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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública v.16 n.3 São Paulo jun. 1982

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101982000300001 

ARTIGO ORIGINAL

 

A dimensão social das doenças. II - Positividade das reações de Wasserman e VDRL em convocados para o Serviço Militar no Estado de São Paulo (Brasil), de 1972 a 1978

 

The social dimension of the occurrence of disease. II - The positiveness of reaction to Wasserman and VDRL tests among draftees in S. Paulo State (Brazil), from 1972 to 1978

 

 

Paulete GoldenbergI; Rosa Maria PardoII; Dalva Regina NetoII; Sandra Aparecida RibeiroII; Maurício PernambucoII; Magid IunesI

IDo Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina - Rua Botucatu, 720 - 04023 - São Paulo, SP - Brasil
IIAcadêmicos da Escola Paulista de Medicina

 

 


RESUMO

Em seqüência à série histórica iniciada em 1968, com o objetivo de obter indicações sobre a evolução da sífilis no Estado de São Paulo (Brasil), foi feito levantamento dos dados de 1972 a 1978 que mostrou que ao longo do tempo e apesar das oscilações, não houve variações substanciais dos coeficientes de positividade das reações de Wasserman e VDRL em convocados apresentados no município de São Paulo. No interior do Estado o aumento dos valores dos coeficiente de 1973, invertendo a tendência anteriormente observada, aproxima esses índices aos do município. O estudo da subamostra indicou a presença de proporções maiores de positividade em convocados apresentados no município comparados com os apresentados no interior do Estado, independentes da naturalidade, o que poderia sugerir semelhanças com os quadros epidemiológicos descritos para os países desenvolvidos. Entre convocados apresentados na capital observou-se maiores proporções de positividade nos convocados nascidos em outros Estados do país, o que evidenciaria a presença da doença associada à pobreza ou ao subdesenvolvimento. Nesse sentido, foi chamada a atenção para as peculiaridades epidemiológicas das doenças em vista da singularidade das respectivas organizações sociais num dado momento histórico.

Unitermos: Sífilis, sorodiagnóstico. Fatores sócio-econômicos. Reação de Wasserman.


ABSTRACT

Following up the historical series started in 1968, the collection of data from 1972 to 1978 has shown that in the long run, in spite of oscillations, there were no significant variations of the coefficients of positiveness of the Wasserman and VDRL reactions in the boys recruited to the Army in the Capital. In the hinterland the raising on the coefficients' rates, from 1973 on, reverting the tendency previously observed, brought these rates near to those of the Capital. The study of the sub-samples showed the presence of larger proportions of positiveness among the recruits enlisted in the Capital as compared to those in the hinterland, independente of origin which may suggest some similarity to epidemiological reports from developed countries. On the other hand, among the recruits enlisted in the Capital there were larger proportions of positiveness among those born in other States of the country, which could be regarded as evidence of the presence of illness associated with proverty or under-development. In this connection, attention is called by the authors to the epidemiological peculiarities of the illness in view of the singularity of the respective social organizations at a given historical moment.

Uniterms: Syphilis serodiagnosis. Socioeconomic factors. Wasserman reaction.


 

 

INTRODUÇÃO

A estimativa dos coeficientes de positividade das reações de Wasserman e VDRL na população com idade próxima a 18 anos no Estado de São Paulo, de 1972 a 1975, vem dar continuidade a uma série histórica iniciada em 1968 2 com o objetivo de obter indicações sobre a evolução da sífilis em nosso meio.

Os dados obtidos no levantamento de 1968 a 1971 (Goldenberg e col.2) indicavam uma tendência ascendente dos coeficientes de positividade na capital do Estado o que fazia supor que estaríamos diante de um aumento da doença verificado em vários países do mundo desenvolvido, por volta de 1970 (Willcox4). O mesmo não se observava no interior do Estado, que apresentava inclusive um decréscimo nos valores dos coeficientes de positividade de Wasserman. Ainda que não fosse possível no âmbito desse trabalho analisar a natureza do comportamento dos valores encontrados, os dados disponíveis forneceriam indicações a respeito da evolução da sífilis em anos sucessivos num setor da população.

 

METODOLOGIA

Conforme procedimento adotado no levantamento dos anos anteriores, os dados foram coligidos nos fichários da COLSAN (Sociedade Beneficiente de Coleta de Sangue). Coletaram-se, separadamente, segundo locais de apresentação, dados referentes à capital e ao interior; em ambos os casos incluiram-se tanto os incorporados no Serviço Militar como os dele dispensados. Foram excluídas as fichas, representando menos de 0,5% do total, que referiram anticomplementaridade do soro ou não realização das reações por quaisquer outras razões.

Embora não se tratando de uma amostra rigorosamente probabilística, ressalta-se, diante da extensão e características de sua composição, o fato de que não há nada que leve a supor a existência de fatores de tendenciosidade substancialmente diferentes nos anos sucessivos. Tendo em vista a avaliação do comportamento dos coeficientes anuais, foram calculados os respectivos intervalos de confiança de 95%.

O levantamento dos dados de positividade das reações de Wasserman e VDRL em migrantes e não migrantes, dentre os dados disponíveis, teve como objetivo, por sua vez, obter indicações adicionais sobre as características da ocorrência da sífilis na população estudada.

Neste sentido, a partir de 1973 foram coletados dados sobre a naturalidade dos convocados, tendo sido excluídas a fichas não preenchidas ou as que não se enquadravam nas categorias nascidos no Estado de São Paulo ou em outras unidades da Federação. Esse total de fichas excluídas foi da ordem de 19% do total em 1973, de 28% em 1974 e ao redor de 50% a partir de 1975. Contudo, comparando-se proporções de preenchimento na capital e no interior, assim como os coeficientes de positividade entre fichas com ou sem naturalidade, não se observaram diferenças que fizessem supor uma tendenciosidade no sentido do preenchimento das mesmas na capital ou no interior.

Para análise destes resultados foi aplicada a estatística Qui-quadrado, fixando-se em 0,05 ou 5% o nível máximo para rejeição da hipótese de nulidade.

A série histórica

Os valores dos coeficientes de positividade das reações de Wasserman e VDRL em convocados para o Serviço Militar na capital e no interior do Estado de São Paulo de 1972 a 1978 encontram-se especificados na Tabela 1.

Na Tabela 2 figuram, ao lado das estimativas por ponto, os valores obtidos no cálculo dos intervalos de confiança de 95% dos coeficientes de positividade, segundo o local de apresentação, de 1968 a 1978.

 

 

O exame dos dados obtidos nos anos estudados não confirma o aumento de 1969 a 1971 na capital como sugerido no trabalho anterior (Goldenberg e col.6). Indica, assim, que apesar das oscilações, não houve variações substanciais ao longo do tempo.

No interior, à queda progressiva dos coeficientes observada até 1972, segue-se um acréscimo em 1973 que se mantém nos subseqüentes. Dessa forma, os coeficientes de positividade de Wasserman e VDRL do interior voltam aos níveis observados no início do período. Ao mesmo tempo, diminuem as discrepâncias em relação a capital, embora seus coeficientes continuem a apresentar níveis maiores do que os do interior, excetuando-se os valores de 1974, os quais não apresentam diferença estatisticamente significante ao nível de 5%.

Coeficientes de positivdade de Wasserman e VDRL e a naturalidade dos convocados

Os coeficientes de positividade de Wasserman e VDRL, segundo a naturalidade dos convocados e excluindo os resultados duvidosos, são especificados na Tabela 3. De acordo com os resultados obtidos chamam a atenção dois aspectos:

- de um lado, os valores maiores dos coeficientes de positividade entre os convocados apresentados na capital quando comparados aos do interior, seja entre os nascidos em São Paulo, seja entre os nascidos em outros Estados;

- e, de outro, os valores maiores dos coeficientes dos convocados nascidos em outros Estados em relação aos naturais do Estado de São Paulo, seja entre os apresentados na capital seja entre os apresentados no interior.

 

 

Foram comparadas as diferenças observadas entre as proporções de positividade dos convocados apresentados na capital em relação ao interior, respectivamente entre os nascidos no Estado de São Paulo (Tabela 4) e em outros Estados (Tabela 5).

Os resultados encontrados indicam proporções significativamente maiores de positividade entre os convocados apresentados na capital em relação ao interior no decorrer dos anos estudados, independente da naturalidade, excetuando-se em 1974, na subamostra de nascidos no Estado de São Paulo, e em 1975, em ambas.

Por sua vez, fixando-se o local de apresentação, observamos que, na capital (Tabela 6), nascidos em outros Estados apresentam, sistematicamente, nos anos estudados, valores significativamente superiores aos nascidos no Estado de São Paulo. No interior (Tabela 7), salvo em 1976, não foi observada diferença significativa entre as proporções de positividade das reações de Wasserman e VDRL entre naturais do Estado de São Paulo e de outros Estados.

Esses dados sugerem que na capital, ao lado das condições generalizadamente mais propícias à transmissão da doença, os migrantes se constituiriam num grupo de risco. Esse fato se justificaria diante das características do nosso desenvolvimento e do papel desempenhado pelos migrantes no sistema econômico-social dos centros urbano-industriais nos locais de destino.

Diante de um passado colonial, o desenvolvimento do país deu-se de forma "hipertardia". Nestas condições o capitalismo se estrutura débil e em meio a intensas desigualdades sociais. Conseqüentemente se observa intensa mobilidade espacial interna da população, que se transfere das áreas menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas, em circuitos que dependem tanto dos fatores expulsão nos locais de origem como de atração nos locais de destino.

Nos centros urbano-industriais esses migrantes constituem fonte contínua de mão de obra barata e que aqui chega pronta, sem ônus para os beneficiários do sistema econômico em expansão (idealmente o salário do trabalhador deveria suprir meios para a sua sobrevivência e para a reprodução de substitutos). Diante do sistema de acumulação que se estabelece, marcado pela concentração de riquezas, essa população configura uma periferia social, que em termos das precárias condições de existência, ofereceram o conjunto de condições propícias à transmissão da doença.

São Paulo, como o centro industrial mais desenvolvido do país, atrai migrantes das mais diversas regiões. A formação de extensa periferia social constitui exemplo do processo descrito genericamente, evidenciando, outrossim, a sincronia que se estabelece entre crescimento econômico e formação de pobreza.

O mesmo não poderia ser descritto para o interior cuja amostra inclui migrantes para áreas rurais e urbanas, agrícolas e industriais. Assim, de um lado, a migração de naturais de outros Estados não se restringe aos centros urbano-industriais e não guarda, como um todo, as mesmas proporções das migrações que se dirigem para a capital. De outro lado, diante do avanço do capitalismo no campo e da limitação contínua do sistema de posse da terra, observa-se uma progressiva expulsão do trabalhador rural dentre naturais do Estado, o qual se dirige para os centros urbanos industriais ou não (Singer) 3. Com a instituição do Estatuto do Trabalhador Rural visando a estender a legislação social ao trabalhador do campo, os empresários passam a optar pela forma de pagamento por tarefa. Rompem-se assim os últimos resquícios da economia de subsistência criando uma massa de trabalhadores - volantes, boias-frias que passam a residir nas cidades. Nestas condições proliferam as periferias sociais dos centros urbanos do interior, industriais ou não, por conta de um expressivo contingente de naturais do Estado de São Paulo. Assim, mesmo levando-se em consideração indicações sobre uma reorientação, já na década de 1960, dos movimentos migratórios para a capital em relação aos municípios industriais vizinhos, não se poderia esperar que o contingente de nascidos em outros Estados para o interior, como um todo, apresentasse diferenças significativas de risco em relação aos naturais do Estado de São Paulo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O levantamento dos coeficientes de positividade das reações de Wasserman em convocados para o Serviço Militar do Estado de São Paulo, de 1972 a 1978, contrariando as expectativas levantadas no estudo do período anterior (1968-1971), evidencia oscilação dos valores da capital e ascenção no interior a partir de 1973.

Maior ocorrência de positividade foi observada entre convocados apresentados na capital e sobretudo entre os nascidos fora do Estado de São Paulo.

Não se justifica, portanto, a transposição para o nosso meio do processo descrito a respeito do aumento da doença nos países desenvolvidos, por volta de 1970, onde esse aumento seria conseqüência de mudanças ocorridas nos hábitos sexuais da população, ou seja, da liberação do sexo em geral (Willcox)4. Assim, ao lado das condições generalizadamente mais propícias à transmissão da doença, na capital, apresentando talvez o mesmo processo descrito para os países desenvolvidos, a evidência de proporções maiores de positividade entre migrantes nascidos em outros Estados da Federação constituiria um bom indicador da presença da doença associada à formação de periferias urbano-industriais (Berlinck)1.

Esses resultados chamam a atenção para as características singulares que assumem as manifestações das doenças nas populações, em vista das peculiaridades das respectivas organizações sociais. A combinação entre crescimento econômico e formação de pobreza constituiria, pois, os fundamentos para a manutenção dos quadros epidemiológicos da sífilis, associada à presença de setores da população com precárias condições de existência.

No interior, a ascenção dos valores de positividade entre os convocados a partir de 1973 poderia estar relacionada com a intensificação da formação de periferias sociais, como processo resultante do avanço de uma nova ordem capitalista no campo e que teria seu marco na instalação do Estatuto do Trabalhador Rural (Singer)3. Neste caso, porém, a configuração das periferias sociais não teria no migrante natural de outros Estados seu elemento predominante. Esses resultados, por sua vez, chamariam a atenção não só para o fato de que os processos sociais delimitam a presença e a especificidade da ocorrência das doenças a nível populacional, como também para o sentido explicativo das variáveis sociais relacionadas com a ocorrência da doença ou dos indicadores sociais de risco. As formas concretas com que se apresentam as organizações sociais em suas particularidades históricas fornecem diretrizes indispensáveis ao estudo da ocorrência das doenças nas populações, delineando, em termos operacionais, o sentido das variáveis sociais que permitem captar sua dimensão social, ou seja, sua particularidade de manifestação a nível populacional.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BERLINCK, M. T. Marginalidade social e relações de classe em São Paulo. Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 1975.        [ Links ]

2. GOLDENBERG, P. et al. Coeficientes de positividade das reações de Wasserman e VDRL em convocados para o Serviço Militar no Estado de São Paulo, de 1968 a 1971. Rev. Ass. med. bras., 20:265-6, 1974.        [ Links ]

3. SINGER, P.I. et al. Capital e trabalho de campo. Org. Jaime Pinsky. São Paulo, Ed. Hcitec, 1977.        [ Links ]

4. WILLCOX, R.R. A world-wide view of venereal disease. Brit. J. vener. Dis., 48:163-76, 1972.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 04/09/1981
Aprovado para publicação em 14/04/1982
Os Dados de 1972 a 1975 foram apresentados ao XIX Congresso Brasileiro de Higiene. São Paulo, 1977.