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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.16 no.5 São Paulo Oct. 1982

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101982000500004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Ocorrência de linhagens humana e silvestre de Schistosoma mansoni, na pré-amazônia. I - Estudo em moluscos

 

Occurrence of wild and human strains of Schistosoma mansoni in lower Amazonia. I - Study in moluscs

 

 

Othon de Carvalho BastosI; Argélia Maria Andrade SilvaI; Eliane Pires de SouzaI; Raimundo Carlos Lemos NetoI; Aquiles Eugenico PiedrabuenaII

IDa Universidade Federal do Maranhão (Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Imunologia) - Campus Universitário do Bacanga, Bloco 3 - Sala 3A - 65000 São Luís, MA - Brasil
IIDo Departamento de Genética e Evolução do Instituto de Biologia da UNICAMP - Caixa Postal 6109 - 13100 - Campinas, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Foram isoladas na região da Baixada Maranhense (Brasil), linhagens humana (H) e silvestre(S) de Schistosoma mansoni a partir de miracídios eclodidos de ovos encontrados em fezes de doentes humanos autóctones da Região e de fígados de roedores silvestres naturalmente infectados. Biomphalaria glabrata, descentes de caramujos coletados no campo, foram expostos, isoladamente, aos miracídios H e S, mantidos isolados em moluscário e observados durante 100 dias. Moluscos normais foram mantidos nas mesmas condições de ambiente em que foram submetidos os infectados e tomados como controle da experiência. Foram anotados os indices de infecção dos moluscos, as datas da eliminação de cercárias, quantidade de larvas eliminadas e mortalidade dos moluscos. Os dados sugeriram melhor adaptação do esquistossomo da linhagem H à B. glabrata. A linhagem S, por sua vez, foi três vezes mais virulenta do que a linhagem H. Estes dados foram comparados com os encontrados na literatura especializada e verificado diversidades nos comportamentos parasitológicos das linhagens em estudo, quando comparados com os encontrados nas linhagens H e S oriundas do Vale do Rio Paraíba do Sul, no Estado de São Paulo (Brasil).

Unitermos: Schistosoma mansoni. Esquistossomose mansônica, Região da Baixada Maranhense, Brasil.


ABSTRACT

The wild (W) and human (H) strains of Schistosoma mansoni were isolated in the Lowland Region of the Maranhão State (Brazil). The snail progenies from Biomphalaria glabrata collected from that region were exposed to the W miracidia, obtained from livers of wild rodents, and H miracidia from eggs in human stools. A control gruop of normal snails was kept in the same conditions as the infected one. The date of the elimination of cercariae, the quantity of eliminated larvae, the infection index of the moluscs and the mortality rate of the snails were recorded. These data suggested better adaptation of the H strain to B. glabrata. The W strain presented three times more virulence to snails than the H strain. These results were compared with published data of H and W strain from the Paraíba do Sul River Valley and different parasitologic behavior was verified.

Uniterms: Schistosoma mansoni. Schistosomiasis, Lowland Region of Maranhão State, Brazil.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos realizados no sentido de esclarecer aspectos da relação parasita-hospedeiro mostram que, durante a evolução da esquistossomose, ocorrem modificações estruturais, tanto por parte do parasita como do hospedeiro4; que o mosaico antigênico de superfície corporal do verme adquire características próprias relacionadas com a espécie hospedeira 13 e que estas características induzem uma resposta parasito-imunológica específica capaz de levar ao estabelecimento de linhagens do verme 2, 3, 6.

Bastos e col.8 verificaram a ocorrência de duas linhagens de Schistosoma mansoni, na região do Vale do Rio Paraíba do Sul, no Estado de São Paulo: linhagens humana (H), isolada de doentes autóctones da Região, e silvestre (S), obtida de pequenos mamíferos silvestres, naturalmente infectados no Vale. Nesta data, os autores acreditavam estar assistindo ao início de um processo de adaptação do parasita ao hospedeiro natural da Região, a Biomphalaria tenagophila.

Em continuidade a esta linha de pesquisa, os trabalhos foram orientados no sentido de verificar a existência de linhagens H e S em outras regiões brasileiras. Conseqüentemente, seria constatada a importância da influência do meio e da adaptabilidade do parasita aos hospedeiros locais. A princípio, foi escolhida a região da Baixada do Maranhão, pelos seguintes motivos: localização ao nível do mar; peculiaridade em conter um misto de fauna e flora das regiões Norte e Nordeste; a esquistossomose ser doença endêmica1 e, em seus campos, cohabitarem dois hospedeiros definitivos do esquistossomo: homem e roedor silvestre.

 

MATERIAL E MÉTODOS

1. Isolamento da linhagem humana (H) de S. mansoni.

A linhagem H de S. mansoni foi isolada a partir de miracídios obtidos de dejeções humanas, de portadores comprovadamente autóctones da cidade de São Bento, localizada na região da Baixada Maranhense.

As fezes coletadas na região foram transportadas para o laboratório em recipientes fechados, em completa ausência de luz e baixa temperatura (4°C).

No laboratório as dejeções foram diluídas em 100 ml de água não clorada (1 mg/ml), filtradas em gaze e deixadas sedimentar no escuro, por duas horas. O líquido sobrenadante foi decantado e o sedimento ressuspenso no volume de água acima referido.

Os miracídios foram obtidos pela exposição da suspensão final à luz e à temperatura de 28°C, provenientes de lâmpadas elétricas de 60 watts, colocadas a distância de 40 cm, durante 60 min.14.

2. Isolamento da linhagem silvestre (S) de S. mansoni.

A linhagem S de S. mansoni foi isolada a partir de miracídios obtidos de fígados de roedores silvestres, naturalmente infectados pelo trematodeo, capturados em São Bento e classificados como Nectomys squamipes amazonicus Hershkovitz, 1944. Os animais infectados foram necropsiados e os fígados retirados e homogeneizados em liqüidificadores, com água declorada, em baixa temperatura (aproximadamente 10°C). Os homogeneizados foram colocados em frascos de sedimentação e deixados repousar no escuro, por duas horas. O sobrenadante foi desprezado e o sedimento ressuspenso em 50ml de água2, 3. A suspensão final foi colocada em placas de Petri e exposta à luz e à temperatura de 28°C, provenientes de lâmpadas elétricas14.

3. Infecção de B. glabrata com miracídios das linhagens silvestre (S) e humana (H).

Foram tomadas B. glabrata nascidas em laboratório, medindo de 8 a 12 mm de diâmetro máximo, descendentes de planorbídeos colhidos na região da Baixada Maranhense (município de São Bento), para a constituição de grupos de moluscos para a infecção com 15 miracídios (GI) e para controle da experiência, não expostos às larvas (GC).

Os caramujos submetidos à infecção foram colocados individualmente em placas de Petri de 3,5 cm de diâmetro, à temperatura de 28°C, por 5 a 6 horas. Em seguida, estes animais foram mantidos isolados, em frascos de 100 ml de água e com alimentação controlada, constituída por alface.

O experimento foi desenvolvido durante 100 dias. A partir do 10o dia de infecção, era anotada, a cada 10 dias, a percentagem de mortalidade, o número de moluscos que eliminaram cercárias e o número de cercárias eliminadas.

4. Obtenção de cercárias

Os moluscos dos GI, após o 10o dia de observação, eram colocados individualmente em frascos contendo 10 ml de água declorada e expostos à ação de luz e calor 13, durante duas horas. Em seguida, as cercárias eram contadas em lupas estereoscópicas. Estas observações eram feitas diariamente.

5. Estudos estatísticos

Para estudo matemático de comparação entre as mortalidades encontradas nas B. glabrata expostas às linhagens em estudo, procedeu-se a determinação da potência de uma linhagem com respeito à outra (Título), testando pelo método de probitos e verificando o paralelismo existente entre ambas as linhagens.

A linhagem H foi tomada como padrão. Os resultados pertinentes ao GC não foram utilizados para reduzir a mortalidade natural existente.

Para o cálculo dos probitos, foram tomados os dias de exposição para variável independente (x), em cinco níveis (30, 50, 60, 70 e 90) para a linhagem S e em quatro (70, 80, 90 e 100), para linhagem H.

 

RESULTADOS

1. Linhaem S

1.1 - Índice de mortalidade dos moluscos

As taxas de mortalidade registradas nos grupos Gl e GC, constam da Tabela 1. Assinala-se a mortalidade inicial de 23% no GI, observada no 10o dia após a infecção. Somente no 40o dia, esta taxa foi alterada para 33%, alcançando 80% no 100o dia.

1.2 - Eliminação de cercárias

A eliminação de cercárias ocorreu entre o 28o e o 90o dia de trabalho. O perfil registrado desta experiência apresentou dois picos distintos, sendo que o valor máximo do primeiro foi de 18.350 cercárias, ao 30o dia, e o segundo, foi de 19.800, ao 50o dia da experiência (Tabela 1). O índice de infecção dos moluscos pela linhagem S foi de 75%.

2. Linhagem H

2.1 - Índice de mortalidade dos moluscos

A percentagem de mortalidade foi verificada, tanto no grupo de moluscos infectados com a linhagem H, como nos normais, tomados como controle da experiência (Tabela 2). O primeiro registro ocorreu no grupo controle GC, ao 50o dia após a data da infecção. No grupo de animais infectados GI, a percentagem de 6% foi a primeira registrada e aconteceu ao 60o dia de trabalho. O índice mais alto obtido neste grupo foi de 31%, anotado ao final da experiência. Os demais índices de mortalidade registrados no intervalo dos pontos acima referidos e a constância com que se manteve a mortalidade do GC podem ser observados na Tabela 2.

2.2 - Eliminação de cercárias

A eliminação de cercárias H iniciou-se no 26o dia após a data da exposição dos moluscos ao parasita e estendeu-se até ao final do trabalho experimental. Dois picos bem distintos foram evidenciados no perfil de eliminação destas larvas, sendo que o primeiro apresentou o ponto máximo de 27.000 unidades larvárias, ao 50o dia, e o segundo de 9.300, ao 70o dia a infecção. O índice de infecção dos caramujos pela linhagem H foi de 100%. Os demais dados, pertinentes aos grupos infectados e controle, estão expostos na Tabela 2

5. Análises estatísticas

A análise de heterogeneidade e paralelismo realizada com as linhagens humana e silvestre está resumida na Tabela 3, onde se pode verificar que apresentou:

indicando que a linhagem S é aproximadamente 3 vezes mais virulenta que a linhagem H, com uma confiança que vai de 1,5 a 6 vezes, aproximadamente.

 

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Comparando os dados parasitológicos que foram obtidos no estudo das linhagens H e S maranhenses com os que foram encontrados por Bastos e col.3, quando trabalharam com as linhagens H e S do Vale do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, verificou-se nítida diferença entre eles, a respeito da adaptabilidade do parasita ao seu hospedeiro intermediário. As linhagens do Maranhão parecem ser mais adaptadas ao molusco da Região (B. glabrata) do que o esquistossomo paulista à B. tenagophila, por apresentarem superioridade numérica na eliminação de cercárias e de moluscos infectados, além do fato dos esporocistos amadurecerem mais precocemente. Estas observações estão de acordo com os conhecimentos históricos que citam ser o estabelecimento da esquistossomose na região Nordeste anterior ao da região Sudeste brasileira e, também, com os trabalhos publicados sobre a esquistossomose autóctone do Vale7, 8, 9, 10, 11, 12 que mostram baixos índices de infecção dos moluscos pelo verme e maturação tardia dos esporocistos3,5.

Outras divergências verificadas entre as linhagens das duas Regiões em análise estão relacionadas com a virulência do parasita para as Biomphalaria, determinada pela taxa de mortalidade dos caramujos. Em São Paulo, a linhagem S apresentou-se com baixa virulência, sem diferenças significativas entre os grupos GI e GC, durante toda a fase da experiência. Entretanto, a linhagem H agrediu demasiadamente o hospedeiro, chegando a 80% de mortalidade, ao 60o dia de trabalho 2, 3 Na região da Baixada Maranhense, o ocorrido foi exatamente o contrário. A linhagem S apresentou-se três vezes mais virulenta do que a linhagem H, com uma confiança que vai por volta de 1,5 a 6 vezes (Tabelas 1, 2 e 3).

A mortalidade dos moluscos tomados como controle da experiência não foi considerada nos estudos estatísticos, pelas seguintes causas: a mortalidade foi sumariamente pequena (3%), mantendo-se constante durante todo o experimento, e incapaz de afetar o paralelismo das duas retas.

Os valores probíticos da mortalidade foram homogêneos, tanto para linhagem H como para a S, ou para seu conjunto (H + S). Embora sejam interpretadas por duas retas diferentes, ambas não se afastam significativamente do paralelismo, dando um conjunto total "não significativo". Este fato nos leva a deduzir que os esquistossomos oriundos da região estudada da Pré-Amazônia, quer seja da linhagem H ou da linhagem S, têm uma mesma forma de ataque que lhe é específica, distinguindo-se somente na sua virulência, o que se pode ver na potência R (Tabela 3), de aproximadamente três vezes. Deduz-se, ainda, que a linhagem H da região da Baixada Maranhence se adapta melhor à B. glabrata simprática do que a linhagem S. Possivelmente, a relação entre o molusco e a linhagem murina seja a mais recente interação da Baixada, chegando até ser desfavorável ao S. mansoni.

 

AGRADECIMENTOS

Aos professores L. A. Magalhães e L. C. de S. Dias, pelas valiosas sugestões científicas.

À Diretoria Regional da SUCAM, na pessoa do Dr. Ernani Wilson Bezerra Carneiro; ao CNPq e à CAPES, pela viabilização do trabalho.

Ao Prof. Fernando de Ávila Pires, pela taxonomia dos roedores.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 22/04/1982
Aprovado para publicação em 28/06/1982

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