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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.14 no.2 São Paulo June 1980

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000200010 

Ocorrência de infecção natural de Fasciola hepatica Linnaeus, 1758 em Lymnaea columella Say, 1817 no Vale do Paraíba, SP, Brasil

 

Natural infection by Fasciola hepatica in Lymnaea columella in the Paraíba river valley, S. Paulo, Brazil

 

 

Marlene Tiduko Ueta

Do Departamento de Parasitologia do Instituto de Biologia da UNICAMP — Caixa Postal 1170 — 13100 — Campinas, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Foram registradas em Piquete, no vale do rio Paraíba do Sul (SP), Brasil, taxas de 1,22% e 0,14% de infecção natural em Lymnaea columella, por Fasciola hepatica. Em um único exemplar de Lymnaea columella dentre os 1.052 examinados, foram observadas rédias com xifidiocercárias, rédias com cercárias de Fasciola hepatica e metacercárias de Echinostomatidae.

Unitermos: Infecção. Fasciola hepatica, Piquete, SP, Brasil. Lymnaea columella, Piquete, SP, Brasil.


ABSTRACT

Infection rates of 1.22% and 0.14% were obtained in Lymnaea columella snails naturally infected by Fasciola hepatica. Samples of the snails were collected in Piquete, a municipality of Paraíba do Sul, a river valley area in the State of S. Paulo. Also observed was one of the 1052 specimen of the Lymnaea columella rediae which had xiphidiocercariae and rediae with Fasciola hepatica cercariae and metacercariae of Echinostomatidae.

Uniterms: Infection. Fasciola hepatica, Piquete, SP, Brazil. Lymnaea columella, Piquete, SP, Brazil.


 

 

INTRODUÇÃO

A existência de fasciolose bovina e humana no Vale do Paraíba tem sido assinalada desde 1967. França7 (1967) encontrou 10% de bovinos abatidos no matadouro municipal de Taubaté infectados com F. hepatica. São autóctones do Vale do Paraíba 8 dos 24 casos humanos assinalados até o presente momento no Brasil (Santos e Vieira18, 1965/67; Amato Neto e Silva2, 1977 e, Amaral e Busetti i, 1979). No Estado do Rio de Janeiro, infecções de animais por F. hepatica em municípios do Vale do Paraíba foram assinaladas por Lutz 13 (1921), Rezende e col.15 (1973) e por Gomes e col.8 (1974). Nesse Estado foram também encontrados limneideos infectados.

Schafranski e col.19 (1977), fazendo levantamento de focos de F. hepatica no Vale do Paraíba, encontraram, pela primeira vez em São Paulo, exemplares de Lymnaea naturalmente infectados.

Desde a constatação de casos de fasciolose bovina por França7 (1967) e humana por Santos e Vieira18 (1965/67) no Vale do Paraíba, não há registro de ocorrência de infecção natural em moluscos da região, pois apesar de Santos e França17 (1970) terem descoberto mais de uma dezena de criadouros de limneideos no Vale do Paraíba, não fizeram referência à ocorrência de moluscos infectados nos locais pesquisados. Assim, o achado de limneideos naturalmente infectados assinalados por nós, na presente publicação, constitui-se no segundo registro desta natureza em São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODO

Em pesquisas de caramujos realizadas no Município de Piquete (SP) no Vale do Paraíba, entre junho — julho de 1977 e em setembro de 1978, foram coletados respectivamente 327 e 725 exemplares de Lymnaea columella. Estes exemplares eram trazidos ao laboratório e diariamente expostos à luz artificial, individualmente ou em pequenos grupos. Os espécimes com concha mais clara eram examinados sob microscópio estereoscópico para averiguação da presença de parasitas no interior do corpo. No entanto, na maior parte das vezes, somente pudemos constatar presença de infecção por F. hepatica ao examinarmos limneas mortas ou moribundas.

 

RESULTADOS

Foram encontrados 4 e 1 exemplares infectados por F. hepatica, correspondendo a 1,22% e a 0,14%, respectivamente.

Em laboratório, apenas uma das limneas naturalmente infectadas eliminou cercárias espontaneamente três dias após a coleta. Esta limnea eliminou, antes de morrer, poucas cercárias que encistaram, mas a maioria dessas formas larvares não chegou a sair das rédias.

Nos outros exemplares de limnea a infecção natural pela F. hepatica foi constatada após a morte dos caramujos. Em todas estas limneas mortas foram observadas inúmeras rédias, contendo cercárias, que abarrotavam o hepatopâncreas.

Foi encontrado em um exemplar de L. columella a presença concomitante de rédias e F. hepatica e metacercárias de Echinostomatidae.

De 1.052 limneas examinadas, um exemplar apresentou infecção tripla por:

1) rédias contendo cercárias de F. hepatica

2) rédias contendo xifidiocercárias, não identificadas, com eliminação espontânea destas cercárias pelo caramujo

3) metacercárias de Echinostomatidae, no teto da cavidade pulmonar, nas proximidades do tubo renal.

 

DISCUSSÃO

Pequena percentagem de limneideos do Vale do Paraíba, naturalmente infectados por F. hepatica, foi encontrada por Lutz 13 em 1921, ao constatar dois exemplares mortos com rédias e cercárias.

Rezende e col.15 (19/3) encontraram no Rio de Janeiro 26 exemplares de L. columella infectados em um total de 1.100 analisados, o que corresponde a 2,36%. Este dado, apesar de ser duas vezes maior que o encontrado por nós em 1977, é ainda uma cifra baixa.

Gonzales e col.9 (1974) também assinalaram, no Rio Grande do Sul, o encontro de rédias e cercanas de F. hepatica em L. columella coletadas no campo, mas não fizeram referência a percentagem de infecção natural.

Vários autores relataram infecção natural de F. hepatica em outras espécies de Lymnaea, sempre referindo taxas baixas.

Bacigalupo 3,4 (1932) citou o achado de exemplares de L. viatrix naturalmente infectados em Buenos Aires, mas não registrou a prevalência da infecção entre os caramujos coletados.

Hoffman10 (1930) relatou que em mais de dois anos de coletas realizadas em várias localidades de Porto Rico encontrou poucos L. cubensis eliminando cercárias de F. hepatica. Briceño-Rossi6 (1950) examinando mais de 400 exemplares de L. cuoensis na Venezuela, não encontrou vestígios de larvas de fasciola em nenhum caramujo.

Olsen14 (1944) em seu trabalho sobre bionomia de Stagnicola bulimoides techella disse que esta espécie de limnea pode ser encontrada parasitada por F. hepatica durante todo o ano, apesar da percentagem de infecção variar conforme a época do ano ou mesmo de um mês para outro. Durante o ano de 1941, de 16.276 caramujos dissecados, Olsen14 (1944) encontrou 0,0051% infectados. Em um tanque temporário, com as condições ideais para a manutenção do parasitismo, este mesmo autor encontrou no primeiro exame 2,9% de infecção e nos três meses subseqüentes 6,6%; 0,32% e 1,6%, respectivamente.

Em relação a L. truncatula naturalmente parasitada por F. hepatica, Kendall11 (1950) verificou uma taxa de infecção entre 5,0 a 6,0%.

Infecções mistas de equinostomas com xifidiocercárias foram assinaladas por Wesenberg-Lund, 1934 (citado por Lie e col.12, 1968) como um dos tipos mais comuns de infecções duplas encontradas em caramujos de campo.

Em relação ao encontro de caramujos com infecção simultânea de Echinostomatidae e F. hepatica, Boray 5 (1967) verificou que L. tomentosa era suscetível a F. hepatica quando albergava somente metacarcárias de equinostomatideo, mas era refratária quando apresentava rédias e cercárias. Observações de laboratório e de campo feitas por Boray5 (1967), comprovaram a raridade da infecção mista entre equinostomatideo e F. hepatica, uma vez que em 74 exemplares de L. tomentosa sujeitas a infecção experimental de ambos os trematódeos, apenas duas mostraram infecção simultânea. Verificou também que de 6.281 exemplares de campo examinados, apenas um era portador de infecção mista.

Infecções mistas de Fasciola com larvas de outros trematódeos também foram descritas por Roberts16 (1950), ao estudar F. hepatica no campo. Nessa ocasião, Roberts encontrou em L. truncatula duas formas de cercárias além das de F. hepatica, sendo uma furcocercária, não identificada, encontrada em três exemplares de limnea e cercárias do grupo C. cambrensis em outros exemplares.

Até o momento não dispomos de nenhuma referência quanto à infecção tripla de L. columella por rédias de F. hepatica, rédias com xifidiocercárias e metacercárias de Echinostomatidae.

 

CONCLUSÃO

1) A percentagem de infecção natural de L. columella por F. hepatica, nas coletas realizadas em Piquete (SP), foi de 1,22% e 0,14%.

2) Em um exemplar de L. columella foram encontradas rédias com cercárias de F. hepatica, rédias com xifidiocercárias e metacercárias de Echinostomatidae.

 

AGRADECIMENTOS

Aos Drs. Arnor Fadu Saber e Sérgio Vianna e aos funcionários do DIRA de Lorena e Pindamonhangaba, pela colaboração prestada na coleta de moluscos limneideos em Piquete (SP).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 08/10/1979
Aprovado para publicação em 30/10/1979

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