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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.1 no.1 São Paulo June 1967

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101967000100007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Mortalidade infantil no município de São Paulo. Análise do seu comportamento nos últimos 15 anos1

 

 

Maria Lucila Milanesi; Ruy Laurenti

 

 


RESUMO

A queda verificada na mortalidade infantil na Município da Capital desde 1950 foi devida exclusivamente à mortalidade infantil tardia, tendo a mortalidade neo-natal sofrido apenas ligeiras oscilações. Do valor mínimo de 60,2 por 1.000 alcançado em 1961 passou-se a 73,0 por 1.000 em 1966. Êste aumento, até 1964, foi devido tanto a um aumento na mortalidade neo-natal (10,6% em relação ao valor de 1961) como a um aumento na mortalidade infantil tardia (13,2% em relação ao valor de 1961). Procurando verificar quais as causas responsáveis por êste curso desfavorável da mortalidade infantil nos últimos anos, os autores chegaram à conclusão que apenas as doenças infecciosas e parasitárias não tiveram seu coeficiente aumentado neste período, tendo as demais causas sofrido um aumento que variou de 2,5% a 87,5% em relação ao ano de 1961.


SUMMARY

The decline observed in the infant mortality in the county of São Paulo since 1950 was due exclusively to the late infant mortality since the neo-natal mortality underwent slight oscillations. From the lowest value of 60,2 per 1000 reached in 1961 it became 73,0 per 1000 in 1966. This increase until 1964 was due not only to a increase in the neo-natal mortality (10,6% related to the 1961 value) but also in a increase in the late infant mortality (13,2% related to the 1961 value). In order to found which was the responsible causes for this so unfavorable trend of the infant mortality in the last years, the AA. drew the conclusion that only the infective and parasitic diseases did not have their rate increased in this period, having the other causes underwent a increase which ranged from 2,5% to 87,5% related to the 1961 value.


 

 

INTRODUÇÃO

O coeficiente de mortalidade infantil no município da Capital, que desde 1956 vinha caindo progressivamente, chegando a 60,2 por 1.000 nascidos vivos em 1961, subiu a partir daí, chegando a 73,02 por 1.000 nascidos vivos em 1966 (Figura 1).

O presente trabalho procura analisar qual ou quais foram os fatôres responsáveis pelo aumento daquele coeficiente que mantém, como sobejamente sabido, uma relação bastante estreita com o grau de desenvolvimento econômico, social e cultural da área em questão.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O material para a análise a que nos propomos foi fornecido pelo Departamento Estadual de Estatística que é o responsável pela codificação dos atestados de óbito.

A análise ficou circunscrita ao período 1950-1964, porque os dados anteriores a 1950 teriam pouco interêsse atual e 1964 era o último ano para o qual se dispunha dos dados para uma análise por causas. Para facilidade de estudo e conclusões, os dados foram analisados em

3 períodos, dentro daqueles 15 anos: o biênio 1950-61, o ano de 1961, que foi o de mais baixa mortalidade infantil no período e o biênio 1963-64.

As causas de morte serão analisadas nos seguintes grupos (Classificação Estatística Internacional de Doenças, Lesões e Causas de Óbito, 7.a revisão) :

1) Causas pré-natais, natais e neo-natais, que compreendem:

a) sífilis (020-029);

b) vícios de conformação congênitos (750-759);

c) lesões devidas ao parto e asfixia do recém-nascido (760-762);

d) infecções do recém-nascido (exceto diarréia e pneumonia) (765-768);

e) doença hemolítica do recém-nascido (770);

f) outras doenças peculiares da primeira infância (769, 771, 773, 776).

2) Aparelho digestivo:

a) gastroenterite e colite (751, 764);

b) inadaptação ao regime alimentar (772);

c) outras (530-570, 572-585).

3) Aparelho respiratório:

a) gripe (480-483) ;

b) pneumonia (490-493 e 763) ;

c) outras (470-475, 500-502).

4) Infecciosas e parasitárias, exceto sífilis (001-138 exceto 020-029).

5) Outras:

a) meningite (340) ;

b) acidentes e violências (800-999) ;

c) sintomas e mal definidos (780-795);

d) tôdas as outras causas.

 

RESULTADOS

Para se avaliar a magnitude do coeficiente de mortalidade infantil na Capital são apresentados na Tabela 1 os coeficientes de algumas capitais brasileiras e de alguns países nos últimos anos.

 

 

A partir de 1950, a queda sofrida pelo coeficiente de mortalidade infantil foi exclusivamente à custa da mortalidade infantil tardia (óbitos de 28 dias a < 1 ano), como pode ser visto na Figura 1. A subida a partir de 1961 se deu primeiramente à custa da mortalidade neo-natal (< 28 dias)3, que depois se manteve estacionária até 1964 e a mortalidade infantil tardia subiu a partir de 1963.

Como êstes dois componentes vêm se comportando diferentemente e as causas de óbito nos dois períodos requerem medidas diferentes para sua prevenção, passaremos a analisar separadamente os dois períodos dentro do primeiro ano de vida.

 

MORTALIDADE NEO-NATAL

Aproximadamente 47% dos óbitos que ocorreram abaixo de 1 ano em 1964, foram no período neo-natal. Esta percentagem quando comparada com aquela apresentada pela Suécia (90%) nos mostra que ainda é grande a percentagem de óbitos por causas que refletem más condições sócio-econômicas da população ou seja, a mortalidade infantil tardia.

A Tabela 2 e a Figura 2 nos mostram a evolução dos coeficientes de mortalidade néo-natal global e segundo grupos de causas no período 1950-1964.

O coeficiente global sofreu pequenas oscilações em tôrno de 30 por mil, não mostrando nenhuma tendência à queda nêstes últimos 15 anos. A análise, segundo os grupos de causas, mostra que houve um comportamento variável dêstes vários grupos.

A Tabela 3 nos mostra a importância dos diferentes componentes dentro da mortalidade neo-natal.

Assim é que independentemente da época considerada, as causas pré-natais e neo-natais são as responsáveis por mais de 60% dos óbitos neste período, seguindo-se em ordem decrescente de importância, as causas relativas ao aparelho respiratório, digestivo, infecciosas e parasitárias e outras.

Com exceção da mortalidade por doenças do aparelho respiratório, cujos coeficientes permaneceram pràticamente inalterados, tôdas as causas tiveram um coeficiente mais baixo do 1.° para o 2.° período. Ao contrário do 2.° para o 3.° período, todos os coeficientes aumentaram, exceto aquêle por doenças infecciosas e parasitárias, que continuou baixando.

O aumento de 11,4% no coeficiente por causas pré-natais, natais e neo-natais nos últimos anos foi devido a um aumento nos coeficientes por lesão devido ao parto (760-762), que passou de 7,3 °/oo em 1961 a 8,0 °/oo em 1963-64 e por outras doenças peculiares da primeira infância (769, 771-776), que passou de 7,9 °/oo em 1961 a 9,1 %0 em 1963-64.

O coeficiente de mortalidade por doenças do aparelho digestivo sofreu um aumento de 40%.

Entre as doenças do aparelho respiratório, a pneumonia do recém-nascido (763) ocupa um lugar de destaque, pois de cada 100 óbitos naquele grupo, 97 foram devidos à pneumonia em 1964. O coeficiente de mortalidade por pneumonia do recém-nascido passou de 5,3 °/0o em 1961 a 6,6 %o em 1963-64.

O coeficiente de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias em 1963-64 diminuiu de 22,2% em relação ao que era em 1961. Vale notar que o coeficiente de mortalidade por tétano baixou de 7,3 a 5,7 por 10.000. O coeficiente de mortalidade por outras causas aumentou de 87,5;% em 1963-64 em relação ao que era em 1961 e êste aumento foi devido ao aumento de tôdas as outras causas, que passou de 31 por 100.000 em 1961 a 40 por 100.000 em 1963-64 e ao aumento em sintomas e causas mal definidas, que ascendeu de 28 a 97 por 100.000.

 

MORTALIDADE INFANTIL TARDIA

A queda que vinha se observando na mortalidade infantil, como já foi dito, deveu-se exclusivamente a uma diminuição na mortalidade no período de 28 dias a 11 meses. No entanto, verificou-se também para êste período uma ascensão a partir de 1963 (Tabela 4 e Figura 3).

A Tabela 5 nos mostra para cada período a importância relativa das diferentes causas, os coeficientes de mortalidade e a variação percentual dêstes de 1961 a 1963-64.

Como vemos, as doenças do aparelho digestivo são as que predominam nêste período, seguindo-se em ordem decrescente as doenças do aparelho respiratório, outras, pré-natais, natais e neo-natais e em último lugar as infecciosas e parasitárias.

O coeficiente por tôdas as causas baixou de quase 50% do 1.° para o 2.° período, tendo esta, baixa se verificado em todos os componentes, exceto outras causas. Do 2.° para o 3.° período o único coeficiente que continuou baixando foi o devido a doenças infecciosas e parasitárias.

As doenças do aparelho digestivo foram as que tiveram um maior aumento em relação a 1961.

O aumento no coeficiente de "outras" foi devido, como na mortalidade neo-natal, a um aumento na mortalidade por tôdas as outras causas (cujo coeficiente passou de 213 por 100.000 em 1961 a 265 por 100.000 em 1963-64) e a um aumento em sintomas e causas mal definidas (cujo coeficiente passou de 93 por 100.000 em 1961 a 135 por 100.000 em 1963-64).

O aumento do coeficiente entre as respiratórias deveu-se exclusivamente a um aumento no coeficiente de mortalidade por pneumonia (490-493), que variou de 8,4 por 10.000 em 1961 a 10,5 por 10.000 em 1963-64.

 

DISCUSSÃO

É bastante desolador o fato de que durante os últimos 15 anos não se tenha conseguido nenhuma redução na mortalidade infantil durante as primeiras 4 semanas de vida.

As lesões devidas ao parto no biênio 1963-64 representaram quase 40% da mortalidade por causas pré-natais, natais e neo-natais e 25% aproximadamente da mortalidade total abaixo de 28 dias. Dados do Departamento Estadual de Estatística revelam que apenas 36,4% dos nascimentos que ocorreram na Capital em 1963 foram atendidos em hospitais. Seria de se esperar que uma melhor atenção hospitalar ao parto levaria a uma apreciável redução da mortalidade neo-natal.

Outra doença que poderia ser eliminada como causa de mortalidade no período neo-natal seria o tétano que representa 80% das infecciosas nêste período. Apesar de que o coeficiente esteja baixando, tivemos ainda 75 óbitos por esta causa em 1964.

Chama também atenção a queda contínua da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias em todo o período, enquanto todos os outros grupos de causas tiveram o coeficiente aumentado a partir de 1961. Para o período neo-natal já vimos que esta queda foi devida principalmente à queda na mortalidade por tétano. Para o período infantil tardio, uma explicação possível seria devido ao uso de antibióticos. Mas esta explicação torna-se pouco satisfatória se atentarmos ao fato de que a mortalidade por pneumonia aumentou nos últimos anos.

 

CONCLUSÕES

1 – A mortalidade infantil no município da Capital que em 1950 era de 89,7 por 1.000, baixou de 73,0 por 1.000 em 1966, exclusivamente à custa da mortalidade infantil tardia.

2 – A mortalidade infantil que atingiu o valor mínimo de 60,2 por 1.000 em 1961 voltou a subir a partir daí, primeiramente à custa da mortalidade neo-natal, seguida depois por um aumento na mortalidade infantil tardia.

3 – De 1961 a 1964, o único componente da mortalidade neo-natal que baixou foi o coeficiente por doenças infecciosas e parasitárias, queda esta, de 22,2% em relação ao valor de 1961. Os demais componentes tiveram seus coeficientes aumentados: outras causas – 87,5%; doenças do aparelho digestivo – 40,0%; doenças do aparelho respiratório – 21,8%; doenças devidas a causas pré-natais, natais e neo-natais – 11,4%.

a) O aumento no coeficiente por outras causas a partir de 1961 foi devido a um aumento no coeficiente por causas mal definidas (780-795), que de 28 passou a 97 por 100.000 e em segundo lugar a um aumento no coeficiente de mortalidade por "tôdas as outras causas" que de 31 passou a 40 por 100.000.

b) O aumento no coeficiente por doenças do aparelho respiratório a partir de 1961 foi devido ao aumento no coeficiente por pneumonia do recém-nascido (763), que passou de 5,3 a 6,6 por 1.000. A pneumonia do recém-nascido foi a responsável por 97% dos óbitos por doenças do aparelho respiratório abaixo dos 28 dias ocorridos em 1964.

c) O aumento no coeficiente de mortalidade por causas pré-natais, natais e neo-natais a partir de 1961, foi devido a um aumento no coeficiente por lesão devido ao parto (760-762), que de 7,3 passou a 8,0 por 1.000 e também a um aumento no coeficiente por outras doenças peculiares da 1.a infância (769, 771-776), que de 7,9 passou a 9,1 por 1.000.

4 – De 1961 a 1964, o único componente da mortalidade infantil tardia que baixou, foi o coeficiente de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias que baixou de 10,7% em relação ao valor encontrado em 1961. Os demais componentes tiveram seus coeficientes aumentados: doenças do aparelho digestivo – 20,3%; outras causas – 16,0%; doenças do aparelho respiratório – 14,7%; causas pré-natais, natais e neo-natais – 2,5%.

a) O aumento no coeficiente por outras causas foi devido, da mesma forma que na mortalidade neo-natal, a um aumento no coeficiente de mortalidade por causas mal definidas (780-795), que de 93 passou a 135 por 100.000 e também a um aumento no coeficiente de mortalidade por "tôdas as outras causas", que de 213 passou a 265 por 100.000.

b) O aumento no coeficiente de mortalidade por doenças do aparelho respiratório deveu-se exclusivamente a um aumento no coeficiente de mortalidade por pneumonia (490-493), que de 8,4 foi a 10,5 por 10.000.

 

 

Recebido para publicação em 14-7-1967

 

 

1 Da Cadeira de Estatística Aplicada à Saúde Pública da Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP.
2 Dado provisório fornecido pelo Departamento Estadual de Estatística.
3 Anteriormente a 1964 os dados eram tabulados como menores de 1 mês e não como menores de 28 dias.