigo, um caminho inicialmente construído sobre premissas e debates amplos para, enfim, alcançar uma reflexão operacionalizada em torno da hermenêutica e da exegese como clímax, como simulacro teórico aos enredos, às críticas e às provocações vivazes oferecidas tanto por Levi, quanto por Darnton.

A problemática da transposição mecânica em Darnton

Me diziam, todo momento

Fique em casa, não tome vento

Mas é duro ficar na sua

Quando à luz da lua

Tantos gatos pela rua

Toda a noite vão cantando assim.

A história de uma gata.

Não sem reconhecimento, Levi reportou-se à obra de Darnton; Levi admitiu que Darnton se propôs a escrever um livro de sucesso e, antes, que o autor de O grande massacre de gatos sensibilizou os seus ouvidos à cultura francesa do século XVIII. Na sequência, Levi demonstrou que mesmo os agradecimentos de um livro de sucesso são úteis para a compreensão da obra. Para o micro-historiador do preeminente círculo italiano, os agradecimentos de Darnton importam:

Este livro nasceu de um curso, História 406, que venho dando na Universidade de Princeton desde 1972. Inicialmente, o curso era apenas uma introdução à história das mentalidades, mas acabou por se transformar num seminário de história e antropologia, graças à influência de Clifford Geertz, que há seis anos ministra-o comigo, e, ao fazê-lo, me vem ensinando a maior parte do que sei sobre antropologia.7

Entre os nomes mencionados por Darnton em seus agradecimentos, segundo Levi, encontra-se o de Geertz - que “ele usa como filtro em direção ao mundo da discussão teórica”.8 A crítica de Levi a Darnton foi austera e impôs a pergunta: por que Darnton se utilizou de um antropólogo cuja interlocução se deu com marroquinos e indonésios evidentemente vivos para estudar um passado situado na França do século XVIII com personagens obviamente mortos? Para agravar, aduziu: “talvez porque é a transposição mecânica para a história dos problemas nascidos na antropologia”.9 Concomitantemente, Levi apresentou a grave indicação de que Darnton apenas transpôs um modus operandi da hermenêutica de Geertz para a história.

Sabe-se que Darnton aclarou preferências na obra questionada por Levi e reconheceu que o gênero adotado pode “ser chamado de história cultural; porque trata nossa própria civilização da mesma maneira como os antropólogos estudam as culturas exóticas. É história de tendência etnográfica”.10 Sem constrangimentos ou esquivas, Darnton sinalizou a influência recebida de Geertz não como única, pois a sua hermenêutica não se pôs em exílio; tampouco, tencionou etnografar os mortos como os vivos: antes, o autor, como exegeta, explorou símbolos e se instruiu pela descrição densa. Mas Darnton presumiu que as críticas ao seu trabalho naturalmente adviriam, porém não se dispôs ao preenchimento das páginas de O grande massacre de gatos com resguardos conceituais. Darnton, portanto, explicou os riscos que correu:

Percebo que existem riscos, quando alguém se afasta dos métodos estabelecidos da história. Alguns argumentarão que os dados são demasiado vagos para permitir que se chegue, algum dia, a penetrar nas mentes de camponeses desaparecidos há dois séculos (...) E um número ainda maior de leitores reagirá contra a arbitrariedade de se selecionarem alguns poucos documentos estranhos como vias de acesso ao pensamento do século XVIII, em vez de se proceder de maneira sistemática, através do cânone dos textos clássicos. Acho que existem respostas válidas para essas objeções, mas não quero transformar esta apresentação num discurso sobre o método.11

Por suposto, Darnton tinha razão sobre tais inquietações de parte da comunidade dos historiadores. Nesse aspecto, Levi nominou de “transposição mecânica” a operação de Darnton em adotar procedimentos geertzianos em detrimento de procedimentos do campo de uma história estritamente social. Darnton recorreu de forma sagaz, porém, à antropologia e aos “documentos estranhos” para acessar as mentalidades do século XVIII: ouviu aos mortos como aos vivos - transposição mecânica, segundo Levi. Paradoxalmente, a interação entre a história e a antropologia foi bem recebida por parte dos historiadores, mas “o mesmo não é verdade para a totalidade dos profissionais de história”.12 Ainda assim, Aletta Biersack edificou uma galeria de diferentes antropólogos que contribuíram com aportes à historiografia, tais como: Claude Lévi-Strauss, Victor Turner, Mary Douglas, Marshall Sahlins e o próprio Geertz.13 Entre outros, Peter Burke escreveu uma obra sobre a temática História e teoria social e ponderou: “historiadores e sociólogos” nem sempre “têm mantido a política da boa vizinhança”, assim como reconheceu que os cientistas sociais e os historiadores “não falam a mesma língua”. Não raramente, trata-se de “um diálogo de surdos”.14 Nas últimas décadas, o profícuo e problemático diálogo entre a história e a antropologia, conforme lapidada no âmbito das ciências sociais, adensou-se em razão de debates polêmicos no exercício de aproximação ou de distanciamento entre a história e a antropologia cultural.15 A intenção de Darnton, porém, não era persuadir o leitor à coerência com tendências ou círculos historiográficos, mas propiciar experiências e estimulá-lo a palmilhar a obra oriunda de uma jornada instruída pela cultura textualizada.16

Das divergências, sabe-se que não existem lugares epistêmicos rígidos. Sequer na escola italiana de micro-história se estabeleceram concepções monolíticas conforme Henrique Espada Lima.17 As trajetórias e as tendências que atravessaram a história italiana da segunda metade do século XX, e particularmente a micro-história, foram múltiplas, desde o ambiente de criação da revista Quaderni Storici aos estudos de Edoardo Grendi, Giovanni Levi, Carlo Ginzburg. Ainda que os desacordos epistemológicos se reportem aos dois historiadores em questão, faz-se necessário averiguar que se trata de intelectuais possuidores de dupla e intrincada assimetria - entre outras possíveis. A primeira assimetria é evidente, mas digna de destaque porque uma leitura inicial das entrevistas concedidas por Darnton a José Murilo de Carvalho18 e por Levi a Guido Crainz, Gino Massullo e Fiacomina Nencia19 é suficiente para demonstrar trajetórias e formações distintas. A segunda assimetria é epistêmica e é encontrada no tratamento com as ciências sociais. Nas entrevistas citadas, perceberam-se as singularidades em relação à contiguidade epistêmica de ambos com as ciências sociais: “o problema não é o do socorro providenciado pelas ciências sociais à história, mas sim o da contribuição da história e das ciências sociais à criação de novos conceitos, de nova interpretação e descrição da realidade”.20 Por seu turno, Carvalho instigou Darnton a confirmar se antropologia era a sua preferida no que tange às ciências sociais: “seria por que você julga mais próxima do trabalho dos historiadores? Essa proximidade teria a ver com o método (etnografia, descrição densa) ou com a noção de cultura como chave de compreensão? Ou com as duas coisas?”. Ao que Darnton respondeu:

Eu diria sim a todas as suas perguntas e me confessaria culpado de um fascínio pela antropologia (...) Os historiadores têm frequentemente interpretado de maneira equivocada a noção de “descrição densa”, desenvolvida por Geertz, como sendo uma fórmula para amontoar detalhes, como se se tratasse apenas de acrescentar mais descrição.21

Se examinadas as propostas de Darnton na introdução de O grande massacre de gatos e na entrevista concedida a Carvalho, a indicação da mecanicidade imediata como sendo a suposta transposição mecânica dos preceitos de Geertz para os seus escritos não é inequívoca. Levi se aproximou das ciências sociais em sua escrita e criticou parte dos historiadores italianos que se concentraram tão somente na dialogia estrita com os seus pares circunscritos à Itália: “esse é o resultado clássico de uma ciência muito corporativa” - disse.22 Ao mesmo tempo, poderiam rejeitar o papel de “socorristas” atribuído por parte da comunidade acadêmica aos cientistas sociais. Nesse sentido, Levi reconheceu a importância de Edoardo Grendi e se referiu a ele, de maneira laudatória, como quem se aproximou da antropologia social inglesa23 em seu esforço de analisar a história do movimento operário na Inglaterra.24 O trato de Levi com as ciências sociais é dessemelhante ao tratamento dispensado por Darnton ao campo etnográfico, pois este último está mais ligado às ciências da interpretação, assim como ao uso da antropologia simbólica.

Por isso, o problema não está apenas em reconhecer a importância da antropologia e da abordagem cultural na produção historiográfica, mas em determinar os limites que devem ser respeitados ou extrapolados. Se Levi considerou que Darnton exacerbou na história de tendência etnográfica, utilizando-se das lentes descritivas de Geertz para analisar a França do século XVIII, Darnton, por seu turno, não escondeu o que nominou de “fascínio pela antropologia”. A divergência manifesta por Levi está na hipótese da “transposição mecânica” dos fundamentos geertzianos à história, sobretudo no uso da descrição densa para temporalidades longínquas: a descrição densa, porém, é uma “expressão tomada de empréstimo de Gilbert Ryle”, seria “um modo de análise que visa desvendar o significado mais profundo de toda ação humana dotada de conteúdo simbólico” na procura de aproximação da “perspectiva do ‘Outro’, numa tentativa de entendê-lo em seus próprios termos”.25 Darnton, que reconheceu seus vernizes conceituais, indicou que O grande massacre de gatos não se resignou a “um livro especificamente geertziano”, mas foi inspirado por diversos outros antropólogos, de matizes alternantes, no experimento de “escrever a história numa veia etnográfica”.26 Sem abdicar, entretanto, das diretrizes geertzianas, Darnton desnaturalizou certo entendimento sobre a descrição densa e disse que existem equívocos de historiadores que a têm compreendido como sendo “uma fórmula para amontoar detalhes”27 ou, conforme sugeriu Levi, do outro lado do debate, uma coleção de minudências para uma “história cultural sem análise social, ou em uma análise social extremamente estereotipada extraída de uma história cultural intensivamente investigada”.28 Na descrição densa subsumida, porém, os interesses são variados e definidos: “examinar surpresas proporcionadas por uma coleção improvável de textos” e “os documentos que não se podem considerar típicos do pensamento do século XVIII, mas que fornecem maneiras de penetrar nele”.29 Darnton não coadunou, em outras palavras, com transplantes e transposições ou mecanicidades da antropologia referidos por Levi, sobretudo por conceber a complexidade teórica da descrição densa:

O conceito tem sua origem na filosofia linguística e, mais longe ainda, nas “afinidades eletivas” de Weber, tiradas do romance de Goethe, Die Wahlverwandschaften. Havia, então, desde o início, um componente literário na ciência social de Geertz, e sua preocupação com estilo não é acidental. Em sua escrita, ele constrói associações e ideias de maneira cuidadosamente trabalhada, de modo a fazer o leitor girar e girar em círculos hermenêuticos.30

O perigoso campo do relativismo ou as variegações culturais de Darnton

Nós, gatos, já nascemos pobres

Porém, já nascemos livres

Senhor, senhora ou senhorio

Felino, não reconhecerás.

A história de uma gata.

Sem deixar a função introdutória de Sobre a micro-história,31 Levi, ab initio, delineou o seu contributo a partir de problemas retomados posteriormente em outras produções, tais como no artigo “Os perigos do geertzismo”.32 Para a realização de análises diretivas, tenciona-se, destarte, medir progressivamente os problemas entre Levi e Darnton, seus efeitos, e dar vazão a certa crise epistemológica decorrente de posições teóricas ou institucionais distintas para que, por meio da eloquência de ambos, possam-se encontrar frinchas teóricas e compreensivas. De um ângulo, Darnton inicia a partir dos pressupostos da antropologia interpretativa de Geertz para escrever, entre outros, o seu clássico O grande massacre de gatos. Com o fito no problema do relativismo, Levi demonstrou, de saída, o seu incômodo com a considerada “pouca teoria”, com a dependência de suportes interpretativos: diversos historiadores têm se envolvido em “contínuos intercâmbios com as ciências sociais e estabelecido teorias historiográficas sem, contudo, sentir qualquer necessidade de se referirem a qualquer sistema coerente de conceitos ou princípios próprios”.33

Agudo desde o princípio, Levi afirmou que o seu lugar de micro-historiador reflete “essencialmente uma prática historiográfica” e, ainda que as suas “referências teóricas” sejam múltiplas, trata-se de práxis derivadas e específicas do “trabalho do historiador”. Mais, que a micro-história, que nestes moldes se diferencia da história cultural, é “essencialmente baseada na redução da escala da observação, em uma análise microscópica e em um estudo intensivo do material documental”, pois, “para a micro-história, a redução da escala é um procedimento analítico, que pode ser aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do objeto analisado”.34 Sendo uma das respostas para parte da crise engendrada nas décadas de 1970 e 1980, a história estava fraturada entre aqueles cujas perspectivas permaneceram nas tradições historiográficas consolidadas e aqueles sinalizados por Levi como os de outras soluções ou de respostas drásticas, retóricas: inclusive os que se aguçaram pelas análises culturais. Estes últimos se “desviam para um relativismo desesperado, para o neoidealismo ou mesmo para o retorno a uma filosofia repleta de irracionalidade” - apontou Levi.35 Contundente, este micro-historiador rejeitou os vieses analíticos dos geertzianos porque os qualificou como sendo, portanto, relativistas, assim como aderentes à dada “atividade puramente retórica e estética” - empírica; ao contrário das escolhas praticadas no campo cultural, Levi argumentou em prol de certas estabilidades idiossincráticas da história e sustentou: “o princípio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores previamente não observados”.36

Na esteira deste mesmo debate, Vasconcelos explicou a importância da obra de Geertz para a construção de parte da crise dos historiadores na segunda metade do século XX. Para o autor, Geertz contribuiu em duas direções: a primeira foi no fluxo de uma operação de “deslocamento conceitual: não mais a explicação dos dados obtidos empiricamente deve ser tomada como a tarefa primordial da pesquisa social, mas sim a interpretação desses dados”; a segunda foi que Geertz partiu de “uma acepção bastante ampla de textualização”, pois, “não apenas os registros escritos são considerados textos, mas a própria realidade social é tomada como um texto a ser lido e interpretado”. Depreende-se, então, que o contexto - para quantos aceitem as concepções de Geertz - “não passa de um texto, lido e interpretado pelo historiador de modo particular e subjetivo”.37 Ao mesmo tempo em que as interpretações dos textos esparramados não são executadas sem critérios, destaca-se o caráter aberto de se ler tudo e a tudo se interpretar como texto. Donde, Levi foi veemente quanto ao poder do intérprete que lança mão da descrição densa: “o perigo do relativismo é acentuado, mais que minimizado, pelo pequeno espaço destinado à teoria”.38 Sem grandes explicações, e retirando Ludwig Wittgenstein de seus propósitos originais, afirmou por mais de uma vez com o aporte do filósofo da linguagem: “uma dúvida sem um fim não é nem mesmo uma dúvida”.39 Considera-se, neste sentido, que “a noção de leitura está em todos os capítulos”: Darnton leu um mundo assim como leu os documentos nas brumas das suas opacidades, tanto quanto adensou os procedimentos exegéticos para ler a mentalidade de artesãos do Ancien Régime.40

Cumpriu-lhe, pois, decodificar “o texto”: estranhar os sentidos das palavras no mundo e interpretá-lo. Na leitura de mundo feita por Darnton, o autor procurou renunciar à história intelectual em prol da análise da história das mentalidades mediada pela cultura com “c” minúsculo - a cultura relativizada daquela com “C” maiúsculo, do cotidiano como texto, como textura; a opacidade do documento interessou para revelar modos de vida nada evidentes: donde a superação da ardilosa impressão de familiaridade com o passado foi um gesto de interpretação, um gesto de leitura do outro desnaturalizado. No entanto, Darnton assumiu claramente as suas posições interpretativas logo na apresentação de O grande massacre de gatos:

Este livro analisa as maneiras de pensar na França do século XVIII. Tenta mostrar não apenas o que as pessoas pensavam, mas como pensavam - como interpretavam o mundo, conferiam-lhe significado e lhe infundiam emoção (...) É história de tendência etnográfica (...) Enquanto o historiador das ideias esboça a filiação do pensamento formal, de um filósofo para outro, o historiador etnográfico estuda a maneira como as pessoas comuns entendiam o mundo (...) Não tenta transformar em filósofo o homem comum, mas ver como a vida comum exigia uma estratégia.41

A ousadia de Darnton foi patente, pois, na sequência do excerto acima, o autor argumentou que quem opera em nível corriqueiro e aprende a “se virar” pode ser “tão inteligente”, à sua maneira, “quanto os filósofos”.42 Levi não se convenceu dos argumentos procedimentais de Darnton e, consequentemente, sobre o lugar das pessoas ordinárias - que também se interpretaram, se analisaram, se examinaram; ao que Levi avaliou: “esse tipo de História Cultural - diz Darnton - pertence às ciências interpretativas. Eis aqui um dos méritos do livro, ao menos a meus olhos: a sua aplicação um pouco mecânica desses princípios contribui para esclarecer a sua origem”.43 Em outras palavras, Levi não receou aduzir que Darnton se entregou conceitualmente, e se mostrou, por um processo rígido de transposição procedimental. Os intercâmbios, portanto, entre as pessoas ordinárias, seus coetâneos e os analistas, bem como o distanciamento de Levi em relação à história cultural entalhada por Darnton, impuseram diferenciações, distanciamentos, críticas; Darnton, ao contrário de Levi, enunciou-se a partir da história cultural por meio da qual a articulação de procedimentos dimensionados em esfera menor não se constitui como óbice, mas como alternativa, como virtude. Ao citar uma importante rede de autores que reavaliaram o lugar da linguagem e da cultura nas ciências humanas e sociais, Victoria E. Bonnel e Lynn Hunt dissertaram sobre a ênfase dada ao conceito de cultura a partir da década de 1970; tanto Darnton, quanto Bonnel e Hunt, entre outros, receberam a influência intelectual do contexto de certa radicalização da linguagem e das interpretações das culturas no âmbito de um “cultural turn”.44 Em sua obra A nova história cultural, Lynn Hunt apercebeu-se de que Geertz é logicamente um elo alternativo entre os vieses histórico ou antropológico nas negociações epistêmicas de Darnton:

Em The great cat massacre and other episodes in French cultural history, por exemplo, Robert Darnton expôs claramente as vantagens das estratégias interpretativas geertzianas. A história cultural, declarou ele, é “a história de natureza antropológica...” (...) Sendo assim, trata-se de uma ciência interpretativa: seu objetivo é ler “em busca do significado - o significado inscrito pelos contemporâneos”. A decifração do significado, então, mais do que a inferência de leis causais de explicação, é assumida como a tarefa fundamental da história cultural, da mesma maneira que, para Geertz, era a tarefa fundamental da antropologia cultural.45

Para Darnton é a “noção de leitura” que norteia os capítulos de sua obra porque os elementos culturais podem ser, ipso facto, lidos e analisados, desde um ritual, uma cidade, um conto popular e um texto filosófico; a leitura exegética tende, portanto, à busca dos significados, dos sentidos.46 Ronald Walters explanou sobre a ousadia e os riscos desta proposta para as análises das culturas, a saber, de que a descrição densa redimensiona o todo pelas partes, posto que um texto necessita se relacionar continuadamente com o outro - o que, então, põe em perigo as visões, as versões panorâmicas.47 Na significação do menor, do detalhe, dos agentes, portanto, uma primeira relativização é a do todo, e, nisto, a descrição densa marcou a obra de Darnton, porém não sem reações: “como consequência da dificuldade em conciliar o ‘grande’ e o ‘pequeno’, e por sua tendência a privilegiar o segundo desses termos, a antropologia cultural tal como proposta por Geertz é também, com frequência, acusada de sucumbir ao subjetivismo e ao relativismo”.48 O problema, conforme Levi, não está em diminuir o que se chama escala de análise - conforme procedeu em seus trabalhos - mas em radicalizar, relativizar e priorizar a subjetividade, a circularidade hermenêutica; ao ser questionado sobre a proximidade entre a micro-história e a antropologia, Levi disse que a micro-história independe da antropologia e existem bons resultados, entre outros, advindos da relação entre a microanálise com as ciências econômicas. Levi assegurou que a preocupação em suas produções era a de que “algumas explicações gerais não davam retorno; era necessário reorganizar a descrição do mundo social para deixá-la mais concreta”.49

Calcado na iniciativa de “ler as culturas”, Darnton procedeu, paradoxalmente, ao que nominou de a sua própria e singular “leitura do século XVIII”. Contudo, Darnton assumiu os riscos da hermenêutica utilizada e garantiu ao leitor que a sua própria interpretação pode ser interpretada, reinterpretada; ao passar pelo crivo hermenêutico dos leitores de O grande massacre de gatos, no caso em tela, Darnton avaliou ser importante o lugar da discordância, da variegação - sem nada dever aos amplos construtos sociais. No entanto, se o lugar da interpretação sobre a interpretação não atende aos anseios de eterno retorno ao panorâmico, de solidificação argumentativa e não supõe o estabelecimento axiomático dos preceitos gerais da Revolução Francesa, das cidades, dos aprendizes da rua Saint-Séverin, entre outros aspectos, estabelecem-se os dilemas suscitados por Levi que, para Darnton, são virtudes: os intérpretes das exegeses propostas podem ou não significá-las e ressignificá-las - ad nauseam.

Para Levi, tem-se, em tais possibilidades, na hermenêutica circular, o problema do relativismo como sendo constante na “história sitiada” da segunda metade do século XX.50 Donde, o chamado relativismo das interpretações e sobre as interpretações das interpretações se constitui, segundo Levi, demasiadamente perigoso porque concede abertura à aleatoriedade pluralizada nos âmbitos culturais: histórias de vida e amenidades têm importância em si. Sobre o curso das apropriações procedimentais de Darnton, Levi caracterizou como “revelador” o texto escrito por Geertz e intitulado: Anti antirrelativismo.51 Aduziu Levi, nessa direção, que “Geertz defende o papel desempenhado pelo relativismo cultural na destruição do etnocentrismo - e com isso nós não podemos deixar de concordar”, mas “ele prossegue identificando o relativismo cultural com o relativismo tout court e encara todo o antirrelativismo como uma tendência perigosa para considerar algumas culturas como hierarquicamente superiores a outras”. Na mesma abordagem crítica de Levi, são viáveis, no espectro das ciências humanas, apenas a “descrição densa e a elaboração de um repertório de significados”.52 Com tais concepções de redução Levi não pôde concordar. Não concordou, outrossim, com a autonomia da análise do menor na cultura em detrimento do retorno obrigatório ao maior panorâmico, ao todo. Ademais, não pôde concordar com as interpretações compostas, sobrepostas - ad continuum. Nesse sentido, Geertz versou acerca das objeções de parte dos historiadores sobre o ofício dos antropólogos interpretativos: de que estes últimos estudam minudências e de que se atolam nos “detalhes do obscuro e do sem importância”; por outro lado, Geertz disse que alguns antropólogos acusam os historiadores de “esquematismo, de perderem o contato com os dados imediatos e com as complexidades, de não terem sensibilidade” para “a vida real”.53

Embora tenha rechaçado o eurocentrismo e a compreensão intercultural a partir de determinado eixo analítico, Levi se posicionou sobre o que ponderou ser a inviabilidade das posturas ditas relativistas e, portanto, advertiu sobre a existência de um ônus para o historiador etnográfico: o de se tornar enredado “em um jogo infinito e gratuito de interpretar as interpretações”.54 De outra forma, Levi considerou o perigo do eurocentrismo, mas, ao descartá-lo, entretanto, ponderou ser pior o ônus da “ameaça irracionalista paralisante do relativismo como preço para se escapar do etnocentrismo”.55 Constata-se que Geertz rejeitou o relativismo e os elementos culturais postos nas ordens das supremacias hierárquicas, ao passo que Levi rejeitou o relativismo de forma veemente nas mais variadas situações, mas não considerou a hierarquização cultural europeia como sendo a causa prioritária e vigente da problemática imposta. Pode-se considerar que Levi se enunciou da Europa, da Itália, do circuito dos micro-historiadores italianos -, o que, evidentemente, não o tornou eurocêntrico -, no entanto demonstrou o seu lugar de pronunciamento teórico distado da academia estadunidense. Uma questão possível se apresenta: relativiza-se uma Europa por uma América, e por outros continentes, ou racionaliza-se com o largo e histórico trajeto epistemológico europeu? As pistas de Darnton indicaram uma leitura de culturas apreendidas da observância do plural que, na descrição densa, valorizou as diferenças culturais: os valores, os usos, as histórias são relativas às culturas que as produzem e precisam ser contempladas segundo as suas singularidades.56

Se Levi concebeu que o eurocentrismo estava em grande parte exorcizado, Geertz não compreendeu da mesma forma porque, em seus ditames, mais grave do que o relativismo é o problema do “provincianismo”:

Aquilo com que os chamados relativistas querem que nos preocupemos é o provincianismo - o perigo de que nossa percepção seja embotada, nosso intelecto seja encolhido e nossas simpatias sejam restringidas pelas escolhas excessivamente internalizadas e valorizadas da nossa própria sociedade. Aquilo com que os autointitulados antirrelativistas querem que nos preocupemos - e nos preocupemos ao máximo, como se nossas próprias almas dependessem disso - é com um tipo de entropia espiritual, uma espécie de morte mental por excesso de energia, no qual tudo é tão importante e, portanto, tão insignificante quanto todo o resto: vale tudo, a cada um o que é seu, é só pagar e escolher, sei o que quero, comigo não, tout comprendre, c’est tout pardonner.57

Em sentido contrário a Geertz e a Darnton, Levi disse, do relativismo atribuído ao uso da descrição densa, que se trata de análise da “cultura como uma busca infinita de informação” - o que desloca a racionalidade bem aceita entre historiadores e a reputa por “racionalidade limitada” na abordagem de diferentes épocas, locais. Na antropologia interpretativa apresentam-se, pelas lentes de Levi, “casos para esclarecimento” regidos por “regras não especificadas”: não se tem “objetivo comparativo”, mas um repertório interpretativo e, portanto, os significados operam na lógica do discurso, na lógica do deslocamento. Tais reflexões advindas de Geertz são cuidadosa e metodologicamente tratadas quanto às formas da descrição densa que é “interpretativa”, que interpreta “o fluxo do discurso social”, mas, ressalte-se, que é a “interpretação envolvida em tentar salvar o ‘dito’ num tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo em formas pesquisáveis” - o que confere sofisticados procedimentos analíticos às pesquisas.58 Assim, Darnton partiu criteriosamente não das grandes molduras, porém de procedimentos analíticos com maiores possibilidades interpretativas às histórias de O grande massacre de gatos porque, como reconheceu Natalie Z. Davis, a antropologia simbólica contribuiu para o alargamento experimental, para desvendar, para construir observatórios do passado e para buscar os estranhos e os elementos surpreendentes em documentos, a princípio nada reveladores.59 As prescrições de Geertz contribuíram, então, para a caracterização cultural como extremamente diversa e possuidora de uma variedade de valores, de normas, de direitos, de convenções e de crenças sobre o bem, o mal, sobre o certo e o errado, assim como sobre as noções de moral, de imoral, de belo, de feio, de justo ou de injusto e mesmo para decifrar uma piada de operários franceses. Tais relativizações da cultura auxiliam, de maneira multivocal, para compreender rituais e símbolos construídos em torno de um massacre de gatos no Ancien Régime, portanto.

O pulo do gato em uma hermenêutica geertziana: influências, utilizações

De manhã eu voltei pra casa

Fui barrada na portaria

Sem filé e sem almofada

Por causa da cantoria.

A história de uma gata.

Segundo Levi, em O grande massacre de gatos, a inspiração geertzista serviu como “filtro em direção ao mundo da discussão teórica”.60 O contributo de Levi é particularmente interessante e contumaz, pois, além de todo o arcabouço de uma crítica severa, retraça uma linha contínua de temporalidade retroativa porque digressiona para verificar conexões em um arriscado jogo de influenciados, de influenciadores. De saída, torna-se preciso abordar o que se convencionou nominar, aqui, de “teleologia epistemológica reversa” para advertir que o contato decisivo entre Geertz e Darnton não resumiu ou delimitou a sua teia de influências intelectuais ou de apropriações significativas. Sustenta-se ser inadequado reduzir a cadeia de influenciadores de Darnton às inspirações hermenêuticas de Geertz, embora, ao fazer uso do aporte teórico-metodológico de Geertz, Darnton tenha se valido de larga tradição hermenêutica. Segundo a entrevista concedida por Darnton a Carvalho, o encontro entre Geertz e Darnton se deu na década de 1970 e revelou inter-relações produtivas:

Quando lhe expliquei como essa variedade de história tinha surgido na França, ele respondeu: “isso parece antropologia”. Uma coisa levou à outra e, em 1976, ele dava o seminário comigo. Tornou-se um seminário em História e Antropologia, o tipo de antropologia que Cliff desenvolveu juntamente com Victor Turner, Mary Douglas, Marshall Sahlins e outros (...) A aproximação entre História e Antropologia se deu facilmente, não apenas no nível da teoria mas, sobretudo, em estudos monográficos de temas como feitiçaria e ritos de passagem (...) The great cat massacre traz, de fato, a marca dessa experiência. Mas não é um livro especificamente “geertziano”.61

Percebe-se que Darnton destacou, na rede de suas influências, outras relações epistêmicas compartilhadas inclusive pelos antropólogos Victor Turner, Mary Douglas, Marshall Shalins e até pelas importantes concepções weberianas em Geertz. A complexidade na ligação dos fios, que compuseram a costura das influências de Darnton, possui pluralidade inquietante, polissêmica, e, por isso, a redução das suas influências - sem considerar as variações possíveis - pode sofrer reavaliações. Para Levi, contudo, a cadeia de influenciadores de Geertz contribuiu para a hermenêutica que, apropriada por Darnton, tornou-se problemática. Na concepção de Levi, não obstante, Darnton captou meteorologicamente o clima das ciências humanas e sociais para escrever um livro exitoso, O grande massacre de gatos, cujo sucesso se deveu à hermenêutica empregada e à sensibilidade acerca do clima cultural da França do século XVIII. Deveras crítico ao trabalho de Darnton, mas, tendo-o destacado como obra bem recepcionada pelo público, Levi concebeu que O grande massacre de gatos representou a “síntese extrema de um certo modo de imaginar a antropologia de Geertz”. Não suficiente o trabalho de explorar os conceitos de Darnton, Levi duvidou de que o emprego hermenêutico sobre as sociedades temporalmente distanciadas daquelas de tempos recentes seja plausível e atenda homologamente aos mesmos critérios da antropologia interpretativa, isto é, Levi ponderou que os franceses da Idade Moderna eram “interlocutores em piores condições de reagir do que os marroquinos e os indonésios de Geertz”.62 Por seu turno, Darnton explicou: “esse tipo de história cultural pertence às ciências interpretativas” e, então, de geertziano e historiador bem sucedido, o autor de O grande massacre de gatos passou à geertzista na concepção corriqueiramente qualificadora de Levi.63

Eis, portanto, uma diferenciação conceitual: Darnton não tratou da microanálise como Levi - com dedicação à história com retornos aos grandes construtos. Além da antropologia interpretativa, Geertz e, conseguintemente, Darnton, acorreram à filosofia hermenêutica, pelo que Levi teve razão ao associar seu maior influenciador às leituras de Schleiermacher, Dilthey, Heidegger, Gadamer, Ricoeur. Por lógico, a influência de Schleiermacher para o reposicionamento hermenêutico no século XIX foi ínclita, posto que o ato interpretativo adotado pelo filósofo, inclusive em 1829, define-se como a “compreensão do discurso estranho”64 - o que fez com que “interlocutores em piores condições de reagir”65 fossem objetos estranhos e estranhamente adequados para determinada desnaturalização de seus lugares enunciativos. Em Schleiermacher, a interpretação é ampliada à vida ordinária, à vida cotidiana e se torna próxima da disciplinaridade em dupla direção:

A primeira e mais elementar encontramos não apenas cotidianamente no mercado público e na rua, mas também em muitos círculos sociais onde se trocam modos de falar sobre assuntos comuns, tal que o falante quase sempre sabe com certeza o que o seu interlocutor responderá, e a fala é apanhada e devolvida como uma bola. A segunda parece ser o estágio no qual nós em geral estamos. Assim é praticada a interpretação em nossas escolas e faculdades, e os comentários esclarecedores dos filólogos e teólogos - pois ambos têm o campo previamente cultivado -, contêm um tesouro de observações e informações instrutivas, as quais provam suficientemente o quanto eles são verdadeiros artistas, na interpretação, ao passo que seguramente ao lado deles, sobre o mesmo assunto, em parte nas passagens mais difíceis, emerge o mais selvagem arbítrio, em parte a mediocridade pedante insensivelmente omite ou totalmente deturpa o mais belo.66

O que se percebe é que a hermenêutica está relacionada, em Schleiermacher, e no século XIX, às relações e estratégias ordinárias exemplificadas por relações construídas cotidianamente; o que Darnton fez em sua produção, e Levi reconheceu, foi a correlação da cotidianidade e o emprego da disciplinaridade analítica no âmbito da cultura: “a questão de penetrar nos produtos espirituais de outra época e de outros povos torna-se um problema”67 em detrimento da hermenêutica existente até o Romantismo - de interpretação bíblico-teológica ou de exegese jurídica.68 A hermenêutica atravessou assim, com Dilthey, parte das discussões do XIX entre determinados filósofos, porém, no século XX, aprimorou-se, intensificou-se e se inscreveu na esfera polissêmica reelaborada segundo Ernildo Stein em “Gadamer e a consolidação hermenêutica”.69 Após a concepção de uma hermenêutica estrita, engendrou-se, conforme mostrou Stein, certa abrangência analítica com Schleiermacher e Dilthey, assim como se passou da hermenêutica epistemológica à hermenêutica ontológica principalmente constante nos clássicos de Heidegger e do mencionado Gadamer. Porque “a questão principal do livro Ser e tempo, lembrará Gadamer, não é como o ser pode ser interpretado, mas como a compreensão é o próprio ser”.70 Segundo entendimento gadameriano, Heidegger “interpretou na estrutura de tempo do Dasein como o movimento de interpretação”, que não acontece apenas no decurso dos eventos da vida, mas é “a própria forma da vida”. Nesse sentido, o caráter ontológico estabelecido por meio da leitura hermenêutica de Gadamer sobre a obra de Heidegger, sobre o clássico Ser e tempo, desenvolve-se tendo como fundamento a compreensão de que “interpretamos por meio da própria energia vital, que significa ‘projetando’ em e por entre os nossos desejos, vontades, esperanças, expectativas, assim como em nossa experiência de vida”. Daí, o discurso encontra um destino na existência que é interpretativa e interpretadora dos sentidos intrínsecos ao objeto da interpretação: “a interpretação do interlocutor e seu discurso, do escritor e seu texto, é um aspecto especial do processo da vida humana em sua completude”.71 Ainda de um ângulo gadameriano, a “hermeneutic turn”, que se calcou na “linguisticalidade do homem nos abarca neste ‘uns-com-os-outros’; nisto está fundamentada a obrigação humana de aprender” porque “o que é importante não é só escutar coisas de uns aos outros, mas escutarmos uns aos outros” - apenas isso é “compreender”, apenas isso é “entender”.72

Para Darnton, tanto quanto para Gadamer em sua hermenêutica, a dialogia “com a tradição, com as línguas e as culturas distantes”, bem como a reflexão “sobre as condições históricas e filosóficas da compreensão e da interpretação” estavam corriqueiramente postas na dinâmica exegética.73 Depois de Schleiermacher, de Dilthey, de Heidegger, Gadamer forneceu um status avançado à hermenêutica que, paulatinamente, consolidou-se: a hermenêutica não se restringiu à interpretação, mas, sendo a interpretação uma parte essencial dos atos exegéticos, ela reequilibrou “a verdade do nosso ser e o método da ciência” num gesto essencialmente ontológico.74 Não foi suficiente, portanto, compreender, em Heidegger e Gadamer, os interstícios textuais que impuseram as análises, mas se tornou necessário proceder a exegeses ônticas e perscrutar, entre as linhas textuais, as linhas vivenciais - de encontrar os agentes intertextuais; em outras palavras, Darnton examinou o simbólico, examinou o outro, um Contat, e, sendo assim, alternou uma hermenêutica do cotidiano com os procedimentos analíticos no interior da história cultural em diálogo com a antropologia interpretativa - estabeleceu relações intersubjetivas: “examinar dragões, não domesticá-los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em que consiste a antropologia”. Nos meandros simbólicos, sob a influência da hermenêutica de Gadamer, Geertz, após defender-se das acusações de “niilismo” e “subjetivismo” com as quais Celso Azzan Júnior discordou,75 deteve-se na declarada atividade de busca pelo “desequilíbrio, puxando tapetes, virando mesas e soltando rojões” porque “tranquilizar é tarefa de outros; a nossa é inquietar” - argumentou. Ato continuum, ousou: “Australopitecos, Malandros, Cliques Fonéticos, Megalitos: apregoamos o anômalo, mascateamos o que é estranho, mercadores que somos do espanto”.76 Stein, que estudou, por seu turno, as etapas da desassimilação - e não o abandono - das hermenêuticas de Schleiermacher a Dilthey, apontou para Heidegger e se concentrou em Gadamer, em Verdade e método, na medida de sua compreensão e de seu estilo exegético; da mesma forma como Geertz se propôs ao estudo da interpretação de culturas, Gadamer, antes, alicerçou-se sobre a possibilidade de interpretar a tudo que se apresente: “podemos interpretar esta universalidade como sendo uma forma de criar uma disciplina que englobe toda e qualquer atividade do ser humano no campo da interpretação” na perspectiva da pesquisa histórico-filológica e mesmo no âmbito da filosofia.77

Na hermenêutica de Gadamer, fez-se presente a noção de wirkungsgeschichtliches Bewusstsein, uma consciência histórica impactante - o que, então, influenciou Geertz e Darnton; Gadamer compreendeu por consciência histórica a historicidade de todo o presente e a relatividade, isto é, a particularidade de toda a opinião sobre o presente; ao mesmo tempo, a tomada de consciência como aparelho de interpretação se mostra por meio dos percursos intelectuais dos contemporâneos.78 Mas Levi procurou explicitar que Gadamer incidiu sobre Geertz, e, não sem prejuízo analítico, direta ou indiretamente, sobre Darnton na medida em que “o conhecimento histórico não pode ser descrito segundo o modelo de um conhecimento objetivo”, posto que a “compreensão deve ser entendida no sentido de um ato de existência, e é então um projeto lançado” - o “objetivismo é uma ilusão”.79 A hermenêutica de Geertz, regida por Gadamer, perpassou as modificações de significados e de sentidos do próprio texto, das histórias de vida ou dos documentos analisados de maneira que a mimese entre o acontecimento e o enunciado sobre a ocorrência sofre, nestes moldes, os processos interpretativos; porque “não se pode, portanto, reduzir a interpretação e a sua verdade a uma correspondência entre proposição e texto: o próprio texto sofre uma contínua modificação, mostra multiplicidade dos seus significados, e os historiadores são membros de uma cadeia ininterrupta da qual o passado chega até nós”. Para Levi, tais perigos são característicos do geertzismo e atingiram Darnton, comprometendo a sua análise que, ao invés de considerar concretudes, verteu-se às pessoas, aos sentimentos - na perspectiva de uma hermenêutica ontológica - que “agem como se fossem frases” no âmbito de um discurso dotado de oscilação.80

Produzida cerca de 20 anos depois da década de 1730, a narrativa do operário Contat foi submetida ao potencial interpretativo de Darnton - com as imperfeições de grafia apreciadas por este historiador -, porque deslindou sobre um massacre de gatos ocorrido na rua Saint-Séverin, em Paris, como a um sistema simbólico progressivamente desvendado: um simulacro exegético. A vida de dois aprendizes, Jerome e Léveillé, não era nada fácil no cotidiano da gráfica situada na rua Saint-Séverin, porque foram submetidos a um estado de coisas deplorável: dormiam em um quarto conspurco, inóspito e gélido, levantavam-se antes de todos os outros operários, tinham períodos de trabalho muito longos, esquivavam-se dos insultos dos assalariados e dos péssimos tratos do mestre e de sua mulher. Uma das situações mais degradantes que abriu as gretas de reclamos dos artesãos foi a comida porque “achavam a comida especialmente mortificante”.81 Ao cabo e ao final das suas expectativas, os aprendizes recebiam do cozinheiro apenas os restos da comida dos gatos: carne putrefata que, ulteriormente, era devolvida aos gatos e que, como sinal ou símbolo de escárnio, rejeitavam-na. La grise era a favorita da mulher do mestre e parecia até mesmo uma projeção de si mesma: cuidar, portanto, de la grise era como proferir um elogio à casa do burguês.

À época da narrativa de Contat, no entanto, havia uma proliferação significativa de gatos: os burgueses tinham predileção por gatos, porém. Os felinos estavam por todas as partes - nas ruas, nas gráficas e, por lógico, nas casas dos patrões. Não passavam desapercebidos dos operários, nem os patrões, nem os felinos. Porque a mulher do patrão representado por Contat estimava la grise - uma espécie (nada) piedosa de צֶּלֶּם (tzelem), imagem, e דְּמוּת (demut), semelhança de si, cuidava da gata como à sua própria estima, como ao seu próprio ego. Os gatos uivavam durante toda a noite e os aprendizes, que acordavam entre uma ou duas horas antes de amanhecer o dia, perturbavam-se, irritavam-se e percebiam que a desigualdade não poderia mais ser tolerada - os patrões, considerados como preguiçosos, dormiam sempre até tarde como hábito burguês para fazer sobejar energia. Até que, “certa noite, os rapazes resolveram endireitar esse estado de coisas desigual”.

A consciência de que as suas ações poderiam causar instabilidade no cotidiano da burguesia se acentuou: Léveillé, que tinha um talento extraordinário para a “imitação, rastejou pelo telhado até chegar a uma área próxima ao quarto de dormir do patrão, e então começou a uivar e miar de maneira tão terrível que o burguês e sua mulher não pregaram os olhos”.82 Ao invés, entretanto, de recorrerem ao sacerdote como costumeiramente - e apesar de a esposa do mestre ser bastante ligada ao seu confessor, mas não sem as suspeitas reveladas por Contat -, pois eram pios e zelosos, o mestre e sua mulher preferiram ordenar aos aprendizes que exterminassem os gatos porque o medo de feitiçaria foi robustecido depois de os patrões passarem diversas noites sem pregar os olhos. Por experiência confluente e fugidia, os patrões compreenderam que havia algo de diabólico em não recobrar as forças em uma noite de sono. Os rapazes receberam ordens enérgicas de que não poderiam sequer assustar la grise, mas, ainda assim, a felina se tornou a primeira a ser capturada pelos aprendizes - vítima de uma simbologia quase vicária de substituição metonímica; quebrando-lhe a espinha com uma barra de ferro, Léveillé foi solidário à avidez de Jerome que terminou de matar a gata pertencente à burguesa.83 Houve uma solidariedade, aliás, algo inusitada na ajuda prestada pelos assalariados aos aprendizes encarregados do extermínio: a piada começou: “a coisa mais engraçada que aconteceu na gráfica de Jacques Vincent, segundo um operário que testemunhou o fato, foi um sedicioso massacre de gatos”.84

Sendo, pois, a hermenêutica uma forma criteriosa de interpretação dos sentidos, a “percepção de que as expressões humanas contêm componente significativo” reconhecido por determinado investigador e, consequentemente, “transposto para o seu próprio sistema de valores e significados”,85 Darnton se propôs a decifrar a natureza do humor dos operários em razão do massacre de gatos, assim como o porquê das suas jubilosas manifestações. Foi uma mortandade de gatos com realizações efusivas: os operários se armaram com cabos de vassouras, barras de impressoras e outros instrumentos de trabalho; eles, então, atiraram meio enraivecidos, meio jubilosos, sacos repletos de gatos semimortos no pátio. Fingiram um julgamento com guardas, confessor e, é claro, com executor público - julgamento de sentença antecipada. Até que suas gargalhadas atraíram a atenção da patroa, mas não sem antes procederem com o ritual completo, isto é, a perpetração de animais em forcas improvisadas. Os operários riram ao longo de vários dias de copies no trabalho. Mais do que a interrupção de lucro dos burgueses já que os artesãos mais gargalhavam do que trabalhavam, a desconfiança certeira da patroa indicou que o levante dos aprendizes contra la grise era uma insubordinação das mais vilipendiadoras.86

A hermenêutica de Darnton se constrói, entretanto, na mesma intensidade do humor altissonante de Jerome, Léveillé e dos assalariados: eles deliraram de alegria, desordem, gargalhadas. Para escarnecer do espetáculo e se vingarem dos vitimados, os aprendizes fizeram as copies - humilhação, aviltação, escárnio e toda a sorte de zombaria divertida se seguiu ao massacre dos gatos.87 Mas, o problema hermenêutico destacável na obra de Darnton não foi apenas um possível fato cultural desencadeado das copies dos operários e das manifestações zombeteiras ou recorrentemente pilhéricas; o problema hermenêutico de Darnton está relacionado à pergunta do porquê de um massacre de gatos aviltante ser tão comemorado: em outras palavras, os fios exegéticos se ligam um a um em torno de uma anedota cultural incompreendida aprioristicamente pelo leitor atual. Por que matar gatos aos montes se tornou algo tão engraçado?

Nossa incapacidade de entender a piada é um indício da distância que nos separa dos operários da Europa pré-industrial. A percepção dessa distância pode servir como ponto de partida para uma investigação, porque os antropólogos descobriram que as melhores vias de acesso, numa tentativa para penetrar uma cultura estranha, podem ser aquelas em que ela parece mais opaca. Quando se percebe que não se está entendendo alguma coisa (...) existe a possibilidade de se descobrir onde captar um sistema estranho de significação, a fim de decifrá-la.88

Para compreender parte da cultura de artesãos do Ancien Régime, Darnton se arvorou na piada desvelada apesar das opacidades ocasionadas pelo distanciamento temporal e apesar dos limites documentais apresentados. Porque não compreender uma piada pode ser algo distanciador, o autor procurou pelo pulo do gato em uma hermenêutica geertziana. Mas Levi desaconselha o geertzismo ao afirmar que as interpretações de Darnton, de certa forma, extrapolaram as possibilidades; disse Levi que onde Gadamer aduziu que é a “experiência do xeque (quando não compreendemos nada do texto, ou quando a resposta dada por ele contradiz as nossas antecipações) que revela a possibilidade de um uso linguístico não-habitual”, Darnton assegurou que “analisando o documento onde ele é mais opaco, talvez se consiga descobrir um sistema de significados estranho”.89 Conforme analisou-se anteriormente, Darnton não fez a transposição às escuras ou mecanicamente e, tampouco, realizou a transposição mecânica da filosofia embora as suas bases tenham respaldos em Geertz como intérprete também de uma tradição hermenêutica. Posto que não houve transposição mecânica inclusive da filosofia, Darnton desnaturalizou o próprio campo filosófico, apropriando-se dele, por intermédio de Geertz e da descrição densa no interior da história cultural ao se perguntar pelos campos de opacidade do conjunto documental.

No entanto, Levi mencionou o que, em outras palavras, concebeu serem os exageros de Darnton; entre variados excessos cometidos, Darnton, na opinião de Levi, supervalorizou de forma “paternalista” os operários descontextualizados do todo social. Ressalve-se, entretanto, que Lilia Katri Moritz Schwarcz se recordou do trinômio usado por Darnton: “do texto ao contexto, voltando ao texto”.90 O entendimento de Levi sobre as interpretações de Darnton foi de que este último extrapolou, sobretudo quando não se contentou com a singularidade do fato como costumeiro na microanálise - na análise com a escala reduzida - e, por isso, verteu-se ao menor, mas ao menor excêntrico, ao exótico para não dirimir os símbolos. Levi pôs em questão não somente os simulacros temporal e metodológico de Darnton, mas a importância do documento de Contat. Escrito décadas depois de O grande massacre de gatos, o documento reposicionou a rua Saint-Séverin por meio da arqueologia do improvável. Ao problematizar, Levi atribuiu a Darnton desígnios que não foram os seus e que raramente pertenceram às preocupações do seu círculo de interlocutores, a saber, o de dar legitimidade, o de atribuir exatidões e o de reconstituir o passado a partir do modelo mimético: de reconstituí-lo tal como foi. Tais preocupações teóricas seriam deveras anacrônicas para um historiador da cultura como Darnton, que escreveu e fez da ambiência contemporânea manifesta nas mentalidades de operários um dos seus eixos analíticos. Caso contrário, Darnton não teria afirmado, sem negar os acontecimentos, que o documento mencionado “não pode ser encarado como reflexo exato do que realmente aconteceu”.91 Por isso mesmo, disse Darnton que como

...todas as narrativas, esta coloca a ação numa estrutura referencial; supõe um certo repertório de associações e respostas, da parte de sua audiência, e proporciona uma forma significativa à matéria-prima da experiência. Mas como estamos, em primeiro lugar, tentando entender sua significação, não devemos desanimar com seu caráter fabricado. Pelo contrário, tratando a narrativa como ficção, ou invenção significativa, podemos usá-la para desenvolver uma explication de text etnológica.92

Em paradoxo ao que Levi abalizou em seu texto, Darnton, que primou pela força da expressão narrativa, partiu do caráter eminentemente ficcional e da criatividade significativa. Contat reelaborou, ele próprio, como intérprete de si, dos gatos e dos outros - do trabalho, da comida e do sono -, a sua versão preenchida por elementos ficcionais que encontraram na lógica da etnologia um mosaico com peças de diferentes vernizes às possibilidades exegéticas. Na potência narrativa do documento, o enfoque geertziano tornou tudo mais interessantemente perigoso e, portanto, aprofundou a crise em face da extrapolação do singular, assim como da excentricidade da própria narrativa. Por outro ângulo, as boas narrativas, as boas histórias, podem introduzir os intérpretes e as interpretações nos perigosos campos das alternâncias de significados móveis, das transgressões teórico-metodológicas e da fruição na escuta cultural textualizada por sensibilidades. As referidas periculosidades, porém, inscrevem-se em certo paradigma metodológico compreendido por Sandra Jatahy Pesavento:

É possível ainda falar na descrição densa, estratégia apropriada da Antropologia e levada a efeito pelas análises de Clifford Geertz (...) Fornecendo ao historiador os exemplos de um método altamente significativo para realizar uma pesquisa intensa, descrevendo a realidade observada nos seus mínimos detalhes e correlação de significados possível, a descrição densa da Antropologia ensinou como explorar as fontes nas suas possibilidades mais profundas, fazendo-as falar e revelar significados (...) O método fornece ao historiador meios de controle e verificação, possibilitando uma maneira de mostrar, com segurança e seriedade, o caminho percorrido, desde a pergunta formulada à pesquisa de arquivo, assim como a estratégia pela qual fez a fonte falar, produzindo sentidos e revelações, que ele transformou em texto.93

As autoras Bonnell e Hunt argumentaram acerca da reviravolta ocorrida depois das publicações dos textos de Geertz, entre 1957 e 1972, em The interpretation of cultures: selected essays; para as autoras, aconteceram mudanças que reconfiguraram a teoria e a metodologia dos estudos culturais. Segundo Bonnell e Hunt, ainda, os símbolos, os rituais, os eventos e os artefatos históricos, desde então, foram designados como textos interrogados por uma espécie de consciência interna partícipe de um sistema de significação.94 Darnton imbuiu-se na tarefa de estranhar, no sentido de desnaturalizar, os operários franceses da gráfica de Jacques Vincent na procura não do exógeno que se manifestou em suas vidas como maior e mais essencial impacto de opressão, de aniquilação, mas dos dramas, das tramas menores na obra do autor de O grande massacre de gatos. Não que Darnton tenha prescindido de análises que denotaram a situação do operariado em Paris, à época do seu objeto, mas que a sua exegese transcendeu a mera descrição factual das coletas em documentos, inclusive da Société Typographique de Neuchâtel, STN.95 Não foi suficiente demonstrar a dicotomia rígida entre burgueses e proletários, porque existe evidentemente vasta, oportuna e especializada historiografia dedicada aos grandes sistemas que pautam o Ancien Régime; sem polarizar a partir de entendimentos prévios, no entanto, Darnton refletiu sobre as percepções dos burgueses, segundo as quais os artesãos do século XVIII eram “preguiçosos, inconstantes, dissolutos e não confiáveis” de forma concomitante às concepções dos operários acerca dos mestres como aqueles que, com as suas esposas, gozam da “doçura do sono”. Nos ditames de Darnton, entrementes, o burguês da rua Saint-Séverin pertencia “a uma subcultura diferente - o que significava, acima de tudo, que não trabalhava”. Mais do que isso, que os artesãos pretenderam retornar a um passado mitificado, idílico, em que teria havido maior justiça no labor cotidiano entre operários e burgueses: origem onírica ou sonho em vigília.96

Não sem razão, Darnton distendeu a sua análise ao Carnaval e à Quaresma, aos ritos, para promover entendimentos sobre o porquê do massacre de felinos. Bonnell e Hunt, portanto, tinham logicamente razão quando sinalizaram para a predileção de historiadores culturais favorecidos pela metodologia de Geertz em torno de dinâmicas ritualísticas. Da ficcionalidade possível nos ritos e nos documentos, quer seja de uma narrativa como a de Contat, quer seja de outro aporte material de natureza distinta, Pesavento ponderou que se encontram no cerne da história cultural “Representação e imaginário”, o retorno da narrativa, a entrada em cena da ficção e a ideia das sensibilidades levam os historiadores à reflexão não só das possibilidades de acesso ao passado, na reconfiguração de uma temporalidade”, mas “colocam em evidência a escrita da história e a leitura dos textos”.97 Tais ficções urdidas sofisticadamente são, portanto, na maior parte das ocasiões “controladas”: em primeiro lugar pelos “indícios arrolados que se substituem ao referente, como sua representação, pois o acontecido não pode comparecer para testar e comprovar”; em segundo lugar por meio da “testagem”, ainda que “a experiência passada não seja mais capaz de ser reproduzida”; ulteriormente, “a história é ficção controlada pelo recurso ao extratexto, que é também registro e marca que revelam a exemplaridade do método seguido, a compor, estabelecer analogias, contrastar, superpor, anunciando nexos”.98

Semelhantemente, Darnton recorreu com outra terminologia à “ficcionalidade controlada” (na perspectiva analítica de Darnton se trata de ficcionalidade interpretada) para compreender o ritual da matança de gatos, explicando-o pelas representações e pelos imaginários do Carnaval e da Quaresma: “Carnaval era a temporada da hilaridade, da sexualidade, e os jovens se esbaldavam - um período em que a juventude testava as fronteiras sociais, através de irrupções limitadas de desordem” antes do restabelecimento “da ordem, da submissão e seriedade da Quaresma”: tudo terminava “na Terça-feira Gorda de Carnaval, ou Mardi Gras, quando um boneco de palha, o Rei do Carnaval, ou Caramantran, era julgado e executado, num ritual”. Era um período de críticas e de acentuada transgressão, portanto. De um lugar ao outro da Europa, os rituais que provocavam sofrimento aos gatos e divertimento às pessoas se processavam conforme escreveu Darnton.99 Nada distante dos ritos que abarcavam comunidades ávidas pela perpetração dos felinos, os artesãos tinham os seus próprios rituais para matar gatos e com dinâmicas vicissitudinárias segundo aclarou Darnton.100

Igualmente, os gatos produziram, passo à frente dos ritos e dos rituais, fascínio e mistério no ambiente do Ancien Régime. Seus aspectos, seus uivos, seus olhares e as crenças estabelecidas sobre eles - de experiência temporal remota - não passaram desapercebidas a Darnton; o poder oculto dos gatos associado aos valores rituais empregados em cada cerimonial propiciava que a pândega fosse completa em decorrência da tortura dos animais como desafio à feitiçaria dos tempos modernos. Ao passar pela literatura não somente de Dom Quixote, do Germinal e mesmo pelo riso de Rabelais, Darnton reelaborou toda a periculosidade dos gatos no imaginário da população, bem como os rituais realizados; do protestantismo, ao retomar fugazmente o contexto da Reforma, disse que: “uma multidão protestante raspou os pelos de um gato de modo a fazê-lo parecer-se com um padre, vestiu-o com uma batina em miniatura e enforcou-o no patíbulo, em Cheapside”. Fossem os sacrificadores protestantes ou católicos, operários de diferentes produções, os rituais de extermínio não eram raros - estavam por toda a Europa. Assim, a interpretação acerca do poder dos gatos foi múltipla e ousada em Darnton: desde os feitiços à caracterização dos felinos como demônios até elementos mágicos e de sexualidade feminina. Por isso, disse Darnton que tudo era permitido à noite, ao recorrer à coletânea de provérbios do século XVIII, que: “à noite, todos os gatos são pardos”. E que tipo de textualização se procedeu sobre a existência dos felinos, sua livre e ameaçada circulação, a pândega em torno dos gatos, bem como as crenças elementares sobre eles e os sabás de gatos? Segundo Darnton, os gatos, como textos culturais, eram identificados com “feitiçaria, orgia, traição sexual, baderna e massacre” e as pessoas ouviam muitas coisas enquanto escutavam o miado polissêmico de um felino: “o que os homens da rua Saint-Séverin realmente ouviram é impossível dizer”, mas “os gatos tinham enorme peso simbólico no folclore da França” e a “tradição era rica, antiga e disseminada o bastante para penetrar na gráfica”.101

Nada disso - dessa interpretação especializada - se encontra inscrito no campo teórico de pertinência para Levi. Para o italiano, as minudências de Darnton eram caracterizadas, conforme se constatou, como geertzismo e nada acrescentavam à historiografia convencional: “pequenos episódios tornam-se aparentemente importantes, porque já conhecemos o esquema global no qual inseri-los: a pesquisa não acrescenta nada ao já conhecido”. Ora exigido pela ausência de correlação contextual, ora acoimado por exageros, Darnton foi concebido por Levi como quem banalizou na escrita historiográfica ao recorrer às miudezas:

É exatamente o caso do ensaio que dá título ao volume, “Workers revolt: the great cat massacre of the Rue Saint-Séverin”. O assassinato dos gatos da mulher do mestre por parte dos trabalhadores tipográficos exprime a revolta de um grupo social ainda corporativamente subordinado aos bourgeois: “Seria absurdo considerar o massacre dos gatos como um ensaio geral para os massacres de setembro da Revolução Francesa, mas a irrupção anterior de violência realmente sugeria uma rebelião popular, embora permanecesse restrita ao nível do simbolismo”. As relações entre mestres e trabalhadores, o simbolismo dos gatos, a visão de mundo do povo e da burguesia estão dados, contexto imóvel que não é modificado; o que o artigo explica é, então, a morte violenta de um gato qualquer, em um quadro já conhecido de cultura carnavalesca e de revolta operária, estabelecido através de estudos bem mais importantes e inovadores.102

Realmente Darnton escreveu, com razão, que se tratava de um absurdo encarar “o massacre de gatos como um ensaio final para os Massacres de Setembro da Revolução Francesa”, mas se argumentasse algo em contrário não seria reputado por exagerado como quando supervalorizou, na perspectiva de Levi, o papel das pessoas ordinárias de forma “paternalista” ou como quando, segundo o mesmo autor, extrapolou o uso hermenêutico de Geertz em rituais ou fez transposições mecânicas? Ao contrário de se propor ao estudo das grandes implicações da Revolução Francesa em O grande massacre de gatos, Darnton ouviu os documentos da cultura e significou o cotidiano dos artesãos, dos burgueses - matéria de importância para a história cultural e igualmente para a hermenêutica descrita por Maria Odila Silva Dias.103 Talvez se pudesse demonstrar como Darnton interpretou com voracidade e avidez o sentido, a aplicação dos charivaris, por exemplo, mas negar a importância do seu esforço de deslindar culturalmente as ações dos artesãos seria negligenciar o pulo do gato em uma hermenêutica geertziana como sagacidade metodológica, bem como os elementos fundamentais propugnados na obra em questão. Por isso, os “gatos são bons mesmo é para ‘fazer pensar’: lembram a sexualidade, a bruxaria e a pura diversão”, além de recordarem de que “quem conta um conto aumenta um ponto” e estabelece interpretações múltiplas que, nesse sentido, reportam ao enunciado de Schwarcz: “os gatos são bons para muitas coisas, e nesse caso podem fazer rir”.104

O grande massacre de Darnton?

Mas agora o meu dia-a-dia

É no meio da gataria

Pela rua virando lata

Eu sou mais eu, mais gata

Numa louca serenata

Que de noite sai cantando assim...

A história de uma gata.

Pelos fundamentos expostos até o presente, estabelece-se que a ausência de proximidade entre as trajetórias intelectuais de Levi e Darnton, bem como as discrepâncias teóricas de ambos produziram, é claro, lugares diferenciados nos amplos espectros das teorias da história e das ciências sociais. Se o massacre de gatos da rua Saint-Séverin sacrificou la grise, a preferida da patroa, no entanto, Darnton, com justeza historiográfica, escapou - por sua sagacidade - não sem a severa crítica de Levi: mas sem os simbólicos katzenmusik ou fire in the cat. Destacar-se-á algumas das razões, entre outras, que desfecham o pulo do gato na hermenêutica geertziana empregada por Darnton.

Em primeiro lugar, o poder mobilizador do símbolo ritual serviu de baliza. Derivado da textualidade na qual a vida se insere, mas também da experiência, a feitiçaria moveu as crenças, fornecendo as diretrizes para conceber a tarefa dinâmica e propulsora da mística, dos gatos, na dimensão cotidiana em que as suas estratégias são praticadas: “Jerome e Léveillé não podiam dormir porque ‘alguns gatos endemoninhados faziam um sabá a noite inteira’”. Sob a pândega compartilhada por Léveillé, que se passou por feiticeiro em uma artimanha ficcional, escolheu-se o “remédio clássico para a feitiçaria” não obstante os patrões terem preterido o cura de todo o ritual: mutilação e extermínio de gatos. Em uma esfera mais ampla, Michel de Certeau, entre outros, demonstrou na historiografia o poder das fábulas místicas na modernidade, o redimensionamento da mística onde ela, de fato, se exerce - no cotidiano, pelas ausências e substituições de seus objetos de veneração ou abominação (neste caso, os gatos representaram inclusive os demônios, o próprio diabo ou até a patroa). A mobilização simbólica legitimou o empenho e a força motriz de aprendizes e assalariados contra os patrões, contra as péssimas condições para o trabalho.105

Em segundo lugar, os gatos poderiam ser, portanto, representantes de quem os enfeitiçava - aqueles que não somente tomavam o lugar dos demônios ou do próprio diabo, mas do feiticeiro ou mesmo da patroa. Enfeitiçavam ardilosamente por interpostos. Tanto quanto não era digno habitar em condições degradantes e em um lugar inóspito, la grise não era digna da própria vida: tomando o lugar da patroa, porque os artesãos “dirigiram sua rebelião contra a patroa”, atacaram “a cacetadas sua familiar la grise, na verdade a acusaram de ser a feiticeira”. A graça estava na maneira como o mestre “levou todo o negócio a sério”, passando-se por um religioso tolo que, sob os conselhos de sua mulher, abdicou do ofício do padre por estratégias de eliminação dos “gatos sombrios”; ao mesmo tempo em que a sua mulher desconfiou, ab origine, de que o levante contra la grise se referia a uma insubordinação mais séria, os operários caçoaram com imitações e gargalhadas a mise-en-scène do ritual. Não bastasse tamanha desonra, Darnton se referiu ao mestre como sendo um corno porque o aporte documental interpretado indicou que “a patroa tinha um caso com seu padre”, com seu nada discreto padre e porque “a intriga coloca o mestre no papel de uma figura cômica estereotipada: o corno”.106 Por todos os lados a piada que Darnton caracterizou minuciosamente e interpretou era mesmo engraçada com risos de dor, de lascívia, de morte, de uma certa justiça diminuta que operava nas malhas microscópicas e capilares das pequenas relações. O que Levi nominou de “garboso caligrafismo de uma filosofia da história fechada em um círculo vicioso”107 era a exegese de Darnton operando, fio a fio - com intensidade - sobre os vetores de uma hermenêutica histórica de tendência etnográfica concomitante à noção de circularidade exegética.

Se por um lado e, em terceiro lugar, Darnton não lidou, no texto em evidência, com os princípios da Revolução Francesa naturalizados na compreensão mitificada de liberté, egalité, fraternité, por outro lado, o autor não deixou de demonstrar a relevância do símbolo do julgamento em tempos nada idílicos. O “legalismo burlesco” era já uma prática em muitos Mardi Gras e nos “julgamentos simulados todo ano, na fête de são Martinho”. Léveillé, porém, atacou o patrão e, tempos depois do massacre de gatos, foi demitido. Na perspectiva de Darnton, os “trabalhadores julgavam o burguês in absentia, usando um símbolo para deixar transparecer o que queriam dizer, sem serem suficientemente explícitos para justificarem a retaliação. Julgaram e enforcaram os gatos”:

Quando a patroa os acusou de matarem la grise, responderam, com fingida deferência, que “ninguém seria capaz de uma afronta dessas e que tinham demasiado respeito por aquela casa”. Executando os gatos com uma cerimônia tão elaborada, condenaram a casa e declararam os burgueses culpados - culpados de darem excesso de trabalho e alimentação deficiente aos seus aprendizes, culpados de viverem no luxo enquanto seus assalariados faziam todo o trabalho, culpados de se afastarem da oficina e a encherem de alloués, em vez de trabalharem e comerem com os homens, como se dizia que os mestres haviam feito, uma ou duas gerações antes, ou na primeira “república” existente no início da indústria gráfica (...) os gatos, como símbolos, evocavam o sexo, bem como a violência, uma combinação perfeitamente adequada para um ataque à patroa (...) a narrativa identificava-a com la grise, sua chatte favorite (...) A patroa reagiu como se a tivessem atacado: “Eles lhe arrebataram um gato sem igual, um gato que ela amava à loucura” (...) o texto a descrevia como lasciva e “apaixonada pelos gatos”, como se ela fosse uma gata no cio, durante um selvagem sabá de gatos, com miados, matança e estupro (...) quebrando a espinha de la grise, chamavam a mulher do patrão de feiticeira e de prostituta e, ao mesmo tempo, transformavam o patrão em corno e tolo. Era um insulto metonímico, feito através de ações, não de palavras, e atingiu seu objetivo porque os gatos ocupavam um lugar privilegiado no estilo de vida burguês.108

O símbolo que se velava e se desvelava, uma operação no abscôndito até à emergência interpretativa, tornava tudo mais engraçado e perigoso: os tipógrafos riam sem parar. E riam porque, sob parcos, frágeis e, às vezes, eficazes disfarces, revelavam o que era um “insulto metonímico”: ao atacarem la grise, instauravam um julgamento simbólico dos seus patrões, e, segundo Darnton, os “operários estupravam simbolicamente a patroa” e “faziam o supremo insulto ao seu patrão”: um julgamento à força e à força do disparate: vinganças compostas, sobrepostas - “justiça” com as próprias mãos, pelos gatos e aos moldes de uma piada sem graça do atual e anacrônico ponto de vista da dignidade humana. A mulher do mestre tomou o lugar central e metonímico no julgamento ao propiciar risadas e copies nada religiosas, nada “civilizadas”. Não que Darnton tenha transformado Contat em um historiador, mas que o tenha feito intérprete competente.

Em quarto lugar, Contat elaborou uma narrativa contendo erros de grafia, mas competente para ser as lentes de um laboratório cultural do século XVIII. Ocorre que ao deslocar Contat da posição de operário apenas economicamente subjugado por um “grande sistema” - o que não se refuta - Darnton compreendeu a sua função de hermeneuta: “Contat selecionou detalhes, ordenou os acontecimentos e estruturou a história de maneira a destacar o que era significativo para ele”; regeu-se por intencionalidade. Ademais, Darnton se tornou paulatinamente um intérprete da narrativa de um hermeneuta-operário e, então, reinterpretou anos mais tarde a exegese da rua Saint-Séverin entre gatos, aprendizes, assalariados, mestre, patroa e símbolos. Subjetividade ligada à precisão de informações no documento produzido por Contat, mas sempre direcionada às suas constatações ficcionais. Segundo Darnton, parece suficientemente “claro que os operários acharam o massacre engraçado, porque lhes proporcionou uma maneira de virar a mesa contra o burguês”.109 A descrição densa permitiu pensar e interpretar a virada abrupta de mesa em que Contat é hermeneuta do outro e é hermeneuta de si ao mesmo tempo em que é operário. Sendo certo que os fatores sociais exógenos que incidiram sobre o operariado não retiraram dos trabalhadores da rua Seint-Séverin as suas possibilidades hermenêuticas, interpretativas e não os inibiram de serem narradores das próprias histórias, Contat deu pistas de que a hermenêutica se descolou da formalidade à experiência para ser texto e para ser mais do que texto:

Mas tirou suas noções de significado de sua cultura, tão naturalmente como inspirava o ar da atmosfera em torno. E registrou o que ajudou a encenar, com seus companheiros. O caráter subjetivo do relato não vicia sua estrutura referencial coletiva, embora a narrativa, por escrito, possa ser pobre, em comparação com a ação descrita (...) De fato, o massacre original envolvia uma caricatura de outras cerimônias, como julgamentos e pândegas. Então, Contat escreveu sobre a caricatura e, lendo seu texto, deve-se levar em conta a refração das formas culturais, através dos gêneros e do tempo.110

Mesmo com todas as possibilidades compreensivas apresentadas em O grande massacre de gatos, Levi assumiu que deixou de lado “talvez em demasia” a “singularidade da obra, para colocar em evidência a exemplaridade de um modo irremediavelmente ‘outro’ de ler a história social em relação ao meu próprio e àquele, espero, de muitos leitores de Quaderni Storici”.111 Mas, Darnton não se propôs a ler uma história estritamente social; designá-lo como micro-historiador em semelhança aos historiadores italianos é um erro grave que Levi não cometeu, porque Darnton pertenceu ao circuito da história cultural e a um lugar geertziano de enunciação que corroborou com a proposta de a tudo interpretar. Nesse sentido, Levi tem razão: Darnton tem um modo “irremediavelmente ‘outro’ de ler a história social”: não como quem tenha sido massacrado e, tampouco, como quem tenha massacrado, mas em uma posição de analista que possui lugar próprio - geertziano, mas não geertzista do geertzismo definido por Levi.

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*Este artigo é produto de um diálogo com o prof. dr. José Antônio Vasconcelos - a quem agradeço.

1Serão empregadas nas epígrafes de cada parte deste artigo as estrofes e o refrão da canção História de uma gata, da peça Saltimbancos, com letra do italiano Sérgio Bardotti que foi inspirada no conto Os músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, e adaptada no Brasil por Chico Buarque de Hollanda.

2Sobre questões fronteiriças entre a história e a antropologia ver: SCHWARCZ, Lilia Katri Moritz. Questões de fronteira: sobre uma antropologia da história. Novos Estudos Cebrap, vol. 72, São Paulo, 2005, p. 118-137. Ver ainda: VASCONCELOS, José Antônio. Quem tem medo de teoria? A ameaça do pós-modernismo na historiografia americana. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2005.

3Evidentemente, não se almeja, aqui, um esgotamento bibliográfico que abarque integralmente as divergências ocasionadas pela obra de Darnton; ainda que sejam relevantes, entre outras, as críticas de Roger Chartier e Dominick La Capra à produção de Darnton, neste ensejo a preocupação fundamental é a relação epistemológica tensiva entre Levi, Darnton e o uso teórico dos preceitos de Clifford Geertz. Assim, recomenda-se ver: BURNS, Robert. Historiography: critical concepts in historical studies: culture. Londres e Nova York: Routledge, Taylor & Francis Group, 2006. Nesta obra – conhecida do público brasileiro especializado – serão encontrados textos de Chartier, de Darnton, de LaCapra e do próprio Geertz. Da mesma forma, recomenda-se ver posições diversas em: DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

4Obra clássica publicada originalmente na língua inglesa, com o seguinte título: The great cat massacre and other episodes in French cultural history, em Nova Iorque, por Basic Books, no ano 1984. Esta obra foi traduzida para os seguintes idiomas: francês, alemão, holandês, sueco, dinamarquês, italiano, espanhol, catalão, português, japonês, húngaro, russo, coreano, chinês, lituano e hebraico. A obra foi traduzida para o português em 1986 e publicada pela Editora Paz e Terra. Referência da tradução utilizada neste artigo: DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

5Obra igualmente clássica publicada originalmente no idioma inglês, com o seguinte título: New perspectives on historical writing, na Inglaterra, por Basil Blackwell Limited, no ano de 1991. Esta obra, contendo questões introdutórias e avançadas, como Ob micro-history, título do contributo de Levi a ser abordado neste artigo, também foi traduzida para diversos idiomas. A obra foi traduzida para o português em 1992 e publicada pela Editora da Unesp. Referência da tradução utilizada neste artigo: LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 2011.

6Trata-se de um artigo publicado com o título original “I pericoli del geertzismo”, no importante periódico italiano Quaderni Storici, nº 58, ano XX, n. 1, no mês de abril de 1985. Referência da tradução utilizada neste artigo: LEVI, Giovanni. Os perigos do geertzismo. História Social, nº 6, Campinas, 1999, p. 137-146.

7DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 11.

8Cf. LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 138.

9Ibidem, p. 138.

10DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 13.

11Ibidem, p. 18-19.

12VASCONCELOS, José Antônio, op. cit., p. 127.

13 BIERNACKI, Richard. Method and metaphor after the new cultural history. In: BOONELL, Victoria E. & HUNT, Lynn. Beyond the cultural turn: new directions in the study of society and culture. Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1999, p. 97-98.

14 BURKE, Peter. História e teoria social. São Paulo: Editora Unesp, 2012, p. 16-17.

15 DAIBERT, Robert J. Gatos e massacres simbólicos ou algumas considerações sobre os ab(usos) antropológicos na história. Revista Eletrônica de História do Brasil, vol. 6, nº 1, 2004, p. 86-92.

16DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 19.

17 LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

18 CARVALHO, Jose Murilo de. Entrevista com Robert Darnton. Topoi, vol. 3, n. 5, Rio de Janeiro, 2002, p. 389-397.

19 CRAINZ, Guido; MASSULLO, Gino; NENCI, Giacomina. O pequeno, o grande e o pequeno: entrevista com Giovanni Levi. Revista Brasileira de História, vol. 37, n. 74, São Paulo, 2017, p. 157-182.

20Ibidem, p. 172.

21CARVALHO, José Murilo de, op. cit., 2002, p. 390-391.

22Ibidem, p. 172.

23Ibidem, p. 172.

24LIMA, Henrique Espada, op. cit., 2006, p. 155.

25VASCONCELOS, José Antonio, op. cit., 2005, p. 120.

26CARVALHO, José Murilo de, op. cit., 2002, p. 389.

27Ibidem, p. 390-391.

28LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história, op. cit., 2011, p. 153.

29DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 15.

30CARVALHO, José Murilo de, op. cit., 2002, p. 391.

31LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter, op. cit., 2011.

32Idem, op. cit., 1999.

33Idem, ibidem, p. 135.

34Idem, op. cit., 2011, p. 138.

35Idem, ibidem, 2011, p. 137.

36Idem, ibidem, 2011, p. 141.

37VASCONCELOS, José Antônio, op. cit., 2005, p. 23.

38LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter, op. cit., 2011, p. 144.

39WITTGENSTEIN, Ludwig. On certainty. In: LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter, op. cit., 2011, p. 138.

40DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 15-16.

41Idem, ibidem, p. 13-14.

42Idem, ibidem, p. 14.

43LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 144.

44BONNELL, Victoria E. & HUNT, Lynn. Introduction. In: Idem, op. cit., 1999, p. 3 e 5.

45 HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 16.

46DARNTON, Robert, op. cit., p. 16.

47 WALTERS, Ronald. G. Sings of the times: Clifford Geertz and historians. Social Research, nº 47, 1980, p. 537-556.

48VASCONCELOS, José Antônio, op. cit., 2005, p. 129.

49CARVALHO, José Murilo de, op. cit., 2002, p. 166 e 171.

50VASCONCELOS, José Antônio, op. cit., 2005, p. 75.

51 GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

52LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter, op. cit., 2001, p. 149.

53GEERTZ, Clifford, op. cit., 2001, p. 212.

54LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, P., op. cit., 2001, p. 151.

55Ibidem, p. 151.

56Cf. HOEBEL, Adamson & FROST, Everett. Antropologia cultural e social. São Paulo: Cultrix, 1999, p. 22.

57GEERTZ, Giovanni, op. cit., 2001, p. 50.

58 GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 15.

59 DAVIS, Natalie Zemon. Anthropology and history in the 1980’s. In: RABB, Theodore. K. The new history: the 1980’s and beyond. Princeton: Princeton University Press, 1982.

60LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 138.

61CARVALHO, José Murilo de, op. cit., p. 389.

62LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 137-138.

63DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 17.

64 SCHLEIERMACHER, Friedrich Daniel Ernest. Hermenêutica – arte e técnica da interpretação. São Paulo: Editora Universitária São Francisco, 2012, p. 26.

65LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 137.

66SCHLEIERMACHER, Friedrich Daniel Ernest, op. cit., p. 26.

67LEVI, G., op. cit., 1999, p. 138.

68 CORETHE, Emerich. Questões fundamentais de hermenêutica. São Paulo: EPU/Ed. da USP, 1973.

69 STEIN, Ernildo. Gadamer e a consumação da hermenêutica. Problemata: R. Inter. Fil., vol. 5, nº 1, João Pessoa, 2014, p. 138.

70 MILOVIC, Miroslav. Comunidade da diferença. Rio de Janeiro/Ijuí: Relume Dumará/Unijuí, 2004, p. 125.

71Apud GRODIN, Jean. Gadamer’s basic understanding of understanding. In: DOSTAL, Robert J. The Cambridge Companion to Gadamer. Cambridge: Cambridge University Press, 2002, p. 38.

72 DUTT, Carsten. En conversación con Hans-Georg Gadamer: hermenêutica, estética y filosofia práctica. Madri: Tecnos, 1998, p. 28-29.

73Cf. HABERMAS, Jürgen. Dialética e hermenêutica. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 7.

74 SIEBENEICHLER, Flávio Breno. Fenomenologia e hermenêutica. In: CAPALBO, C. Fenomenologia e hermenêutica. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural, 1983, p. 12.

75 AZZAN JÚNIOR, Celso. Antropologia e interpretação: explicação e compreensão nas antropologias de Geertz e Lévi-Strauss. Campinas: Editora da Unicamp, 1993.

76GEERTZ, C., op. cit., 2001, p. 65.

77STEIN, E., op. cit., 2014, p. 209.

78 GADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1998.

79LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 139.

80Ibidem, p. 139-141.

81DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 105.

82Ibidem, p. 106.

83Ibidem, p. 106.

84Ibidem, p. 105.

85 BLEICHER, Josef. Hermenêutica contemporânea. Rio de Janeiro: Edições 70, 1992, p. 13.

86Ibidem, p. 107.

87Ibidem, p. 107.

88DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 108.

89LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 144.

90 SCHWARCZ, Lilia Katri Moritz. Entre amigas: relações de boa vizinhança. Revista USP, nº 23, 1994, p. 71.

91DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 109.

92Ibidem, p. 109.

93 PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 66.

94BONNELL, Victoria E. & HUNT, Lynn. Introduction. In: Idem. Beyond the cultural turn: new directions in the study of society and culture. Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1999, p. 2 e 3.

95DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 111.

96Ibidem, p. 114.

97PESAVENTO, Sandra Jathay, op. cit., 2013, p. 34.

98Ibidem, p. 39.

99Da Borgonha com severa tortura de gatos, Fair ele chat, em que jovens arrancavam seus pelos para fazê-los uivar, à Alemanha com o katzenmusik; de Paris, cujas incinerações de gatos eram comuns à Saint-Chamound onde os gatos corriam em chamas pelas ruas; da Lorena à região de Metz, entre outras partes da Europa, os gatos eram queimados, torturados, atacados. Quer seja para a celebração de um “marido enganado” ou para afastar a má sorte e os desastres, como no ciclo de são João Batista, os gatos eram sempre as vítimas de acintoso levante: “embora a prática variasse de um lugar para o outro, os ingredientes, em toda parte, eram os mesmos: um feu de joie (fogueira), gatos e uma aura de hilariante caça às bruxas”. Ver DARNTON, Robert, op. cit., p. 116.

100Ibidem, p. 115 e 116.

101Ibidem, p. 130.

102LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 146.

103 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Hermenêutica do quotidiano na historiografia contemporânea. Revista Projeto História, vol. 17, 1998, p. 223-258.

104SCHWARCZ, Lilia Katri Moritz, op. cit., 1994, p. 73.

105 DE CERTEAU, Michel. A fábula mística: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Forense, 2015.

106DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 136.

107LEVI, Giovanni, op. cit., 1999, p. 146.

108DARNTON, Robert, op. cit., 2015, p. 132.

109Ibidem, p. 135.

110Ibidem, p. 135.

111LEVI, G., op. cit., 1999, p. 146.

Recebido: 18 de Setembro de 2017; Aceito: 12 de Dezembro de 2017

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Pós-doutorando e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP. Coordenador do Núcleo de Estudos em História Oral - Neho/USP, na mesma instituição. Professor colaborador nos cursos de licenciatura e bacharelado em História da Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD.

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