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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol. 31 no. 1 São Paulo Feb. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101997000100005 

Consumo de substâncias psicoativas por adolescentes escolares de Ribeirão Preto, SP(Brasil). I - Prevalência do consumo por sexo, idade e tipo de substância*

The consumption of psychoactive substances by adolescents in schools in an urban area of Southeastern region of Brazil. I - Prevalence by sex, age and kind of substance

 

Gilson M. Muza, Heloísa Bettiol, Gerson Muccillo e Marco A. Barbieri
Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP - Brasil (G.M.M., H.B., M.A.B.), Departamento de Geologia, Física e Matemática da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Riberião Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP - Brasil (G.M.)

 

 

Resumo
Introdução A preocupação suscitada quanto ao consumo de substâncias psicoativas pelos adolescentes tem mobilizado grandes esforços em todo o mundo na produção de conhecimento sobre este fenômeno. Decidiu-se estudar as taxas de prevalência de consumo de substâncias psicoativas de uso lícito e ilícito, sua distribuição por idade, sexo e a idade da primeira experiência com essas substâncias, entre adolescentes escolares do Município de Ribeirão Preto, SP, Brasil.
Material e Método Um questionário devidamente adaptado e submetido a um teste de confiabilidade foi auto-aplicado a uma amostra proporcional de 1.025 adolescentes matriculados na oitava série do primeiro grau e primeiro, segundo e terceiro anos do segundo grau, das escolas públicas e privadas do município estudado. O questionário continha questões sobre o uso de dez classes de substâncias psicoativas, questões demográficas e informações de validação, além de questões de percepção e comportamento intrínseco ao consumo de drogas.
Resultados Da amostra 88,9% consumiram bebidas alcoólicas alguma vez na vida; 37,7% utilizaram o tabaco; 31,1% os solventes; 10,5% os medicamentos; 6,8% a maconha; 2,7% a cocaína; 1,6% os alucinógenos e 0,3% consumiu alguma substância a base de opiácios. As taxas de consumo cresceram com a idade, para todas as substâncias; no entanto, o uso de tabaco e de substâncias ilícitas mostrou uma desaceleração nos anos que compreendem o final da adolescência. Verificou-se que os meninos consumiram mais do que as meninas, exceto para os medicamentos, com as meninas consumindo barbitúricos, anfetaminas e tranqüilizantes em proporções semelhantes ou maiores que os meninos. A idade da primeira experiência mostrou que o acesso às substâncias psicoativas ocorreu em idades bastante precoces.
Conclusões As substâncias psicoativas, sejam lícitas ou ilícitas, são freqüentemente experimentadas na adolescência, tanto pelos meninos como pelas meninas, muitas vezes em idades bem precoces.
Abuso de substâncias, epidemiologia. Adolescência.
Abstract
Introduction Concern over the consumption of psychoactive substances by teenagers has given rise to a great wordwide effort to produce information about this phenomenon. This study set out to investigate the prevalence of consumption of legal and illegal psychoactive substances, its distribution by age, sex and age at first experience of them, among teenage pupils in county, Ribeirão Preto, SP, Southeastern Brazil.
Material and Method A self-applicable questionnaire duly adapted and submitted to a reliability test was applied to a proportional sample of 1,025 teenagers enrolled in 8th, 9th, 10th and 11th grads at public and private city schools. The questionnaire contained questions about the use of ten classes of psychoactive substances, demographic questions and validation information, as well as questions about the perception and intrinsic behavior related to drug consumption.
Results The sample of 88.9% had consumed alcoholic beverages sometime in their lives, 37.7% had used tobacco, 31.1% solvents, 10.5% medicines, 6.8% marihuana, 2.7% cocaine, 1.6% hallucinogens, and 0.3% of the sample had consumed some opiate substance. The rates of consumption increased with age for all substances; however, the use of tobacco and of illegal substances was less intense during the later years of adolescence. As to sex distribution, boys consumed more than girls, except for medicines, with girls consuming barbiturates, amphetamines and tranquilizers in proportions similar to or higher than those observed among boys. Age at first experience showed that access to psychoactive substances occurred at very early ages.
Conclusions Experimenting with psychoactive substances, whether legal or illegal, is a frequent phenomenon during adolescence, both among boys and girls, often at very early ages.
Substance abuse, epidemiology. Adolescence.

 

 

INTRODUÇÃO

A adolescência é, de longe, o grupo etário que maior preocupação suscita quanto ao consumo de substâncias psicoativas e tem mobilizado grandes esforços na produção do conhecimento a respeito deste fenômeno.

Nos Estados Unidos (EUA) o projeto "Monitoring the Future" realiza inquéritos nacionais com o propósito de produzir informações a respeito do consumo de substâncias psicoativas em amostras representativas da população de estudantes "seniors". Dados proporcionados pelo projeto revelam que o álcool e o tabaco são as duas substâncias mais consumidas, seguidos pela maconha e os medicamentos (Bachman e col.3, 1981; O'Malley e col.23, 1984; Johnston e col.14, 1987; Kozel18, 1989).

Outros inquéritos realizados em Ontário (Smart28, 1989), Londres (Swadi29, 1988) e Paris (Kandel e col.15, 1981) identificam que as substâncias mais consumidas pelos adolescentes são o álcool e o tabaco, duas substâncias psicoativas de uso lícito, e a substância psicoativa de uso ilícito mais consumida é a maconha.

Estudos epidemiológicos elaborados em países da América Latina identificam que, do mesmo modo que nos países desenvolvidos, as substâncias psicoativas mais consumidas são o álcool e o tabaco. Dentre as ilícitas, no entanto, os solventes são os mais consumidos (Loredo-Silva e col.19, 1977; Sarinana e col.26, 1982; Medina-Mora e Castro21, 1984; Maya-Sanches e Zavala20, 1986; Pelaez e col.24, 1989; Aquilar2, 1989).

No Brasil, nos últimos anos, grande número de inquéritos epidemiológicos a respeito do consumo de substâncias psicoativas foram realizados (Couto e col.12, 1981; Carlini e col.6, 1986; Carlini-Cotrin7, 1987; Carlini-Cotrin e Carlini8, 1987; Carlini-Cotrin e Carlini9, 1987). No entanto, a elaboração do instrumento de coleta, a eleição da população-alvo e a forma de apresentação dos dados apreendidos limitam o alcance dos resultados, do mesmo modo que dificultam a comparabilidade dos dados.

Com o propósito de minimizar estes problemas e oferecer dados fidedignos à comunidade científica, o CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) tem realizado inquéritos com adolescentes institucionalizados de 10 capitais brasileiras e não institucionalizados de algumas capitais. Dois inquéritos, realizados no ano de 1987 (Carlini e col.10, 1989) e em 1989 (Carlini e col.11, 1990), revelam que as bebidas alcoólicas e o tabaco são as duas substâncias mais consumidas pela população de adolescentes escolares, seguidos pelos solventes.

O objetivo do presente estudo é proporcionar informações a respeito das prevalências de consumo de substâncias psicoativas por uma amostra representativa dos adolescentes escolares do Município de Ribeirão Preto, SP.

 

POPULAÇÃO DE ESTUDO E MÉTODO

Do repertório epidemiológico disponível para abordar a questão do consumo de substâncias psicoativas, os estudos de corte-transversal, particularmente os inquéritos, cobrem satisfatoriamente os objetivos propostos pelo estudo.

A cidade de Ribeirão Preto, local do estudo, localiza-se na região nordeste do Estado de São Paulo, distante cerca de 320 km da capital do Estado. A população estimada para o ano de 1990 era de 432.180 habitantes, com aproximadamente 60.000 adolescentes com idade entre 13 e 19 anos.

O universo amostral constituiu-se de 21 escolas de primeiro e segundo graus com 12 unidades estaduais, uma municipal e 9 particulares, com 11.250 alunos matriculados na oitava série de primeiro grau e primeiro, segundo e terceiro anos do segundo grau da rede pública e privada, o que corresponde aproximadamente à faixa etária de 14 a 18 anos. A escolha dessa faixa etária foi motivada pelo fato de que nessa idade os jovens estariam mais expostos ao hábito de consumir substâncias psicoativas (Carlini e col.10, 1989; Carlini e col.11, 1990; Johnston e col.14, 1987), o que daria maior consistência às associações que se pretendia estudar. Somente foram aceitas as oitavas séries cujos alunos tinham alguma convivência escolar com os alunos do segundo grau, grupo que apresenta uma dinâmica bastante diferente daqueles que não convivem com alunos das séries do segundo grau. Na elaboração da amostra utilizou-se o modelo casual, simples e estratificado com partilha proporcional (Berquó e col4., 1981).

O instrumento utilizado no presente inquérito é uma adaptação do instrumento proposto pela OMS, o "self administered questionary" (Smart e col27., 1980). O instrumento é um questionário auto-aplicável constituído de questões classificadas em dois níveis: questões sobre o uso de dez classes de substâncias psicoativas, questões demográficas e informações de validação (essenciais) e questões de percepção e o comportamento intrínseco ao consumo de drogas (opcionais). As categorias de uso de substâncias psicoativas investigadas foram "uso na vida" (uso alguma vez na vida), uso no último ano, uso no último mês e uso diário. O instrumento foi adaptado em três estudos-pilotos (quando foram identificados e corrigidos defeitos que dificultavam a compreensão das informações buscadas); em seguida, foi submetido a um teste de confiabilidade reteste (definido por Almeida-Filho1, 1989, como sendo a consistência dos resultados obtidos por um mesmo indivíduo quando um instrumento é aplicado em épocas diferentes) com intervalo de 15 dias. Maiores detalhes sobre a validação do instrumento estão contidos em trabalho anterior (Muza22, 1991). A coleta de dados foi realizada em regime intensivo durante os meses de março a junho de 1990. Posteriormente foram codificados em folha própria e armazenados em microcomputador, através de um banco de dados criado em DBase III. Os dados, imediatamente após coletados, eram conferidos e, após a digitação, submetidos a testes para detecção de erros dessa etapa. Os testes estatísticos foram realizados utilizando-se o qui-quadrado.

 

RESULTADOS

De um total de 1.125 questionários, 11 foram entregues totalmente sem respostas e 89 deles ou não se incluíam na faixa etária dos 13 aos 19 anos, ou possuíam 4 ou mais respostas sobre consumo de substâncias psicoativas em branco, incoerentes ou claramente sem um mínimo de fidedignidade. A análise dos resultados se restringe, portanto, a 1.025 adolescentes escolares com idade entre 13 e 19 anos, matriculados nas escolas de primeiro e segundo graus da cidade de Ribeirão Preto-SP.

A faixa etária dos 16 aos 17 anos concentra a maior proporção da amostra, com 455 adolescentes (44,5%), seguida por aquela dos 13 a 15 anos com 366 (35,8%) e por fim a de 18 a 19 anos, com 202 (19,7%). As distribuições por sexo praticamente se equivalem (498 contra 523), com freqüências de 48,8% e 51,2%, respectivamente para o sexo masculino e feminino. Para essa amostra populacional, 61,6% (633) freqüentam a escola pública e 38,4% (392) freqüentam escola privada. A parcela mais expressiva (811 adolescentes - 79,6%) é constituída por católicos.

A distribuição do consumo de substâncias psicoativas encontra-se na Tabela 1. Os resultados indicam que dentre as substâncias psicoativas lícitas, as bebidas alcoólicas são as mais consumidas, com freqüências de uso na vida de 88,9%, seguido pelo tabaco com 37,7%. Entre as substâncias de uso ilícito os solventes são os mais consumidos, com taxas de uso na vida de 31,1%, seguidos pelos medicamentos (10,5%), maconha (6,2%), cocaína (2,7%), alucinógenos (1,6%) e opiácios (0,3%). Quando consideradas outras categorias de consumo como o uso no último ano, no último mês e uso diário, observa-se um decréscimo consistente quando se caminha da categoria de uso na vida para a categoria de uso diário.

 

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Outra grande classe de substâncias psicoativas lícitas - o tabaco - mostra taxas bem inferiores às bebidas alcoólicas, porém são superiores a qualquer uma das substâncias de uso ilícito. Os solventes foram as substâncias psicoativas ilícitas mais consumidas, com taxas bem maiores que qualquer outra substância desse grupo.

No grupo dos medicamentos estão incluídos os sedativos, os barbitúricos, as anfetaminas, os tranqüilizantes, os xaropes e os anticolinérgicos. Para esta categoria foi considerado unicamente o uso sem receita e/ou orientação médica. O instrumento de coleta, nesse particular, especifica claramente a condição de uso não-médico, o que faz crer que as taxas de prevalência obtidas dizem respeito apenas ao uso ilícito dessas substâncias.

O consumo de maconha ocupa a terceira posição entre as substâncias de uso ilícito, cerca de 4,6 vezes menor que os solventes. A maconha é outra substância que experimentou um importante decréscimo quando se caminha das prevalências de uso na vida (6,2%) para o uso diário (0,3%). As taxas de prevalência para a cocaína, os alucinógenos e os opiácios mostram-se bastante reduzidas (2,7%, 1,6% e 0,3%, respectivamente).

A distribuição da prevalência de consumo (na vida) por sexo é mostrada na Tabela 2. Os resultados indicam que existem diferenças estatisticamente significantes para, praticamente, todas as substâncias, com taxas de prevalência de consumo maiores para os homens, exceto para os medicamentos, mais consumidos pelas mulheres.

 

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A Tabela 3 mostra a distribuição das prevalências de consumo (na vida) de bebidas alcoólicas, tabaco e substâncias psicoativas de uso ilícito, por faixa etária. Os resultados identificam que as taxas de prevalência de uso de todas as substâncias crescem linearmente com a idade. O crescimento é mais exuberante em relação ao fumo, chegando próximo a duplicar quando se considera as faixas etárias de 13 a 15 e de 16 a 17 anos.

 

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O mesmo não ocorre com o álcool, onde as taxas de prevalência de consumo já se mostram elevadas nas faixas etárias mais jovens e continuam a crescer, na mesma proporção, em todas as outras faixas etárias. O consumo de substâncias psicoativas ilícitas mostra um crescimento importante nas taxas de prevalência, quando se avança da faixa etária dos 13 a 15 anos para a faixa dos 16 a 17 anos.

Contrariamente ao que se observa em relação ao álcool e ao tabaco, as taxas de prevalência de uso das substâncias psicoativas de uso ilícito experimentam uma clara desaceleração quando se caminha em direção às idades que correspondem ao final da adolescência (18-19 anos).

A Tabela 4 mostra a idade da primeira experiência com cada uma das substâncias estudadas. Os resultados identificam que esta amostra de adolescentes escolares concentra a primeira experiência com o consumo de todas as substâncias psicoativas nas idades de 14 a 16 anos, exceto para as bebidas alcoólicas, cuja primeira experiência ocorre, preferencialmente, antes dos 11 anos de idade.

 

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DISCUSSÃO

As comparações dos resultados obtidos no presente trabalho com outros estudos epidemiológicos realizados em locais e épocas distintas foram feitas levando-se em conta a semelhança do desenho epidemiológico utilizado naqueles estudos com a metodologia aqui empregada. A Tabela 5 resume algumas informações a respeito da metodologia empregada e das taxas de prevalência (uso na vida) das substâncias pesquisadas em cada estudo.

 

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Quando considerado o conjunto dos dados, o perfil de consumo de substâncias psicoativas pela amostra de escolares de Ribeirão Preto é semelhante àquele encontrado para a média de 10 capitais brasileiras (Carlini e col.11, 1990) e pela Cidade do México (Sarinana e col.26, 1982), onde as substâncias de uso ilícito mais consumidas são os solventes, com taxas, no entanto, bem inferiores às das bebidas alcoólicas e do tabaco. Por outro lado, nos países mais desenvolvidos, o perfil difere algo desses últimos, onde a substância de uso ilícito mais consumida é a maconha (Johnston e col.14, 1987; Swadi29, 1988; Smart28, 1989; Kandel e col.15, 1981).

Embora no presnte estudo tenha sido observado um decréscimo consistente no consumo de substâncias quando se caminha da categoria de uso na vida para a categoria de uso diário (conforme mostrado na Tabela 1), nota-se, contudo, que o perfil de consumo de substâncias se mantém o mesmo em qualquer categoria considerada.

Se forem observadas as taxas de consumo de substâncias isoladamente, algumas questões importantes emergem. As taxas de prevalência de consumo de bebidas alcoólicas pela amostra de adolescentes escolares de Ribeirão Preto são bastante altas, estão bem próximas dos índices alcançados pela amostra americana e são superiores a todos os demais estudos; embora altíssima, a prevalência de 88,9% de uso na vida pode não refletir a magnitude real do consumo, visto que nessa categoria encontram-se tanto os experimentadores quanto os usuários intensos. A taxa de 8,5% de uso diário deve ser vista com preocupação, já que nessa categoria pode estar incluído um grande contingente de indivíduos com problemas futuros com o alcoolismo.

A década de 80 mostra um declínio importante no consumo de tabaco em países desenvolvidos como o EUA e Canadá (Kaiserman e Rogers17, 1991). As ta-xas de consumo de tabaco por adolescentes dos EUA e Paris são bastante altas quando comparadas com as taxas de consumo dos adolescentes das amostras brasileiras10, 11. Não se pode deixar de destacar, no entanto, que o consumo de tabaco pelos adolescentes de Ribeirão Preto é 8 pontos percentuais maior que o consumo da média dos adolescentes de 10 capitais brasileiras.

Embora sejam considerados como substâncias lícitas, o uso intenso de álcool e tabaco guarda uma relação estreita com o uso múltiplo de substâncias psicoativas (Sailey25, 1992), fato a ser acrescentado ao rol de preocupações suscitadas pelo consumo abusivo de álcool e tabaco.

Dentre as substâncias de uso ilícito, os solventes, que se mantêm consistentemente como os mais consumidos nos países do Terceiro Mundo (Carlini e col.10, 1989; Carlini e col.11, 1990; Medina-Mora e Castro21, 1984; Carlini-Cotrin e Carlini8, 1987; Bucher e Totugui5, 1987; Godoi13 e col., 1991), mostram índices maiores que qualquer outro estudo aqui analisado.

Quando é possível uma comparação, observa-se que as taxas de consumo de medicamentos no presente estudo são bastante similares aos resultados obtidos pela amostra de Londres (Swadi29, 1988), de Ontário (Smart28, 1989) e da Cidade do México (Sarinana e col.26, 1982), porém, algo inferior à amostra de Paris (Kandel e col.15, 1981) e à amostra de 10 capitais brasileiras (Carlini e col.11, 1990); contudo, é bastante inferior aos resultados obtidos pela amostra americana (Johnston e col.14, 1987). O fato de aparecer como a segunda substância de uso ilícito mais consumida faz refletir seriamente sobre a facilidade de acesso da população adolescente a uma quantidade de medicamentos que deveriam ser parcial ou totalmente controlados pelas autoridades sanitárias.

A maconha mostra taxas de prevalência cerca de duas vezes maior que os estudos latino-americanos, porém são bem menores que as prevalências dos países desenvolvidos, ostentando uma taxa oito vezes menor que os EUA. O consumo de cocaína pela amostra de Ribeirão Preto, quando pode ser comparado, é superado pela amostra americana (Johnston e col.14, 1987) e canadense (Smart28, 1989), porém se mostra superior à amostra inglesa (Swadi29, 1988) e é cerca de 3,4 vezes maior que as taxas de consumo das capitais brasileiras (Carlini e col.11, 1990).

Os alucinógenos são consumidos numa proporção bastante similar àquela da amostra de Londres (Swadi29, 1988), superior cerca de 2,3 vezes as taxas de prevalência da amostra brasileira (Carlini e col.11, 1990) e cerca de 7,5 vezes menor que as taxas de consumo da amostra americana (Johnston e col.14, 1987). Por último, os opiácios, cujo consumo pela amostra de Ribeirão Preto é bastante baixa, é cerca de 33 vezes menor que o consumo por adolescentes escolares dos EUA (Johnston e col.14, 1987) e 1,6 vezes menor que a amostra de adolescentes escolares de dez capitais brasileiras (Carlini e col.11, 1990).

Quando das comparações transculturais dos dados de prevalências entre as diversas fontes envolvidas, dois importantes elementos chamam a atenção. O primeiro diz respeito ao perfil de consumo de substâncias psicoativas, onde se identificam dois aspectos do consumo. Um deles é observado nos países desenvolvidos, onde a substância de uso ilícito mais consumida é a maconha; um outro é identificado nos países em desenvolvimento, com os solventes como a substância de uso ilícito mais consumida. Um segundo elemento surge quando se propõe examinar comparativamente o consumo de cada substância. Por este prisma não é possível identificar nenhuma consistência nos dados sobre consumo, que permita visualizar um perfil pertinente ao mundo desenvolvido e um outro pertinente ao mundo em desenvolvimento.

Os dados do presente estudo evidenciam que determinadas substâncias são consumidas de modo semelhante aos países desenvolvidos, ao mesmo tempo que outras substâncias são consumidas segundo um perfil idêntico ao observado em países em desenvolvimento.

Apesar da escolha dos artigos citados, a partir de um mesmo desenho metodológico, algumas diferenças, mesmo que mínimas, são identificadas no modo de apreensão e apresentação dos dados, o que pode justificar, pelo menos em parte, a mesclagem dos resultados observada na análise comparativa.

Ainda coincidente com esses resultados, o consumo de medicamentos, como os barbitúricos, tranqüilizantes e sedativos, ou são mais consumidos pelas mulheres ou não mostram diferenças significativas (Swadi29, 1988; Kandel e col.15, 1981). Por outro lado, os resultados alcançados com o tabaco acompanham os mesmos resultados de várias pesquisas realizadas em países em desenvolvimento, onde os homens consomem significativamente mais que as mulheres (Couto e col.12, 1981; Sarinana e col.26, 1982; Godoi e col.13, 1991) ou consomem mais, porém sem diferenças significativas (Carlini e col.8,1987); no entanto, difere do perfil de consumo nos países desenvolvidos, onde o consumo de tabaco é maior entre as mulheres (Swadi29, 1988; Johnston e col.14,1987; Bachman e col.3, 1981).

A influência da idade na magnitude do consumo de substâncias psicoativas é um dos mais notáveis e consistentes achados da literatura, onde invariavelmente o consumo cresce com a idade. No entanto, as taxas de prevalência de uso de substâncias psicoativas de uso ilícito esboçam uma desaceleração importante nos anos finais da adolescência. Dados da literatura, de alguma forma, têm se mostrado coincidentes com os achados do presente estudo (Kandel e col.15, 1981; Smart28, 1989; Swadi29, 1988; Carlini-Cotrin8, 1987; Maya-Sanches e Zavala20, 1986; Johnston e col.14, 1987; Couto e col.12, 1981; Sarinana e col.26, 1982).

Existe um movimento característico da idade do primeiro uso em direção a uma ou outra faixa etária. Além das bebidas alcoólicas, cuja primeira experiência ocorre claramente em idades mais precoces, também o tabaco e os solventes evidenciam uma tendência em direção às idades mais jovens; o inverso ocorre com a maconha, cocaína e opiácios, onde a primeira experiência tende a ocorrer em idades posteriores. Em relação aos medicamentos e aos alucinógenos nota-se um balanço quase perfeito em torno da faixa etária dos 14 a 16 anos.

Ainda no que concerne à idade do primeiro uso, os resultados aqui apreendidos confirmam aqueles encontrados por Godoi e col.13 (1991), para todas as substâncias psicoativas, e os de Bucher e Totuqui5 (1987) e Kandel e Logan16 (1984) para as substâncias psicoativas de uso ilícito. O álcool e o tabaco, principalmente o álcool, são substâncias mais aceitas socialmente, havendo poucos esforços no sentido de inibir o consumo, o que permite um contato mais precoce (antes dos 11 anos) do adolescente com estas substâncias. Os solventes também são consumidos mais precocemente, não tanto quanto o álcool e o tabaco, por haver um certo controle social e por serem, ao mesmo tempo, de baixo custo e fácil acesso. As demais substâncias de uso ilícito têm seu primeiro uso mais tarde, provavelmente pela maior pressão social, maior custo e maior dificuldade de acesso.

Assim, corroborando os achados da literatura, os dados do presente trabalho permitem concluir que as drogas, sejam lícitas ou ilícitas, são freqüentemente experimentadas na adolescência, tanto pelos meninos como pelas meninas, muitas vezes em idades bem precoces; todas as substâncias foram mais consumidas pelos meninos, exceto os medicamentos, consumidos pelas meninas em proporções iguais ou maiores que os meninos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O consumo de substâncias psicoativas não é recente. O conhecimento deste hábito remonta aos séculos anteriores, onde sociedades primitivas utilizavam-nas de modo ritualístico. As décadas de 60 e 70, no entanto, experimentaram uma verdadeira explosão do consumo de substâncias psicoativas pelos jovens.

O fato de a primeira experiência com drogas ocorrer freqüentemente na adolescência evidencia a importância de se estudar este fenômeno nesse grupo etário. Deve-se considerar, contudo, que a imensa maioria dos jovens o faz na qualidade de experimentadores, onde apenas um pequeno contingente tornar-se-á o usuário adulto, e um contingente menor ainda desenvolverá problemas associados diretamente ao consumo de alguma substância psicoativa.

Deve-se lembrar, contudo, que os resultados aqui apreendidos dizem respeito à amostra de adolescentes escolares estudada, neste momento histórico. Não se pode, sem um mínimo de críticas, transpor os presentes resultados para os adolescentes da população geral e muito menos para os meninos de rua, cuja realidade difere profundamente da população de escolares.

Compreende-se que o consumo de substâncias psicoativas não é o único, nem o mais importante evento a se manifestar nos anos que compreendem a adolescência. As questões da sexualidade, da prostituição, da gravidez indesejada, da violência, da delinqüência e cada uma de suas conseqüências devem ser priorizadas, e freqüentemente não o são, a partir da relevância com que se manifestam em cada grupo populacional.

 

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* Parte da dissertação de mestrado "Estudo de variáveis psicossociais associadas ao consumo de substâncias psicoativas por adolescentes escolares da cidade de Riberião Preto, SP, 1990", apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, em 1991.

Correspondência para/Correspondence to: Marco Antonio Barbieri - Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Av. Bandeirantes, 3900 - 14049-900 Ribeirão Preto, SP - Brasil. E-mail: mabarbie@fmrp.usp.br
Edição subvencionada pela FAPESP. Processo 96/5999-9.
Recebido em 7.11.1995. Reapresentado em 28.6.1996. Aprovado em 30.9.1996.

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