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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.24 no.2 São Paulo Apr. 1990

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101990000200011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Eletroferótipos de rotavírus em crianças com e sem quadros de gastroenterite

 

Electropherotypes of rotavirus in children with and without gastroenteritis

 

 

Cristovão CostaI; José Alberto Neves CandeiasII; Edna Lilian Lira CapelettiII

IDepartamento de Ciências da Saúde do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia — Alameda Cosme Ferreira, 1756 — Caixa Postal 478 — 69011 — Manaus, AM — Brasil
IIDepartamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo — Av. Prof. Lineu Prestes, 1374 — 05508 — São Paulo, SP — Brasil

 

 


RESUMO

Com o objetivo de definir os tipos eletroféróticos de rotavírus identificados em material fecal de crianças com e sem quadros de gastroenterite, foram analisadas mil amostras de fezes, obtidas de dois grupos infantis, na faixa etária de 0 a 12 meses, sendo 500 amostras denominadas de "Caso" e 500 identificadas como "Controle", estas últimas obtidas de crianças sem quadros diarréicos. Encontrou-se positividade de 14,8% no primeiro grupo, com 5 eletroferótipos curtos e 11 eletroferótipos longos e, no segundo grupo, 0,8% somente com 3 eletroferótipos longos.

Descritores: Rotavírus, isolamento. Gastroenterite.


ABSTRACT

It was defined the electropherotypes of rotavirus indentified in stools of a groups (named "case") of 500 children with diarrhea, ranging in age from 0 to 12 months. A group (named "control") of 500 children of the same age group, without diarrhea or respiratory infections, were evaluated. Humam rotavirus was detected in 14.8% of the children with diarrhea. Of the positive samples 5 had the "short" and 11 the "long" electropherotype. In the control group rotavirus was detected in 0.8% of children and all the three positive samples had "long" electropherotype.

Keywords: Rotaviruses, isolation. Gastroenteritis.


 

 

INTRODUÇÃO

As gastroenterites infantis constituem um dos principais problemas de saúde pública, sendo causa de alta morbidade e mortalidade em recém-nascidos e lactentes nos países em desenvolvimento3,4,7. Ocorrem, anualmente, em todo o mundo, cerca de 500 milhões de casos de diarréia, resultando direta ou indiretamente em 10 milhões de óbitos; em 1980, estimou-se que ocorreram nos países do Terceiro Mundo 8 milhões de episódios de diarréia em crianças de idade inferior a cinco anos, com cerca de 5 milhões de óbitos17.

Os rotavírus são importantes agentes etiológicos das gastroenterites agudas em animais de várias espécies11. Em crianças, na faixa etária de seis meses a dois anos, tem significativa participação, isoladamente, ou associados a outros agentes de diarréias, como enterobactérias2. Também em quadros diarréicos de adultos é importante a participação dos rotavírus19.

Os rotavírus possuem genoma de ARN bicatenário e dividido em 11 segmentos, que podem ser separados em gel de poliacrilamida, conforme suas massas moleculares, variando estas de 2,04 x 106 a 0,23 x 106 daltons8. Lourenço e col.12 propuseram o agrupamento destes segmentos em 4 aglomerados, compreendendo o aglomerado I os 4 primeiros segmentos, o II, os segmentos 5 e 6, o III, os segmentos 7,8 e 9 e o IV os segmentos 10 e 11. Conhecem-se hoje diferentes perfis eletroferotípicos de rotavírus isolados de espécies animais diferentes, como de cepas de rotavírus isolados da mesma espécie6,10,12. O estudo do perfil genômico dos rotavírus permitiu sua divisão em 5 grupos eletroféróticos (A-E), que apresentam como característica diferentes associações dos segmentos 7,8 e 9.13. Nos casos humanos consideram-se ainda dois tipos eletroféróticos definidos pelos segmentos 10 e 11 e designados por "longo" e "curto", conforme a extensão de migração daqueles segmentos no gei5,7,14. Podem encontrar-se padrões com segmentos adicionais, caracterizando possíveis infecções mistas1,18.

O objetivo do presente trabalho é verificar a ocorrência dos eletroferótipos de rotavírus na cidade de São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram coletadas no serviço ambulatorial de um Hospital da cidade de São Paulo, 500 amostras de fezes de crianças da faixa etária de 0 a 12 meses de ambos os sexos, com quadro clínico de diarréia, denominadas amostras CASO, e igual número de amostras de fezes de crianças sem quadro clínico de diarréia, denominadas amostras CONTROLE, no período de janeiro a dezembro de 1986.

As fezes foram colhidas em recipientes plásticos com capacidade de 100 ml, sendo mantidas a -20 °C até o início de seu processamento.

A extração do ARN viral das fezes e a eletroforese em gel de poliacrilamida foram conduzidas de acordo com a metodologia preconizada por Laemmli11, com modificações introduzidas por Pereira e col.14. As fezes eram preparadas em suspensão a 10-20% em tampão Tris/HC1 0,1 M com pH a 7,3, eram homogeneizadas e clarificadas a baixa centrifugação. O sobrenadante contendo partículas virais era desproteinizado com uma combinação de fenolclorofórmio. A eletroforese do ARN foi corrida em gel de poliacrilamida a 7,5% a uma corrente constante de 20 mA por 4-5 horas em temperatura ambiente. A coloração do gel foi feita com nitrato de prata com a técnica proposta por Herring e col.8.

 

RESULTADOS

Das 500 amostras de fezes de crianças com diarréia, 74 (14,8%) foram positivas e destas, 8 (1,6%) não puderam ser classificadas eletroferótipicamente; das sem diarréia, somente 4 (0,8%) foram positivas (Tabela).

 

 

Os resultados obtidos, quanto à análise dos eletroferótipos dos casos diarréicos e normais estão descritos na Tabela e Figura .

As amostras, nas quais os 11 segmentos apresentavem boa nitidez, foram alocadas nas combinações descritas por Lourenço e col.12, com algumas modificações no grupo III, composto pelos segmentos 7, 8 e 9, que, segundo aquele autor, indicavam sempre duas situações em que cada uma das combinações Illb, IIIc, IIIe e IIIf podiam ocorrer. Para tornar mais claros nossos achados, o grupo III foi por nós representado da seguinte maneira: IIIb1, IIIb2; IIIc1, IIIc2; IIIe1, IIIe2; IIIf1, IIIf2 e IIIg este último já evidenciado anteriormente em São Paulo e no Pará14 (Figura).

As combinações dos grupos eletroforéticos foram representadas por uma letra maiúscula e um algarismo, sendo o 1 para o eletroferótipo longo e o 2 para os curtos, com o que se define o eletroferótipo da amostra estudada (Tabela).

 

DISCUSSÃO

Pereira e col.14 evidenciaram a diversidade de eletroferótipos, nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Pará, com prevalência do eletroferótipo longo em 68,1% dos casos; o tipo curto foi encontrado em 13% dos casos e em 18,8% não foi possível a classificação. Em Maceió, Houly e col.9 também evidenciaram a diversidade genômica dos rotavírus humanos. Nas pesquisas desenvolvidas em nosso meio, os estudos sobre rotavírus humanos têm sido feitos basicamente em crianças com diarréia9,14 . O presente trabalho, envolvendo dois grupos de crianças da mesma faixa etária, com e sem diarréia, também evidenciou a variedade genômica dos rotavírus circulantes tanto em um quanto em outro grupo.

A Tabela discrimina os padrões eletroforéticos obtidos com as amostras de rotavírus das crianças Caso e Controle. Do total de 66 amostras positivas e classificadas pela EGPA, pelo menos 11 (16,67%) pertenciam ao eletroferótipo curto e 55 (83,33%) ao longo. Os eletroferótipos longos foram predominantes, embora dentre estes haja uma acentuada variedade nas combinações dos segmentos. Foram encontrados 22 eletroferótipos do tipo F2 e 17 do G2. Entre os eletroferótipos curtos, prevaleceu o denominado A1, com quatro dos 11 tipos encontrados, não se encontrando tipos iguais aos descritos por Pereira e col.14, e Houly e col.9. Em relação aos eletroferótipos longos há algumas considerações a serem feitas para os tipos G2, J2, L2,12 e O2; dos tipos G2 e F2 foram encontrados dois de cada um, na cidade do Rio de Janeiro e um do L2 em São Paulo14. Em Alagoas foram encontrados oito eletroferótipos do L2 dois do I2 e um do O29.

A distribuição dos eletroferótipos do grupo Caso por zonas metropolitanas foi analisada; observando-se que a maior incidência ocorreu na zona sul, com 48 (72%) dos eletroferótipos, sendo que o eletroferótipo F2 foi o mais encontrado, seguido do G2, ambos do tipo longo; o F2 foi encontrado também nas zonas norte e leste, enquanto que o G2 somente na norte. Na zona oeste encontrou-se o menor número de eletroferótipos. Dentre os curtos, encontram-se três dos eletroferótipos B1 na zona sul. Não encontramos explicação para esta distribuição, a menos que se considere sua possível relação com o nível sócio-econômico e de saneamento. A zona oeste e parte da zona metropolitana sul compreende grupos populacionais economicamente mais privilegiados, enquanto na zona leste e na restante parte da zona sul, encontram-se populações menos favorecidas do ponto de vista econômico e em termos de saneamento, o que poderia explicar nossos achados para a zona sul, pelo menos.

Não devemos esquecer que a amostra estudada era formada por crianças em atendimento ambulatorial e portanto originárias de famílias com menor poder aquisitivo. É possível que haja predominância de certos eletroferótipos em ambientes de baixo saneamento.

Igualmente estudou-se a distribuição sazonal dos eletroferótipos durante o ano de 1986 sendo os tipos F2 e G2 os maio prevalentes, apresentando o F2 sua maior incidência no mês de maio (outono) e o G2 no mês de agosto (inverno), ambos do tipo longo. Dentre os tipos curtos, o A1 com 4 eletroferótipos, só foi encontrado nos meses de outubro e novembro. Encontrou-se somente um eletroferótipo dos designados como D1, E1, J2, L2, M2, P2 e Q2 ao longo do ano.

No grupo Controle encontraram-se em quatro amostras de fezes somente três eletroferótipos, todos eles, igualmente, do tipo longo; destes, dois foram classificados como eletroferótipos O2, os outros com um de cada, em J2 e N2. Os eletroferótipos encontrados neste grupo também foram evidenciados no grupo Caso, dos quais os tipos J2 e O2 já haviam sido encontrados em crianças com diarréia9,13.

A Tabela mostra o eletroferograma das amostras obtidas das crianças estudadas. Observa-se tanto no aglomerado I quanto no III a ausência do conjunto a. Neste último encontramos o conjunto g não referido por Lourenço e col.12.

O estudo do genoma segmentado de rotavírus . humanos e de outros animais vem adquirindo importante significado no estudo epidemiológico da infecção causada por estes vírus, com evidências de circulação de cepas de rotavírus com diferentes padrões eletroforéticos em surtos de diarréia infantil7,9,16.

A EGPA é uma técnica qua apresenta sensibilidade da ordem de 97,14%, quando comparada com o ensaio imunoenzimático e a imunomicroscopia eletrônica, tendo ainda a vantagem de detectar amostras que, não possuindo antígenos comuns do grupo A, que parece constituir a maioria dos rotavírus identificados, não são diagnosticados através dos testes de ensaio imunoenzimático15. Embora se saiba que tais variações na mobilidade eletroferótica, não estão necessariamente relacionadas a sorotipos, elas fornecem importantes informações epidemiológicas15.

Dada a sua simplicidade, a eletroforese em gel de poliacrilamida permite um diagnóstico etiológico rápido do quadro diarréico, tornando assim possível interromper medicação antibiótica instituída, frente a uma suspeita de diarréia bacteriana. Constitui-se ainda em instrumento útil da vigilância epidemiológica, permitindo definir surtos epidêmicos ocasionados por diferentes tipos eletroforéticos de rotavírus, caracterizar sua origem e acompanhar sua evolução.

 

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Recebido para publicação em 27/9/1989
Aprovado para publicação em 23/1/1990