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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.4 n.1 São Paulo jun. 1970

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101970000100012 

ARTIGO ORIGINAL

 

O ensino de contrôle da fertilidade e de problemas populacionais em escolas médicas brasileiras1

 

The teaching of fertility and population problems at Brazilian schools of medicine

 

 

João Yunes

Do Centro de Dinâmica Populacional do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da USP e do Grupo de Pediatria Social da Faculdade de Medicina da USP – São Paulo, S.P., Brasil

 

 


RESUMO

Foi realizada em 1967 uma pesquisa sôbre o ensino do contrôle da fertilidade e de problemas populacionais em 42 escolas médicas brasileiras. Verificou-se, que das 22 escolas médicas que responderam ao questionário, 14 ensinavam o contrôle da fertilidade e 6 expressaram interêsse em iniciar tal ensino. Grande interêsse foi demonstrado nos aspectos sociais e demográficos e grande ênfase foi dada para a indicação do contrôle da fertilidade nos casos de "enfermidade ou agravamentos físicos", assim como para "problemas psiquiátricos". A viabilidade de clinicas para o ensino aos estudantes de medicina em técnicas contraceptivas foi em geral muito baixa. O uso de pílulas anovulatórias e o método do ritmo foram os contraceptivos preferidos para o ensino.


SUMMARY

A survey of teaching about fertility regulation and population problems in the 42 medical schools of Brazil was carried out in 1967. Fertility regulation was taught in 14 of the 22 schools; which replied, and 6 expressed intention to start such teaching. Interest in demography and social aspects was higher, and great emphasis was placed on giving contraceptive help for "physical illnes" or "impairment" and "phychiatric problems". Availability of clinical facilities for teaching students to give contraceptive services; was generally low. Pill and the rythm method were the preferred contraceptive for teaching medical students.


 

 

MATERIAL E MÉTODO

Antes do estudo ser realizado, a Organização Panamericana da Saúde (OPS) foi consultada para opinar sôbre a viabilidade e a importância que poderia apresentar tal pesquisa, em uma época em que o assunto era sobejamente discutido. Uma resposta favorável foi dada pela OPS, tendo a mesma fornecido o número e endereços das escolas médicas brasileiras existentes em 1966 3. Êste tipo de estudo foi realizado também para as escolas médicas norte-americanas e latino-americanas 1, 2, 4. Porém, apresentaremos sòmente os principais resultados fornecidos pelas escolas médicas brasileiras. Para tanto, foi elaborado um questionário e enviado a cada uma das escolas, acompanhado de uma carta dirigida aos seus Diretores bem como aos dirigentes dos departamentos de Obstetrícia e Ginecologia, Medicina Preventiva e Clínica Médica. Para as escolas que não contestaram o questionário, enviou-se, por três vêzes consecutivas, outro exemplar do mesmo, seguido de uma carta explicando a importância que oferecia êste estudo.

O processamento de dados foi realizado no Centro de Planejamento Populacional da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan.

 

RESULTADOS E ANÁLISE

Das 42 escolas médicas brasileiras, 22 (52,8%) responderam os questionários enviados, proporção considerada bastante satisfatória, para um país onde êste método de pesquisa não é uma tradição. Destas Escolas, 14, ou seja, 63,6% declararam ensinar o contrôle da fertilidade, sendo que das 8 Escolas restantes que não ensinavam, 6 mencionaram planos de inclusão no curriculum médico em futuro próximo. Muitas delas solicitaram ao Centro de Planejamento Populacional a remessa de material e publicações sôbre o assunto. Uma das Escolas declarou ser contrária ao ensino do contrôle da fertilidade, por ser o Brasil um país de dimensões iguais às dos Estados Unidos, mas com a metade da população dêste.

A maioria das Escolas que responderam o questionário, ou seja, 14 o fizeram através do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia; 4 através dos Departamentos de Obstetrícia e Ginecologia e Medicina Preventiva concomitantemente; e, as 4 Escolas restantes, através dos Departamentos de Clínica Médica, Medicina Preventiva, Endocrinologia e combinações de todos êstes Departamentos, conforme se observa na Tabela 1.

Das 14 Escolas que ensinavam o contrôle da fertilidade, 57,5% o faziam pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia; 28,5% através dos Departamentos de Obstetrícia e Ginecologia e Medicina Preventiva concomitantemente; e, 14%, respectivamente pelos Departamentos de Medicina Preventiva e Endocrinologia, de acôrdo com a Tabela 1.

Indicações para o ensino do contrôle da fertilidade

Entre os principais fatôres que justificaram o ensino do contrôle da fertilidade, as indicações por "enfermidade ou agravamento físico" e "enfermidade ou problemas psiquiátricos", foram apontados unanimemente pelas 11 escolas que responderam a êsse quesito, conforme se observa na Tabela 2. O "retardamento mental", a "limitação do tamanho da família" e o "stress sócio-econômico" foram apontados em 90,9% das indicações. Seguem-se, em ordem de prioridade, as indicações por "defeito genético" e "aumento do intervalo entre os nascimentos" (81,8%) ; "história do abôrto provocado" (54,6%) ; "prevenção de problemas conjugais" (45,4%); "rotina em exames pós-partum" e "a simples pedido do paciente" (36,4% e 18,2% respectivamente). Vem nos chamado a atenção o fato do "abôrto provocado" ser freqüentemente apontado pelos médicos como indicação prioritária para o controle da natalidade. No entretanto, em nossa tabulação êste achado não foi encontrado.

Paralelamente ao ensino do contrôle da fertilidade, 85,8% das escolas médicas, ensinavam os aspectos demográficos em âmbito local, nacional e mundial (Tabela 3). Esta constatação deve-se, provàvelmente, ao fato do problema do crescimento populacional ser um dos assuntos mais discutidos no mundo hodierno, tanto por suas implicações sociais, econômicas e políticas, como por razões de saúde pública. Presume-se que êste ensino, oferecido pelas escolas médicas, seja bem elementar, uma vez que o número de horas de aulas por ano, do curso médico, é pequeno conforme descreveremos adiante. No Brasil, carecemos de profissionais que tenham formação adequada em demografia. Recentemente, em 1966, a Faculdade de Saúde Pública da USP, estabeleceu um convênio entre o Governo Brasileiro e a Organização Panamericana da Saúde, criando o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (CEDIP), tendo como principal objetivo o ensino e pesquisa no campo da demografia, oferecendo para isto, anualmente, cursos para profissionais graduados em ciências médicas e humanas, bem como para profissionais de pós-graduação em saúde pública.

 

 

Métodos de contrôle de fertilidade ensinados

Classificamos o estudo dos métodos ensinados como preferidos, aprovados e não preferidos, desaprovados, não discutidos e não mencionados (Tabela 4). Entre os métodos preferidos, 66,7% das Escolas ensinavam o uso das pílulas anovulatórias, 58,1% o método do ritmo ou Ogino-Knauss, 33,3% o dos dispositivos intrauterinos e preservativo. Os outros métodos eram ensinados em menos de 16,6% das escolas médicas e entre êles destacaram-se o diafragma, geléias, duchas pós-coito, tabletes espumantes, cremes, interrupções do coito, supositórios e esponjas. Mais de 50% das Escolas desaprovaram a interrupção do coito e a ducha pós-coito como método de ensino. Entre os métodos que menos se discutia destacaram-se, em cêrca de 30% das Escolas, os supositórios, esponjas e tabletes espumantes. A proporção de outros métodos ensinados de acôrdo com a preferência pode ser observada com maiores detalhes na Tabela 4.

Chamou-nos a atenção a proporção de escolas médicas (58,1%) que preferem o método do ritmo para ensino, tendo 33,3% aprovado êste método – mas não era o preferido – e sòmente uma escola desaprovado. Entre as variantes do método do ritmo ensinado estudou-se o método do calendário, da temperatura basal e do teste da glicose; das escolas que ensinavam o método do calendário, 50% o consideraram preferido e 20% aprovado e não preferido (Tabela 5). O restante das Escolas não discutiram ou não mencionaram esta variante. Das que ensinavam o método da temperatura basal como método do ritmo, 60% o consideraram como preferido e somente 10% o aprovaram mas não o preferiram. As demais Escolas desaprovaram ou não mencionaram esta variante do método. Nenhuma delas preferiu o teste da glicose como método do rítimo, sendo que 60% não o mencionaram como variante do método, 30% não o discutiram e 10% o desaprovaram.

Métodos pedagógicos utilizados e presença de clinicas de planejamento familiar para o ensino dos estudantes de medicina

A maioria das escolas, ou seja, 71,4% ensinavam o contrôle da fertilidade através de aulas teóricas ou seminários e sòmente 28,6% utilizavam-se de pacientes ou de recursos audio-visuais. Das escolas médicas que ensinavam o contrôle da fertilidade, 10 (71,4%) não dispunham de clínica de planejamento familiar e 4 (28,6%) possuiam clínicas em hospitais filiados às Escolas. Durante a época da pesquisa, 3 Escolas declararam que instalariam clínicas de planejamento familiar.

Número de horas destinado ao ensino de contrôle da fertilidade nos diversos anos do curso médico

O ensino do contrôle da fertilidade, quer através de aulas e demonstrações ou de práticas clínicas era ministrado desde o 2.° ao 5.° ano do curso médico, estando concentrado geralmente neste último ano, conforme se observa na Tabela 6. Uma das escolas ensinava a matéria em dois anos do curso, ou seja, no 4.° e 5.° ano; outra ensinava durante quatro anos, isto é, do 2.° ao 5.° ano; as restantes ensinavam sòmente em um dos anos do curso médico. Em relação ao número de horas para aulas e demonstrações teóricas, as Escolas destinavam de 1 a 21 horas anuais encontrando-se maior número no 4.° ano onde as escolas, no seu conjunto, dispendiam em média 9,3 horas por ano. Para a prática clínica, o número de horas anuais variou de 2 a 10 horas. A maioria das escolas, ou seja, 80% não dedicavam nenhum tempo para prática clínica. Conforme se observa na Tabela 7, das 14 Escolas que ensinavam o contrôle da fertilidade, 50,0% não examinavam os alunos nesta matéria, enquando que 42,8% o faziam.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ELIOT, J. W. & HAUSER, C. – The teaching of human reproduction, sexuality and family planning in 26 Middle North American medical schools. In: MACY FOUNDATION CONFERENCE ON TEACHING FAMILY PLANNING IN MEDICAL SCHOOLS, 4th, Ann Arbor, Mich., 1968.        [ Links ]

2. ELIOT, J. W.; VILLADIEGO, F. & YUNES, J. – Instruction in fertility regulation in medical schools of Latin America. J. med. E duc., 44:1044-50, Nov. 1960.        [ Links ]

3. PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. Directory of schools of medicine in Latin America, 1966. Washington, Medical Information Center, 1967.        [ Links ]

4. TIETZE, C. et al. – Teaching of fertility regulation in medical schools: survey in the United States and Canadá, 1964. J. Amer. med. Assoc., 196:20-4, Apr. 1966.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 27-2-1970
1 Estudo realizado em 1967, durante o Curso para "Master in Public Health", da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan – Ann Arbor – USA. A publicação dos resultados deste trabalho deve-se em parte, à ajuda do Dr. Johan W. Eliot, professor da Universidade de Michigan e do Dr. Francisco Villadiego, Médico do Curso de Pós-Graduação em Saúde Pública da mesma Universidade

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