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Revista de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.26 n.5 São Paulo out. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101992000500006 

Estudo da ocorrência de enteroparasitas em hortaliças comercializadas na região metropolitana de São Paulo - SP, Brasil. II - Pesquisa de protozoários intestinais*

 

Study of the occurrence of intestinal parasites os vegetables comercially traded in the metropolitan area of S.Paulo, SP - Brazil. II - Research into protozoan cysts

 

 

Carlos Augusto Fernandes de OliveiraI; Pedro Manuel Leal GermanoII

ISecretaria Municipal de Abastecimento de São Paulo, SP - Brasil
IIDepartamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP - São Paulo, SP - Brasil

 

 


RESUMO

Foram analisadas hortaliças "in natura", comercializadas na Região Metropolitana de São Paulo, SP-Brasil, visando à pesquisa e à identificação de cistos de protozoários de interesse médico. As hortaliças, constituídas de 50 amostras de cada variedade, consistiram em: alface (Lactuca sativa), variedades lisa e crespa, escarola (Chichorium sp) e agrião (Nasturtium officinale). Os resultados evidenciaram elevados percentuais de contaminação em todas as variedades de hortaliças analisadas, porém as freqüências de protozoários foram maiores no agrião. As amostras de alfaces apresentaram os menores percentuais de contaminação, enquanto que a escarola apresentou valores geralmente situados entre o agrião e as alfaces. Observou-se uma grande variedade de protozoários, cujas freqüências de ocorrência na população residente na Região Metropolitana de São Paulo são igualmente elevadas. Os mais freqüentes foram Entamoeba sp (com 4 e 8 núcleos) e Giardia sp. Foram também isolados cistos de Iodamoeba sp, Endolimax sp e Chilomastix sp. Os elevados níveis de contaminação fecal encontrados nas amostras analisadas apontam para a importância dos alimentos na transmissão de protozoários intestinais.

Descritores: Vegetais, análise. Protozoários, isolamento. Contaminação de alimentos, análise.


ABSTRACT

Vegetables in natura , commercially traded in the metropolitan area of S.Paulo, Brazil, were analised by means of the appropriate methodology with a view to discovering and identifying protozoan cysts of medical interest. The vegetables under study consisted of 50 samples of each of the variaties listed bel ow: lettuce (Lactuca sativa) - oily leaves and crisphead varieties, endive (Chicorium sp) and water-cress (Nasturtium officinale). Results showed high rates of contamination in all the varieties of vegetable analysed. However, the water-cress was the one which presented the highest frequencies of enteroparasites. Both the oily leafes and crisphead varieties of lettuce presented the lowest rates of contamination, whereas endive presented values ranking, in general, between those of the lettuce and those of the water-cresses. A great variety of those protozoans which occur frequently in the population resident in the metropolitan area of S. Paulo were observed in the samples, the most frequent being Entamoeba sp (with 4 and 8 nuclei) and Giardia sp. Cysts of Iodamoeba sp, Endolimax sp and Chilomastix sp were also recovered from the samples, thus corroborating the occurrence of high rates of fecal contamination. The significance of these kinds of food in the transmission of protozoans is discussed in the light of the results obtained.

Keywords: Vegetable, analysis. Protozoan, isolation. Food contamination, analysis.


 

 

Introdução

As enfermidades intestinais causadas por protozoários constituem sério problema de saúde pública em diversos países, inclusive o Brasil, onde os coeficientes de prevalência de algumas protozooses ainda são consideravelmente elevados8.11.

Neste contexto, sobressai a importância que as hortaliças, principalmente aquelas consumidas in natura , podem desempenhar como vias de transmissão de protozoários intestinais6, uma vez que, no Brasil, esses alimentos freqüentemente são adubados com dejetos humanos, ou irrigados com águas contaminadas com matéria fecal7.

Apesar da relevância do tema em questão, são poucos os trabalhos nacionais referidos na literatura médica que estabelecem graus de contaminação de hortaliças por protozoários intestinais. Hernandez e col.4 (1981) encontraram cistos de Entamoeba sp (com 4 e 8 núcleos), Giardia sp e Iodamoeba sp em amostras de hortaliças provenientes de 12 hortas localizadas no Município de Biritiba Mirim - SP, um dos principais produtores de verduras do Estado. Mota e col.6 (1982), em Curitiba - PR, e Miche e Morganti5 (1983), em São Paulo - SP, atestaram igualmente a ocorrência de protozoários em hortaliças, em altos percentuais.

Com base nestes aspectos, costituem objetivos do presente trabalho:

• pesquisar, qualitativametne, a presença de cistos de protozoários de interesse médico em amostras de quatro tipos de hortaliças, provenientes de diferentes produtores do Estado de São Paulo e comercializadas na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP);
• estabelecer as possíveis diferenças entre os percentuais de contaminação dos tipos de hortaliças selecionadas.

 

Material e Método

Utilizaram-se os critérios adotados por Oliveira e Germano7 (1992), estabelecendo-se em 50 o número de amostras para cada tipo de hortaliça: alface (Lactuca sativa), variedade lisa e crespa, escarola (Chicorium sp) e agrião (Nasturtium officinale), perfazendo um total de 200 amostras.

A técnica de análise das amostras, empregada no presente estudo, foi realizada de acordo com Oliveira e Germano7 (1992).

Foi utilizada a distribuição T de Student para o cálculo do teste de duas proporções, com aproximação normal, a fim de comprovar ou não a existência de diferenças significantes entre os níveis de contaminação das quatro variedades de hortaliças analisadas, em relação aos cistos de protozoários encontrados.

Adotou-se, como nível de rejeição, alfa igual a 0,05 e o valor de Z de alfa igual a 1,96 (Berquó e col.2, 1981).

 

Resultados

Os níveis de contaminação por protozoários, obtidos para as quatro variedades de hortaliças variaram de 18,0% para a alface lisa, a 60,0% nas amostras de agrião (Tabela 1).

 

 

Através do teste de duas proporções, observou-se diferenças estatisticamente significantes entre as amostras de agrião e alface lisa (Z = 4,31), entre agrião e alface crespa (Z = 3,43) e agrião e escarola (Z = 2,60).

A análise das freqüências de cada tipo de protozoário (Tabela 2) evidenciou uma predominância na ocorrência de cistos de Entamoeba sp (com 4 e 8 núcleos) e de Giardia sp, em todas as variedades de hortaliças. No entanto, os cistos de Endolimax sp apresentaram freqüência elevada apenas nas amostras de agrião. Outros parasitas recuperados, com menor freqüência, incluíram Iodamoeba sp e Chilomastix sp.

 

 

As amostras de agrião revelaram as maiores freqüências de ocorrência para todos os tipos de protozoários, enquanto que as de alface lisa foram as que apresentaram os níveis mais baixos de contaminação.

O teste de duas proporções, aplicado aos valores apresentados na Tabela 2, revelou diferenças estatisticamente significantes entre os percentuais de contaminação da alface lisa e crespa, apenas com relação à freqüência de Entamoeba sp, com 4 núcleos (Z = 2,30); de alface lisa e escarola, com relação às freqüências de Entamoeba sp, com 8 núcleos (Z = 2,95) e Iodamoeba sp (Z = 2,04); de alface lisa e agrião, com relação a todos os tipos de protozoários, a exceção de Chilomastix sp; de alface crespa e agrião, em relação à contaminação por cistos de Endolimax sp (Z = 3,50); e, de escarola e agrião, em relação à contaminação por Entamoeba sp, de 4 núcleos (Z = 2,08) e Endolimax sp (Z = 4,53).

Não houve diferenças estatisticamente significantes entre os níveis de contaminação apresentados nas amostras de alface crespa e escarola.

 

Discussão e Conclusões

Os resultados obtidos revelaram elevados percentuais de contaminação por protozoários, em todas as variedades de hortaliças estudadas. As freqüências de cistos foram, significativamente, maiores no agrião, seguido da escarola, alface crespa e alface lisa (Tabela 1). Esta seqüência já havia sido observada em estudo anterior7, com relação aos níveis de contaminação por helmintos, o que reforça a importância da estrutura vegetal no grau de contaminação de hortaliças. Assim, o agrião, com folhas múltiplas e separadas, permite maior fixação dos cistos, ao contrário da alface, cujas folhas largas e firmemente justapostas dificultam a aderência. A escarola, possuindo características físicas intermediárias, apresenta níveis de contaminação situados entre aquelas duas variedades.

Há uma relação inversa entre os percentuais de contaminação e a qualidade das condições sanitárias do ambiente e as práticas de plantio utilizadas6. Assim, alguns autores1,3 admitem que as culturas de alface recebem cuidados mais adequados por parte dos horticultores, o que pode ter contribuído para a obtenção de percentuais de contaminação relativamente menores nessas hortaliças. Os cistos de protozoários sobrevivem por períodos de tempo mais prolongados no meio aquático. Este fato poderia justificar as freqüências superiores, sobretudo de Endolimax sp, encontradas no agrião, cujo cultivo exige terrenos permanentemente inundados.

Os protozoários recuperados apresentam importância para a saúde pública, pois indicam contaminação fecal de origem humana e/ou animal, tal como ocorre com Entamoeba sp (4 núcleos), Giardia sp e Iodamoeba sp que apresentam espécies de ocorrência no homem, nos animais ou em ambos1,9.

Dentre os protozoários mais freqüentemente encontrados destacou-se a Giardi sp, cuja prevalência na população residente na Região Metropolitana de São Paulo é igualmente elevada, o que evidencia a contaminação de origem humana11.

Os cistos de Entamoeba sp, de 4 núcleos, característicos de Entamoeba histolytica, não se distinguem morfologicamente dos cistos de Entamoeba moshkovskii9, amebídeo de vida livre que normalmente habita os esgotos, o que poderia justificar as altas freqüências obtidas (Tabela 2). Contudo, algumas amebas de vida livre, tais como Acanthamoeba e Naegleria, cuja transmissão é favorecida pela exposição às águas contaminadas por esgotos, são apontadas como causadoras de meningoencefalites no homem12. Por esta razão, embora estes gêneros não tenham sido observados, é possível que as hortaliças analisadas, notadamente o agrião, apresentem importância considerável na epidemiologia dessas enfermidades10.

Outros protozoários recuperados, tais como Endolimax sp e Chilomastix sp, são exclusivos do homem9 e comprovam a ocorrência de contaminação por fezes humanas. Os cistos de Entamoeba sp., de 8 núcleos, característicos de Entamoeba coli, bem como Endolimax nana e Chilomastix mesnili, embora não se disponha de dados específicos, apresentam, possivelmente, níveis de ocorrência elevados na população humana da Região Metropolitana de São Paulo9. Embora não sejam considerados patogênicos, estes protozoários apresentam grande valor como indicadores de contaminação fecal de origem humana nas hortaliças. Por esta razão, recomenda-se que os exames parasitológicos sejam realizados rotineiramente, ao lado da colimetria, como instrumento auxiliar para o monitoramento sanitário desses produtos.

Considerando-se a magnitude dos resultados obtidos no presente estudo, bem como o risco à saúde que as hortaliças podem apresentar, quando contaminadas por protozoários intestinais, ressalta-se a necessidade da adoção de medidas que propiciem uma melhoria do quadro apresentado. Deste modo, as atividades de vigilância sanitária devem ser concentradas na produção das hortaliças, através de ações educativas destinadas aos produtores, e do monitoramento laboratorial das águas destinadas à irrigação das hortas.

A desinfecção das hortaliças, previamente ao consumo, pode apresentar relevância considerável no sentido de minimizar os riscos de transmissão de enteroparasitoses através desses alimentos, uma vez que a lavagem simples não reduz a contaminação por cistos.

Um método simples e eficaz, tanto para os cistos de protozoários, quanto para ovos de helmintos, consiste na imersão das folhas em água aquecida a 60°C, por dez minutos. Este procedimento, pela maior facilidade de execução em nível doméstico, deve ser especialmente considerado na formulação de programas educativos direcionados à população consumidora desses alimentos.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido para publicação em 9.1.1992
Reapresentado em 19.3.1992
Aprovado para publicação em 24.5.1992

 

 

Separatas/Reprints: P.M.L. Germano - Av. Dr. Arnaldo, 715 - 01246-904 - São Paulo, SP - Brasil.
Publicação financiada pela FAPESP. Processo Saúde Coletiva 91/4994-0
* Extraído da Dissertação de Mestrado "Estudo da ocorrência de enteroparasitas em hortaliças comercializadas na região metropolitana de São Paulo, SP - Brasil", apresentada à Faculdade de Saúde Pública da USP, em 1991.

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