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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.26 no.3 São Paulo June 1992

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101992000300003 

Atividades extra-curriculares e prevenção ao abuso de drogas: uma questão polêmica1

 

Extra-curricular activities and the prevention of drug abuse: a polemic question

 

 

Vera Aparecida Carvalho; Beatriz Carlini-Cotrim

Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina - São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

O presente trabalho descreve dados colhidos entre 16.117 estudantes de primeiro e segundo graus, de quinze cidades brasileiras, sobre a prática de algumas atividades não curriculares e o consumo de álcool e drogas. Não foi encontrada, na ampla maioria dos casos, nenhuma associação entre praticar esportes, artes e atividades comunitárias e o consumo dessas substâncias. Mas foi encontrada correlação negativa fraca, mas constante, entre consumo de álcool e drogas e freqüência a atividades religiosas. Os achados são discutidos à luz de alguns preconceitos correntes na sociedade brasileira, que rotula o jovem sem ocupação definida como drogado em potencial. Discutem também as implicações do fato de entre os jovens praticantes de atividades religiosas haver uma discreta diminuição do uso de álcool e drogas.

Descritores: Consumo de bebidas alcoólicas, epidemiologia. Abuso de substâncias, epidemiologia.Estudantes, psicologia.


ABSTRACT

Data obtained from 16,117 high school students in fifteen Brazilian cities, relating to participation in a number of extracurricular activities and consumption of drugs and alcohol, are described. In the great majority of cases, no association was found between participation in artistic, community or sports-related activities and the use of these substances. On the other hand, a weak but constant negative correlation was found between alcohol/drug consumption and involvement in religious activities. The authors discuss these findings in the light of some of the current preconceptions prevailing in Brazilian society: namely, that such activities constitute effective strategies for drug use prevention; and that "idle" young persons tend to be potential drug users. They also discuss the implications of the fact among students involved in religious activities drug and alcohol consumption has been shown to be slightly lower.

Keywords: Alcohol drinking, epidemiology. Substance abuse, epidemiology. Students, psychology.


 

 

Introdução

"Esporte não é droga. Pratique!"

Adesivo usado em motos, ônibus, automóveis e materiais escolares, na cidade de São Paulo.

O consumo de substâncias psicotrópicas pela juventude é muitas vezes associado à "falta do que fazer". A prática de atividades físicas, a participação em atividades não curriculares de cunho artístico, comunitário e religioso são constantemente encaradas como instrumentos importantes no sentido de afastar jovens e crianças do contato com drogas. Tal postura se filia ao modelo preventivo conhecido pelos especialistas como "oferecimento de alternativas"4 mas sua presença vai além da definição acadêmica, permeando alguns importantes momentos do cotidiano escolar.

Assim é que Carlini-Cotrim e Rosemberg5 puderam perceber, em ampla pesquisa sobre a abordagem dedicada às drogas psicotrópicas nos livros didáticos nacionais, uma clara intenção de indicar uma série de atividades como estratégias preventivas ao consumo de drogas. Praticar esportes é o hábito mais recomendado nesses textos, seguido de alimentar-se bem, dedicar-se à leitura e evitar a preguiça5 .

Da mesma forma, em pelo menos dois programas de grande abrangência (o Pré-Vida, em nível nacional, e o já extinto "Padrões de Saúde Pública entre os Escolares do Ensino de Primeiro e Segundo Graus do Estado de São Paulo), a valorização da atividade esportiva é um tópico de destaque na prevenção ao consumo de drogas3. O Pré-Vida esteve inclusive vinculado, durante vários anos, à própria Secretaria de Educação Física e Desportos (SEED) do Ministério da Educação e Cultura, e tem presença destacada até hoje na organização dos JEBs - Jogos Escolares Brasileiros3. Já o "Padrões de Saúde Pública" chegou a construir/reformar 3.000 quadras de esportes nas escolas, como parte de sua programação anti-drogas3.

Ainda, a própria vivência das autoras do presente trabalho, junto ao professorado e a escolares, permitiu identificar forte associação, no ideário dos profissionais de ensino, entre ócio e consumo de drogas (entendendo ócio como a não participação em atividades organizadas e dirigidas por instituições tais como escola, igreja, clube, entre outras).

O presente estudo verifica a associação entre a participação sistemática em atividades esportivas, religiosas, comunitárias e artísticas e o consumo de álcool e outras drogas, em uma amostra de 16.117 estudantes de primeiro e segundo graus de 15 cidades brasileiras.

 

Metodologia

Os dados foram obtidos a partir da aplicação de um questionário de auto-preenchimento, fechado e anônimo, e integram informações coletadas em ampla pesquisa de amplitude nacional, realizada em 1989 pelo CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina1. O universo da pesquisa foi constituído por estudantes de primeiro e segundo graus (quinta série em diante) da rede estadual de 17 cidades: Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São Paulo (SP), Bauru (SP), Catanduva (SP), Espírito Santo do Pinhal (SP), Piracicaba (SP), Guarapuava (PR), Ponta Grossa (PR) e Santos (SP) e da rede particular de quatro cidades (Brasília, Curitiba, Fortaleza e São Paulo). No presente trabalho foram excluídas as cidades de Bauru (SP) e Espírito Santo do Pinhal (SP), por problemas de digitação dos dados de interesse. Para as demais foram incluídos somente os estudantes de sétima série em diante, conforme justificado posteriormente.

A amostra de cada uma das 15 cidades foi obtida em dois estágios, após uma estratificação realizada de acordo com a localização e o tamanho das escolas. No primeiro estágio sortearam-se as escolas e, no segundo, as turmas (classes) a serem pesquisadas.

O questionário utilizado é uma adaptação testada, em termos de compreensão e confiança, do instrumento proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e desenvolvido pela "WHO Research and Reporting Project on the Epidemiology of Drug Dependence''12 . Seu conteúdo consta de vinte questões centrais ("core") sobre dados sócio-demográficos e padrão de uso não médico de psicotrópicos (tabaco, álcool, maconha, cocaína, estimulantes, alucinógenos, inalantes, tranquilizantes, barbitúricos, opiáceos, orexígenos). Integram também o questionário, em sua versão brasileira, mais dez questões opcionais para estudantes a partir da sétima série do primeiro grau. Estas tratam das relações do estudante com a família, o trabalho, participação em atividades esportivas, artísticas, comunitárias e religiosas, sendo estes últimos quatro itens o objeto do presente trabalho. As questões opcionais não constavam dos questionários dos alunos de quinta e sexta séries pois a menor alfabetização e a conseqüente maior dificuldade em responder às perguntas, demandariam tempo excessivo no preenchimento dos mesmos por parte dos mais novos, acarretando menor qualidade de dados.

O questionário foi aplicado coletivamente, em sala da aula, sem a presença do professor. Profissionais especialmente treinados para uma orientação clara e isenta distribuíram o questionário, explicando brevemente os objetivos da pesquisa. Enfatizavam aos alunos que o preenchimento do questionário era voluntário, podendo ser devolvido em branco. Sua devolução era feita em uma urna, colocada à frente da sala de aula.

Mais informações sobre a metodologia de aplicação e desenvolvimento do questionário, assim como da amostragem, podem ser obtidas em Carlini e cols1,2.

Para efeito deste estudo considerou-se:

usuário de drogas: aquele estudante que consumiu pelo menos uma vez nos últimos trinta dias alguma (ou várias) substância(s) psicotrópica(s) integrante(s) do questionário, à exceção de álcool e tabaco.

usuário de álcool: aquele estudante que tomou alguma bebida alcoólica nos últimos trinta dias.

Em relação à participação em atividades sociais, utilizou-se como critério a freqüência atual, pelo menos uma vez por semana, em:

a) atividades esportivas,

b) atividades religiosas,

c) atividades artísticas: teatro, música, pintura ou dança.

d) atividades comunitárias: associações de bairro, sindicatos, instituições de caridade ou partidos políticos.

A associação entre o uso atual de álcool e outras drogas e as variáveis em questão foi medida através dos testes Qui-Quadrado ou da Prova de Fisher8 (dependendo do n envolvido na análise de cada caso). A intensidade da associação foi determinada pelo coeficiente de Yulle. Só foram apresentados os resultados cuja probabilidade de rejeição da hipótese de nulidade fossem iguais ou menores que 0,05.

Segundo Jack Levin9 a estatística de Yulle pode ser interpretada da seguinte maneira:

 

Resultados

Do total de 16.117 estudantes pesquisados, 44,9% declararam haver consumido bebidas alcoólicas nos últimos trinta dias e 8,8% outras substâncias psicotrópicas. Em relação à prática de atividades não curriculares, 48,9% declararam praticar uma atividade, 25,4% duas ou mais atividades e 25,7% nada fazer. Nas Figuras 1 e 2, pode-se observar que esta distribuição praticamente não sofre alteração quando se separam os estudantes entre usuários e não usuários de álcool (Figura 1) e drogas (Figura 2).

 

 

 

 

Num segundo momento, verificou-se com que freqüência cada uma das atividades era realizada. Conforme Tabela 1, o esporte é praticado por 62% da amostra (média das 15 cidades), as atividades religiosas por 28%, as artísticas por 14% e as comunitárias por 4%. A Tabela 1 indica, em cada cidade, a intensidade e o sinal da associação entre o consumo atual de álcool e drogas e a prática das atividades estudadas. Os dados só são apresentados para os casos em que se obtiveram associações estatisticamente significantes (p <0,05).

 

 

Na grande maioria dos casos, nenhuma associação foi encontrada entre prática de esportes, atividades comunitárias e artísticas e o consumo de álcool e outras drogas. Quando isto ocorreu, a correlação foi fraca ou, no máximo, moderada (exceção feita somente para Salvador, em relação às atividades sindicais). Por outro lado, observou-se, com freqüência, correlação negativa fraca entre o uso de álcool (11 cidades) e drogas (6 cidades) e a prática de atividades religiosas. Tal achado, pela sua constância, justificou análise mais detalhada da questão da prática religiosa, descrita na Tabela 2. Como pode ser observado, a maioria dos estudantes que freqüentavam atividades religiosas referiam ser católico ou protestante. Os protestantes (tradicionais e pentecostais) foram os que apresentaram correlações negativas de maior intensidade.

 

 

Discussão

Os dados do presente trabalho indicam que, pelo menos em relação à população estudada (jovens estudantes do meio urbano brasileiro), a prevenção ao consumo de álcool e drogas através do simples preenchimento do tempo livre parece ter pouco efeito. Dados semelhantes foram detectados recentemente em relação a 1.779 estudantes norte-americanos que freqüentavam o "college": usuários e não usuários de drogas participavam indistintamente de atividades esportivas, clubes, associações e organizações políticas6.

Os presentes achados põem em discussão algumas idéias bastante difundidas na sociedade brasileira, que tendem a conceber o tempo livre como propiciador de comportamentos de risco.

Tal concepção implica na identificação do estudante pobre, que gasta seu tempo livre nas ruas, como um sujeito potencialmente drogado. Implica ainda, com grande freqüência, numa sobrecarga do cotidiano de crianças e adolescentes de classe média e alta que passam, muitas vezes de modo não-voluntário, a freqüentar cursos de dança, judô, música, línguas, computação e outros, numa verdadeira maratona produtivista.

Já participar de atividades religiosas associou-se fracamente a um menor uso de álcool e drogas. Neste caso, é legítimo supor que tal resultado se explique, não pela ocupação de tempo que tais atividades demandam, mas pelo código moral subjacente a grupos religiosos. De fato, em extensa revisão sobre as atitudes em relação ao álcool, Crawford6 apontou para uma maior tolerância de grupos não religiosos em relação ao consumo de álcool. Já Knupfer e Room7 encontraram uma proporção razoável de abstêmios norte-americanos que justificavam tal comportamento pela sua moral religiosa. Como afirmam Selnow e Crano10, em relação a este assunto: "Nestes grupos, a iniciação de membros adolescentes inclui não só a introdução aos credos do grupo, mas também, talvez por mecanismos sutis de pressão, a consciência dos padrões e códigos que unem os membros da organização".

Os achados do presente trabalho não invalidam, no entanto, a utilização de estratégias de ocupação do tempo livre como instrumento auxiliar em programas preventivos do consumo de psicotrópicos, nem tampouco a importância de se reinvindicar espaços de lazer e convivência para os jovens de grandes conglomerados urbanos. Os resultados encontrados parecem apenas deslocar a discussão do "fazer x não fazer" para a do como fazer, tendo como pressuposto que um jovem realizado em suas potencialidades (e não apenas ocupado, ou assimilando padrões e códigos) deve ser a meta adequada de programas que visem a saúde mental do adolescente. A ânsia de ocupar o jovem a qualquer custo passa, nesta perspectiva, a ser substituída pela preocupação com a qualidade - em termos de vivência, criatividade, espaço para questionamento que atividades não curriculares possam vir a oferecer.

Tal raciocínio poderia ser a base também para se discutir a existência de maior número de usuários de álcool2 e drogas1,2 entre estudantes que trabalham, quando comparados com seus colegas que só estudam. O fato de ter seu tempo fora da escola ocupado, mas em uma atividade possivelmente pouco gratificante, fruto das condições em que o trabalho infantil é realizado no Brasil, atuaria no sentido contrário ao da crença de que "o trabalho enobrece (sempre) o homem".

O achado de uma única correlação negativa perfeita ocorrida em Salvador, em relação a atividade sindical e o uso de drogas, deverá demandar estudos futuros que procurem entender melhor as especificidades da prática sindical daquela cidade.

Concluindo, estudos futuros, neste campo, merecem ser desenvolvidos. É possível que novos recortes na coleta de informações forneçam resultados complementares e enriquecedores dos obtidos aqui, como, por exemplo, a divisão entre atividades praticadas em grupos formalmente organizados (instituições) e as praticadas informalmente11.

 

Agradecimentos

Á Rebeca Souza e Silva pelas sugestões e orientações na análise dos dados.

 

Referências Bibliográficas

1. CARLINI, E.A.; CARLINI-COTRIM, B.; SILVA FILHO, A.R.; BARBOSA, M.T.S. II Levantamento Nacional sobre o Uso de Psicotrópicos em Estudantes de 1o e 2o Graus. São Paulo, Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas CEBRID/Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, 1990.        [ Links ]

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Recebido para publicação em 29.8.1991
Reapresentado em 7.2.1992
Aprovado para publicação em 19.2.1992

 

 

Separatas/Reprints: V.A. Carvalho - Rua Botucatu, 862 - 1o andar - 04023-062 - São Paulo, SP - Brasil.
Publicação financiada pela FAPESP. Processo Saúde Coletiva 91/4994-0
1 Realizado com auxílio financeiro da United Nation International Drug Control Problem (UNDCP)
2 MONTEIRO, M.G. & CARLINI-COTRIM, B. O uso de bebidas alcoólicas entre estudantes brasileiros de primeiro e segundo graus 1991. [Dados Inéditos].