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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.12 no.3 São Paulo Sept. 1978

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101978000300007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Evidências epidemiológicas da ocorrência de escabiose, em humanos, causada pelo Sarcoptes scabiei (DeGeer, 1778) var. canis (Bourguignon, 1853)

 

Epidemiologic evidence on the ocurrence of scabies in humans, caused by Sarcoptes scabiei (DeGeer, 1778) var. canis (Bourguignon, 1853)

 

 

Maria Helena Matiko Akao Larsson

Do Departamento de Patologia e Clínica Médicas da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP – Cidade Universitária – 05508 – São Paulo, SP – Brasil

 

 


RESUMO

A partir de 27 cães com sarna sarcóptica, envolvendo 143 pessoas expostas à infestação, observaram-se 58 (40,56%) com lesões cutâneas sugestivas de escabiose. Tais lesões mostraram-se mais incidentes nas mulheres do que nos homens e indivíduos de todas as faixas etárias foram acometidos, indistintamente. Foi demonstrada a presença do agente em 3 dos 12 casos humanos observados que mantiveram contato com animais escabiosos.

Unitermos: Escabiose. Cães. Sarcoptes scabiei.


ABSTRACT

The human infestation with Sarcoptes scabiei var. canis was studied. From 143 humans which were in close contact with 27 infested animals, the author was able to detect 58 infested individuals (40.56%). The incidence of this zoonosis was higher among women than men and individuals of all ages were indiscriminately affected. The scabies agent was observed in 3 out of 12 pacients submitted to skin scraping.

Uniterms: Scabies. Dogs. Sarcoptes scabiei.


 

 

INTRODUÇÃO

A escabiose humana de origem canina, dermatite causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei (DeGeer, 1778) caracteriza-se por prurido intenso e lesões cutâneas, representadas por pápulas e escoriações, que apresentam localização diversa daquela da escabiose clássica. Esta dermatite, também conhecida como sarna acomete o homem e outros mamíferos, independente de climas ou regiões.

Para cada espécie animal existe uma variedade de Sarcoptes scabiei. Nenhuma diferença morfológica entre as diferentes variedades tem sido descrita, mas as diferenças biológicas parecem existir, tanto que o ácaro do eqüino (S. scabiei var. equi), embora capaz de parasitar o homem, não produz, usualmente, uma infestação permanente (Toomey24, 1922; Mellanby14, 1943; Baker e Wharton1, 1952; Tannenbaum22, 1965).

Em 1673, Sauvages fez a primeira menção de que a sarna sarcóptica do cão podia ser transmitida ao homem. No decorrer do século passado numerosos relatos de escabiose humana de origem canina foram relacionados na literatura européia (Smith e Claypoole20, 1967).

Toomey24 (1922) e Friedmann11 (1936) realizaram trabalhos de revisão de escabiose animal no homem; porém, nos tratados de dermatologia as referências relativas ao assunto são muito limitadas (Baker e col.2, 1956; Beck3, 1965).

A escabiose humana de origem animal, apesar de sua curta evolução, é motivo de grande desconforto (Tannenbaum 22, 1965). Nos últimos anos, despertou-se o interesse sobre esta entidade, particularmente quando causada pela variedade canina (Emde 9, 1961; Tannenbaum22, 1965; Smith e Claypoole20, 1967; Thomsett23, 1968; Norins16, 1969; Elgart e Higdon8, 1972; Richardson19, 1972; Svartman e col.21, 1972; Charlesworth e Johson6, 1974).

A sarna sarcóptica no cão caracteriza-se pelo aparecimento de pequenas pápulas esbranquiçadas ou eritematosas que se localizam, inicialmente, nas regiões inguinais, axilares e bordos das orelhas. Vesículas também podem ser visualizadas no início do processo, mas logo são substituídas por escoriações e crestas. O quadro é acompanhado por intenso prurido e perda de pelos; a piodermite secundária é de observação freqüente (Smith e Claypoole 20) 1967; Muller e Kirk15, 1969; Buell5, 1973).

A sarna sarcóptica do cão afetando o homem é caracterizada, ainda, pela dificuldade de encontrar o agente nas descamações cutâneas.

Tendo em vista a importância da escabiose humana de origem canina tanto em Clínicas Médicas Humana e Veterinária quanto em Saúde Pública, pois se trata de uma antropozoonose, resolvemos realizar um estudo sobre casos de escabiose humana de origem animal, salientando alguns aspectos epidemiológicos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O presente estudo foi realizado com base nos casos de escabiose canina, atendidos pela disciplina de Patologia e Clínica Médica I (Monogástricos) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, no período de fevereiro de 1975 a janeiro de 1976.

O diagnóstico da parasitose nos animais foi feito com base nos sintomas e confirmado pelo encontro e identificação do agente em raspados de pele.

A identificação do agente foi realizada pelo exame do raspado de pele; ao material, colocado sobre lâminas, foram adicionadas 1 ou 2 gotas de hidróxido de potássio a 10% e pesquisado ao microscópio óptico com aumento de 100x e/ou 400x.

Uma vez estabelecido o diagnóstico de escabiose no animal, o proprietário fornecia, além dos dados relativos à sua identificação completa, outros referentes a: classe sócio-econômica, número de pessoas que mantiveram contacto com o animal, número de pessoas com lesões cutâneas sugestivas da doença, idade e sexo das mesmas. Foram colhidas, ainda, informações relativas à evolução das lesões dermatológicas dos proprietários, após tratamento específico preconizado por especialistas.

Após 12 meses de pesquisa, somamos 27 casos de sarna sarcóptica em cães, envolvendo um total de 58 pessoas com prováveis sintomas de escabiose. Destes 58 indivíduos, 12 foram submetidos ao exame de raspado de pele, sendo que em 3 deles conseguimos demonstrar a presença do parasita. Estes exames, em humanos, foram realizados sob a orientação de um profissional.

 

RESULTADOS

Escabiose em animais

a. Sexo:

Animais de ambos os sexos foram acotidos indiferentemente, como mostra a Tabela 1 (estatisticamente não significante ao nível de a= 0,05).

 

 

b. Idade:

A incidência foi maior em animais jovens do que em adultos, como se verifica na Tabela 2.

 

 

c. Variação sazonal:

Quanto à variação sazonal os resultados obtidos não foram conclusivos, conforme se visualiza na Fig. 1.

Lesões cutâneas, em humanos, sugestivas de escabiose canina.

a. Número de pessoas com lesões dermatológicas sugestivas de escabiose:

De um total de 143 pessoas que mantiveram contacto com animais doentes, 58 (40,56%) apresentaram lesões de pele semelhantes às da escabiose.

b. Sexo:

Os indivíduos do sexo feminino foram afetados com maior freqüência que os do sexo masculino, como se nota na Tabela 3 (estatisticamente significante ao nível de a = 0,05).

 

 

c. Idade:

A suscetibilidade foi observada em todas as faixas etárias, como mostra a Tabela 4.

 

 

d. Incidência anual:

Houve incidência flutuante durante os meses do ano, ora com freqüências elevadas, ora com freqüência nula, como mostra a Fig. 2.

e. Classe sócio-econômica:

O Serviço de Triagem do Ambulatório da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP adota uma classificação sócio-econômica dos proprietários dos animais atendidos, que se baseia em dados como: renda familiar, profissão, número de pessoas da família que trabalham, propriedade de imóvel e/ou veículo automotor. Em ordem decrescente a classificação é a seguinte: A, B, C e D.

A parasitose ocorreu em todas as classes sócio-econômicas, como se visualiza na Tabela 5.

 

 

f. Observação do parasita:

Conseguimos observar a presença do parasita em descamações cutâneas de 3 casos humanos, sendo que realizamos exames de raspado de pele em 12 das 58 pessoas que apresentaram lesões sugestivas de escabiose.

g. Tratamento:

Dezessete dos 58 indivíduos com lesões sugestivas de escabiose de origem canina informaram, posteriormente, que após tratamento específico, preconizado por dermatologistas, apresentaram remissão dos sintomas em alguns dias. Na maioria dos casos, o tratamento foi realizado com especialidades farmacêuticas à base de benzoato de benzila.

 

DISCUSSÃO

A sarna sarcóptica em cães ocorreu com freqüência de 51,8% em fêmeas e 48,2% em machos, o que nos leva crer que sua incidência independe do sexo (estatisticamente não significante ao nível de a = 0,05).

Confirmando uma observação anterior (Larsson e col.13, 1974), verificamos que os animais de faixas etárias mais jovens são mais suscetíveis que os adultos, embora tenhamos observado caso de um animal com 12 anos e outro com 19 anos de idade.

Os resultados referentes à variação sazonal da sarna sarcóptica em cães não foram conclusivos, principalmente devido ao número limitado de casos estudados, assim como à pequena flutuação da temperatura ambiental durante o ano, em nosso meio.

A incidência de humanos com lesões semelhantes às da escabiose canina foi maior em indivíduos do sexo feminino (63,8%) do que nos do sexo masculino (36,2%) (estatisticamente significante ao nível de a = 0,05), observação esta condizente com a de Price 18 (1952). Tal achado pode ser explicado, em parte, pelo fato das mulheres serem, mais comumente, responsáveis pelo tratamento dos animais e, portanto, mais suscetíveis a adquirir a parasitose.

Indivíduos de todas as faixas etárias mostraram-se suscetíveis a apresentar lesões sugestivas de escabiose canina, à semelhança do que observaram Charlesworth e Johnson6 (1974).

A incidência de humanos com lesões dermatológicas semelhantes às da escabiose canina foi bastante variável, ora apresentando freqüências elevadas (fevereiro, abril e setembro), ora mostrando-se nula (março, junho e julho. Nossas observações discordaram das de Mellanby14 (1943), Baker e Wharton1 (1952) e Hornstein citado por Hermann e Human12 (1969), que afirmaram ser a escabiose humana mais prevalente no inverno e outono do que no verão. As baixas incidências obtidas por nós, tenham, talvez, sofrido a influência de fatores outros tais como: início das aulas em março; exames e férias escolares, respectivamente em junho e julho; e exames escolares e festas de fim de ano em dezembro, ocasiões em que o atendimento ambulatorial também diminui. Além disto, devemos lembrar que em nosso meio a caracterização das estações do ano não é marcante.

Lesões cutâneas sugestivas de escabiose canina foram constatadas em indivíduos de todos os níveis sociais. Em decorrência deste achado cremos que a pobreza e a falta de higiene não são fatores tão importantes na disseminação da doença, como defenderam Epstein10 (1955); Bopp e Bakos4 (1967) e Chen e Dudgale7 (1972).

A dificuldade de encontrar o agente em exames de raspados de pele humana foi uma constante nos trabalhos de Emde9 (1961); Beck3 (1965); Tannenbaum 22 (1965); Smith e Claypoole20 (1967) e Charlesworth e Johnson6 (1974). Contudo, conseguimos visualizar o parasita em descamações cutâneas de 3 casos humanos, dos 12 nos quais foram feitos raspados de pele. A observação do agente nestes 3 casos foi possível desde que realizada na fase inicial do processo; tal achado sugere que o S. scabiei var. canis é, realmente, parasita capaz de infestar o homem.

Embora Pessoa e Martins17 (1974) tenham feito referências à observação de alguns casos humanos refratários ao tratamento específico das lesões escabiosas com benzoato de benzila, a maioria dos indivíduos do nosso estudo, portadores de lesões cutâneas sugestivas de escabiose canina, apresentaram remissão da sintomatologia alguns dias após o início do tratamento com especialidades farmacêuticas à base de benzoato de benzila.

 

CONCLUSÕES

1. De um conjunto de 143 pessoas expostas à infestação, 58 (40,56%) apresentaram lesões cutâneas sugestivas de escabiose canina.

2. A incidência de lesões dermatológicas sugestivas de escabiose canina é mais freqüente nos indivíduos do sexo feminino do que nos do sexo masculino.

3. Lesões cutâneas sugestivas de escabiose canina são passíveis de atingir indivíduos de todas as faixas etárias, indiferentemente.

4. A observação do parasita em lesões humanas é possível desde que realizada no início do processo.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Ruy Laurenti pela orientação.

 

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Recebido para publicação em 28/02/1978
Aprovado para publicação em 13/04/1978
Resumo da dissertação apresentada à Comissão de Concurso de Mestrado em Saúde Pública, no Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP

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