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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.12 no.3 São Paulo Sept. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Alguns aspectos referentes ao estudo de linhagens de Schistosoma mansoni Sambon, 1907, provenientes dos Estados de Minas Gerais e de São Paulo, Brasil

 

Some aspects of Schistosoma mansoni strains originating from the States of Minas Gerais and S. Paulo, Brazil

 

 

Raimundo Carlos Lemos NetoI; Luiz Augusto MagalhãesII; Aquiles Eugênico PiedrabuenaII

IDo Departamento de Microbiologia e Parasitologia da Universidade do Maranhão – Largo dos Amores, 66 – 65000 – São Luís, MA – Brasil
IIDo Instituto de Biologia da UNICAMP – Caixa Postal 1170 – 13100 – Campinas, SP – Brasil

 

 


RESUMO

Foram estudados alguns aspectos do comportamento das linhagens mineira (BE) e paulista (SJ) do S. mansoni. Pesquisou-se a capacidade de penetração das cercárias de ambas as linhagens e a relação granulomas hepáticos-vermes. Verificou-se que as cercárias da linhagem BH possuem maior capacidade de penetração e que o número de granulomas hepáticos por verme, nas duas linhagens, variou inversamente com o número de vermes por camundongo.

Unitermos: Schistosoma mansoni, linhagens. Esquistossomose mansônica.


ABSTRACT

Some of the behavioral aspects of the Minas Gerais and S. Paulo states' strains Schistosoma mansoni, concerning the penetration capability of cercariae of each strain and the relationship between hepatic granulomata and worms, were studied. The Minas Gerais' strain cercariae present more penetration capability and the ratio between the numbers of hepatic granulomata and number of worms varied inversely with the number of infecting worms per mouse, in both strains.

Uniterms: Schistosoma mansoni, strains. Schistosomiasis.


 

 

INTRODUÇÃO

Vários experimentos já demonstraram diferenças no comportamento biológico entre as linhagens de S. mansoni de Belo Horizonte, MG (Linhagem BH) e do Vale do Rio Paraíba do Sul, SP (linhagem SJ). Assim é que desde 1963, quando Paraense e Corrêa12 assinalaram a existência destas linhagens, vários outros autores acrescentaram dados aos estudos destas cepas. Trabalhos de Magalhães e Carvalho 7,9,10 (1969, 1973 e 1976) e Magalhães e col.11 (1975) assinalaram que estas linhagens diferem quanto à capacidade de penetração das cercárias; a alguns aspectos morfológicos dos esquistossomos adultos; e à atividade patogênica no camundongo de laboratório.

No presente trabalho propusemo-nos reestudar alguns destes aspectos, concentrando nossa atenção na avaliação da influência do número de vermes adultos por camundongo sobre a relação granuloma hepático por verme.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizamos em nossas pesquisas, cercárias procedentes de Biomphalaria glabrata de Belo Horizone, MG (linhagem BH) e de Biomphalaria tenagophila do Vale do Rio Paraíba do Sul, SP (linhagem SJ).

Para a obtenção das cercárias foi adotada a técnica preconizada por Pellegrino e Macedo14 (1955).

Com as cercárias obtidas, infectamos 60 camundongos fêmeas, pesando, aproximadamente, 16 g. Os roedores assim infectados foram divididos em dois lotes de 30, levando-se em consideração a procedência das cercárias: lote 1 (linhagem BH) e lote 2 (linhagem SJ).

Os lotes 1 e 2 foram subdivididos, adotando-se por critério o número de cercárias infectantes, conforme abaixo relacionado:

Lote 1 : sub lote 1A – 15 camundongos infectados, cada um, com 100 cercárias da linhagem BH sub lote 1B – 15 camundongos infectados, cada um, com 200 cercárias da linhagem BH

Lote 2: sub lote 2A – 15 camundongos infectados, cada um, com 100 cercárias da linhagem SJ sob lote 2B – 15 camundongos infectados, cada um, com 200 cercárias da linhagem SJ

Paralelamente a esta experiência, infectou-se dois outros grupos de 15 camundongos (grupos C e D), respectivamente, de 200 cercárias de BH e SJ, com a finalidade de determinarmos a viabilidade de penetração das cercárias.

A infecção dos camundongos, pertencentes aos lotes 1 e 2 e aos grupos C e D, foi feita por imersão da cauda (Magalhães6, 1969). As cercárias foram utilizadas 2 hs após o início da exposição dos moluscos à luz e ao calor.

Decorridos sessenta dias da data da infecção, os camundongos pertencentes aos lotes 1 e 2 foram necropsiados e o seu sistema porta perfundido (Yolles e col.17, 1947). Além de contarmos os vermes obtidos por perfusão do sistema porta, contamos também os esquistossomos localizados no fígado dos roedores (Standen 16, 1953 e Hill5, 1956).

Para a contagem de granulomas utilizamos a técnica de Pellegrino e Brener13 (1956) e Brener e col.3 (1956).

 

RESULTADOS

Aos sessenta dias após a exposição cercariana, contamos os vermes e os granulomas hepáticos obtidos por necropsia, nos camundongos dos lotes 1 e 2 (Tabelas 1 e 2). Verificamos que a média de vermes por camundongo na linhagem BH foi inferior à média equivalente da linhagem SJ, tanto para camundongos expostos a 100 como a 200 cercárias. Entretanto, na linhagem mineira os valores referentes à relação granuloma hepático por verme foram mais elevados (Tabela 2).

Com os valores correspondentes ao total de granulomas hepáticos e vermes por camundongos (Tabela 1), realizamos estudos estatísticos comparativos entre as duas linhagens de S. mansoni. O número de vermes adultos e de granulomas hepáticos obtidos em cada camundongo perfundido foi ordenado em ordem decrescente de granulomas (Tabelas 3 e 4).

A correlação encontrada entre as linhagens BH e SJ está exposta na Tabela 5.

 

 

Utilizando os valores apresentados pelas relações granulomas hepáticos-vermes, contidos nas Tabelas 3 e 4, avaliamos a função GH=f (HM) para BH e SJ, onde GH corresponde ao número de granulomas hepáticos por camundongo e HM ao número total de vermes por camundongo. As equações estabelecidas para o ajustamento linear estão transcritas abaixo e representadas na Fig. 1.

 

 

Aplicamos o teste B de significância (Piedrabuena e Baracho 15, 1976), entre os coeficientes de correlação encontrados para BH e SJ, de acordo com a seguinte fórmula:

 

 

B = 1,194 < 3,35 (valor de B da Tabela, ao nível de 5%) N.S. sendo n1 = n2 (número de casos) = 24.

Para o ajustamento hiperbólico, consideramos os dados das Tabelas 3 e 4, destituídas dos valores 615 e 11 de BH e 154 e 14 de SJ, por estarem muito afastados da média dos valores encontrados. Os valores ajustados, tomados para a função hiperbólica, estão contidos na Tabela 6 e obedecem as equações:

BH y = 798,52.X0,44415

SJ y1 = 85,96.X1,15879

Estes valores encontram-se nas Figs. 2 e 3, representativos das funções GH = f (HM).

Nos estudos comparativos entre BH e SJ, consideramos, ainda, o relacionamento entre o total de vermes por camundongo e o número de granulomas hepáticos produzidos por verme (Tabelas 3 e 4). Não incluímos nos cálculos estatísticos os valores constantes da última linha da Tabela 3, por considerá-los muito afastados dos outros valores assinalados.

Os dados da Tabela 4 apresentam dois grupos distintos de distribuição. Avaliamos a função GH=f(HM) em separado, para estes dois tipos de valores que correspondem a SJ1 e SJ2, abaixo especificados.

Os valores ajustados, para as linhagens mineira (BH) e paulista (SJ), acham-se na Tabela 7 e obedecem as equações abaixo:

BH y = 376,28.X-0,51835

SJ1 y'= 458,610. X-0,34445

SJ2 y"= 206,076.X-0,59498

Estas funções encontram-se representadas na Fig. 4.

Os resultados referentes ao número de cercárias que penetraram no tegumento da cauda de Mus musculus albinos, pertencentes aos lotes C (linhagem BH) e D (linhagem SJ), encontram-se dispostos na Tabela 8. Estes dados foram analisados estatisticamente, utilizando-se somente o número de cercárias que não penetraram. Devido à heterogeneidade dos dados (os X2 obtidos foram 232,263* e 28,049* com 13 graus de liberdade para as linhgens BH e SJ, respectivamente), exprimimo-los em percentagem e os valores foram transformados em ângulos, utilizando-se, para isso, a fórmula a°=arco seno (Ficher e Yates4, 1971) (Tabela 9). Estudadas as linhagens por análise de variância, elas representaram um valor de F igual a 112,879, altamente significativo com 1 e 28 graus de liberdade. Encontramos um coeficiente de variabilidade igual a 13,46%. Os dados referentes à mortalidade observada nos lotes de camundongos 1 e 2 estão apresentados na Tabela 10.

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

A mortalidade encontrada nas duas populações de camundongos infectados pelas linhagens assinaladas foi praticamente a mesma (Tabela 10). Como será descrito adiante, a linhagem mineira mostrou-se mais patogênica.

Em vista deste fato, era de se esperar uma maior letalidade nos grupos de animais infectados por esta cepa. Como o número de vermes encontrados nos camundongos infectados pela linhagem mineira foi muito menor do que os obtidos nos animais infectados pela linhagem paulista, parece ter havido uma compensação nos resultados finais, traduzida em índices de mortalidade semelhantes.

Com efeito, encontramos nos camundongos infectados com a linhagem paulista, aproximadamente o dobro de vermes desenvolvidos em camundongos infectados com a linhagem mineira (Tabela 2). Acreditamos que a menor destruição dos esquistossômulos da linhagem paulista seja resultado de uma menor mobilização de defesa orgânica, por parte do hospedeiro, possivelmente relacionada com a patogenicidade atenuada do parasita.

Obtivemos números semelhantes de granulomas hepáticos nos vários lotes de camundongos perfundidos, embora os valores referentes à relação granuloma/verme, da linhagem mineira, tenham sido muito superiores aos verificados na linhagem paulista (Tabelas 3, 4, 5, 6 e 7). Esta diferença dos valores representativos da relação granuloma/verme foi atenuada, se considerarmos somente os vermes fêmeas. Segundo Bogliolo2 (1959) os ovos fecundados são mais patogênicos. Desta forma a quantidade de vermes machos teria importância na patogenicidade da infecção, sendo mais expressivo referir-se à relação granuloma/vermes totais.

Acreditamos que o número semelhante de granulomas observado nas duas linhagens tenha sido a causa dos índices de mortalidade (também semelhantes) nos dois grupos de camundongos.

Ao estudarmos as funções que exprimem a correlação granulomas hepáticos-número de vermes, verificamos haver paralelismo entre as duas linhagens. Esse paralelismo, observado na Fig. 1, foi comparado estatisticamente. Os coeficientes de correlação (r) encontrados para a relação granuloma/ verme, significam que, tanto na linhagem BH como SJ, o aumento de granulomas hepáticos foi proporcional ao aumento do número de vermes.

Esta representação não é, entretanto, coerente com o fenômeno biológico, porquanto fornece valores significativos para y quando x=0, pressupondo a existência de lesões na ausência de infecção. Nessas circunstâncias, o ajustamento hiperbólico é mais adequado a representação do fenômeno, pois seus valores partem da origem G=0 quando x=0 (Figs. 2 e 3).

Analisando as Figs. 2 e 3 verificamos que os valores da função GH=f(HM), onde GH é granuloma hepático e HM número de esquistossomos, apresentaram-se menos comportados na linhagem paulista do que na linhagem mineira.

A análise da Figura 4 onde está colocada na ordenada o número de granulomas hepáticos por verme e na abscissa o número de vermes por camundongo, permite-nos formular a hipótese da existência de duas sub-populações de S. mansoni da linhagem (SJ1 e SJ2). Esta hipótese encontra apoio nos trabalhos de Bastos1 (1975) que demonstrou a existência de diferenças no comportamento biológico entre a linhagem isolada de fezes humanas de doentes autóctones e a isolada de roedores silvestres naturalmente infectados.

Verificamos, nas duas linhagens, que quanto maior o número de vermes por camundongo, menor o número de granulomas hepáticos por verme, isto é, quanto maior a densidade populacional de S. mansoni, menor a formação de granulomas hepáticos por verme (Fig. 4).

Na determinação do poder de penetração das cercárias (Tabela 8) verificamos maior capacidade por parte das larvas da linhagem mineira. Estes resultados estão de acordo com o trabalho realizado por Magalhães e Carvalho7 (1969), embora estes autores não encontrassem diferenças significativas quanto ao número de vermes adultos que se desenvolveram nos hospedeiros definitivos após a penetração das cercárias (Magalhães e Carvalho8, 1973).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 09/11/1977
Aprovado para publicação em 13/04/1978
Trabalho realizado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

 

 

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