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Revista de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.12 n.2 São Paulo jun. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000200002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo das condições sanitárias das águas de piscinas públicas e particulares, na Cidade de Araraquara, SP, Brasil

 

Sanitary conditions of private and public swimming-pools in Araraquara, State of S. Paulo, Brazil

 

 

Clara Pechmann Mendonça; Suzana Debora Ruff

Da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da UNESP. Rua Expedicionários do Brasil, 1621 – 14800 – Araraquara, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Levando-se em consideração que a natação é um exercício excelente para a saúde e tem sido um esporte preferido por pessoas de várias idades de ambos os sexos; e que a massa líquida, contida em tanques, pode veicular doenças, procurou-se estudar as condições sanitárias de algumas piscinas públicas e particulares da Cidade de Araraquara, SP (Brasil). Em 36 tomadas de amostras de águas de piscinas públicas e 22 de piscinas particulares, constatou-se que, embora recebendo tratamento específico, elas não mantêm os níveis de cloro suficiente para impedir a proliferação de bactérias, algumas das quais perigosas para a saúde dos freqüentadores. Verificou-se que os níveis de cloretos estavam altos, indicando contaminação das águas por urina ou mesmo suor do corpo, e concluiu-se que o banhista deveria receber instruções a respeito.

Unitermos: Piscinas. Água, análise.


ABSTRACT

Taking into account that swimming is excelent exercise for health in general, and has been prefered as a sport by people of all ages and both sexes, and that the liquid mass contained in tanks can transmit diseases, a study was undertaken in order to verify the hygienic conditions of some of the public and private swimming pools in the City of Araraquara, State of S. Paulo, Brazil. Thirty-six samples of water from public swimming pools and 22 from private ones were taken. It was verified that, although receiving a specific treatment, they did not maintain sufficient chlorine levels to restrain the proliferation of bacteria, some of which dangerous to the health of bathers. Likewise, chloride levels were seen to be high, which indicate that the water was contaminated by urine or even by sweat, leading to the conclusion that bathers must receive adequate instruction.

Uniterms: Swimming pools. Water, analysis.


 

 

INTRODUÇÃO

A natação é um exercício importante e tem sido recomendado no mundo inteiro sendo um dos esportes preferidos por pessoas de várias idades de ambos os sexos, principalmente em regiões como a nossa, onde o verão se prolonga por vários meses e é bastante intenso.

A heterogeneidade de idade e sexo num meio líquido pode, em parte, ser responsável pela disseminação de doenças transmissíveis, pois a superfície corpórea de contato é grande.

Existem alguns autores, e entre eles Moore9, que julgam mínimas ou mesmo inexistentes as possibilidades de veiculação de doenças dentro das piscinas, mesmo quando suas águas estejam consideravelmente poluídas.

Para o Sub-Committee on Water Quality Criteria12, as atividades com prolongado e íntimo contato com a água envolvem considerável perigo de ingestão do líquido em quantidade suficiente a representar um significante risco para a saúde.

É comum a ocorrência de conjuntivite infecciosa, inflamação do orofaringe, afecções de pele, síndromes disentéricos e outras, entre usuários de piscinas, havendo inclusive citação de surtos epidêmicos. Em 1938, Robertson11 estudara quatro casos de Doença de Weil associado ao uso de piscinas; Miller8 relata prurido de nadadores causado por cercárias de Schistosoma. Em 1939, Taylor14 descreveu uma série de casos de otites e sinusites; Harry4, em 1940, encontrou também freqüentes casos de otites entre nadadores. Em estudos realizados na Suécia, em 1952 e 1954, Linell e Norden 6,7 relatam uma epidemia por bactéria álcool ácido resistente produzindo lesões cutâneas, semelhante às provocadas pelo M. tuberculosis, a qual denominaram de "moléstia das piscinas".

Embora essas ocorrências não sejam tão raras, tem sido difícil o relato desses problemas, pois sabemos que isso envolve não apenas o banhista, mas clubes e propprietários de piscinas particulares (Zingano15).

Vários fatores intervêm na ocorrência de doenças adquiridas nas piscinas, tais como: presença de microrganismos colonizados no corpo dos banhistas; poluição da água, do piso e dos objetos de uso dos freqüentadores; – diminuição da resistência orgânica do indivíduo pela fadiga provocada por exercícios, em intensidade, às vezes inconvenientes.

Parece que o maior problema consiste na contaminação da massa líquida por microrganismos provindos da mucosa nasal e da bucal, da região anal e perianal, da superfície corporal e da urina tão comumente lançada no meio líquido. Porém, se a água receber os devidos cuidados e se houver resíduo de cloro em níveis adequados, haverá pouca possibilidade de sobrevivência dos contaminantes.

A finalidade deste trabalho foi verificar as condições sanitárias das águas em diferentes piscinas públicas e particulares de Araraquara, em dias de maior fluência de banhistas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Coletamos 36 vezes amostras de água de piscinas públicas denominadas A e B e 22 vezes amostras de piscinas particulares denominadas C, durante os meses de outubro a dezembro de 1974, 1975 e 1976. Todas as piscinas examinadas eram equipadas com sistemas de recirculação e tratamento de água.

Levamos em consideração a forma de tratamento, o número e tipo de freqüentadores e a hora da coleta das águas.

a – Forma de tratamento

Estudamos piscinas tratadas com HTH (Granularry clorite) ou super cloro e pelo sistema clássico usando-se a coagulação, filtração e cloração com hipoclorito de sódio (cloro líquido);

b – Número e tipo de freqüentadores

O número de freqüentadores em relação ao tamanho do tanque foi sempre maior do que o permitido 3,10 e as piscinas destinadas às crianças eram freqüentadas por grande número de adultos.

Os freqüentadores de piscinas públicas, assim como os das particulares eram, de diferentes sexos, idades e condições sócio-econômicas diversificadas.

c – Hora da coleta das águas

Procuramos coletar amostras no mesmo dia de todas as piscinas, escolhendo sempre o horário de maior fluência de freqüentadores. Planejamos coletar amostras seguidamente, mas, devido a influências climáticas, tivemos que, por vezes, contornar as dificuldades nos aproximando o mais possível do desejado.

Para se estudar as condições das águas, realizamos coleta de material e semeadura.

a – Coleta de material

Para os exames microbiológicos, foram usados frascos com rolhas esmerilhadas, estéreis, contendo 0,1 ml de tiosulfato de sódio a 10% para cada 100 ml de água, a fim de reduzir o cloro. A coleta foi em três frascos e em três pontos diferentes da piscina, numa profundidade de, pelo menos, 30 cm.

Para os exames parasitológicos, foram usados frascos estéreis de 500 ml, coletando-se amostras em dois pontos diferentes do tanque.

Para os exames químicos foram usados frascos de 1 litro, limpos e secos, sendo o material igualmente coletado em dois pontos diferentes do tanque. Este mesmo material foi utilizado para a verificação da turbidez e pH;

b – Semeaduras

Para a verificação do "número mais provável", utilizamos três séries de cinco tubos usando os volumes de 10,0, 1,0 e 0,1 ml de água em caldo lactosado e as estimativas foram obtidas diretamente pelas tabelas de Hoskins 5.

Para a contagem padrão por 1 ml, plantamos 1,0 ml e 0,1 ml de água em "pour plate" em placas com 15,0 ml de Nutrient ágar.

Para o isolamento de microrganismos, centrifugamos 100 ml de cada amostra, a 3000 rotações por minuto durante 15 min., em condições adequadas para editar contaminação. O sedimento foi plantado de acordo com a orientação recebida de Russumano* por ocasião da realização do Curso sobre Tratamento de Águas, em 1973, em São Paulo. Utilizamos os esquemas I, II, III, IV, V, de acordo com Current Practices in Water Microbiology 1, com ligeiras adaptações. Os fungos foram estudados através do isolamento em microcultura em meio de Sabouraud glicose e meio de Mycosel.

Para a pesquisa de helmintos e protozoários, centrifugamos igualmente um mínimo de 100 ml de cada amostra a 3.000 rotações por minuto durante 15 min. A dosagem dos cloretos foi feita pela técnica de Mohr e a do cloro pelo método "Standards". Para turbidez usou-se o método comparativo visual e o pH foi determinado pelo método colorimétrico com solução de indicadores correspondentes a cores "Standards" (Salvo13).

 

RESULTADOS

As Tabelas 1 e 2 apresentam os resultados separadamente das piscinas públicas A e B e das particulares C, constituindo a média aritmética dos resultodos obtidos durante as três etapas de observação. Consideramos, assim, porque as resultados foram bastante aproximados.

Dentre os fungos, isolamos Aspergillus sp., Rhodotorulla sp., e Neurospora.

Dentre as bactérias, isolamos na piscina A, nas duas primeiras etapas de observação, raríssimas colônias de Shigella flexnerii e Escherichia coli. Em uma piscina particular isolamos, além da Escherichia coli, freqüentes colônias de Klebsiella pneumoniae. Nas águas de lavapés, especialmente de piscinas públicas, isolamos, em todas as etapas, grande quantidade de fungos, colônias de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli. Em todas as piscinas foram sempre isoladas colônias de Staphylococcus aureus.

 

DISCUSSÃO

Pelos resultados obtidos, as condições sanitárias das águas de piscinas examinadas, em Araraquara, no momento de maior fluência de banhistas, não foram consideradas boas, pois demonstraram contaminação por bactérias que podem pôr em risco a saúde dos usuários.

O encontro de Shigella flexnerii demonstra que as águas sofreram contaminação fecal. Inclusive isso foi reforçado pelo encontro de Escherichia coli e Streptococcus faecalis.

Embora tivéssemos submetido à reação, com soro aglutinante polivalente, todas as bactérias que demonstraram propriedades bioquímicas da Escherichia coli, não isolamos bactérias do grupo GEI. A presença de Staphylococcus aureus sugere contaminação das águas por germes colonizados na pele ou em cavidades naturais dos banhistas ou, talvez mesmo, em infecções várias.

A concentração de cloro residual foi bastante baixa principalmente quando houve grande número de banhistas. Houve ocasiões em que o cloro residual esteve a zero, tanto nas piscinas públicas, como nas particulares.

O pH de todas as águas das piscinas examinadas nunca apresentou a faixa ideal (7,2 a 8,0) e a turbidez foi sempre maior naquelas que possuíam área gramada próxima, especialmente sem lavapés.

A dosagem dos cloretos foi bastante elevada em todas as águas, tudo indicando contaminação por urina e suor do corpo humano.

Os lavapés, que deveriam ser colocados de tal maneira que os freqüentadores não pudessem adentrar no tanque, sem passar por eles, mereceriam cuidados maiores. Verificamos, igualmente, que as normas adotadas pelos clubes não são realmente seguidas pelos usuários. Nas piscinas, principalmente particulares, não há respeito da passagem obrigatória pela ducha antes de adentrar à água. As piscinas particulares parecem estar se transformando em mini-piscinas. Portanto, para resguardo da saúde, os usuários deveriam ser submetidos a um exame médico rigoroso e periódico.

Para Forattini 2, os riscos são tantos, sugerindo máximo rigor na realização dos exames médicos periódicos entre os freqüentadores. Esses exames deveriam constar de anamnese completa, exame clínico com inspeção das genitais e cavidades naturais, além de abreugrafia, e exames laboratoriais de fezes e secreção quando necessários.

Devemos esclarecer que não observamos diferença no grau de contaminação entre águas de piscinas com diferentes tipos de tratamentos. Sabemos que o HTH facilita bastante o serviço do operador, porém não ofereceu, em nossa observação, índice mais elevado de cloro residual nos momentos de grande fluência de banhistas.

 

CONCLUSÕES e SUGESTÕES

– O encontro de Sh. flexnerii, E. coli e St. faecalis, embora em número reduzido, indica poluição fecal, representando perigo potencial à saúde.

– A presença constante do S. aureus representa igualmente um perigo para a saúde dos usuários.

– A quantidade de cloro residual e o pH, principalmente das águas das piscinas públicas, estiveram sempre abaixo do recomendado.

– A elevação da taxa de cloretos sugere contaminação das águas por urina e suor do corpo.

– Pouca, ou, às vezes, nenhuma fiscalização se observou obrigando a todos à prática dos requisitos de higiene.

– Sentimos que há necessidade de dar mais ênfase à profilaxia, orientando o banhista com as normas de educação sanitária.

– O exame médico deveria ser mais rigoroso.

– As piscinas públicas, e mesmo as particulares, deveriam ser projetadas, construídas e operadas para funcionar com obediência a regulamentos, fazendo com que realmente fossem usadas como elemento necessário à saúde, recreação e ao equilíbrio psicofisiológico.

Isso poderia ser conseguido se houvesse colaboração satisfatória do médico responsável, além dos banhistas e dos dirigentes ou proprietários das piscinas particulares. Acreditamos também que o útil funcionamento de uma piscina repousa essencialmente no trinômio:

"Controle médico profilático exigente; Educação do banhista; Tratamento e conservação eficiente das águas". (Zingano,15).

 

AGRADECIMENTOS

Aos farmacêuticos Mariza Landgraf e Paulo Roberto Natalino, ao Dr. Jorge Cury e aos Presidentes de Clubes e proprietários de piscinas particulares de Araraquara.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY. Water Programs Operations. Current practices in water microbiology. Cincinnati, 1973.        [ Links ]

2. FORATTINI, O. P. apud LIMA, C. S. – Considerações de ordem sanitária referentes às principais piscinas existentes em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Rev. Fac. Farm. Bioq. Santa Maria, 15(1):13-24, 1969.        [ Links ]

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10. PUPO, A. S. Proteção das piscinas. Curitiba, Univ. Fed. Paraná, 1965.        [ Links ]

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15. ZINGANO, A. G. Contribuição ao estudo higiênico das piscinas de Porto Alegre. Porto Alegre, 1956. [Tese de Doutoramento – Faculdade de Medicina].        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 04/04/1977
Aprovado para publicação em 14/07/1977

 

 

* Dr. Rocco Russumano, Microbiologista do National Training Center, Cincinati – USA

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