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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.27 no.1 São Paulo Feb. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101993000100008 

Fatores associados à assistência pré-natal entre mulheres de baixa renda no Estado de São Paulo, Brasil1

 

Factors associated with pre-natal care among low income women, State of S.Paulo, Brazil

 

 

Maria José Duarte OsisI; Ellen HardyII; Aníbal FaúndesII; Graciana AlvesI

ICentro de Pesquisas e Controle das Doenças Matemo-Infantis de Campinas (CEMICAMP) - Campinas, SP - Brasil
IICEMICAMP e Departamento de Tocoginecologia. Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) - Campinas, SP - Brasil

 

 


RESUMO

São apresentados resultados de pesquisa que avaliou o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), realizada em 1988, no Estado de São Paulo, Brasil. Foram entrevistadas 3.703 mulheres de baixa renda que tinham entre 15 e 49 anos de idade, utilizando um questionário estruturado e pré-testado. Os resultados referem-se às 669 mulheres grávidas durante 1987 ou 1988 que responderam às questões sobre assistência pré-natal, parto e puerpério. Foi analisada a associação entre algumas de suas características sociodemográficas e comparecimento às consultas pré-natais, a idade gestacional em que foi feita a primeira consulta e o número total de consultas. Os resultados mostraram associação entre características sociodemográficas e comparecimento ao pré-natal. A maior percentagem de grávidas que fizeram pré-natal tinham mais que o primeiro grau de escolaridade. Foi maior a proporção de mulheres que começaram o pré-natal até o terceiro mês de gravidez entre aquelas que não tinham filho vivo (74%), que viviam com um companheiro (70%), que tinham mais que o primeiro grau de escolaridade (88%) e as que moravam no interior do Estado (71%).

Descritores: Cuidado pré-natal, utilização. Fatores socioeconômicos. Idade gestacional.


ABSTRACT

This paper presents the results of a study carried out in 1988 in the State of S. Paulo, with the purpose of evaluating the Program for Women's Integral Health Care. A total of 3.703 low income women of 15-49 years of age were interviewed using a structured, pre-tested form. The data in this paper relate to 669 women who had been pregnant during 1987 or 1988 and who were asked about pre-natal, delivery and post-partum care. The association between some of their socio-demographic characteristics and the pre-natal care received, months pregnant at the time of first visit and total number of visits, were analysed. Results showed an association between socio-economic characteristics and pre-natal care received. The greatest percentage of pregnant women who had had pre-natal care was found among those with more than elementary education. The highest percentage of women who started pre-natal care before the third month of pregnancy was found among those who had no living children (74%), were in union (70%), had at least some high school education (88%) and lived in the interior of the state (71%). The results show that it is necessary to increase the coverage and quality of prenatal care so as to improve perinatal results.

Keywords: Prenatal care, utilization. Socieconomic factors. Gestational age.


 

 

Introdução

A assistência pré-natal tem como objetivos principais assegurar uma evolução normal da gravidez; preparar a mãe para um parto, puerpério e lactação normais; identificar o mais rápido possível as situações de risco, para que seja possível prevenir as complicações mais freqüentes da gravidez e do ciclo puerperal9.

Diversos estudos descrevem a associação entre a assistência pré-natal e os resultados perinatais, particularmente o peso ao nascer, mortalidade perinatal e até a mortalidade infantil. O comparecimento às consultas de pré-natal e o seu número total têm apresentado correlação positiva significativa com o peso ao nascer e com a probabilidade de uma mulher ter um recém-nascido de peso normal7, 8,12,14.

A literatura também tem identificado associação significativa entre mortalidade perinatal e o número de consultas de pré-natal em dois países da América Latina, incluindo o Brasil3,8. Não fica claro, entretanto, se essa é uma relação direta ou indireta, devido à associação do baixo nível socioeconômico tanto com maus resultados perinatais como com falta de pré-natal.

Há evidências na literatura de associação entre classe social e mortalidade perinatal e prematuridade2,10,16, e, ainda, com morbi-mortalidade infantil4,5,13. Caldwell5, em estudo de dados nigerianos, deu particular importância à escolaridade materna como fator determinante de menor mortalidade infantil. A influência da escolaridade permanece mesmo após ser controlada por outras variáveis sociais e pode ser independente da qualidade dos cuidados recebidos durante a gestação.

Não há definição clara de como classe social baixa ou aspectos socioeconômicos influenciam os resultados perinatais. Entretanto, há algumas indicações de que a nutrição, a estatura e o trabalho da mãe durante a gravidez são fatores associados a tais resultados8.

A diferença no tratamento médico durante o pré-natal e o pós-parto pode ser também componente importante nessa associação.

Por outro lado, a influência do pré-natal sobre os resultados perinatais tem-se mantido depois de controlada por alguns fatores socioeconômicos como escolaridade; e além disso, a influência da escolaridade sobre os resultados perinatais tende a desaparecer quando a gestante consegue bons cuidados pré-natais8.

A importância da assistência pré-natal levou a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo a se preocupar com as deficiências nessa área, constatadas no Estado: em 1981, 30% das mulheres com baixa renda não fizeram pré-natal comparadas com somente 5% entre as de classe média ou alta11. Este problema foi uma das razões para pretender implantar, no Estado, o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), já que um dos seus objetivos é justamente melhorar a cobertura e a qualidade da assistência pré-natal.

Para avaliar algumas das atividades desenvolvidas pelo PAISM, no Estado de São Paulo, foi feito um estudo, em 1988, na área metropolitana da cidade de São Paulo e no interior. A pesquisa permitiu identificar as principais deficiências do sistema tanto na cobertura como na qualidade do atendimento15.

O presente trabalho apresenta resultados desse estudo referentes à assistência pré-natal. No grupo de mulheres que estavam grávidas em 1987/88 foi analisada a associação entre algumas de suas características sóciodemográficas e comparecimento aos cuidados pré-natais, a idade gestacional em que foi feita a primeira consulta e o número total de consultas.

 

Material e Método

O estudo foi feito em 1988 em nove dos 62 então chamados Escritórios Regionais de Saúde (ERSAs) do Estado de São Paulo, que correspondem aos atuais Sistemas Unificados e Descentralizados de Saúde (SUDS). Esses órgãos da Secretaria Estadual de Saúde gerenciam a execução dos serviços que estão sob sua responsabilidade, provendo-os com seus próprios recursos ou através de articulação inter-institucional. Cada ERSA inclui vários municípios ou bairros, como na área metropolitana de São Paulo. Foram entrevistadas, em seus próprios domicílios, 3.703 mulheres de baixa renda que tinham entre 15 e 49 anos de idade. Para as entrevistas, foi utilizado um questionário estruturado e pré-testado.

As mulheres que responderam às questões sobre assistência pré-natal, parto e puerpério foram as 669 que estiveram grávidas durante 1987 ou 1988.

Para a análise dos dados foram usados os seguintes pacotes estatísticos: Statistical Package for the Social Sciences (SPSS/PC) e Statistical Analysis System (SAS). As diferenças entre os grupos foram avaliadas com o teste de qui-quadrado1. A regressão logística6 foi usada para identificar os fatores associados a ter feito pré-natal, a tê-lo iniciado até o terceiro mês de gravidez e ter feito, no total, seis ou mais consultas.

A regressão logística foi usada para identificar os fatores associados a ter feito pré-natal, tê-lo iniciado até o terceiro mês de gravidez e ter feito seis ou mais consultas no total. Todas as variáveis mostradas nas Tabelas 1, 2 e 3 foram incluídas no modelo.

 

 

 

 

 

 

Resultados

Houve uma maior percentagem de grávidas que fizeram pré-natal entre aquelas que tinham mais que o primeiro grau de escolaridade (95%), comparadas com as sem escolaridade ou que completaram no máximo o primeiro grau (85%). Esta diferença foi estatisticamente significativa (Tabela 1). Não houve diferenças significativas na percentagem de grávidas que compareceram ao pré-natal segundo idade, número de filhos vivos, estado marital, trabalho e região de residência.

Foi significativamente maior a proporção de mulheres que começaram o pré-natal até o terceiro mês de gravidez entre aquelas que não tinham nenhum filho vivo (74%)2; aquelas que viviam com um companheiro (70%); aquelas que tinham mais que o primeiro grau de escolaridade (88%), e aquelas que moravam no interior do Estado (71%). Não houve diferenças segundo idade e trabalho da mulher (Tabela 2).

As mulheres que fizeram seis ou mais consultas de pré-natal foram principalmente aquelas que tinham um filho vivo por ocasião da entrevista (61%) e as com dois ou três (58%); que viviam com um companheiro (56%); que tinham maior escolaridade (68%) e que moravam no interior do Estado (59%). Essas diferenças foram estatisticamente significativas. Com relação à idade na última gravidez e trabalho pago não houve diferenças estatísticas entre os grupos (Tabela 3).

A maior escolaridade esteve associada a ter feito pré-natal, iniciá-lo até o terceiro mês e fazer seis ou mais consultas no total. Viver com um companheiro e morar no interior foram fatores que se mostraram associados a ter iniciado o pré-natal até o terceiro mês e ter comparecido a seis ou mais consultas. O início mais precoce do pré-natal esteve também associado estatisticamente ao menor número de filhos vivos da gestante (Tabela 4).

 

 

Discussão

Os resultados confirmam a forte associação entre características socioeconômicas e comparecimento ao pré-natal, particularmente no que se refere ao nível de escolaridade da gestante. Este se associa tanto a fazer ou não controle pré-natal como ao cumprimento das normas, a respeito de início precoce e número de consultas, o que está de acordo com publicações anteriores8.

Viver com companheiro fixo, em matrimônio legal ou não, foi importante indicador de início precoce e maior número de consultas, mas não se mostrou associado ao comparecimento ou não ao pré-natal. Pode-se postular que a mulher solteira, independentemente da sua escolaridade, demora mais em aceitar a gestação e tem menos conhecimentos acerca do que fazer em caso de ficar grávida, o que poderia explicar o início mais tardio das consultas pré-natais e, conseqüentemente, também o menor número de consultas.

O comparecimento mais precoce das gestantes com menos filhos pode ser atribuído tanto às maiores dificuldades da mulher com mais filhos em sair de casa, quanto à crença de que esta já tem experiência em estar grávida e não precisa apressar-se em consultar o médico.

A associação entre morar no interior e assistência mais precoce e maior número de consultas deve-se mais ao sistema de saúde que às características das grávidas. Maior proximidade do posto ao lugar de moradia, maiores facilidades de condução e possíveis diferenças na facilidade para obter atendimento, podem ser fatores que explicam esta associação.

O contraponto desses resultados indica as deficiências de cobertura e qualidade que ainda persistem na assistência pré-natal no Estado de São Paulo. Apesar da percentagem de grávidas que fizeram pré-natal ter sido alta nas duas regiões estudadas, ainda restaram quase 15% que não fizeram sequer uma consulta. Além disso, um terço das mulheres iniciaram o atendimento após o terceiro mês de gestação, e quase a metade não chegou a fazer seis consultas no total, condições consideradas não apropriadas para assegurar um bom acompanhamento. Esse grupo esteve constituído, principalmente, por mulheres com menos escolaridade, com mais filhos, solteiras e que viviam na área metropolitana de São Paulo. Elas exigem, portanto, um esforço adicional dos serviços de saúde no sentido de serem esclarecidas a respeito da importância de se fazer um pré-natal adequado.

Esse esforço deve anteceder a chegada da cliente ao posto de saúde e corresponde ao nível mais básico de assistência, que se inicia na comunidade. Requer-se o desenvolvimento de um processo educativo voltado para as necessidades dessas mulheres, que seja capaz de alcançá-las. Concomitantemente, é indispensável assegurar-lhes sempre o acesso fácil aos serviços públicos e empenhar-se no constante treinamento dos profissionais que devem atender a essa população, para que se amplie não só a cobertura mas também melhore a qualidade da assistência, que assegure o retorno da mulher às consultas e efetivamente melhore os resultados perinatais.

 

Referências Bibliográficas

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Recebido para publicação em 26.6.1992
Reapresentado em 17.11.1992
Aprovado para publicação em 19.11.1992

 

 

Separatas/Reprits: E. Hardy - Caixa Postal 6181 -13081-970 -Campinas, SP - Brasil.
Edição subvencionada pela FAPESP. Processo Medicina 93/ 0208-5.
1 Parcialmente financiado pela Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo.
2 Refere-se a mulheres que alguma vez ficaram grávidas, mas que no momento da entrevista não tinham nenhum filho vivo (inclui grávidas pela primeira vez, abortos, natimortos ou falecidos).

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