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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.12 no.2 São Paulo June 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000200003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Nível sócio-econômico como uma variável geradora de erro em estudos de etnia

 

Socioeconomic level as an error generating variable in racial studies

 

 

A. D. PassosI; J. C. CardosoI; J. E. PazI; E. E. CastillaII

IDo Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP – Fazenda Monte Alegre – 14100 – Ribeirão Preto, SP – Brasil
IIDo Departamento de Genética e Matemática Aplicada à Biologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP – Fazenda Monte Alegre – 14100 – Ribeirão Preto, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Foi estudada a influência do nível sócio-econômico (NSE) em variáveis biológicas que apresentam importância em estudos de etnia (peso ao nascer, idade gestacional e número de gestações) em 734 crianças normais nascidas em 5 maternidades brasileiras. Os recém-nascidos foram classificados em grupos étnicos de acordo com seus antecedentes raciais. Concluiu-se que o NSE está associado com as variáveis peso ao nascer e número de gestações, funcionando, portanto, como variável geradora de erro em estudos de etnia.

Unitermos: Fatores sócio-econômicos. Peso ao nascer. Idade gestacional. Número de gestações. Grupos étnicos.


ABSTRACT

The influence of the socio-economic level on biologic variables such as birth-weight, gestational age and birth order was studied in 734 single live-born deliveries at five Brazilian maternities. Live-borns were classified into ethnic groups according to the races of their ancestors. Socio-economic level was found to be associated with birthweight and birth order, acting therefore as an error – generating variable in racial studies.

Uniterms: Socioeconomic factors. Birth weight. Gestational age. Birth order.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Algumas variáveis biológicas características do recém-nascido apresentam interesse em estudos de etnia. As diferenças raciais para estas variáveis podem indicar a existência de diferenças genéticas possíveis de serem avaliadas. Assim sendo, são conhecidas as relações existentes entre peso ao nascer e fatores ambientais e genéticos, tanto maternos quanto fetais 1,4,5,6. Também são descritas diferenças raciais no peso ao nascer, sugerindo a ação dos fatores genéticos anteriormente citada 3. Das variáveis ambientais que estão associadas com o peso ao nascer e a paridade, o nível sócio-econômico (NSE) é a que apresenta provavelmente a maior importância. O papel desempenhado pelos fatores raciais não pode ser convenientemente determinado enquanto as raças não forem comparadas nos mesmos padrões de NSE 7. O presente trabalho visa estudar as diferenças raciais para a associação entre três variáveis biológicas (peso ao nascer, idade gestaciônal e a ordem de gestação) e uma ambiental (nível sócio-econômico) numa população de recém-nascidos brasileiros.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

Foram estudados 734 recém-nascidos vivos, produtos de partos simples, sem malformações externas diagnosticáveis nas primeiras 72 horas de vida. Todos os incluídos no trabalho são controles de crianças com malformações, por serem o produto do parto seguinte de igual sexo ao de um malformado nascido na mesma maternidade. Representam, assim, uma amostra dos 28.178 recém-nascidos vivos examinados no período compreendido entre 1° de agosto de 1972 e 31 de dezembro de 1975, em cinco maternidades brasileiras: duas na Região Nordeste (Recife e João Pessoa), duas na Região Sudeste (São Paulo e Ribeirão Preto) e uma na Região Sul (Curitiba), todas participantes de "Estudo Colaborativo Latino-Americano de Malformações Congênitas" (ECLAMC).

Para cada recém-nascido foi preenchida uma ficha, contendo as seguintes informações: estabelecimento onde ocorreu o parto, data do mesmo, data da última menstruação materna, idade gestacional, sexo, peso, número da gestação, antecedentes raciais e nível sócio-econômico. Foram utilizados somente aqueles casos em que todos os dados se achavam especificados.

A divisão em grupos étnicos foi feito levando-se em consideração quantos antecedentes raciais existiam para cada propósito e não apenas pela cor da pele. Os antecedentes raciais foram assim classificados:

a) Europeus latinos;

b) Europeus não latinos;

c) Judeus;

d) Nativos;

e) Turcos, Árabes, Sírios e Libaneses;

f) Negros;

g) Orientais;

h) Outros

Estes grupos raciais foram agrupados nos seguintes grupos étnicos:

1) Europeus latinos (sem outra mistura) ;

2) Nativos (que não se recordavam de nenhum ancestral nascido fora do Brasil) ;

3) Negros (sem outra mistura);

4) Negros e Nativos (sem outra mistura) ;

5) Negros, Nativos e Outros;

6) Nativos e Outros não Negros;

7) Negros e Outros não Nativos;

8) Antecedentes Raciais Restantes (simples ou misturados)

O nível sócio-econômico foi medido pela média aritmética obtida a partir de três valores numéricos, que numa escala de zero a oito atribui pontos para a escolaridade materna, escolaridade paterna e ocupação paterna, assim distribuídas:

 

 

Considerou-se NSE baixo aqueles que apresentaram uma média menor que 3; NSE médio entre 3 e 4,9 e NSE alto aqueles cuja média foi maior ou igual a 5. Maiores detalhes metodológicos já foram publicados em trabalho anterior2.

 

3. RESULTADOS

A Tabela 1 mostra os recém-nascidos classificados segundo o grupo étnico, NSE e sexo. A distribuição dos diferentes grupos étnicos segundo o NSE é mostrada na Figura. Verifica-se que os grupos que incluem antecedentes raciais negros e nativos estão concentrados nos níveis sócio-econômicos mais baixos (Teste de homogeneidade x2 = 179,46 p < 0,001).

Na Tabela 2 são apresentadas as medianas do número de gestações segundo o grupo étnico e NSE. Verifica-se que existe associação entre o número de gestações e o NSE.

Na Tabela 3 são mostradas as médias das idades gestacionais (em semanas) dos recém-nascidos, produtos da primeira gestação da mãe, classificados segundo grupo étnico e NSE. As diferenças nas médias de idades gestacionais entre os diferentes níveis sócio-econômicos não são significativas (F = 2,26). Eliminando o grupo dos restantes de NSE baixo, que apresentaram uma média anormalmente baixa, também não se verificam diferenças nas idades gestacionais entre os grupos raciais (NSE baixo: F = 1,52; NSE média: F = 0,62).

A Tabela 4 apresenta os mesmos dados da Tabela 3, agora aplicados a filhos de multíparas, com os mesmos resultados. (Para diferenças entre NSE: F = 0,56; diferenças entre grupos étnicos para NSE baixo: F = 2,04; NSE médio: F = 0,88).

A Tabela 5 mostra a média de peso (em gramas) dos recém-nascidos produtos de até a 3.ª gestação das mães, com idade gestacional entre 38 e 42 semanas, classificados segundo sexo, NSE e grupo étnico. Agruparam-se os níveis sócio-econômicos médio e alto e compararam-se as médias de peso em relação ao NSE baixo, obtendo-se resultados significativamente diferentes para ambos os sexos (t = 2,54, p < 0,025 para o sexo masculino e t= 2,31, p < 0,025 para o sexo feminino). Não foram demonstradas diferenças entre grupos étnicos nos mesmos níveis sócio-econômicos e sexo (para o sexo masculino: NSE baixo F = 0,63; NSE médio-alto F = 1,31; para o sexo feminino: NSE baixo F = 1,23; NSE médio-alto F = 1,10).

 

4. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Em relação a distribuição dos recém-nascidos segundo o grupo étnico e NSE os dados obtidos permitem concluir que a variável NSE está associada com antecedentes étnicos e não com a cor da pele unicamente. Com efeito, observa-se a existência de grupos étnicos (nativos e nativos + outros) cuja cor da pele é diferente da apresentada pelo grupo 3 (negros) e provavelmente também daqueles que têm mistura de raça negra, mas que apresentam uma distribuição semelhante no que diz respeito à situação sócio-econômica. Verifica-se então uma estratificação sócio-econômica baseada nas diferentes etnias, com as que incluem antecedentes negros e nativos colocados nas posições mais inferiores, enquanto que os europeus latinos e os restantes ocupam as posições mais altas. Este fato poderia ser atribuído a imigrações diferenciadas no tempo, onde as mais recentes, representadas com a maior probabilidade por estes dois grupos sem mistura, tenham alcançado melhores condições sócio-econômicas.

Como a variável número de gestações apresenta uma distribuição muito assimétrica, os dados referentes a ela foram representados pela mediana. Verifica-se existir uma associação entre número de gestações e NSE, aumentando a primeira à medida que diminui a segunda. Não se verifica associação entre número de gestações e grupos étnicos.

No que se refere às idades gestacionais não foram encontradas diferenças em grupos padronizados segundo ordem de gestação, em relação a níveis sócio-econômicos diferentes e grupos étnicos.

Padronizando as variáveis número de gestações, idade gestacional e sexo, observam-se diferenças de peso ao nascer entre as diferentes categorias de NSE, o que não ocorre nos diferentes grupos étnicos.

O que foi exposto sugere que o NSE atua como uma variável de confusão ao se estudar peso ao nascer e número de gestações, pelo que esta situação deverá ser considerada sempre que se fizerem estudos de etnia que envolvam estas variáveis.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BABSON, G. et al. Liveborn birth weights for gestational age of white middle class infants. Pediatrics, 45:937-43, 1970.        [ Links ]

2. CASTILLA, E. et al. Estudio latinoamericano sobre malformaciones congénitas. Bol. Ofic. sandt. panamer., 76: 494-502, 1974.        [ Links ]

3. ERHARDT, C. I. et al. Influence of weight and gestation on perinatal and neonatal mortality by ethnic group. Amer. J. publ. Hlth, 54:1841-55, 1964.        [ Links ]

4. GRUENWALD, P. et al. Influence of environmental factors on foetal growth in man. Lancet, 1:1026-8, 1967.        [ Links ]

5. KARN, M. N. & PENROSE, L. S. Birth weight and gestation time in relation to maternal age, parity and infant survival. Ann. Eugen., 16:147-51, 1951.        [ Links ]

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7. NAYLOR, A. F. & MYRIANTHOPOULOS, N.C. The relation of ethnic and selected socio-economic factors to human birth weight. Ann. hum. Genet., 31:71-83, 1967.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 28/07/1977
Aprovado para publicação em 25/10/1977
Apresentado ao III Congresso Latinoamericano de Genética, Montevideo – Uruguai, realizado de 6 a 12 de fevereiro de 1977

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