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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.22 no.3 São Paulo June 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101988000300012 

Cisticercose humana diagnosticada em hospital geral, São Paulo, SP (Brasil)

 

Human cysticercosis in a general hospital in S.Paulo, Brazil

 

 

Aluízio de Barros Barreto MachadoI; Carmen Silvia de Melo PialarissiII; Adelaide José VazII

ISeção de Líquido Cefalorraqueano da Divisão de Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, s/ no - 01246 - São Paulo, SP -Brasil
IISeção de Sorologia da Divisão de Biologia Médica do Instituto Adolfo Lutz - Av. Dr. Arnaldo, 351-10o andar - 01246 - São Paulo , SP - Brasil

 

 


RESUMO

Foi realizado estudo retrospectivo de pacientes internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo (Brasil), no período de 7 anos (1979 a 1985), tendo sido diagnosticados 260 casos de cisticercose, correspondendo a 0,2% do total estudado. Os dados obtidos mostraram uma distribuição aproximadamente igual quanto ao sexo e o acometimento maior na faixa etária de 20 a 50 anos (53,8%). A neurocisticercose foi a forma mais freqüente e seu elevado percentual (91,5%) foi atribuído às características da população estudada. Apesar do recente desenvolvimento da tecnologia diagnostica e terapêutica específicas, o tempo de permanência hospitalar médio foi de 35 dias e a letalidade média de 14,6%, apontando para a necessidade de medidas profiláticas através de programas de saúde pública.

Unitermos: Cisticercose, incidência. Epidemiologia. Hospitalização.


ABSTRACT

In this retrospective study of 126,968 in-patients at the Hospital das Clínicas of S. Paulo Medical School, S. Paulo, from 1979 to 1985, cysticercosis was diagnosed in 260 (0.2%) of them Epidemiological data obtained from these 260 patients showed a dose distribution with regard to sex, and the age group from 20 to 50 years old was the most affected (53.8%). Neurocysticercosis was the most frequent and the high rate (91.5%) was understood to be due to the characteristics of specific the patients studied. Despite the recent development of the diagnostic and therapeutic technology, the average length of hospitalization was 35 days and the rate of lethality 14.6%, pointing to the need for preventive measures on the part of public health programs.

Uniterms: Cysticercosis, occurrence. Epidemiology. Hospitalization.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos epidemiológicos efetuados em países em desenvolvimento, onde predominam os climas tropical e subtropical, têm mostrado que as condições sócio-econômicas favorecem a proliferação de doença de grande importância à Saúde Pública.7,12,14

A cisticercose humana, doença causada pelo Cysticercus cellulosae, larva da Taenia solium, agrupa-se entre aquelas entidades, pela elevada incidência, pela gravidade dos quadros clínicos e pela precariedade dos recursos terapêuticos específicos.2,17

Programas de Saúde Pública direcionados a obter a redução da incidência do complexo teníase-cisticercose têm sido adotados com sucesso em alguns países europeus.8,12

Apesar das dificuldades de ordem biológica, estatística e técnica inerentes a uma investigação epidemiológica19,20, relatos fracionários diversos levam à conclusão de que a cisticercose humana tem distribuição geográfica mundial, sendo freqüente na Asia, Europa, África e, principalmente, na América Latina.12,19

México, Peru, Chile e Brasil têm sido apontados como os países latino-americanos onde é maior a incidência de pacientes internados por neurocisticercose16, a forma mais comum e grave da doença que reflete, aproximadamente, a morbidade da cisticercose humana15.

No Brasil, alguns estudos sobre neurocisticercose realizados em serviços especializados em Neurologia de São Paulo2,18,20 têm fornecido subsídios relevantes à investigação de aspectos epidemiológicos da cisticercose. Carecem estes estudos, pelas dificuldades já citadas, de informações sobre as demais formas da cisticercose humana, as quais permitiriam um dimensionamento mais adequado do problema sanitário. Por outro lado, a atualização contínua destes estudos é contribuição necessária à vigilância epidemiológica, uma das principais medidas que visam à erradicação da cisticercose humana.4,8

O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns aspectos epidemiológicos atuais da cisticercose humana em São Paulo, obtidos em pacientes internados.

 

MATERIAL E MÉTODOS

De 126.968 pacientes internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), no período de 1o de janeiro de 1979 a 31 de dezembro de 1985, excluídas as reinternações, foi feito diagnóstico de cisticercose em 260 (0,2%). Esse diagnóstico foi feito com base nos critérios clínicos, radiológicos e imunológicos3,10,18 adotados pelo HCFMUSP. Em alguns casos a cirugia e a autópsia confirmaram o diagnóstico.

Os seguintes dados foram obtidos: incidência, distribuição por idade e sexo, distribuição por diagnóstico clínico-topográfico, distribuição por tempo de permanência hospitalar, letalidade.

 

RESULTADOS

A incidência da cisticercose em pacientes internados foi estudada através de freqüência percentual de internações, obtida a partir dos dados apresentados na Tabela 1.

 

 

As Tabelas 2, 3, 4 e 5 mostram, respectivamente, a distribuição dos 260 casos com diagnóstico de cisticercose, segundo sexo/idade; diagnóstico clínico topográfico; tempo de permanência hospitalar; e letalidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A incidência da neurocisticercose em pacientes atendidos em serviços de Neurologia de São Paulo tem sido objeto de algumas publicações que apontam, no período de 1939 a 1979, para uma percentagem de 0,31 a 2,98 dos atendimentos1,2,9,17,20. No entanto a literatura é pobre em citações sobre a incidência de cisticercose em hospitais gerais. No HCFMUSP, Machado11 observou a incidência de 0,2% no período de 1969 a 1978. Os dados da Tabela 1, obtidos no período de 1979 a 1985, na mesma instituição, mostraram que a incidência média atualizada permanece rigorosamente igual. A freqüência anual de internações foi bastante oscilante na série histórica apresentada, fato já assinalado por Spina-França17 para pacientes portadores de neurocisticercose no período de 1947 a 1955, indicando não haver tendência atual de redução da freqüência da doença entre os pacientes internados.

A caracterização da população estudada, quanto ao sexo, foi similar às descritas na literatura2,16,21 e apontou para uma distribuição aproximadamente igual: 50,4% do sexo masculino e 49,6% feminino. A idade por ocasião do diagnóstico variou entre 1 e 83 anos, sendo a cisticercose mais freqüente nas terceira, quarta e quinta décadas, confirmando as observações de Schenone16 e Gobbi6 e sugerindo que as faixas etárias mais atingidas são as economicamente mais produtivas.

Dos 260 casos de cisticercose internados, 238 (91,5%) tiveram diagnóstico de neurocisticercose, valor já esperado tendo em vista que a forma neurológica é a mais grave e, como apontam os levantamentos anatomopatológicos6,15 a mais freqüente. Considerando as características da população avaliada neste estudo, as demais formas de cisticercose não diferem em valores relativos dos registrados na literatura16.

No presente trabalho não foram incluídas as reinternações dos pacientes. Entretanto em cerca de metade dos casos o doente com neurocisticercose é internado mais de uma vez16. Estudos realizados no México, entre 1970 e 1972, revelaram que o custo de hospitalização de um paciente com diagnóstico de neurocisticercose é de cerca de US$ 1.20013.

Escalante5 observou, no período de 1965 a 1974, em 276 pacientes com neurocisticercose, um tempo de permanência hospitalar médio oscilando entre 42 e 46 dias. Em nossa população, o tempo de permanência médio foi de 35 dias, mediana de 28 dias, fato justificado pelo desenvolvimento da tecnologia diagnóstica e terapêutica obtido na última década às custas de novos investimentos.

Considerando o elevado número de casos assintomáticos que não são submetidos a critérios diagnósticos específicos, é difícil avaliar a letalidade por cisticercose15. Não há dúvidas, porém, de que a neurocisticercose é a responsável pela grande maioria dos óbitos, seja pela gravidade da mesma, seja em decorrência das complicações do seu tratamento. A letalidade por neurocisticercose mostrada na literatura tem diminuído com o avanço recente das medidas terapêuticas adotadas. Segundo Schenone16, até 1950 era de 63,6% (em 110 casos), caindo para 32,7% (em 905 casos) nas três últimas décadas. Em São Paulo, as principais publicações mostram índices de 14,9% (em 47 casos)17, 25,9% (em 166 casos)2 e 18% (em 233 casos)20. Em nossa amostragem a taxa média foi de 14,6% (260 casos) para cisticercose, valor que está de acordo com os acima referidos, tendo em vista que a maioria dos casos (91,5%) tinha diagnóstico de neurocisticercose. Esta observação mostra ainda que persiste elevada letalidade por esta moléstia.

Os aspectos epidemiológicos apresentados indicam que a cisticercose continua tendo representação nosológica importante na população estudada, tanto pela sua letalidade como pelo seu alto custo sócio-econômico.

Respeitadas as limitações deste trabalho que, nos moldes de outras publicações sobre o tema, incluiu apenas o estudo de formas mais graves que motivaram a internação dos casos, é possível concluir que a cisticercose humana mantém-se endêmica, provavelmente porque a carência de investimentos inviabiliza a execução adequada dos Programas de Saúde Pública.

 

AGRADECIMENTOS

À Divisão de Arquivo Médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo na pessoa de seu diretor, Dr. Luiz Carlos Arcon, pelos dados fornecidos.

 

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Recebido para publicação em 4/8/1987
Reapresentado em 12/11/1987
Aprovado para publicação em 17/11/1987