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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.4 no.1 São Paulo June 1970

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101970000100014 

NOTAS E INFORMAÇÕES

 

Sôbre o encontro de Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva, 1912) no Estado de São Paulo, Brasil1

– Comunicação –

 

Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva, 1912) detected in the State of São Paulo, Brazil

 

 

Oswaldo Paulo Forattini; Ernesto Xavier Rabello; Dino G. B. Pattoli

Do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP – São Paulo, Brasil

 

 


RESUMO

Relata-se o encontro de Lutzomyia longipalpis na localidade denominada Bairro do Arado, município de Salto de Pirapora, Estado de São Paulo, Brasil. Trata-se do primeiro registro concreto da presença dessa espécie em território paulista. Sugere-se a necessidade de investigar o significado epidemiológico dêsse achado.


SUMMARY

Lutzomyia longipalpis was found at the rural area named "Bairro do Arado", Salto de Pirapora County, São Paulo State, Brazil. This vector of visceral leihmaniasis is by the first time, surely recorded in the São Paulo State. The specimens were found in a chicken house built on rocks for observing the possibility of Triatoma arthurneivai colonization in artificial ecotopes. This suggests that the sandfly breeding places will possibly be found between or under the stones harbouring that triatomid bug. The necessity of epidemiological studies related to this found is emphasized.


 

 

O conhecimento sôbre a distribuição geográfica de Lutzomyia longipalpis no Brasil, embora ainda deficiente, tem sistematicamente excluído a área do Estado de São Paulo das regiões onde ocorre esse psicodídeo. E isso apesar de, no material que serviu à descrição original de LUTZ & NEIVA8 (1912), figurarem espécimens procedentes do Bosque da Saúde, no município da Capital do mencionado Estado. O fato é que, desde aquela ocasião, essa espécie não mais foi encontrada em território paulista, mesmo nas investigações de BARRETTO1 (1943) e FORATTINi5,6 (1954, 1960), as quais implicaram no exame de considerável número de flebotomíneos. Isso fêz com que BARRETTO 2 (1947) pusesse em dúvida aquela procedência chegando mesmo a retirá-la em trabalho posterior (BARRETTO3, 1950).

A impressão da inexistência dêsse díptero no Estado de São Paulo, tem sido reforçada pela ausência paralela de casos autóctones de leishmaniose visceral, da qual êle é o transmissor em outras regiões do Brasil. A coincidência entre a distribuição de L. longipalpis e a dessa parasitose, foi ressaltada em várias ocasiões, mostrando aproximação bastante significante, sob o ponto de vista epidemiológico (DEANE 4, 1956). E a tal ponto que, mesmo no Estado de Mato Grosso onde, até o momento, a endemia é representada por casos isolados, o flebotomíneo foi ali assinalado (FORATTINI & SANTOS7, 1956).

No decurso de investigações ecológicas sôbre Triatoma arthurneivai foi-nos dada a oportunidade de deparar, embora acidentalmente, com o supracitado díptero. As pesquisas estão sendo conduzidas na localidade denominada Bairro do Arado, no município de Salto de Pirapora, Estado de São Paulo, Brasil. Com a finalidade de observar a possibilidade de colonização daquele triatomíneo em ecótopos artificiais, construímos um abrigo com aves domésticas, na imediata proximidade de rochas que albergavam o hemíptero. Êsse galinheiro foi instalado a 25-II-70, e, no exame levado a efeito em 11-III-70, foi possível observar a presença de flebotomíneos ali abrigados. Nessa ocasião, foram capturados 19 exemplares, sendo 6 fêmeas e 13 machos, os quais revelaram pertencerem à espécie Lutzomyia longipalpis.

Dessa maneira, fêz-se pela primeira vez de maneira insofismável, o achado no Estado de São Paulo dêsse transmissor da leishmaniose visceral. Essa observação leva à suposição que os criadouros naturais desse psicodídeo se encontram ou estejam em relação com os ecótopos do T. artrurneivai. Em outras palavras, os espaços sob e entre as rochas ali existentes sugerem serem possíveis locais de criação e abrigo do flebotomíneo na mencionada área. Êsse aspecto aliás é relativamente comum, e foi observado nas regiões endêmicas de calazar, no nordeste brasileiro.

Seja como for, a presença de L. longipalpis em São Paulo é assunto que, julgamos, deva merecer a devida atenção. Trata-se de vetor poderoso de grave parasitose. Será pois necessário que se leve a efeito pesquisas no sentido de avaliar o possível significado dêsse encontro.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BARRETTO, M. P. – Observações sôbre a biologia, em condições naturais, dos flebótomos do Estado de São Paulo (Diptera, Psychodidae). São Paulo, 1943. [Tese – Fac. Med. Univ. S. Paulo].        [ Links ]

2. BARRETTO, M. P. – Catálogo dos flebótomos americanos. Arq. Zool., S. Paulo, 5: 177-242, 1947.        [ Links ]

3. BARRETTO, M. P. – Nova contribuição para o estudo da distribuição geográfica dos flebótomos americanos (Diptera, Psychodidae). Arq. Hig. S. Paulo, 15:211-26,. dez. 1950.        [ Links ]

4. DEANE, L. de M. – Leishmaniose visceral no Brasil. Estudos sobre reservatórios, e transmissores realizados no Estado do Ceará. Rio de Janeiro, Serviço Nacional de Educação Sanitária, 1956.        [ Links ]

5. FORATTINI, O. P. – Algumas observações sobre biologia de flebótomos (Diptera, Psychodidae) em região da bacia do Rio Paraná (Brasil). Arq. Fac. Hig. S. Paulo, 8:15-136, jun. 1954.        [ Links ]

6. FORATTINI, O. P. – Novas observações sôbre a biologia de flebótomos em condições naturais (Diptera, Psychodidae). Arq. Hig., S. Paulo, 25:209-15, set. 1960.        [ Links ]

7. FORATTINI, O. P. & SANTOS, M. R. dos – Nota sôbre um foco de leishmaniose tegumentar americana no Estado de Mato Grosso, Brasil. Rev. bras. Malar., 8:127-33, jan. 1956.        [ Links ]

8. LUTZ, A. & NEIVA, A. – Contribuição para o conhecimento das espécies do gênero Phlebotomus existentes no Brasil. Mem. Inst. O. Cruz, 4:84-95, 1912.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 24-3-1970
1 Apresentado na sessão de 6-4-1970 do Departamento de Higiene e Medicina Tropical da Associação Paulista de Medicina. Realizado com o auxílio do U.S. Army Research Office for South America (Convênio DAHC 19-69-G-0013)

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