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Revista de História (São Paulo)

Print version ISSN 0034-8309On-line version ISSN 2316-9141

Rev. Hist. (São Paulo)  no.177 São Paulo  2018  Epub June 07, 2018

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2018.138467 

Articles

“UMA CINZENTA FALTA DE ESPERANÇA PAIRA SOBRE TODOS NÓS”: UMA ANÁLISE DE CARTAS DE MULHERES E HOMENS COM INTENÇÃO DE EMIGRAR DA ALEMANHA PARA O BRASIL (1946-1950)

“A GREY LACK OF HOPE HOVERS OVER US”: AN ANALYSIS OF WOMEN AND MEN LETTERS WITH THE INTENTION TO EMIGRATE FROM GERMANY TO BRAZIL (1946-1950)

1Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Marechal Cândido Rondon - Paraná - Brasil

Resumo

O artigo é baseado em cartas enviadas da Alemanha entre 1946 e 1950 à Prefeitura Municipal de Blumenau - SC, nas quais os remetentes pedem informações, ajuda e intermediação para poder imigrar. Discuto aqui os significados e funções de cartas em projetos migratórios, o imaginário, percepções e motivos que fundamentam a vontade expressa de emigrar e como ela opera na construção da narrativa autobiográfica. Analiso também as relações que os remetentes estabelecem entre o “espaço de experiência” na Alemanha e o “horizonte de expectativa”.

Palavras-chave: Cartas; narrativa autobiográfica; emigração; Alemanha; Brasil

Abstract

This article is based on letters sent from Germany between 1946 and 1950 to the town hall of Blumenau - SC, Brazil, in which the senders ask for information, help and intermediation in order to immigrate. I discuss here the meanings and functions of letters in migratory projects, the imaginary, perceptions and reasons that found the expressed will to emigrate and how this operates in the autobiographical narrative elaboration. I also analyze the relations that senders establish between their “space of experience” in Germany and the “horizon of expectation”.

Keywords: Letters; autobiographic narratives; emigration; Germany; Brazil

Conflitos entre países, guerras civis, perseguições e mesmo desastres ecológicos têm empurrado, nos últimos anos, milhões de pessoas para fora de seus lugares ou países de origem, em busca de proteção e refúgio. O número de refugiados, que alcançou a cifra alarmante de 65 milhões em 2016, é o mais elevado registrado pelas Nações Unidas desde o término da Segunda Guerra Mundial.1 A Alemanha, para citar o país objeto deste texto, ao longo de 2016, concedeu asilo a cerca de 430.000 refugiados,2 o que foi tema de discussão na esfera pública sobre os encargos para a sociedade e a economia do país.

Este número é pequeno se comparado aos milhões de cidadãos alemães e seus descendentes que viviam no leste e sudeste da Europa e que se deslocaram para dentro das fronteiras da Alemanha no final ou logo após a II Guerra Mundial. O censo de outubro de 1946 indica que quase 10 milhões de alemães refugiados ou expulsos desses territórios estavam vivendo nas quatro zonas de ocupação do país.3 Estes refugiados e expulsos, vindos para o território então reduzido da Alemanha, se somaram à população ali residente, em grande parte também um “povo a caminho”,4 em razão dos deslocamentos causados pela guerra e aos milhões de “deslocados de guerra” que haviam sido vítimas do nazismo. Por conta disto, o historiador Hermann Glaser se refere ao mundo do pós-guerra na Alemanha como “um mundo a caminho”. Assim ele sintetiza a situação naquele momento: “Por meio do destino histórico, a ‘mobilidade’ se impõe. A flutuação nas estradas e ao longo dos trilhos se desenvolve em direção a uma cultura da migração”.5

O desejo de emigrar fazia parte desta “cultura da migração” que se desenvolvia no país. Em meio à procura de meios de sobrevivência num país em ruínas e sem perspectivas, alemães passaram cada vez mais a ver a emigração como uma alternativa para um futuro que se desejava próximo, já que, até 1949, havia restrições à saída do país. É sobre este tema, o desejo de emigrar da Alemanha presente em cartas-pedido (Bittbriefe) enviadas entre 1946 e 1950 à Prefeitura Municipal de Blumenau, sul do Brasil, que versa este texto. Assinadas tanto por autóctones como por refugiados alemães vindos do leste europeu, quase todas as cartas foram escritas em língua alemã e durante o período restritivo à emigração.

Neste texto, utilizo apenas as cartas cujos remetentes pedem informações, ajuda e intermediação para poderem obter ocupação profissional no Brasil.6 É provável que entre os remetentes que pedem endereços de parentes, em geral distantes, ou conhecidos, também houvesse interessados em emigrar, mas que não explicitaram este propósito naquele primeiro contato. As fontes utilizadas fazem parte de um conjunto maior de cartas preservadas, formado por quatro dezenas de missivas enviadas àquela Prefeitura, a maioria com o pedido de donativos (Liebesgaben).7 Foram redigidas entre 1946 e 1950, período entre a liberação da correspondência com o Brasil e o início da Guerra Fria, quando a Alemanha havia sido dividida administrativamente pelo Comando Militar Aliado.

Considero tais cartas vestígios materiais do ímpeto emigratório que começava a se delinear na Alemanha após a guerra. Elas eram apenas um dos meios pelos quais pessoas que desejavam emigrar procuravam obter informações.8 Elas não são, contudo, meros pedidos de informações e de ajuda para emigrar. Nelas, vidas são narradas, subjetividades e autorrepresentações são construídas, imaginários a respeito do lugar de destino aparecem, sentimentos e expectativas são manifestados.

As cartas que aqui analisarei são “escritas de si”, ou seja, narrativas nas quais “(...) o indivíduo assume uma posição reflexiva em relação à sua história e ao mundo onde se movimenta”.9 E como aponta o filósofo Michel Foucault, tal escrita de si não apenas envolve o ato de “mostrar-se, dar-se a ver”, mas também e, simultaneamente, “um olhar que se volve para o destinatário (...), e uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar pelo que de si mesmo lhe diz”.10

É importante sublinhar que, apesar do conteúdo muitas vezes fortemente subjetivo, cartas como as de que tratarei aqui não permitem acesso direto ao self dos remetentes, já que envolvem relações de intersubjetividade, intenções, escolhas e ocultamentos. Como apontou a historiadora Michelle Perrot: “Não há nada menos espontâneo do que uma carta, nada menos transparente do que uma autobiografia, feita para ocultar tanto quanto para revelar. Mas essas sutis manipulações do esconder/mostrar nos levam, pelo menos, à entrada da fortaleza”.11

É a partir destes pressupostos teórico-metodológicos que discutirei neste texto, em específico, os significados e as funções da escrita de cartas na construção de projetos migratórios, a agência de homens e mulheres por meio do ato de redigir e enviar cartas, assim como a inscrição do desejo de emigrar na própria construção da narrativa. Algumas questões serviram de guia para a análise: Que percepções e construções fundamentam o intuito da emigração para o Brasil, mais precisamente Blumenau? Como o intuito de emigrar - ou ao menos a cogitação dessa possibilidade - conforma as narrativas autobiográficas presentes nas cartas? Que relações esses emigrantes em potencial estabelecem entre seu “espaço de experiência” e seu “horizonte de expectativa”?12

O ímpeto emigratório na Alemanha após a guerra

De um conjunto de 42 cartas enviadas da Alemanha entre 1946 e 1950 à Prefeitura Municipal de Blumenau, 12 pessoas escrevem explicitamente sobre o desejo de emigrar. Este número demonstra como a emigração era um tema frequente no cotidiano dos alemães após a guerra. É um número significativo, se for considerado que todas, com exceção de uma, foram escritas num período em que ainda vigoravam restrições à saída da Alemanha. Isto revela como a preocupação em relação ao presente e ao futuro fazia parte do “espaço de experiência” de homens e mulheres naquela época crítica da história da Alemanha.

Entre as cartas do conjunto de que dispomos há remetentes de todas as zonas de ocupação na Alemanha, o que confirma que a predisposição para a emigração era geral.13 Como constatou o historiador Alexander Freund, que investigou a emigração alemã para a América do Norte após a Segunda Guerra Mundial, o interesse em emigrar não era menor na zona de ocupação soviética do que nas outras zonas.14 Durante a ocupação militar do país, muitas pessoas atravessaram ilegalmente a zona de ocupação soviética em direção às zonas britânica e norte-americana do país.

Até julho de 1949, o Comando Militar Aliado, que administrava a Alemanha dividida em zonas de ocupação, só permitia a saída do país aos alemães que se enquadrassem em três grupos especiais: opositores e vítimas do regime nacional-socialista; familiares de soldados das tropas de ocupação e de cidadãos de países aliados; casos humanitários.15 Enquanto durou a chamada Entnazifizierung (“desnazificação”), os Aliados viam a emigração como possibilidade de fuga de criminosos de guerra.16 Para evitar isso, o Conselho de Controle Aliado proibiu o cruzamento das fronteiras externas das zonas de ocupação sem a devida autorização das autoridades militares, o chamado exit permit. Para checar os pedidos de saída do país de cidadãos alemães que se enquadravam numa das três categorias acima mencionadas, as autoridades checavam as “listas negras” e os documentos do Berlim Document Center, entre as quais as listas de filiação ao NSDAP, o partido nacional-socialista alemão.17

Apesar disso, segundo o historiador Alexander Freund, até 1949 uma minoria, “cujo tamanho, todavia, não deve ser subestimado”, conseguiu burlar o controle e deixar a Alemanha ilegalmente por caminhos diversos, em muitos casos com a ajuda da Igreja Católica e da Cruz Vermelha internacional.18 Nos três primeiros anos depois do fim da II Guerra Mundial, o número suposto de emigrantes alemães teria se restringido a 32.000 pessoas, conforme aponta o historiador Johannes-Dieter Steinert.19

Em julho de 1949, quando as limitações à saída da Alemanha Ocidental foram revogadas pelas autoridades de ocupação inglesa e norte-americana, desencadeou-se uma verdadeira febre emigratória. Neste período, a imprensa noticiava o ímpeto emigratório que movia não somente alemães, mas outros europeus a deixar seus países. “Milhões só têm um desejo: sair da Europa”: esta foi a manchete da revista alemã Die Strasse em edição de 1949.20 No verão deste mesmo ano, o Brasil obteve autorização do Comando Militar Aliado da Alemanha para receber alemães que pretendiam emigrar, fato que foi noticiado pelo jornal Die Zeit como “o prelúdio de um novo capítulo na história da emigração alemã”.21

Os países para os quais os alemães mais almejavam emigrar, nesse momento, eram Estados Unidos, Canadá e Austrália. Mas o Brasil também figurava como um dos países recomendados em impressos informativos sobre possibilidades de emigração.22 O Brasil havia reaberto a imigração por meio do decreto-lei nº 7.967, de 18 de setembro de 1945, esperando um “grande afluxo de imigrantes dada a situação de caos e miséria em que se encontrava o continente europeu”.23 A política imigrantista no Brasil, após a guerra, priorizava a acolhida de técnicos, operários qualificados e agricultores. Como pudemos constatar em pesquisa anterior, uma das funções da Missão Militar Brasileira enviada à Alemanha em março de 1946, enquanto representante do governo brasileiro, foi selecionar e encaminhar emigrantes com aquele perfil ao Brasil, sobretudo “técnicos que pudessem melhorar a situação da indústria brasileira”,24 desde que obtivessem a necessária autorização das autoridades militares na Alemanha.

Em agosto de 1948, um pouco antes de a emigração ser liberada pelas autoridades da bizona (inglesa e norte-americana), quando a imprensa alemã começava a divulgar possíveis destinos para pessoas desejosas de emigrar, uma reportagem da revista Der Spiegel intitulada “Eine Tür geht auf” (“Uma porta se abre”), noticiava o interesse do Brasil em agricultores e professores.25

No item a seguir, trato das percepções e construções, presentes nas cartas, quase todas escritas ainda no período restritivo à emigração que, apesar disso, associam a emigração da Alemanha a uma alternativa de vida para os remetentes.

A emigração enquanto alternativa de vida

Os procedimentos metodológicos utilizados na análise de cartas e narrativas de trajetórias individuais, como salienta a antropóloga Giralda Seyferth, “esclarecem muito mais do que trajetórias individuais, pois colocam em destaque alguns elementos fundamentais constitutivos dos processos migratórios”.26 A autora adverte, contudo, que, em estudos migratórios, cartas e relatos biográficos “não podem ser descontextualizados da realidade social que os produziu, pois não são um fim em si mesmos”.27

A possibilidade de articular o individual e o social, por meio de cartas de migrantes, também é assinalada por Verónica Blas. Em artigo sobre a escrita privada de emigrantes, a autora ressalta o valor da correspondência entre emigrantes como “fuente capaz de construir esa historia colectiva del fenómeno migratorio que trasciende las vidas y experiencias individuales de cada uno de los emigrantes”.28

Nas cartas aqui trabalhadas busco, com base nas considerações do historiador Alexander Freund, “percepções e construções da emigração como uma alternativa para a composição da vida”.29 Esse autor assinala que, após a Segunda Guerra Mundial, cartas foram meios utilizados por alemães para a construção de “seguranças e a aquisição de informações, entendidas enquanto táticas pragmáticas e psicológicas”, que os ajudavam no processo decisório de migrar ou não.30

Muito embora o pequeno número de cartas preservadas no conjunto documental localizado impeça uma análise quantitativa sobre o que fez os remetentes despertarem para a ideia da emigração, quais suas expectativas, uma análise qualitativa das narrativas permite perceber algumas pistas sobre as percepções e construções da emigração enquanto alternativa.

Dos doze escreventes, seis expressam o intuito de emigrar, associando-o a discursos positivos acerca de Blumenau lidos ou aprendidos por meio da escola, de livros e de conversas com parentes ou conhecidos. É o que se pode observar na carta do agricultor Otto M.: “Já na escola nós aprendemos sobre a bela colônia Blumenau”.31 Também a professora de piano Gertrud H. se refere, no preâmbulo de sua carta, à “bela colônia alemã, sobre a qual eu li e ouvi”.32 A atriz Irmgard chega a se referir ao fundador da colônia Blumenau, Hermann Blumenau, ressaltando que, como ele, ela também havia nascido em Hasselfelde. Ela se dirige ao prefeito na expectativa de que pudesse encenar peças teatrais aos falantes da língua alemã da cidade.33

Todos estes três remetentes se referem à “colônia” Blumenau, mesmo que esta localidade oficialmente não tivesse mais esta denominação desde 1880, quando foi elevada à categoria de município. Blumenau foi fundada como colônia particular pelo farmacêutico alemão Hermann Bruno Otto Blumenau em 1850, quando chegaram os primeiros 17 imigrantes alemães. O desenvolvimento da colônia e sua divulgação por meio de impressos a transformaram numa das mais conhecidas “colônias alemãs” do Brasil. O termo “colônia alemã”, aqui, não dizia respeito a áreas coloniais formais mantidas pela Alemanha durante o colonialismo, mas a áreas de colonização constituídas, principalmente, por mão de obra de imigrantes dedicados à agricultura.

Como aponta a historiadora Karen Lisboa, após a perda das colônias alemãs na África e no Pacífico sul, com o fim da Primeira Guerra Mundial, e com o “revisionismo colonialista”, desenvolveu-se um “colonialismo sem colônias” na Alemanha, contexto no qual “as colônias de imigração, tal qual havia no Brasil, exerceram simbolicamente uma função de Ersatz, de substituição, ou pelo menos de consolo de que havia muitos alemães no além mar, mesmo em países temporariamente inimigos”.34

Por meio da representação de Blumenau como “colônia Blumenau” na redação das cartas ou até mesmo no envelope, alguns remetentes demonstram terem assimilado discursos que associavam a localidade à imigração e colonização alemãs nas Américas. Todos os remetentes nasceram entre a última década do século XIX e os anos 1920, quando muitos impressos acerca da presença de alemães no “além mar” (Übersee) foram publicados. Blumenau despontava como uma das principais “colônias de imigração” no Brasil em impressos publicados na Alemanha. Como observado por Karen Lisboa, na obra de Herrmann Ullmann, Land der Zukunft - Reisen durch Brasilien (“País do futuro - viagens pelo Brasil”), publicada em 1937, “Blumenau é o mais forte exemplo para narrar o epos da colonização alemã no além mar”.35 Neste livro, a visita à cidade é narrada em capítulo com o significativo título “Ein Stückchen Europa” (“Um pedacinho de Europa”), que retrata o trabalho de construção de uma cidade a partir da dominação da natureza.

Difícil, contudo, seria mensurar em que medida discursos sobre Blumenau e a colonização alemã no Brasil, difundidos pelos impressos e pela escola durante o colonialismo alemão, teriam influenciado a manifestação do desejo de emigração depois da Segunda Guerra Mundial nas cartas aqui mencionadas. Pode-se apreender, contudo, que em muitas das cartas recebidas pela Prefeitura de Blumenau, inclusive as dos que pedem mantimentos e endereços de parentes distantes ou de conhecidos, houve a apropriação de uma imagem positivada da localidade enquanto “colônia alemã”. Esta imagem é utilizada como recurso retórico e argumentativo na elaboração das cartas-pedido.36

A afirmação de outro remetente, o mestre de obras Franz K., de que as então circunstâncias na Alemanha lhe haviam despertado novamente o desejo da emigração, não era um sentimento apenas seu.37 Esta e outras cartas demonstram que antigos sonhos de juventude construídos a partir da difusão de um imaginário acerca de lugares “exóticos” e distantes no além mar (Übersee) parecem ter sido despertados pela difícil situação material vivida na Alemanha.

Um imaginário sobre o Brasil difundido pelos impressos chega a ser assim expresso por um dos remetentes, Heinz R.:

Em razão da guerra, durante a qual perdi meus pais num bombardeio, hoje sou totalmente independente. Lembro com gosto dos meus belos tempos de juventude, quando eu pude ler com predileção livros românticos sobre o Brasil.38

Não parece ter sido, contudo, um espírito romântico que o instigou a tentar emigrar a Blumenau, mas a dura realidade de ter perdido não apenas os pais, mas também a mão direita durante a guerra, assim como a destruição de parte do parque de sua região durante a guerra. Provavelmente por isso ele, técnico de construção de máquinas têxteis, tenha escolhido se dirigir ao prefeito de Blumenau, cidade-sede de importantes indústrias têxteis, e ressaltar querer trabalhar “tecnicamente” em prol do Brasil. Noutro trecho da carta, ele reforça esta ideia, ao escrever que pretendia “servir ao seu país por meio do meu trabalho”.39 O remetente demonstra, no currículo descritivo que envia em anexo à carta, também o desejo de continuar seus estudos, visando melhorar sua formação profissional, pois não via esta possibilidade num futuro próximo em seu país.

Contatos com pessoas que haviam morado no Brasil também instigaram alguns remetentes a se dirigirem ao prefeito. Informações sobre a necessidade de mão de obra qualificada no Brasil parecem ter circulado na Alemanha, mas não se pode superestimar a intensidade e alcance destas informações. Um engenheiro com 21 anos de experiência de trabalho na ferrovia alemã, Erich K., pede a intermediação do prefeito para poder emigrar com a família e obter emprego, por saber que o Brasil precisava de engenheiros: “Por intermédio de um parente que viveu em Santa Catarina e de livros, eu sei que o Brasil, um Estado em desenvolvimento, necessita de ativos engenheiros civis”.40

Há também entre os remetentes um tão desinformado que, muito embora tivesse conhecimento de que Blumenau era fruto de projeto de colonização, não sabia sequer sua localização. Trata-se do agricultor Ernst B., que havia perdido tudo com a expulsão de sua propriedade na Pomerânia, que havia pertencido à Prússia, mas então fazia parte da Polônia. Ele pede ao prefeito lhe informar se havia a possibilidade de “colonizar ou fundar uma existência” em Blumenau, que ele achava ficar próximo de Minnesota, nos Estados Unidos. Seus tios haviam emigrado para aquela localidade na América do Norte, e ele chega a pedir ajuda do prefeito para localizá-los.41 O remetente buscava conectar aquelas experiências migratórias anteriores ao seu próprio intuito de emigrar, criando assim uma aproximação com o destinatário, mesmo que ele fosse prefeito de uma cidade da América do Sul e não na América do Norte.

A existência de parentes em outro país foi uma das situações perceptivas que facilitou a emigração de parte de alemães após a Segunda Guerra Mundial, muito embora nem sempre tal fato tenha sido decisivo para suas decisões de emigrar, como aponta Alexander Freund.42 Nas cartas de desejosos de emigrar de que dispomos, apenas dois se referem a parentes, um que havia morado em Santa Catarina e outra pessoa que havia emigrado no século XIX para Blumenau, informação que só ficou sabendo após consultar a genealogia da família. O remetente escreve ter sido informado na Alemanha de que aqueles alemães que tivessem parentes no Brasil teriam preferência para a expedição da autorização de entrada no país. Este teria sido o motivo, portanto, da escrita da carta. Na genealogia da família ele descobriu ter a viúva do seu bisavô, acompanhada dos filhos, emigrado para Blumenau em 1866 ou 1867, onde teria ajudado a fundar a “primeira escola alemã”. O remetente pede ajuda para estabelecer contato com os descendentes daquela imigrante já falecida, visando a emigração. Noutras missivas enviadas à prefeitura, remetentes também pediam endereços de parentes com o intuito de restabelecer contato e solicitar mantimentos e vestimentas.43

Talvez parte dos remetentes já tivesse curiosidade ou até intenção de deixar o país mesmo antes do contexto no qual escreveram as cartas. O número limitado de cartas e a falta de mais percepções da realidade vivida e de dados biográficos dos remetentes, não apenas em relação à sua própria situação social, mas à de seus antecessores - se pais e avós já haviam vivido experiências migratórias - impedem afirmações conclusivas a respeito dos diversos fatores, individuais e sociais que teriam influenciado suas manifestações em favor da emigração. O que todas as cartas à disposição permitem perceber é que o propósito de deixar a Alemanha parecia ser mais importante que exatamente o local de destino. Não se demonstra nas cartas uma firme decisão quanto ao país de destino da emigração.

Nenhum dos onze escreventes narra experiências migratórias transatlânticas vividas anteriormente, o que poderia denotar uma relativa predisposição para a migração. Quatro dentre os onze remetentes desejosos de emigrar, contudo, vivenciaram deslocamentos forçados no contexto da guerra. Eles mencionam terem sido expulsos de suas propriedades, por serem alemães, nos Sudetos, na Silésia, na Pomerânia e em Warthegau, e citam as consequências da expulsão como motivo principal para quererem deixar a Alemanha, onde ainda não haviam se integrado economicamente.

O engenheiro Erich K., de 37 anos, casado e pai de três filhos, assim argumenta:

Fui expulso pelos poloneses por ser alemão de minha pátria Silésia, que agora pertence à Polônia, e apesar de ainda estar empregado na Estrada de Ferro Federal Alemã, não vejo nenhuma possibilidade no futuro de poder trabalhar sem limitações no que restou da superpovoada Alemanha e na Europa.44

O remetente vê sua capacidade de trabalho limitada pelas condições econômicas e demográficas do pós-guerra. Procura despertar uma impressão positiva no destinatário ao se referir à falta de perspectivas de “trabalhar sem limites”.45 Diferente deste remetente, que era técnico e que ainda conservava o emprego, era a situação dos outros remetentes que viveram a fuga e a expulsão de suas propriedades mais ao leste.

O agricultor Otto M., por exemplo, assim lamenta em sua carta: “não temos nem casa, nem um emprego formal”. Ele teve que se deslocar com a família duas vezes num curto período de seis anos, entre 1939 e 1945, a primeira vez em razão de ação do governo nazista, a segunda em consequência do avanço das tropas russas. Ele e sua mulher haviam vivido como Volksdeutsche (descendentes de alemães que não tinham a cidadania alemã) na Letônia46 e, em novembro de 1939, foram deslocados pelo governo alemão para a “Alemanha” e um mês depois para Warthegau, que passou a fazer parte do Reich com a invasão alemã da Polônia. Naquele momento receberam a cidadania alemã. Este deslocamento ocorreu pois em outubro de 1939 quando os governos da Alemanha e da URSS haviam assinado um acordo que previa o deslocamento de populações de origem alemã da Letônia e Estônia em direção a territórios tomados da Polônia. Segundo o historiador Wolfgang Benz (1992, p. 175), centenas de milhares de Volksdeutsche foram “trazidos para o Reich” (o nome da operação chamou-se Heim ins Reich), ficando à disposição para a “germanização” dos ex-territórios poloneses anexados pelo Reich alemão.47 Seis anos depois, em 1945, com a chegada iminente do exército soviético, a família de Otto M. teve que fugir, instalando-se em Schleswig-Holstein, norte da Alemanha. Desde então, a família vivia na situação de refugiados, sem terra para trabalhar e deslocados de seu local de origem, algo difícil para quem havia construído sua vida com base na agricultura em propriedade familiar. Por isso, o remetente pede informações ao prefeito e se poderiam emigrar para a “sua colônia”.48

Também outro agricultor, Ernst B., este da Pomerânia, na ocasião também já pertencente à Polônia, manifesta desejo de emigrar com a família, em razão das perdas havidas em razão da expulsão: “Nós perdemos a nossa pátria na Pomerânia por causa da guerra. Eu tinha uma propriedade rural. Nós perdemos tudo o que tínhamos e estamos totalmente sem recursos”.49 A palavra “perda”, utilizada duas vezes neste trecho, é o principal fundamento para manifestar seu desejo de emigração. O autor, instalado com a mulher e três filhos ao norte de Hamburgo, manifesta interesse em trabalhar com “colonização” em Blumenau e pede, de forma muito simples e direta, qualquer ajuda do prefeito. A colonização aqui aparece, portanto, fortemente associada ao lugar social ocupado pelo remetente antes da expulsão, o de agricultor.

Outro remetente, identificado apenas como R. L., também inicia a carta fazendo menção à expulsão. Após se autoidentificar como “alemão dos Sudetos na Tchecoslováquia”, assim escreve: “Apesar de ser antifascista, fui expulso junto com os outros alemães da Tchecoslováquia e não consigo achar um emprego correspondente. Sou um contador muito preciso e perfeito correspondente”.50 O remetente era um dos mais de três milhões de Sudentendeutsche (alemães dos Sudetos) que foram expulsos da Tchecoslováquia em 1945.51 A expulsão levou o mencionado remetente à Baviera, estado fronteiriço à Tchecoslováquia, zona ocupada pelos norte-americanos após a derrota da Alemanha. No caso dele e de outros remetentes, a impossibilidade de poder trabalhar no ofício anteriormente aprendido e exercido aparece como argumento para a emigração.

Segundo o historiador Wolfgang Benz (1992, p. 384), muito embora tenha sido possível integrar uma boa parte dos expulsos em suas profissões, para muitos, a vida na Alemanha resultou em declínio social e em emprego em posições inferiores do que na pátria. Como muitos expulsos foram instalados em regiões rurais, ali só encontravam trabalhos que demandavam pouca qualificação e que eram mal remunerados. Principalmente aqueles que eram autônomos na agricultura e em outros ofícios se viam ameaçados pelo rebaixamento de classe.

Com os exemplos dados acima não afirmo que os quase 10 milhões de alemães expulsos ao final e logo após a guerra e que moravam na então Alemanha tinham mais predisposição para emigrar do que os que já moravam no país. O pouco número de cartas não permite tal avaliação. As cartas trazem casos também de pessoas que não tinham experiências de fuga e expulsão. Muitos deles também viveram outras experiências de deslocamento, tanto motivados pelas duas grandes guerras, como por razões educacionais e laborais. Durante a guerra, alguns remetentes tiveram que se deslocar em razão de bombardeios e do próprio serviço militar ativo enquanto soldados.

Além das experiências passadas e situações perceptivas aqui expostas, sobretudo as precárias condições materiais vividas no momento da redação das cartas constituíram as razões mais contundentes para a expressão do desejo de emigrar.52 Trata-se de cartas de remetentes que viam na emigração uma possibilidade de tirá-las da carestia material e também da angústia em que viviam. Elas denotam sobrecarga física e abatimento psicológico, frustrações, inseguranças e sentimentos negativos em relação ao futuro da Alemanha.

“Eu sou um allround-and selfmadman”: cartas escritas por homens

Segundo o historiador Alexander Freund, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os homens pareciam mais predispostos do que as mulheres a perceber a migração como uma alternativa de vida. Experiências de migração femininas eram associadas mais a sentidos negativos do que as de homens. As mulheres teriam vivido a migração principalmente de forma forçada. O autor, assim, procurou demonstrar como conhecimento e experiência migratória também são atravessados por questões de gênero.53

Se as poucas cartas aqui em análise impedem afirmações baseadas no critério quantitativo, dão indícios de que o ato de pedir emprego e ajuda para imigrar, por meio de carta, ainda eram ações e gestos mais corriqueiros entre homens. Oito homens e quatro mulheres escrevem ao prefeito de Blumenau para pedir emprego e/ou ajuda para imigrarem.

Ao comparar as narrativas, percebi que mais homens que mulheres escrevem cartas com formato e conteúdo de cartas de candidatura a emprego. Das oito cartas de homens, cinco foram inclusive datilografadas, uma das quais com o timbre da pequena empresa do remetente. Tal prática foi mais corriqueira entre homens com maior grau de instrução. Numa delas foi anexado um detalhado curriculum vitae, datilografado em forma de texto.54 As únicas cartas não datilogradas de homens que desejam imigrar foram redigidas por três alemães expulsos do leste, dois agricultores e um “contador e correspondente” que, apesar disso, pede desculpas pelo uso de “papel ruim”, em razão da carestia.

As cartas dos homens com melhor formação profissional são em geral mais formais que as das mulheres. Por seguirem mais ou menos o padrão de cartas de candidatura a emprego, o acento recai na formação e nas experiências profissionais. Três dos remetentes justificam o fato de escreverem ao prefeito por lhes faltarem os contatos diretos com industriais e empreendedores locais. Eles pedem que se encaminhassem as suas “candidaturas” a empregadores que pudessem ajudá-los ou que se informassem os endereços.55

Assim formula um contador, apenas identificado com as iniciais R. L.: “Eu gostaria muito de imigrar para aí e por isso peço ao senhor que me ajude no que for possível. O senhor certamente conhece grandes fazendeiros, industriais e comerciantes”.56 Este e outros remetentes se dirigem ao prefeito enquanto autoridade político-administrativa que, no exercício desta função, pudesse intermediar suas candidaturas a emprego.

Vejamos também o início da carta do mestre de obras Franz K.:

Por conta das circunstâncias na Alemanha, o meu antigo desejo de emigrar para o Além Mar novamente passou para o primeiro plano. Mas para me candidatar a um emprego, infelizmente me faltam os contatos necessários com a indústria daí, ou seja, outros empreendimentos.

Por isso eu me permito encaminhar minha candidatura a um emprego e a de meus dois filhos adultos diretamente ao senhor, com o pedido de que o senhor a encaminhe a conhecidas indústrias ou empresas.57

Já o engenheiro Erich K., talvez em virtude de sua formação superior, utiliza um estilo mais formal, dando um formato comercial para sua carta datilografada. Antes de iniciar o preâmbulo, introduz o assunto: “Ref. Pedido de imigração e intermediação para obtenção de emprego”. A carta propriamente dita assim inicia: “O acima mencionado solicita à administração da cidade a indicação de emprego ou o encaminhamento da solicitação aos órgãos competentes da administração ferroviária brasileira, para possibilitar a imigração”.58

Logo após os preâmbulos das cartas, a narrativa de autoidentificação dos remetentes contém geralmente os mesmos dados autobiográficos: nome completo, idade ou data/local de nascimento, estado civil (e número de filhos, quando era o caso), formação escolar e ou profissional, ocupações profissionais, assim como habilidades que pudessem ser úteis para um futuro emprego. Nem sempre todos estes dados são mencionados e alguns autores são mais objetivos que outros na descrição de suas habilidades.

Alguns buscam valorizar aptidões profissionais de um modo mais narrativo ou até mesmo qualificam sua personalidade. É o caso de Karl S., farmacêutico autônomo que escreve em papel timbrado de sua drogaria: “Eu sou um allround-and selfmadman [sic]”.59 Assim, ele se autorrepresenta como um homem independente e adaptável às necessidades laborais que supõe existirem em Blumenau. Talvez seja pelo fato desta localidade estar situada nas Américas e pelo imaginário a elas associado que o autor se utiliza de expressões em inglês, mesmo que uma delas com grafia errada, para se autorrepresentar. Além de mencionar sua formação e atividades como farmacêutico, também elenca outras habilidades:

Atuei três anos como assistente de raio X e dois anos como assistente cirúrgico em operações. Além disso, como farmacêutico, disponho de conhecimentos abrangentes no ramo e sou especialista em tudo o que diz respeito ao ramo da fotografia e de tintas.

O autor pede ao prefeito se ele poderia lhe assegurar um emprego. Solicita autorização para a imigração e todas as informações necessárias para que ele e família pudessem entrar no Brasil e se instalarem na cidade. O desejo de emigração, apesar de ser proprietário de uma “bela drogaria” na Saxônia, assim é justificado: “é a amarga carestia e a fome que me levaram a dirigir-me ao senhor”. Este fato demonstra que a vontade de emigrar atingia também pequenos comerciantes, não apenas trabalhadores.

O contador e correspondente que se autoidentifica apenas com as iniciais do seu nome, também julga relevante qualificar o seu trabalho: “Sou acostumado a um trabalho rápido, preciso e independente. Sei inglês e também entendo italiano”.60

Os remetentes não se furtam em agregar à narrativa, alguns de maneira mais detalhada que outros, informações sobre a história individual e familiar, sempre de forma a fundamentar seus pedidos de imigração. Quando se referem à guerra, mencionam as perdas dos bens e/ou de familiares, a impossibilidade ou dificuldade de trabalhar no ramo de sua formação e experiência profissional. As perdas, as dificuldades vividas numa Alemanha derrotada e em ruínas e a falta de perspectivas para o futuro eram motivos manifestos nos pedidos de imigração.

Para os homens que haviam servido como soldados - muito embora este tema não seja mencionado por quase todos os remetentes homens - também haviam as frustrações relacionadas à derrota militar da Alemanha. Sobre isto escrevem as autoras Sibylle Meyer e Eva Schulze: “O status de perdedor, a prisão ao final da guerra pelos então inimigos, que deveriam agora ser reconhecidos como vendedores, eram difíceis de serem aceitos”, depois de tantos anos de sacrifícios e exploração de sua força de trabalho.61

Essas frustrações aparecem de forma indireta nas narrativas de diversas das cartas do conjunto documental. Das cartas de homens que pretendem imigrar, o único que menciona ter tomado parte ativa na guerra como soldado, Heinz R., cita este fato apenas para conectá-lo ao fato de ter perdido a mão direita. Quanto aos demais, não temos informação se serviram durante a guerra, se foram prisioneiros de guerra, há quanto tempo haviam retornado a suas casas.

Para a maioria dos homens que expressam vontade de emigrar, os problemas relativos à ocupação profissional são o assunto principal das narrativas. Para os expulsos, agrega-se o problema habitacional. Além do que se viveu durante a guerra, a relação estabelecida entre o “espaço de experiência” e o “horizonte de expectativas” varia conforme a classe social e as suas implicações no então contexto de carestia, a formação profissional e o mercado de trabalho, a idade e o gênero dos remetentes.

A seguir, me concentrarei mais detalhadamente em três cartas escritas por mulheres, com o intuito de explorar de forma mais intensa a construção narrativa.

“Eu gostaria tanto de ir para a América do Sul!” Cartas escritas por mulheres

Das quatro mulheres que mencionam o desejo de imigração, uma dá mais ênfase ao pedido de mantimentos, de forma que realizaremos análise mais pormenorizada das narrativas das cartas das outras três. Destas três, cada uma tem um estado civil diferente: Gertrud K. é casada e escreve em nome da família; Gertrud H. é solteira e tem 56 anos; Irmgard N. é divorciada e escreve com o intuito de emigrar com sua pequena filha.

Começo pela carta de Gertrud K., a que escreve em nome da família, moradora de uma pequena localidade a nordeste de Dresden, na zona de ocupação soviética. O conteúdo é semelhante ao de cartas de apresentação destinadas à candidatura a emprego escritas por muitos homens. O diferencial é que a remetente agrega dados pessoais e profissionais de todos os membros da família. A carta inicia, também, com uma formulação muito parecida com o preâmbulo de outras cartas que compõem o conjunto do qual dispomos, marcado pela preocupação em relação à forma como aquela autoridade no exterior, que a desconhecia, recepcionaria a carta: “O senhor deve estar admirado de receber carta de alguém desconhecido da Saxônia, eu também serei breve”.62 Com este espírito de objetividade, a missivista logo expressa o desejo de emigrar, conectando esta informação a suas “condições familiares”:

Como fiquei sabendo por intermédio de conhecidos, é novamente possível para nós alemães emigrar para o Brasil. Então gostaria muito de saber sob quais condições isto é possível e a que lugar se deve dirigir para se obter sucesso. Antes disso, resumidamente, [seguem] minhas condições familiares: meu marido, 44 anos de idade, técnico em construção civil; eu própria, 40 anos, costureira autônoma; o filho, 18 anos, trabalhador da estrada de ferro; a filha, 15 anos, ajudante dos serviços domésticos na residência dos pais.63

Na narrativa, a emigração aparece, portanto, enquanto um projeto familiar. O desejo de emigrar é fundamentado não apenas nas condições socioeconômicas da remetente, mas de todos os membros da família. Ela não se coloca à frente do marido - seus dados sucedem os do marido -, apesar de ser a parte ativa na escrita da carta. A sequência dos dados dos familiares é ditada pela ordem decrescente das suas idades. Talvez ela fosse também guiada por ordenação baseada em critérios socioculturais utilizados por órgãos públicos que valorizavam a precedência dos dados do marido aos da esposa. Não dispomos de mais dados sobre o que ocorreu durante a guerra com os integrantes da família, se o marido serviu ativamente como soldado e, assim, esteve ausente por longos períodos ou não, quais as consequências disto para a ordem e as relações familiares e de gênero. É possível que, em razão do conflito, Gertrud K. tenha feito da habilidade em costurar uma profissão, em razão da necessidade material vivida durante a guerra e o pós-guerra, quando muitas mulheres tiveram que sustentar, praticamente sozinhas, os filhos.

A carta de Gertrud K. demonstra como mulheres recorreram à ajuda por meio de cartas não só quando estavam sozinhas - solteiras, viúvas ou esperando notícias dos maridos, mortos ou prisioneiros de guerra -, mas também em nome da família. Sobretudo nas famílias incompletas em razão da guerra, as mulheres haviam assumido, já durante o conflito, “tanto o papel da educação, quanto o do abastecimento” dos familiares.64 A carta em análise expressa essa autonomia das mulheres alemãs, uma autonomia que nem sempre era buscada por elas. Segundo os historiadores Alexander von Plato e Almut Leh, muitas delas foram obrigadas, durante a guerra e nos anos seguintes, quando muitos maridos ainda eram prisioneiros de guerra ou estavam mortos, a buscar todos os meios possíveis para prover a família.65

No trecho citado, Gertrud K. atribui uma ocupação também à filha menor de idade, ao mencionar ser “ajudante nos serviços domésticos”.66 Na Alemanha, durante e após a guerra, “as crianças, independentemente da idade, foram integradas aos trabalhos que apareciam e rotinas cotidianas, conforme suas capacidades e o grau de desenvolvimento etário”.67 Assim, parecia relevante a ela, assim como a outros remetentes, dos quais dispomos outros exemplos, valorizar não somente as próprias habilidades profissionais, mas também de todos os membros da família.

A partir deste momento da carta, a primeira pessoa do singular (“eu”) é substituída pela primeira pessoa do plural (“nós”). É exatamente este aparente paradoxo - a supressão da individualidade em prol de um coletivo, a família - a expressão da agência desta mulher, que assume o protagonismo em prol da família. Este fato é perceptível também no final da carta, onde sua assinatura é acompanhada de carimbo com, tão somente, o sobrenome da família, seguido do seu endereço.

Seguindo a sequência do corpo do texto, após listar as ocupações dos familiares, Gertrud K. assim conclui: “Nós somos, portanto, 4 pessoas adultas, poderíamos, cada um, em caso de necessidade, ganhar seu próprio pão”.68 Deste modo, constrói-se a imagem de uma família formada por pessoas capazes de se sustentar, que não se negam ao trabalho.

Como o historiador Alexander Freund aponta, diferentes fatores, entre eles o estado civil, influenciavam a percepção de possibilidades de migração entre os alemães que desejavam sair do país após 1945. A emigração tanto poderia ser limitada em função da responsabilidade em relação à família, como ser vista como possibilidade de resolução dos problemas socioeconômicos por ela enfrentados.69 Este último parecia ser o caso de Gertrud, que tomava para si a iniciativa de buscar alternativas de vida para a família no exterior.

Gertrud K. e outros desejosos de emigrar consideravam também, na redação das cartas, a expectativa das autoridades nos países receptores em receber não apenas pessoas, mas sobretudo mão de obra. Como formula o sociólogo Abdelmalek Sayad, estudioso das migrações, o “trabalho é a razão de viver do imigrante”, é o álibi que justifica a presença do imigrante dentro de uma nação.70 Gertrud parte daquilo que supõe ser a expectativa do destinatário, autoridade política no país receptor, ao ressaltar a disposição da família em trabalhar até mesmo com agricultura: “Nós também não seríamos totalmente avessos a cultivar um pedaço de terra”.71 O desejo de sua família ser acolhida faz a remetente, portanto, alargar o campo possível de ocupação profissional dos familiares. Não se sabe se ela tinha conhecimento acerca da mão de obra privilegiada pela política de acolhimento de imigrantes no Brasil. É mais provável que a menção à disposição em “cultivar um pedaço de terra” estivesse relacionada à imagem que a remetente fazia de Blumenau, município oriundo de um projeto de colonização.

A carta acima citada é apenas um exemplo - o conjunto de cartas evidencia outras imagens do local de destino - de como a escrita epistolar de pessoas com o intuito de emigrar pode estar ligada ao imaginário existente em relação ao lugar de destino e às supostas expectativas que os remetentes imaginam ter o destinatário.

Cartas de desejosos de emigrar podem ser suportes dos sentimentos mais característicos que impelem pessoas a partir, a desejar firmar suas existências noutros lugares. Podem ser vestígios materiais da expressão de angústias, apreensões, frustrações, inseguranças em relação ao futuro, mas também de expectativas, esperanças e desejos. No caso das cartas em questão, por terem sido redigidas por pessoas que não tinham contatos pessoais efetivos no lugar ou terem tido ligações muito vagas no passado com parentes distantes ou conhecidos que ali moravam, o ímpeto é, de um lado, o de apresentar as habilidades profissionais e, de outro, pedir informações que pudessem, senão dar-lhes a certeza, torná-las mais seguras para poderem se decidir ou não pela emigração. Para Gertrud K. importava assegurar que o município de destino da carta fosse um “destino firme” para sua família, pois, como ela afirma: “não gostaríamos de nos desfazer de nossa existência partindo para o desconhecido”.72 Por este motivo, ela encerra a carta pedindo que o prefeito informasse quais seriam as “perspectivas no Brasil” para a família.

Os gastos para a viagem e a instalação de uma família eram maiores que os de um indivíduo desejoso de emigrar e implicavam, consequentemente, em riscos maiores, muito embora migrar em família pudesse dar maior segurança a seus integrantes do que se migrassem sozinhos. Por meio das respostas dadas aos remetentes - das quais infelizmente não dispomos - serviam para avaliar os riscos de um projeto de emigração.

Sibylle Meyer e Eva Schulze, que investigaram as continuidades e mudanças nas estruturas familiares e nas relações de gênero em famílias de Berlim no imediato pós-guerra, demonstram como, apesar das mudanças havidas em função da guerra, as mulheres continuavam responsáveis pelos filhos e pelo abastecimento dos familiares. Muito embora não houvesse mais riscos de morte por meio de bombardeios e batalhas, os perigos de morte em razão de desnutrição e de doenças aumentaram.73

A força do imaginário na redação de cartas de interessados em emigrar é perceptível já no início da carta de outra mulher, esta Gertrud H., uma senhora de 56 anos que se dirige, de maneira bem direta e pessoal, ao prefeito de Blumenau:

Ilustríssimo Senhor Prefeito!

Eu gostaria tanto de me mudar para uma bela colônia alemã no Brasil, para ali me estabelecer como professora de piano. O senhor teria emprego para mim aí, em sua bela Blumenau, sobre a qual eu já tanto li e ouvi? Eu já tenho quase 40 anos de profissão, perdi tudo duas vezes, uma atrás da outra, em consequência das guerras absurdas e eu gostaria tanto de ir para a América do Sul!74

O imaginário acerca de Blumenau enquanto uma “bela colônia alemã no Brasil”, como Gertrud H. a representa, havia sido e era veiculado na Alemanha por meio de impressos e de conversas, como ela mesma afirma. Tendo nascido em 1890 ou 1891 e vivido a Primeira Guerra Mundial já enquanto adulta, ela teve mais oportunidades de conhecer informações sobre a presença de alemães no além mar (Übersee) do que a geração seguinte. Informações mais precisas sobre Blumenau, contudo, não eram do conhecimento da remetente, motivo pelo qual, mais adiante, Gertrud faz uma série de perguntas acerca da localidade.

No trecho acima citado, Gertrud H., diferentemente de outros remetentes, expressa um posicionamento crítico em relação à Primeira e à Segunda Guerra Mundiais, ao chamá-las de “absurdas”. Também relaciona diretamente as perdas pessoais delas decorrentes ao seu desejo de emigrar e a informações relativas a trabalho. Assim, guerra, emigração e trabalho são três palavras-chave na composição da narrativa. O trecho que segue é voltado para a enumeração de habilidades profissionais, elaborada com base na suposição de que talvez em Blumenau não fosse possível exercer sua então profissão:

Como profissão prática posso mencionar ainda a costura de roupas femininas, assim como a realização e ensino de trabalhos manuais, sei cozinhar muito bem, assar pães e bolos etc. Caso as aulas de piano renderem pouco, eu poderia também formar jovens em cursos de habilidades gerais, anteriormente mencionadas.75

Assim como a outra remetente mencionada neste artigo, Gertrud H. parece estar disposta a qualquer atividade laboral, se bem sucedida a imigração. Já no trecho anterior chama a atenção que, ao invés de informar sua idade - 56 anos -, ela faz referência aos anos de experiência profissional. Sua idade, que poderia ser motivo de resistência de autoridades responsáveis pela autorização à imigração, é informada somente depois, quando traz elementos que parecem servir de contra-argumento para aquela possível suposição: “Tenho 56 anos de idade, sou viva, alegre, otimista, muito trabalhadeira e diligente, além de muito flexível”.76 Também aqui são enumeradas características pessoais e predicados relacionados à capacidade de trabalho. Além disso, a autora da carta mostra predisposição para se adequar às condições oferecidas na localidade de destino.

Em seguida, Gertrud H. faz diversas perguntas sobre a cidade, no intuito de se preparar para uma possível emigração. Ela tinha dúvidas de ordem prática, tais como, se ela poderia se virar, nos primeiros anos, somente falando a língua alemã, o tamanho da cidade, a disponibilidade de móveis e roupas para aquisição etc., assim como perguntas relativas às implicações da guerra para os alemães na cidade, se o conflito teria afetado o seu ambiente de vida. Esta última preocupação demonstra um conhecimento prévio, muito embora vago, sobre a história do município. A remetente pressupõe a existência de conflitos entre alemães e brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial, o que de fato ocorreu em Blumenau, e expressa uma preocupação com o ambiente que ali pudesse encontrar.77 Na carta, o receio relativo às consequências da guerra e do nazismo para os alemães em Blumenau serve de elemento importante na relação intersubjetiva que a remetente procura estabelecer com o destinatário, autoridade de uma cidade com habitantes com os quais ela imagina compartilhar uma mesma identidade étnico-nacional (daí a utilização do pronome “nós”): “Como o Senhor e os queridos alemães superaram a guerra? Como é o ambiente para nós?”.78

Emigrar da Alemanha, ao final dos anos 1940 e início dos 1950, significou para muitos ter que lidar com sentimentos antialemães em muitas partes do mundo, como demonstraram autores que pesquisaram a emigração alemã neste período.

No trecho seguinte, novamente a autora insere informações sobre habilidades que consideraria suficientes caso pudesse atuar como professora: “Eu também poderia dar aulas, pois tenho boa formação escolar, educação geral e bom coração. Sou antifascista e não fui membro do partido [nazista]”.79 Aqui, há a associação direta entre magistério e atributos frequentemente ligados ao exercício da função: além da formação escolar, ter “bom coração” - palavra também muito associada ao papel de mãe -, e não ter sido envolvida formalmente ou ideologicamente com o fascismo. Na carta de Gertrud H., o uso do prefixo “anti”, antes da palavra “fascista”, visava afastar qualquer associação que se pudesse fazer entre a remetente e o regime nazista. O uso do termo “antifascista” mostra a apropriação do vocabulário político-ideológico da força de ocupação da zona soviética, onde a remetente então morava. Ali, o antifascismo tornou-se doutrina de Estado. A administração militar soviética, os partidos e outras organizações permitidos, mas sob forte controle político e ideológico, se referiam ao regime nazista enquanto fascismo, não enquanto nacional-socialismo, procurando assim evitar qualquer associação que se pudesse fazer entre aquele regime e o socialismo.

A redação da carta é, como se percebe, também permeada pelo clima político provocado pela “desnazificação” (Entnazifizierung), uma espécie de “limpeza política” colocada em prática de diferentes modos e intensidades nas quatro, depois três zonas de ocupação na Alemanha entre 1945 e 1948. Certamente em razão das consequências do nazismo e da “desnazificação” empreendida pelas potências aliadas que haviam ocupado a Alemanha em 1945 - EUA, Inglaterra, França e URSS - Gertud e também outros remetentes se preocuparam em negar qualquer envolvimento formal com o NSDAP ou mesmo simpatia para com o nazismo.

Após pedir o envio de uma autorização para se estabelecer e se mudar para Blumenau, a remetente citada assegura: “O senhor não correrá riscos comigo”. O fato de a emigração poder demorar é expresso na carta, pois, segundo ela, “nosso dinheiro ainda não vale nada”.

Ao final da carta, Gertrud H. expressa um dos principais motivos, senão o principal, da carta: a carestia de mantimentos e, em razão disto, o pedido de um “carepaket”. Isso nos leva a perceber que, muito embora a expressão do desejo de emigração tome a maior parte das linhas da carta - e, lembremos, não era possível ainda emigrar da Alemanha -, o motivo mais concreto e emergencial era o pedido de mantimentos:

Como é a alimentação entre vocês? Entre nós é para morrer de fome e por isso a vida e o trabalho trazem pouca alegria. Eu leciono diariamente até oito horas aulas de piano e poderia, se eu quisesse, trabalhar também 10 ou mais, pois meus nervos estão saudáveis e eu ainda sou capaz de muito mais. Mas a comida é muito ruim.

Em sua comunidade não se encontraria alguém que pudesse enviar um carepaket (5 kg), se eu me comprometer a restituir o valor assim que o nosso dinheiro tiver novamente valor e eu puder transferi-lo? 80

Além da idade, as consequências psicológicas da guerra, do nazismo e a então vida difícil para muitos alemães podem estar na base da afirmação: “meus nervos estão saudáveis”. A autora, na sequência, dá instruções minuciosas de como preparar e enviar o pacote. Assim como no preâmbulo, também no final da carta, expressa solidariedade étnica ao cumprimentar seus “irmãos e irmãs alemães”.

Nesta e em outras cartas de mulheres e de homens, a expressão da vontade de emigrar, assim como as conexões que se estabelecem com o município, parecem servir para reforçar o pedido de mantimentos, necessidade mais urgente de então. No caso da remetente acima, a idade e o fato de ser sozinha talvez pudesse dificultar seu intuito de emigrar, quando isto fosse possível.

A preocupação em estabelecer, por meio da narrativa, uma conexão com o destinatário, presente em diversas das cartas enviadas ao prefeito, é explicitada no início da carta de outra mulher, de nome Irmgard, a qual ressalta ter nascido na mesma cidade que o fundador da colônia Blumenau, Hermann Bruno Otto Blumenau: “Ilustríssimo senhor prefeito! Dirige-se ao senhor uma alemã, a qual, assim como o fundador de sua cidade, também nasceu em Hasselfelde, no Harz”.81 A grafia é a de uma mulher que escreve com leveza e facilidade. O conteúdo revela também traços de uma mulher sensível, cuja vida se voltava à arte. A autora, uma atriz de teatro moradora da zona ocidental de Berlim, deixa transparecer nas linhas sentimentos e apreensões em relação à divisão da cidade e do país. Uma profunda falta de esperanças e perspectivas perpassam suas linhas.

No início da carta, a autora escolhe não apenas relacionar sua biografia com a do fundador da cidade, ou seja, um fato do passado, como também com o presente, ao chamar os moradores de Blumenau de “meus conterrâneos”. Na sequência, justifica sua intenção de emigrar nestes termos:

Eu quero emigrar da Alemanha, pois esse país, o qual é lembrado aí por muitos dos meus conterrâneos com grande saudade, certamente ainda não oferecerá, em muitos anos, possibilidades de uma verdadeira existência. Vive-se, ou melhor dizendo, vegeta-se de um dia para o outro.82

Diferentemente das remetentes já citadas e de todos os demais, Irmgard escreve já em 1950, quando a Guerra Fria já estava em pleno curso. O país já havia sido dividido, assim como Berlim, cidade onde Irmgard vivia. A polarização entre leste e oeste não somente é tematizada na carta, como a autora assume uma identificação para com os habitantes do lado oeste, ao escrever “nós, ocidentais”. Na carta, ela ainda expressa críticas em relação às condições de vida na Alemanha Oriental. Mas mesmo para os que moravam no outro lado, onde haveria liberdade, as vidas estariam destruídas:

Uma cinzenta falta de esperanças paira sobre todos, pois não se visualiza nenhuma solução. Berlim está dividida agudamente entre Leste e Oeste, e os pobres cidadãos do Leste vivem numa total escravidão e numa pobreza bastante grande. Nós, ocidentais, vivemos na liberdade, há de tudo para se comprar, mas, pelo que a gente precisa incrivelmente lutar para poder continuar a viver de um dia para o outro. Também a gente não pode se deslocar para alguma outra cidade do Leste da Alemanha, pois não se consegue acesso. Assim, dentro das ruínas que compõem em grande parte a imagem da cidade, estão nossas vidas destruídas. Como devemos reconstruí-las?83

O leste de Berlim, parte da República Democrática Alemã, é associado à “escravidão”, à “pobreza”, enquanto o oeste, pertencente à República Federal da Alemanha, é associado à liberdade, limitada pelas difíceis condições de vida. A guerra havia terminado, mas a vida cotidiana era uma luta para poder comprar o necessário para sobreviver. A sensibilidade desta artista transforma as ruínas de Berlim numa metáfora de impacto: a guerra não teria destruído apenas prédios, casas, ruas, mas também arruinado vidas. Assim, a autora se refere também ao desmoronamento psíquico de muitos habitantes. Como reconstruir essas vidas diante daquele quadro formado não apenas por escombros, mas também por vidas destruídas?

Richard Katz, escritor judeu-alemão natural de Praga que se exilou no Brasil em 1938 e que visitou a Europa ocidental em 1950, utiliza a mesma metáfora, num de seus livros, para se referir aos alemães que viu:

Quando eu viajei para a Alemanha, eu tinha na memória o que eu havia lido nos jornais e visto em filmes. Eu imaginava cidades em ruínas. Eu não pensei muito além. Eu deveria ter pensado também em pessoas em ruínas. Principalmente nelas.84

Sentimentos e sensibilidades costuram também as palavras que compõem a narrativa da atriz Irmgard: desolação, sensação de impotência, imobilidade, falta de perspectivas e de esperanças. É neste tempo presente comprimido entre um passado que destruiu vidas e um futuro que não “visualiza nenhuma solução” que ela escreve. A carta traduz de maneira mais rebuscada, manifestações também contidas noutras cartas. O céu cinzento, (ou, em suas palavras, “a cinzenta falta de esperanças”) não lhe permite enxergar um futuro promissor. Sua carta estabelece uma relação entre o tempo passado, presente e futuro. Ela fala de um “espaço de experiência” que não lhe permite visualizar um horizonte promissor. Por meio desta linguagem metafórica esta artista “pinta” o seu mundo, a imagem de sua cidade e seu país. Suas palavras compõem uma estética da destruição, tingem o céu com a cor da “falta de esperança”, transformam as ruínas da guerra em metáfora do estado psíquico dos seus conterrâneos.

O futuro ela vê na possibilidade de sair do país. A filha é a motivação para a busca de uma vida melhor: “Eu sou atriz, separada, e tenho uma filhinha de 8 anos. Por causa dessa criança amada, eu procuro o melhor possível no sentido de obter um verdadeiro chão para viver”.85 Aqui, novamente, a linguagem metafórica: não é apenas a mudança de país, mas a obtenção de um “chão sólido” para viver que ela procura para si e sua filha. Também ela quer se sentir segura primeiro para poder se decidir pela emigração.

O tempo presente aparece associado à insegurança, à carência, ao provisório. Na sequência da carta, ela se refere ao “exército de atores” que, como ela, estava à procura de trabalho. Desde 1935, Irmgard atuava como atriz de teatro, mas então vivia de “bicos”. Na carta, ela cita o título de peças conhecidas nas quais atuou, como Maria Stuart, Efigênia e Macbeth. Segundo ela: “Um vasto e rico campo estava aberto à minha frente”. Contudo, as consequências da guerra o limitaram, frustrando suas expectativas para o futuro. Desde 1945, Irmgard tinha que “se equilibrar de ano em ano”, com atuações ocasionais para a TV86 e dublagem de filmes estrangeiros.

Depois desta introdução, Irmgard oferece sua mão de obra, apresentando outras habilidades que não as utilizadas no palco, as quais imaginava poderem ser de utilidade no município. Estava, pois, disposta a emigrar mesmo que não fosse para trabalhar na área de sua formação profissional:

Então eu me dirijo ao senhor. O mundo é grande e mesmo que ele pareça estar, em parte, possesso pelo diabo, deve haver países onde se possa viver - quando se quer trabalhar. Eu quero trabalhar - e eu sei, além de atuar no teatro, cuidar da casa, eu sei datilografar e estenografar muito bem, tenho bons conhecimentos de francês e um pouco de inglês. Dou-me muito bem com crianças e eu poderia também trabalhar como enfermeira em hospitais (no entanto, sem muitos conhecimentos em medicina). Em anexo, envio ao senhor uma foto do ano passado, já que eu não posso me apresentar ao senhor pessoalmente [grifos no original].87

No trecho acima, observa-se que outras possibilidades de emprego são ofertadas pela autora da carta ao destinatário, na ânsia de poder receber alguma proposta de trabalho. As ocupações sugeridas, como opção ao seu principal interesse, o teatro, são as tradicionalmente associadas ao trabalho feminino. Assim, nesse movimento que denota sua agência, observa-se a mobilização de uma identidade de gênero que associa às mulheres atribuições específicas, como as voltadas ao lar, à educação de crianças, ao cuidado de doentes e a serviços de secretaria. A importância da aparência para a obtenção de certos empregos, especialmente daqueles nos quais se lida com público, parece motivá-la a enviar uma fotografia junto à carta. Seu principal propósito com a emigração, que ela associa ao verbo “viver”, sublinhado no texto, era poder garantir uma existência segura a ela e a sua filha, já que elas, como expresso no início da carta, não viviam, apenas vegetavam na Alemanha. Assim, enquanto a vida é a metáfora para a migração, as ruínas de guerra são a metáfora para a permanência no país. A Alemanha seria um território devastado não apenas pela guerra, mas também pelos sentimentos mais profundos de desesperança, representados pela metáfora da “nuvem cinzenta”.

Na sequência da carta, a autora cordialmente pede que sejam respondidas algumas perguntas, se havia um “teatro alemão” na cidade e, em caso negativo, se haveria possibilidades de existência a ela e sua filha na cidade. Irmgard ressalta que só emigraria com sua filha. A pedido de amigos desempregados, também atores, pergunta se haveria a possibilidade de fundar um grupo teatral na cidade. Assim, enquanto a primeira remetente citada neste artigo, Gertrud K., age em nome dela e da família, Irmgard age em prol da filha e dos amigos artistas.

Ao fim da carta, Irmgard busca saber se haveria a possibilidade de obter o crédito para a passagem e pagá-la aos poucos, após a chegada, tal como faziam os que se dirigiam aos EUA. A demonstração do conhecimento da onda migratória que levava milhares de alemães à América do Norte e o ato de escrever para o prefeito de Blumenau leva-nos a pensar que ela via mais chances em exercer sua profissão numa cidade “alemã” no exterior, como ela imaginava Blumenau ser, do que nos EUA. A língua falada no lugar de destino era um fator importante na agência exercida por homens e mulheres na escolha do país de destino da emigração, muito embora não fosse o único. Considerando a importância da língua no exercício da função específica de atriz, obter a informação de que seria possível exercer a profissão utilizando-se da língua materna certamente facilitaria, no caso de Irmgard, a opção em emigrar para Blumenau.

E Irmgard finaliza a carta com um pedido de desculpas: “Por favor, venerável Senhor Prefeito, me desculpe pela urgência e pelo uso do seu tempo, é a miséria, a nua e brutal miséria, que me dita esta carta”.88 A carta demonstra a agência de uma mulher autônoma, que procurava superar por meio deste e de outros gestos, as dificuldades materiais impostas pela conjuntura econômica e política.

Todas as três cartas, aqui mais detidamente analisadas, são vestígios materiais de diferentes formas de agência feminina na construção de projetos emigratórios. Se a agência da primeira autora das cartas é exercida em nome de si e da família e a da segunda em nome apenas de si própria, a terceira é também em nome da filha e dos amigos de ofício.

Em diversas cartas de homens e mulheres desejosos de emigrar para o Brasil percebem-se “jogos de gênero” na construção da narrativa.89 Utilizo tal noção com base na formulação do historiador Luc Capdevila, que entende por “jogos de gênero” as estratégias de ação baseadas em modelos socialmente aceitos para a atuação feminina ou para a ação masculina.90 As três mulheres, cujas cartas foram analisadas de forma mais detalhada aqui, procuraram “jogar” com “expectativas sociais a respeito do que era considerado como próprio das mulheres”.91 No caso das cartas aqui analisadas, as autorrepresentações dos remetentes são construídas a partir do que as autoridades brasileiras presumivelmente esperavam da mão de obra feminina e masculina. Mesmo que tais práticas fossem tentativas de sensibilizar o destinatário para que seus pedidos fossem aceitos, revelam as astúcias e a agência desses sujeitos, num momento crítico de suas vidas.

Considerações finais

O desconhecimento em relação ao destino dos remetentes das cartas - só dispomos da primeira (e talvez única) carta de cada um - impede afirmar se os seus intuitos de emigração se concretizaram. O que as cartas permitem afirmar é que elas eram não apenas suporte para a manifestação de intenções migratórias, mas também uma tentativa de estabelecer contatos e se preparar para uma migração futura. Eram recursos utilizados na tentativa de familiarização do remetente com o possível local de emigração. Como expressaram remetentes citados neste artigo, não se queria partir para o “desconhecido”, se queria um “verdadeiro chão para viver”. Por esta razão, tais cartas podem ser entendidas como um meio para transformar um espaço inscrito no mapa, ainda estranho, num lugar onde se depositam expectativas, sentimentos e projetos de futuro. Ou como lembra o sociólogo Abdelmalek Sayad, o espaço das migrações é sempre um espaço qualificado, não o espaço abstrato, contínuo e homogêneo dos matemáticos.92

O conteúdo das cartas nos aproxima dos desejos, sonhos e autorrepresentações dos candidatos à migração. Tais escritas de si também são constituidoras de subjetividades. No caso das cartas-pedido aqui em questão, pôde-se perceber como os remetentes se referem a si mesmos enquanto trabalhadores, ou seja, enquanto potenciais imigrantes. A descrição de habilidades e experiências profissionais delineia os traços de subjetividades de trabalhadores dispostos a começar novas vidas no Brasil. Tais identificações são construídas a partir dos interesses dos remetentes e também das expectativas das autoridades brasileiras em relação a candidatos à imigração. É na relação dialógica com o destinatário, portanto, que se constroem tais narrativas autobiográficas de pessoas interessadas em emigrar para o Brasil.

Cabem aqui, ainda, algumas considerações sobre as condições do município em relação à recepção de possíveis imigrantes. Nos fundos preservados da Prefeitura Municipal de Blumenau não é possível identificar a existência de uma política do poder público para a recepção de imigrantes, alemães ou não, logo após a guerra. Também não constam estatísticas sobre a vinda de imigrantes no período. Em texto sobre o povoamento de Blumenau, publicado em 1950 no centenário de fundação da cidade, constam apenas estatísticas relativas ao período de 1850 a 1932.93 Por meio de outra pesquisa, sabemos que Blumenau acolheu, após a Segunda Guerra Mundial, diversas famílias que antes haviam morado na cidade, que tinham se dirigido à Alemanha pouco antes de irromper a guerra, e retornaram depois acompanhados de parentes de cidadania alemã. Em relação a essas pessoas, pude demonstrar, com base na documentação da Missão Militar Brasileira instalada em Berlim entre 1946 e 1949, como o governo brasileiro possibilitou o “repatriamento” de cidadãos brasileiros ou binacionais, acompanhados de parentes de cidadania alemã, em colaboração com as autoridades militares aliadas na Alemanha, ainda durante o período restritivo à emigração naquele país.94 Na mesma documentação, ofícios demonstram como empresários de Blumenau e familiares, por intermédio de políticos, buscaram intervir junto ao Itamaraty para facilitar o retorno/vinda de parentes que se encontravam na Alemanha e que queriam retornar/emigrar para o Brasil. Uma das justificativas dadas em relação aos parentes que tinham apenas a cidadania alemã era a sua qualificação técnica, a qual poderia ser útil ao parque industrial da cidade.

No volume de cartas analisado aqui se encontram algumas traduções para o português, o que indica um esforço da prefeitura em tornar o conteúdo das cartas mais acessível a pessoas que pudessem auxiliá-los. Ofícios-resposta da prefeitura não fazem parte do conjunto documental preservado, o que limita uma avaliação sobre a posição oficial em relação à recepção de imigrantes e medidas eventualmente tomadas.

Mesmo que empresários e poder público estivessem interessados na vinda de imigrantes, alemães ou não, fazia poucos anos que estrangeiros e descendentes moradores de Blumenau haviam sido alvo da campanha de nacionalização (1938-1945), repressão acirrada com a declaração de guerra do Brasil à Alemanha, em 1942. Uma manifestação explícita e pública em favor da recepção de imigrantes alemães, depois da guerra, poderia ser vista como gesto político imprudente naquele momento em que membros das elites teuto-brasileiras haviam justamente voltado ao poder municipal, com base na afirmação da “brasilidade” da cidade.95 No final dos anos 1940 e início dos 1950, algumas polêmicas ressurgiram na imprensa local, motivadas por supostos indícios de “desnacionalização” na região do Vale do Itajaí.96

É possível que cartas similares às enviadas à Prefeitura Municipal de Blumenau também tenham sido enviadas para outras localidades de colonização alemã no Brasil ou para representantes de instituições que tinham vínculos com a Alemanha. Como demonstrou Evandro Fernandes, muitos alemães enviaram cartas da Alemanha em agradecimento ao Comitê de Socorro à Europa Faminta, fundado no Brasil depois da guerra por membros das elites teuto-brasileiras do sul do Brasil. Este comitê havia enviado diversas toneladas de mantimentos, sobretudo para a Alemanha, entre 1946 e 1949.97

As cartas aqui submetidas à análise confirmam o que outros historiadores apontaram em relação à predisposição de parte da população alemã após a Segunda Guerra Mundial à emigração, vista como uma alternativa à situação de carestia. Elas mostram como as consequências materiais e psicológicas da guerra, a então situação econômica e política, os sonhos e expectativas, o imaginário sobre o Brasil e uma memória positivada da colonização alemã em Blumenau contribuíram para a redação e o envio de cartas de homens e mulheres predispostos à emigração. Como pude demonstrar, alguns remetentes vislumbravam um futuro numa localidade lembrada e até mesmo citada como uma “colônia alemã” (seja no então presente, seja no passado). A imagem de futuro relacionada à emigração, portanto, se apoiava em imagens do passado de colonização e imigração alemã no além mar. Futuro e passado são conectados pelo imaginário, memória e expectativa. Mesmo que os sujeitos envolvidos não se conheçam, imaginários e memória compartilhados tratam de construir pré-concepções sobre o lugar de destino e seus habitantes. Poder-se-ia afirmar que os “alemães” de Blumenau foram percebidos como um “nós” conectado etnicamente e historicamente a um passado positivado da colonização alemã, mas que, como se desejava, poderia agora, no presente, acolher os “irmãos” flagelados pelas consequências da guerra. Emigrar para o Novo Mundo poderia significar uma nova vida longe das ruínas que os lembravam do passado. Trata-se ao mesmo tempo de um imaginário nostálgico, que conecta Blumenau a um passado de glória da colonização alemã e de um imaginário idealizado, que conecta a cidade a elementos supostamente existentes no presente, tais como fartura, paz, trabalho e progresso.

A perspectiva de análise das cartas utilizadas neste artigo privilegiou uma abordagem transnacional da história, com base na escrita de si de pessoas comuns, cujos mundos, apesar de separados pelo oceano, foram entrecruzados pela memória e pela imaginação, por discursos e expectativas. Elas permitem pensar as relações que remetentes da Alemanha procuraram estabelecer com outro espaço, uma cidade do sul do Brasil, e também como (re)pensavam o mundo e o seu lugar nele num momento de carestia, a partir de seus “espaços de experiência” e de falta de “horizontes de expectativas” em seu país.

A falta de alimentação, emprego, moradia, matéria prima para aquecimento, medicamentos fazia parte do “espaço de experiência” da maioria da população alemã na época. Na concepção de Reinhart Koselleck, a experiência é o passado atual, “aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados”. Como vimos, alguns remetentes narram um passado mais atual como uma estratégia narrativa para formular seus pedidos e, ao narrarem o passado no presente, expressam também sentimentos em relação ao futuro. Isso porque, segundo Koselleck, o “espaço de experiência” se relaciona a um “horizonte de expectativa”, que é um “futuro-presente, voltado para o ainda-não, para o não experimentado, para o que apenas pode ser previsto”.98 O momento de carestia estabelecia uma relação singular entre os tempos presente, passado e futuro. O presente significava o espaço temporal da luta cotidiana pela sobrevivência e pela reconstrução de existências. As necessidades do presente se sobrepunham à reflexão sobre o passado, algo que se buscava esquecer. Tal configuração limitava um regime de historicidade futurista marcado pela ideia do progresso, no qual a categoria de futuro se faz preponderante.99 Apesar disso, a emigração, muito embora ainda não possível para a maioria dos alemães até 1949, estava no “horizonte de expectativas” dos remetentes das cartas que aqui analisamos. E é em função deste futuro melhor almejado que os remetentes construíram suas cartas-pedido destacando elementos de seus “espaços de experiência”, ressaltando as perdas e dificuldades, assim como as habilidades profissionais, a formação educacional e profissional, as potencialidades enquanto mão de obra.

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2Bundesamt Für Migration Und Flüchtlinge. Asylgeschäftsstatistik für den Monat Dezember 2016. Disponível em: http://www.bamf.de/SharedDocs/Anlagen/DE/Downloads/Infothek/Statistik/Asyl/201612-statistik-anlage-asyl-geschaeftsbericht.pdf?blob=publicationFile. Acesso em: 02/02/2017.

3 BENZ, Wolfgang (org.). Potsdam 1945: Besatzungsherrschaft und Neuaufbau im Vier-Zonen-Deutschland. 3ª edição. München: DTV, 1994, p. 7.

4Em 1945, dois terços da população alemã não se encontravam em suas residências ou estavam em trânsito. Sobre isto ver: PLATO, Alexander von & LEH, Almut. “Ein unglaublicher Frühling”: Erfahrene Geschichte im Nachkriegsdeutschland 1945-1948. Bonn: Bundeszentrale für politische Bildung, 1997, p. 11-21.

5 GLASER, Hermann. Kleine Kulturgeschichte der Bundesrepublik Deutschland. München/Wien: Hanser, 1991, p. 20.

6Em artigo anterior, discuti os principais elementos estruturantes dessas cartas-pedido, tais como as estratégias retóricas empregadas na interlocução com o destinatário, as “escritas de si” ali construídas, o caráter trágico das narrativas, a dialética entre memória e silêncio, assim como a mobilização de identidades étnicas e nacionais: FROTSCHER, Méri. “A miséria me obriga a escrever ao senhor”: a escrita de si em cartas de alemães ao prefeito de Blumenau – SC (1946-1948). Revista Tempo e Argumento, vol. 7, n. 15, Florianópolis, mai./ago. 2015, p. 137-176. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5965/2175180307152015137. Acesso em: 02/02/2017.

7As cartas foram localizadas pela autora em 2010 em acervo documental em posse de Niels Deeke, advogado aposentado, filho de Hercílio Deeke, prefeito de Blumenau nas gestões de 1951-1956 e 1961-1966. Estes períodos de gestão não coincidem com a datação das cartas aqui analisadas. Nas referências às cartas citadas, a localização dessa coleção será doravante mencionada como “Acervo ND”.

8Segundo o historiador Alexander Freund (2004), outros meios utilizados para este objetivo eram as representações diplomáticas, os órgãos de aconselhamento a emigrantes (atuantes principalmente a partir da liberação da emigração), missões religiosas, consultas na imprensa e em livros, contatos com soldados e com funcionários das forças de ocupação: FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch: die Deutsche Nordamerika-Auswandrung nach dem Zweiten Weltkrieg. Göttingen: V&R Unipress, 2004.

9 MALATIAN, Teresa. Cartas. Narrador, registro e arquivo. In: PINSKY, Carla B. & LUCA, Tania R. de (org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2011, p. 195. Sobre escrita de si e cartas ver ainda os diversos capítulos sobre escrita epistolar contidos nos livros: BASTOS, Maria Helena C.; CUNHA, Maria Teresa S.; MIGNOT, Ana Chrystina V. (org.). Destinos das letras: história, educação e escrita epistolar. Passo Fundo: Editora UPF, 2002; GALVÃO, Walnice N. & GOTLIB, Nádia B. (org.). Prezado senhor, prezada senhora: estudos sobre cartas. São Paulo: Cia. das Letras, 2000; GOMES, Ângela de Castro (org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

10 FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: Idem. O que é um autor? Lisboa: Passagens, 1992, p. 150.

11 PERROT, Michelle. Introdução. In: Idem (org.). História da vida privada, vol. 4. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Tradução de Denise Bottman e Bernardo Joffily. São Paulo: Cia. das Letras, 1991, p. 11.

12 KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma P. Maas e Carla A. Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2006.

13Das 11 cartas dos predispostos à emigração, seis foram enviadas da bizona (oriunda da união das zonas de ocupação norte-americana e britânica, em 1/01/1947), quatro da zona de ocupação soviética e uma da Alemanha Ocidental (Berlim Ocidental), quando a Alemanha já havia se dividido em dois países.

14FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit., p. 168.

15Segundo documento de fevereiro de 1948 do comitê responsável por questões emigratórias, somente poderiam emigrar: “(i) antinazistas, (ii) perseguidos políticos, (iii) noivos, (iv) esposas que desejavam se unir aos seus maridos, (v) maridos que desejavam se unir às suas esposas ou famílias no exterior, desde que provassem que tinham residido no respectivo país antes de 1933, (vi) menores que desejassem se unir aos seus pais ou familiares, (vii) pessoas idosas que desejassem se unir a pessoas que estivessem em condições de sustentá-las”: Länderrat. Committee on Emigration Questions. Meeting on 28 February 1948. 28/02/1948. OMGUS-Akten, Polad/Pola 808/38 – Institut für Zeitgeschichte, Munique (Alemanha).

16FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit., p. 171.

17Ibidem.

18Ibidem, p. 170 e 182.

19 STEINERT, Johannes-Dieter. Drehscheibe Westdeutschland: Wanderungspolitik im Nachkriegsjahrzehnt. In: BADE, Klaus J. (ed.). Deutsche im Ausland, Fremde in Deutschland. München: Beck, 1992, p. 386.

20MOHR, Joachim. Traumland Amerika. Spiegel Special, nº 1, 2006, p. 46-49. Disponível em: http://www.spiegel.de/spiegel/spiegelspecial/d-45964809.html. Acesso em: 17/12/2016.

21DÖRING, Kurt. Deutsche auf dem Wege nach Übersee. Die Zeit, nº 41, 13/10/1949. Disponível em: http://www.zeit.de/1949/41/deutsche-auf-dem-wege-nach-uebersee. Acesso em: 17/12/2016.

22Um deles é o livreto Auswanderung nach Amerika (Emigração para a América), de August Buckeley, que havia morado no Brasil: BUCKELEY, August. Auswanderung nach Amerika. München: Verlag Kurt Desch, 1947 (Caderno 8: Europäische Dokumente).

23 PERES, Elena Pájaro. “Proverbial hospitalidade”? A Revista de Imigração e Colonização e o discurso official sobre o imigrante (1945-1955). Acervo, vol. 10, n. 2, Rio de Janeiro, jul./dez. 1997, p. 54.

24Sobre isso e a atuação da Missão Militar Brasileira em Berlim, em especial o seu papel na repatriação de cidadãos brasileiros e seus parentes de nacionalidade alemã, ver FROTSCHER, Méri. De “alemães no exterior” a brasileiros? A repatriação de cidadãos brasileiros da Alemanha ocupada (1946-1949). História Unisinos, vol. 17, n. 2, São Leopoldo, 2013, p. 81-96. Disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/view/htu.2013.172.02/1974. Acesso em: 17/12/2016.

25Eine Tür geht auf. Der Spiegel, n. 34, 21/08/1948, p. 8-9. Disponível em: http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-44418739.html. Acesso em: 17/12/2016.

26 SEYFERTH, Giralda. Cartas e narrativas biográficas no estudo da imigração. In: DEMARTINI, Zeila de Brito F. & TRUZZI, Oswaldo M. S. (org.). Estudos migratórios: perspectivas metodológicas. São Carlos: EdUFSCar, 2005, p. 48.

27Ibidem, p. 45.

28 BLAS, Verónica Sierra. Puentes de papel: apuntes sobre las escrituras de la emigración. Horizontes Antropológicos, vol. 10, n. 22, Porto Alegre, jul./dez. 2004, p. 131.

29 FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit., p. 138.

30Ibidem, p. 342.

31Otto M. Carta. Todesfelde/Segeberg, 16/03/1947. Acervo ND. Em todas as referências às cartas, os sobrenomes foram abreviados por meio da inicial, com exceção de uma carta, cujo nome e sobrenome já haviam sido abreviados com as iniciais pelo próprio remetente.

32Gertrud H. Carta. Jüterbog, 24/05/1947. Acervo ND.

33Irmgard N. Carta. Berlim/Steglitz, 3/09/1950. Acervo ND.

34 LISBOA, Karen Macknow. Mundo novo, mesmo mundo: viajantes de língua alemã no Brasil (1893-1942). São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2011, p. 27.

35Ibidem, p. 261.

36Sobre o imaginário acerca de Blumenau e do Brasil, presente nas cartas de todo o conjunto documental, vide FROTSCHER, Méri. “A miséria me obriga a escrever ao senhor”, op. cit.

37Franz K. Carta. Waldalgesheim, 25/03/1947. Acervo ND.

38Heinz R. Carta. Hartmannsdorf/Chemnitz, 20/03/1947. Acervo ND.

39Ibidem.

40Carta de Erich K. Schweinfurt, 8/01/1947. Acervo ND.

41Ernst B. Carta. Altkehdingen – Hamburgo, 15/03/1947. Acervo ND.

42FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit.

43FROTSCHER, Méri. “A miséria me obriga a escrever ao senhor”, op. cit.

44Erich K. Carta. Schweinfurt, 8/01/1947. Acervo ND.

45Em consequência da guerra, cerca de 2 milhões de soldados alemães e civis sofreram lesões corporais. GLASER, Hermann. Kleine Kulturgeschichte der Bundesrepublik Deutschland, op. cit., p. 13.

46Naquela época, havia cerca de 36.000 Volksdeutsche e 3.000 Reichsdeutsche (cidadãos alemães) na Letônia. LENIGER, Markus. Nationalsozialistische “Volkstumsarbeit” und Umsiedlungspolitik 1933-1945: Von der Minderheitenbetreuung zur Siedlerauslese. Berlim: Frank & Timme, 2006, p. 67.

47O autor ainda informa que, em razão disto, cerca de 1,2 milhão de poloneses tiveram que deixar seus lares nos territórios que passaram a se chamar Wartheland e Danzig-Westpreussen e se deslocar para o Generalgouvernement. BENZ, Wolfgang. Fremde in der Heimat: Flucht – Vertreibung – Integration. In: BADE, Klaus J. (ed.). Deutsche im Ausland, Fremde in Deutschland. München: Beck, 1992, p. 375.

48Carta de Otto M., Todesfelde/ Kreis Segeberg. 16/03/1947. Acervo ND.

49Carta de Ernst B. Altkehdingen – Hamburgo, 15/03/1947. Acervo ND.

50R. L. Carta. Augsburg-Göggingen, 14/04/1947. Acervo ND.

51A devolução dos Sudetos à Tchecoslováquia e a expulsão dos alemães desta região já haviam sido acordadas nas negociações entre os Aliados durante a guerra. Para essas autoridades, a paz só seria possível nesta e em outras áreas do sudeste e leste europeus onde residiam alemães, se estes fossem dali deslocados: BRANDES, Detlef. “Säuberung vom fremden Element”. Die Vertreibung und Zwangsaussiedlung der Deutschen aus de Tschechoslowakei. In: AUST, Stefan & BURGDORFF, Stephan (ed.). Die Flucht: Über die Vertreibung der Deutschen aus dem Osten. Bonn: Bundeszentrale für politsche Bildung, 2005, p. 116 e 126.

52As narrativas relativas à carestia vivida na Alemanha no período pós-guerra foram exploradas noutro artigo: FROTSCHER, Méri. “A miséria me obriga a escrever ao senhor”, op. cit.

53FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit., p. 140.

54Percebemos também um maior número de cartas datilografadas entre homens em todo o conjunto de cartas enviadas ao prefeito de Blumenau às quais tivemos acesso, ou seja, não só nas cartas dos que manifestam querer imigrar.

55Franz K. Carta. Waldalgesheim, 25/03/1947; Erich K. Carta. Schweinfurt, 8/01/1947; R. L. Carta. Augsburg Göggingen, 14/04/1947. Acervo ND.

56R. L. Carta. Augsburg Göggingen, 14/04/1947. Acervo ND.

57Franz K. Carta. Waldalgesheim, 25/03/1947. Acervo ND.

58Erich K. Carta. Schweinfurt, 8/01/1947. Acervo ND.

59Karl S. Carta. Burgstätt in Sachsen, 15/03/1947. Acervo ND.

60R. L. Carta. Augsburg/Göggingen, 14/04/1947. Acervo ND.

61 MEYER, Sibylle & SCHULZE, Eva. “Als wir wieder zusammen waren, ging der Krieg im Kleinen weiter”. Frauen, Männer umd Familien in Berlim der vierziger Jahre. In: NIETHAMMER, Lutz & PLATO, Alexander von (ed.). “Wir kriegen jetzt andere Zeiten”: Auf der Suche nach der Erfahrung des Volkes in Nachfaschistischen Ländern. Berlim/Bonn: Verlag J. H. W. Dietz, 1985, p. 312.

62Gertrud K. Carta. Ottendorf/Okrilla, 8/04/1947. Acervo ND.

63Ibidem.

64PLATO, Alexander von; LEH, Almut. “Ein unglaublicher Frühling”, op. cit., p. 47.

65Ibidem, p. 51.

66Gertrud K. Carta, op. cit.

67MEYER, Sibylle & SCHULZE, Eva. “Als wir wieder zusammen waren, ging der Krieg im Kleinen weiter”, op. cit., p. 312.

68Gertrud K. Carta, op. cit.

69FREUND, Alexander. Aufbrüche nach dem Zusammenbruch, op. cit., p. 141.

70 SAYAD, Abdelmalek. O retorno, elemento constituinte da condição do imigrante. Travessia, n. especial, São Paulo, ano 13, jan. 2000, p. 21.

71Gertrud K. Carta, op. cit.

72Gertrud K. Carta, op. cit.

73MEYER, Sybille & SCHULZE, Eva. Als wir wieder zusammen waren, ging der Krieg im Kleinen weiter”, op. cit., p. 308.

74Gertrud H. Carta. Jüterbog, 24/05/1947. Acervo ND.

75Gertrud H. Carta. Jüterbog, 24/05/1947. Acervo ND.

76Ibidem.

77Sobre as repercussões da guerra e da política de nacionalização em Blumenau ver FROTSCHER, Méri. Identidades móveis: práticas e discursos das elites de Blumenau (1929-1950). Blumenau: Edifurb/Cascavel; Edunioeste, 2008.

78Gertrud H. Carta. Jüterbog, 24/05/1947. Acervo ND.

79Ibidem.

80Ibidem.

81Irmgard N. Carta. Berlim Steglitz, 3/09/1950. Acervo ND.

82Ibidem.

83Ibidem.

84 KATZ, Richard. Wandernde Welt. Drei Geschichten von Mensch und Tier. 2ª edição. Zürich: Fretz & Wasmuth Verlag AG., 1951 (copyright 1950), p. 198.

85Irmgard N. Carta. Berlim Steglitz, 3/09/1950. Acervo ND.

86A remetente cita a Rias, rede de TV da zona de ocupação norte-americana criada pela administração militar dos EUA, e a Nordwestfunk.

87Irmgard N. Carta. Berlim Steglitz, 3/09/1950. Acervo ND.

88Ibidem.

89Por motivos de espaço, não há como aprofundar aqui questões de gênero presentes nas cartas. Uma análise sobre os “jogos de gênero” presentes nas mesmas cartas foi realizada em outro artigo. Para tanto, não utilizei apenas as cartas dos desejosos de emigrar para o Brasil, mas de todos os alemães que pediram ajuda à Prefeitura Municipal de Blumenau entre 1946 e 1950 e que tiveram suas cartas preservadas: FROTSCHER, Méri. “Vou tentar ajudar minha família escrevendo essa carta”: jogos de gênero em cartas enviadas da Alemanha para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial. Topoi, Rio de Janeiro (no prelo).

90 CAPDEVILA, Luc. Résistance civile et jeux de genre. France-Allemagne-Bolivie-Argentine. Deuxième Guerre mondiale – années 1970-1980. Annales de Bretagne et de Pays de l’Quest, tomo 108, n. 2, 2001, p. 103-128.

91 PEDRO, Joana Maria; PEREIRA, Silvana Maria; VENSON, Anamaria Marcon. Para além das áreas do conhecimento definidas: relações de gênero e interdisciplinaridade. In: CRESCÊNCIO, Cíntia Lima; SILVA, Janine Gomes da; BRISTOT, Lídia Schneider (org.). Histórias de gênero. São Paulo: Verona, 2017, p. 26.

92SAYAD, Abdelmalek. O retorno, elemento constituinte da condição do imigrante, op. cit., p. 12.

93 WAHLE, Carl. Povoamento da colônia Blumenau. In: Centenário de Blumenau. 1850-1950. Blumenau: Edição da Comissão de Festejos, 1950, p. 129-137.

94FROTSCHER, Méri. De “alemães no exterior” a brasileiros?, op. cit.

95FROTSCHER, Méri. Identidades móveis, op. cit., p. 220.

96Idem, p. 198-205.

97 FERNANDES, Evandro. S. O. S. Europa faminta: Comitê de Socorro à Europa Faminta – SEF. Dissertação de mestrado, História, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Santa Catarina, 2005. A dissertação não permite perceber se os remetentes das cartas utilizadas como fontes chegam a pedir informações ou ajuda para emigrarem para o Brasil.

98KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado, op. cit., p. 309-310.

99Sobre isto ver HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

100Doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Docente do curso de graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste. A pesquisa que resultou neste artigo contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (bolsa de produtividade). Agradeço ao colega historiador Marcos Nestor Stein pela leitura crítica e sugestões para o aprimoramento do texto.

Recebido: 28 de Setembro de 2017; Aceito: 07 de Março de 2018

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