SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue3On the deontology of government interventionism in the health sectorReport on the first authochtonous cases of schistosomiasis mansoni in the Northwest Region of Minas Gerais State (Brazil) author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 no.3 São Paulo June 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000300010 

Paracoctidioidomicose: atendimento a nível de assistência primária a saúde

 

The treatment of paracoccidioidomycosis at primary health level

 

 

Sérgio Pripas

Centro de Saúde I - São Carlos - Rua Amadeu Amaral, s/no -13560 - São Carlos, SP

 

 


RESUMO

Discute-se o tratamento de pacientes com paracoccidioidomicose a nível de assistência primária a saúde. Foram tratados 8 pacientes no Centro de Saúde I, de São Carlos, SP (Brasil), empregando-se o cetoconazol, durante um ano, na dose de 400 mg diários, em uma única tomada. Em todos os pacientes tratados, houve remissão do quadro clínico e melhora dos exames laboratoriais. Não houve relato de efeitos colaterais. Conclui com proposta de tratamento da paracoccidioidomicose, a nível de rede básica de saúde.

Unitermos: Paracoccidioidomicose, quimioterapia. Cetoconazol, uso terapêutico. Assitência primária à saúde.


ABSTRACT

The treatment of paracoccidioidomycosis, with ketoconazole, at public health level is discussed. Eight patients were treated with single daily doses of 400 mg of ketoconazole for one year. The patients were treated at Health Center I in S. Carlos, Brazil. All patients treated showed clinical remission and an improvement in radiological findings. No side-effects were reported. The benefits of this treatment at Health Centers, under the administrative, social and economic aspects are stressed.

Uniterms: Paracoccidioidomycosis, drug therapy. Ketoconazole, therapeutic use. Primary health care.


 

 

INTRODUÇÃO

A paracoccidioidomicose, a mais importante micose sistêmica na América Latina, endêmica em várias regiões do Brasil, tinha até há poucos anos sua terapêutica limitada aos sulfamídicos e à anfotericina-B. Neste contexto, o cetoconazol, derivado imidazólico de uso oral, surgiu como uma droga promissora, de baixa toxidade e amplo espectro. 3,4,5,7,10,11,14

Pelas características da doença e principalmente do tratamento, o paciente, em geral, vem sendo tratado por especialistas, em centros mais complexos como hospital-escola, e freqüentemente em caráter de hospitalização.

Através da padronização de normas e simplificação de procedimentos, o atendimento ao paciente com paracoccidioidomicose mostra-se possível a nível da rede de unidades sanitárias, com vários benefícios para o paciente e instituições que atendem essa infecção.

A paracoccidioidomicose constitui um dos problemas de saúde pública do Município de São Carlos, Estado de São Paulo. O presente trabalho relata experiência de tratamento, a nível de assistência primária a saúde, de pacientes com essa micose, naquele Município.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

No período de junho de 1983 a fevereiro de 1986, 9 pacientes com paracoccidioidomicose foram tratados no Centro de Saúde I, Município de São Carlos, Estado de São Paulo, com cetoconazol, pelo período de um ano.

O diagnóstico etiológico da micose foi estabelecido através do quadro clínico, exame radiológico, exame direto de material oriundo de secreção ou das lesões e exame histopatológicos. Estes exames foram realizados na unidade local do Instituto Adolfo Lutz ou em laboratórios particulares do Município.

Os pacientes eram agendados para atendimento mensal, passando por uma pré-consulta, na qual a atendente de enfermagem registrava as queixas, peso é medicação anterior. Eram então submetidos à consulta médica, retornando com a atendente na pós-consulta, onde recebiam informações sobre sua doença, orientação quanto aos exames a serem realizados, assim como orientação sobre o tratamento.

A dose diária do cetoconazol administrada por via oral foi de 400 mg, em uma única tomada 3,5,6,7,8,11,14. Todos os pacientes foram avaliados periodicamente através de consultas médicas, e a intervalos maiores, para exames radiológicos e laboratoriais, que incluíam hemograma, velocidade de hemossedimentação, uréia, creatinina, transaminases, glicemia e urina tipo I. Nos casos necessários houve encaminhamento do paciente a especialistas e hospitalização. Após suspensão da medicação, ao término do tratamento, os pacientes continuaram a ser avaliados periodicamente, de maneira minuciosa, para confirmar se continuavam em remissão clínica do quadro.

 

RESULTADOS

Os dados sobre identificação dos pacientes e a doença encontram-se na Tabela 1, não diferindo dos encontrados na literatura.1,2,3,4,6,9,12,13

 

 

A idade dos pacientes variou de 15 a 65 anos, com média de 44,3 anos. Dos 9 pacientes, oito eram do sexo masculino, sendo todos da raça branca. O tempo conhecido de doença variou de um a 36 meses, com tempo médio de 9,6 meses. Um paciente (caso no 2) abandonou o tratamento, não tendo sido localizado. Dois pacientes já haviam sido tratados. Um paciente (caso no 1) foi tratado com sulfadiazina e devido à resistência à esta droga optou-se pelo tratamento com anfotericina-B na dose total de 2 grs., com o qual obteve-se a remissão clínica. Após 7 meses, apresentou recidiva. Outro paciente (caso no 7), foi tratado por 9 meses com sulfas sem melhora clínica.

Nos oito pacientes que se submeteram ao tratamento, houve remissão no quadro clínico e melhora radiológica. Em nenhum caso houve efeito colateral devido à droga.

Na Tabela 2 apresentamos o custo da medicação comparado ao da anfotericina-B e da sulfadiazina. Para efeito de comparação, foram incluídas as drogas empregadas no tratamento da tuberculose, como modelo de tratamento assistencial em saúde pública.

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados apontam, como uma importante perspectiva em Saúde Pública, o tratamento da paracoccidioidomicose, a nível de assistência primária a saúde, com cetoconazol, muito embora outros estudos controlados sejam necessários.

Neste estudo, foi proposto o acompanhamento dos pacientes, a longo prazo, visando maior segurança no critério de "cura", uma vez que a avaliação imunológica, ideal neste casos, nem sempre é possível dentro da realidade da rede básica de saúde.

Dentro de uma nova perspectiva de política de saúde, no Brasil, que vem sendo estruturada dentro dos princípios de assistência primária a saúde, o atendimento de uma afecção endêmica, como a paracoccidioidomicose, mostra-se bastante promissor a nível da rede básica de saúde.

Do ponto de vista administrativo, estaríamos utilizando uma rede de serviços já existentes e estruturada para este atendimento, proporcionando ao paciente a educação, tratamento e acompanhamento de sua doença. Sob o ponto de vista da saúde pública esta rede está preparada para exercer a vigilância epidemiológica da paracoccidioidomicose, que poderia fornecer dados, tais como, prevalência, incidência, distribuição geográfica e outros relativos ao perfil epidemiológico desta afecção. Estaríamos ainda integrando as diversas instituições que dão atendimento a estes casos, respeitando-se os conceitos de integração, regionalização e hierarquização.

Sob o ponto de vista social, salientamos a importância do paciente ser tratado em seu local de origem, dispensando transporte para outra região e evitando hospitalização, salvo em casos de eventuais complicações. Desta forma, o paciente participa de maneira mais ativa de seu tratamento, mantendo relativas condições de trabalho nesse período.

Quanto ao aspecto econômico, embora o custo da anfotericina-B seja menor, os gastos com a hospitalização e pessoal trazem grandes encargos para a instituição além dos inconvenientes causados ao paciente pela própria internação. Comparando os custos de tratamento entre cetoconazol e sulfadiazina, este último apresenta ligeira vantagem econômica. Contudo, considerando-se que o tratamento com os sulfamídicos é mais indicado para casos benignos10, não tratados anteriormente, e considerando os relatos de resistência às sulfas4 o cetoconazol traz as vantagens de uma droga eficaz, com amplo espectro deatividade e boa tolerabilidade.

Concluímos que o atendimento da paracoccidioidomicose, a nível de assistência primária a saúde, mostra-se promissor e atualmente só é possível com o uso de drogas com propriedades do cetoconazol, necessitando, porém, de outros estudos controlados.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Antonio Ruffino Neto, Professor de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, e ao Dr. João Paulo Marrara, na revisão deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CAMPOS, E. P.; SARTORI, J.C.; HETCH, M. L.; FRANCO, M. F. Clinical and serologic features of 47 patients with Paracoccidioidomycosis treated by Amphotericin B. Rev.Inst Med.trop. S. Paulo, 26: 212-7, 1984.         [ Links ]

2. CUCÉ, L. C. Tratamento de paracoccidioidomicose. J. derm, 2(11):5, 1986.         [ Links ]

3. DEL NEGRO, G. Ketoconazole in Paracoccidioidomycosis: a long-term therapy with prolonged follow-up. Rev.Inst.Med.trop. S. Paulo, 24: 27-39, 1982.         [ Links ]

4. DEL NEGRO, G. Tratamento, controle de cura, profilaxia. In: Del Negro, G.; Lacaz, C. da S.; Piorillo, A.M. Paracoccidioidomicose: Blastomicose sulamericana. São Paulo, Sarvier, 1982. p. 271-83.         [ Links ]

5. DEL NEGRO, G. Peculiaridades na terapêutica das micoses sistêmicas. Rev.Ass.med.bras., 31: 47-51, 1985.         [ Links ]

6. DILON, N. L.; HABERMANN, M. C; MARQUES, S.; LASTÓRIA, J. C.; STOLF, H. O.; SILVA, N. C. A.; BARRAVIEIRA, S. R. C. S.; MORCELI, J. Ketoconazole: tratamento da Paracoccidioidomicose no período de dois anos. An.bras.Derm., 60: 45-8, 1985.         [ Links ]

7. GOMES, M. C. O. Tratamento da paracoccidioidomicose com ketoconazole. Rev .Inst Med.trop.S.Paulo, 25: 127-32, 1983.         [ Links ]

8. GONÇALVES, A. P. Paracoccidioidomicose: atualidade e classificação. An.bras.Derm., 60(Supl. 1): 271-80, 1985.         [ Links ]

9. LACAZ, C. da S. Micoses e geografia médica. In: Lacaz, C. da S.; Baruzzi, R. G.; Siqueira Jr., W. Introdução à geografia médica do Brasil. São Paulo, Ed. Edgar Blucher, 1972. p. 368- 87.         [ Links ]

10. LACAZ, C. da S. Passado, presente e futuro da paracoccidioidomicose. An. bras. Derm., 59: 83-8, 1984.         [ Links ]

11. MARCONDES, J.; MEIRA, D. A.; MENDES, R. P.; PEREIRA, P. G. M.; BARRAVIEIRA, B.; MOTA, N. G. S.; MORCELI, J. Avaliação do tratamento da Paracoccidioidomicose com o ketoconazole. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 26: 113-21, 1984.         [ Links ]

12. MARQUES, S. A.; FRANCO, M. F.; MENDES, R. P.; SILVA, N. C. A.; BACILI, C.; CURCELLI, E. D.; FERRACIN, A. C. M.; OLIVEIRA, C. S.; TAGLIARINI, J. V.; DILLON, N. L. Aspectos epidemiológicos da Paracoccidioidomicose na área endêmica de Botucatu (São Paulo-Brasil). Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 25: 87-92, 1983.         [ Links ]

13. PAN-AMERICAN SYMPOSIUM ON PARACOCCIDIOIDOMYCOSIS, 1st, Medellin, 1971. Proceedings. Washington, D.C., Pan American Health Organization, 1972. (PAHO - Scientific Publication, 254).         [ Links ]

14. RESTREPO, A.; GOMES, I.; CAVO, L. E.; ARANGO, M. D.; GUTIERREZ, F.; SANIN, A.; ROBLEDO, M. A. Treatment of Paracoccidioidomycosis with ketoconazole: a three year experience. Amer J.Med., 74: 48- 52, 1983         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 6/8/1986
Reapresentado em 22/7/1987
Aprovado para publicação em 18/1/1988