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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.34 n.3 São Paulo June 2000

https://doi.org/10.1590/S0034-89102000000300006 

Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) em áreas do Parque Nacional da Serra da Bocaina, Brasil. I - Distribuição por habitat*
Ecology of mosquitoes (Diptera: Culicidae) in areas of Serra da Bocaina National Park, Brazil. I - Habitat distribution

Anthony Érico Guimarães, Carla Gentile, Catarina M Lopes, Alessandro Sant'Anna e Alexandre M Jovita

Departamento de Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

DESCRITORES
Ecologia de vetores#. Insetos vetores#. Culicidae#. Ecossistema tropical#. Habitat.

 

RESUMO

OBJETIVO
Estabelecer a influência exercida por três diferentes biótopos em áreas do Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB) sobre a fauna local de mosquitos.

MÉTODOS
Foram realizadas capturas mensais em ambiente silvestre e domiciliar, em isca humana, durante três diferentes períodos do dia, pelo período de 24 meses consecutivos, de janeiro de 1991 a dezembro de 1992.

RESULTADOS
Foram capturados 11.808 espécimes adultos, pertencentes a 28 espécies. Ru. reversa e An. cruzii foram predominantes, respectivamente 52,5% e 17,9% do total de mosquitos. Ru. reversa representou 59,4% do total de espécimes no ambiente de mata fechada, seguida por Ru. frontosa com 10,5% e An. cruzii com 9,9%. No ambiente formado por campos de altitude e matas de galeria, o An. cruzii predominou com 48,1%, seguido por Ru. reversa com 28,1%. No ambiente modificado pelo homem, o An. cruzii predominou com 73,7% dos espécimes. Coquillettidia chrysonotum foi a única que se apresentou preferencialmente nesse biótopo: 14,9% no intra, 19,4% no peri e 65,7% no extradomicílio. An. cruzii e Ru. reversa foram constantes em todos os ambientes ao longo do ano.

CONCLUSÕES
Com exceção de Cq. chrysonotum, com preferência pelo ambiente modificado pelo homem, os mosquitos apresentam hábitos assinantrópicos no PNSB. An. cruzii, embora assinantrópico, se aproxima e adentra o domicílio para realizar a hematofagia. A presença do Ae. serratus no extra e peridomicílio reforça a importância epidemiológica como vetora potencial de arboviroses. Os Sabethini apresentaram-se exclusivamente silvestres.

KEYWORDS
Ecology, vectors#. Insect vectors#. Culicidae#. Tropical ecosystem#. Habitat.

 

ABASTRACT

OBJECTIVE
To assess the mosquito fauna in Serra da Bocaina National Park (PNSB), by collecting information through a general survey, and investigating the population behavior in habitats within the park with different vegetation.

METHODS
Human bait collections were conducted once a month for both the forest and households, in diurnal and nocturnal periods, three time a day, throughout 24 months, from January 1991 to December 1992.

RESULTS
A total of 11,808 adult mosquitoes belonging to 28 species were collected.
Runchomyia reversa and Anopheles cruzii were the most abundant, reaching 52.5% and 17.9% of the total collected specimens, respectively. In the dense forest, Ru. reversa comprised 59.4% of the total, followed by Ru. frontosa with 10.5%, and An. cruzii with 9.9%. In the high altitude fields and in gallery forest, An. cruzii was the most abundant (48.1%) followed by Ru. reversa (28.1%). Inside households An. cruzii was also the most prominent species, representing 73.7% of the total for that location. Coquillettidia chrysonotum was the only species mainly seen in the household surroundings, where its distribution was: 14.9% (indoors), 19.4% (close to the house), and 65.7% (outdoors). An. cruzii and Ru. reversa were found throughout the whole year and captured every month.

CONCLUSIONS
Mosquitoes in PNSB present an assynanthropic behavior, except for
Cq. chrysonotum which lives preferentially in the household environment. Though An. cruzii is an assynantropic species it may approaches live near households and even invades and infest them for the blood meals. The occurrence of Aedes serratus in the household vicinity emphasizes its epidemiological importance as a potential vector of arboviruses. Sabethini are all exclusively sylvatic species.

 

 

INTRODUÇÃO

Pesquisas sobre a ecologia de insetos silvestres, vetores potenciais de doenças em Parques Nacionais, embora escassas, fornecem subsídios para a compreensão de relevantes aspectos epidemiológicos. Esses estudos facilitam a identificação, o acompanhamento e o controle desses mosquitos em relação às alterações ambientais impingidas pelo homem, que poderão ou não culminar em grandes epidemias.

Além desses aspectos, o conhecimento das populações de mosquitos em ecossistemas silvestres fornece informações sobre a sua biodiversidade e proporciona base de dados para futuros envolvimentos na incidência de doenças.

Assim, em continuidade aos estudos que vêm sendo desenvolvidos sobre a ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) em parques e reservas biológicas,7,8 o presente trabalho relata as observações em áreas do Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), no Vale do Paraíba, entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Objetivou-se verificar a influência por três diferentes biótipos.

A área estudada, o PNSB, ocupa hoje uma área de 120.000 ha, entre os municípios de São José do Barreiro (SP) ¾ principal acesso e local da sede do parque ¾, Areias (SP), Cunha (RJ), Angra dos Reis (RJ), Parati (RJ) e Ubatuba (SP), e está inserido a 22o40' e 23o20' de latitude sul e entre 44o24' e 44o54' de longitude oeste, do Vale do Paraíba ao Oceano Atlântico (Figura 1).

 

 

A partir do nível do mar, observa-se nítida estratificação na cobertura vegetal. Nos primeiros mil metros a vegetação configura-se como floresta tropical pluvial típica de encosta atlântica, com árvores altas de troncos retilíneos e grossos. Desse ponto, até aproximadamente a cota 1.700, a densa floresta é substituída por uma mata ciliar de coníferas, que parece intermediar os magníficos campos de altitude que irão caracterizar o parque até a sua parte mais alta a 2.132 metros: o Pico da Boa Vista. Nesse ponto, entrecortados por esparsos trechos de capão de mata, encontram-se araucárias, Araucaria angustifolia, e pinheiros, Podocarpus lambertii, vegetação característica de escarpas frias e secas.

A área selecionada localiza-se a aproximadamente 35 km da sede do parque, no Município de São José do Barreiro (SP), por estrada íngreme e muito acidentada, e 8 km parque adentro, pela estrada que corta o rio Mambucaba, a uma altitude de 1.700 metros do nível do mar (Figura 1).

O clima geral no PNSB pode ser definido como temperado superúmido (tU), pois, com médias anuais de temperatura abaixo de 160C e precipitações pluviométricas em torno de 1.800 mm, a região apresenta características dos tipos climáticos temperado e superúmido. Tratando-se de campos de altitude, o clima da área estudada pode ser definido como mesotérmico médio superúmido com subseca.

Segundo as aferições climáticas obtidas para os campos de altitude do PNSB, no biênio 1991/92, as médias de temperatura e precipitação pluviométrica atingiram, respectivamente, 18,40C e 1.890 mm. Os meses mais quentes durante esse período foram de dezembro a março, com médias máximas de 240C. As mais baixas temperaturas encontradas apresentaram médias mínimas de 150C no período de junho a agosto. Ao longo das observações aferiu-se como temperatura mínima -20C, em agosto de 1991, e máxima de 37,5 0C, em fevereiro de 1992. As chuvas normalmente atingem os maiores níveis de precipitação nos períodos de temperatura mais elevada, sofrendo declínio bastante acentuado nas épocas mais frias do ano, tendo sido aferidos curtos períodos de seca total nos meses de julho e agosto.

A umidade relativa do ar esteve bastante elevada durante todo o ano. Em diversas oportunidades atingiu a marca de 100%, durante a estação das grandes precipitações pluviométricas, ficando a média para esse período em 93% e em torno de 87% nos meses mais frios, de menor incidência de chuvas. Por outro lado, essas variações de umidade podem apresentar significativas alternâncias ao longo das horas do dia.

 

MÉTODOS

Foram selecionados três pontos de captura, sendo que as estações de amostragens foram as seguintes:

Estação A ¾ Próxima ao rio Mambucaba que, após formar a cachoeira de Santo Isidro, desce vertente abaixo até a cidade que lhe deu o nome. Esse é um dos pontos em que a vegetação se encontra melhor preservada, dando formação a uma mata ciliar relativamente fechada, com clima ameno, árvores com cerca de 25 m de altura e ornamentadas com bromeliáceas (Figura 2).

 

 

Estação B ¾ Compreende uma região de vale com cobertura vegetal típica dos campos de altitude e com matas de galeria formadas por arbustos de porte médio e árvores finas, retas, com cerca de 25 m de altura. Nesse local, antes da criação do Parque, havia uma estação experimental de pesquisas agronômicas. Como remanescentes da outrora rica fauna da região, observou-se a existência de exemplares de macaco-prego, Cebus apella; sagüi, Callithrix aurita; tamanduá-mirim, Tamandua tetradactyla; tatus, Dasypodidae; pequenos roedores e um exemplar de jaguatirica, Felis pardalis. Dentre as aves mais comuns ressaltam-se as presenças dos jacus, Penelope superciliares e P. obscura; da jacutinga, Aburria jacutinga; do macuco, Tinamus solitarius; e do inambus, Crypturellus obsoletus.

Estação C ¾ Para escolha dessa estação selecionou-se uma área que, embora sob a influência das mesmas condições macroclimáticas das demais, estava bem marcada pela atuação do homem na modificação fenológica da região. Para tal, utilizou-se de uma das posses ainda existentes no interior do parque, na localidade de Barreirinha (Figuras 3a e 3b).

 

 

As capturas foram realizadas mensalmente, em isca humana e em três diferentes períodos do dia, ao longo de 24 meses consecutivos, de janeiro de 1991 a dezembro de 1992.

As amostragens em ambiente exclusivamente silvestre, estações A e B, foram levadas a efeito concomitantemente nas duas estações, em três períodos distintos: diurnos (10h às 12h e 14h às 16h) e noturno (18h às 21h). A cada período de amostragem, dois componentes da equipe da pesquisa, com auxílio de tubos de sucção manual, capturavam os mosquitos que neles pousavam para sugar.

As amostragens na estação C foram realizadas simultaneamente no extra, peri e intradomicílio, diferenciando-se das silvestres por terem sido restritas ao período noturno (18h às 21h).

No extradomicílio, as capturas foram levadas a efeito em isca humana localizada na vegetação circunvizinha ao domicílio, a distâncias até 150 metros. Quando no peri e intradomicílio, eram capturados os mosquitos encontrados em repouso nas paredes externas e internas do domicílio e os que pousavam para sugar em um dos moradores.

Os mosquitos capturados foram levados para o Laboratório de Diptera do Departamento de Entomologia (IOC/FIOCRUZ), montados em alfinetes entomológicos, etiquetados e incorporados à Coleção Entomologia do Departamento de Entomologia (IOC/FIOCRUZ), sob o título de "Coleção Mata Atlântica".

A identificação específica foi realizada pela observação direta dos caracteres morfológicos evidenciáveis ao microscópio estereoscópio e baseada nas chaves dicotômicas clássicas para Culicidae. As novas proposições para Phoniomyia baseiam-se em Harbach e Kitching9 (1998) e Judd10,11 (1996, 1998).

Para determinar a preferência de cada espécie em relação aos locais de captura, foi empregada a média de Williams (XW). Os cálculos e representações gráficas levaram em conta as espécies que ocorreram com número de espécimes acima de 0,5% em pelo menos uma das estações de captura, em relação ao total de espécimes na estação.

 

RESULTADOS

De janeiro de 1991 a dezembro de 1992 foram realizadas 288 amostragens, perfazendo 576 horas de captura, para um total de 11.808 espécimes adultos pertencentes a 28 espécies (Tabela 1). Algumas têm sido freqüentemente incriminadas como vetores de doenças ao homem e/ou a outros animais. Anopheles cruzii, Culex nigripalpus, Aedes serratus, Haemagogus capricornii e vários Sabethini estão entre as mais importantes.

 

 

Runchomyia reversa e An. cruzii foram predominantes, representando respectivamente 52,5% e 17,9% do total de mosquitos capturados (Tabela 1). Ru. reversa apresentou-se de forma marcante, com 59,4% do total de espécimes na estação A, seguida por Ru. frontosa com 10,5% e An. cruzii com 9,9% do total. Na estação B, An. cruzii predominou com 48,1%, seguido por Ru. reversa com 28,1%. Na estação C, An. cruzii representou a maioria, com 73,7% do total de espécimes capturados. Ru. reversa não ocorreu na estação C. Apesar dessas variações, An. cruzii e Ru. reversa foram constantes em todas as estações ao longo do ano.

Quanto à preferência pelos locais de captura, para Ru. reversa foi a estação A e depois B. An. cruzii também demonstrou ter a estação A como favorita, Xw = 67,2 , seguida das estações B e C, com pouca diferença entre elas, respectivamente Xw = 25,4 e Xw = 22,1 (Figura 4). Na estação C o An. cruzii apresentou 71,3% no extradomicílio, 20,8% no peridomicílio e apenas 7,9% no intradomicílio (Tabela 2).

 

 

 

 

Dentre as espécies que apresentaram valores percentuais acima de 0,5% em ao menos uma das três estações de captura, Ru. frontosa e Ru. humboldti ocorreram exclusivamente na estação A, com respectivamente 10,5% e 1,7% do total de espécimes capturados naquela estação, tendo sido a primeira delas a segunda mais abundante da estação A e presente ao longo de todos os meses do ano. Já Ru. humboldti não apresentou em sua distribuição a mesma constância. Wy. pilicauda praticamente só ocorreu na estação A e discretamente na estação B.

Das 16 espécies analisadas, apenas Sabethes intermedius e Cq. chrysonotum não preferiram a estação A. Sa. Intermedius preferiu a B, pouco presente na A e ausente na C. Cq. chrysonotum, ausente na estação B, apresentou-se timidamente na A e preferiu a C com Xw = 4,4 (Figura 4).

Na estação C, em amostragens no intra, peri e extradomicílio, observou-se homogeneidade entre as espécies capturadas. O extradomicílio foi o local com maiores incidências e o intradomicílio o menos freqüentado.

Apenas duas espécies foram encontradas invadindo o intradomicílio para o repasto sangüíneo: An. cruzii e Cq. chrysonotum (Figura 4). Essa última foi a única que apresentou a estação C como favorita: 14,9% no intra, 19,4% no peri e 65,7% no extradomicílio (Tabela 2). Em ambas as espécies, o intradomicílio foi o ponto menos cotado, seguido pelo peri.

No peridomicílio foram capturadas quatro espécies: An. cruzii, Cq. chrysonotum, Ae. serratus e An. lutzi (Tabela 2). É possível observar que aquelas que invadiram o domicílio, An. cruzii e Cq. chrysonotum, foram as mesmas que mais ocorreram no peridomicílio.

Ainda em relação à estação C, An. fluminensis, Chagasia fajardoi e Cx. nigripalpus foram encontradas exclusivamente no extradomicílio (Tabela 2). Para todas, a estação C foi a menos cotada e a estação A, a favorita. Cx. nigripalpus não foi encontrado na estação B, e An. fluminensis e Ch. fajardoi apresentaram respectivamente Xw = 0,5 e Xw = 2,6 (Figura 4).

   

DISCUSSÃO

Os locais em que foram realizadas as amostragens estão inseridos em pontos do ecossistema de Mata Atlântica ainda em bom estado de conservação, principalmente ao considerar que se localizam na região Sudeste, a mais populosa e industrializada do País, entre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. A condição de preservação é confirmada pela fauna culicideana ali encontrada, composta por espécies de mosquitos tipicamente silvestres.

An. cruzii foi uma das espécies encontradas que apresentam importância médico-veterinária, tendo sido a segunda mais abundante. Essa espécie já esteve por muitas vezes envolvida na transmissão do agente etiológico causador da malária humana e simiana. Por se tratar de uma espécie de mosquito que habita regiões de mata, por muitas vezes transmite o agente etiológico da malária a indivíduos que adentram a floresta por turismo ou por qualquer eventualidade, mas que ali não permanecem.

O presente relato visou ao conhecimento das espécies de mosquitos que ocorrem na região e à distribuição em relação a habitats com aspectos ecológicos diversos. Observou-se o possível processo de domiciliação, sofrido por algumas dessas espécies silvestres, quando expostas a um convívio inicial com o homem.

Segundo as definições de Povolny13 (1971), conclui-se que as espécies encontradas podem ser classificadas como assinantrópicas, uma vez que nenhuma delas mantêm maiores associações com o ambiente antrópico.

Observou-se em An. cruzii, An. fluminensis, An. lutzi e Ch. fajardoi um padrão semelhante de distribuição nas três estações. Guimarães7 (1998) também relatou tal semelhança entre An. cruzii e An. fluminensis , tendo ambas sido encontradas em ambiente silvestre e no domicílio. Guimarães & Arlé8 (1984) relatam o mesmo para a segunda. Na estação C, os anofelinos foram capturados quase que exclusivamente no extradomicílio, indicando provável maior relação com a mata circundante do que com qualquer tipo de atração exercida pela presença do domicílio. A única exceção foi o An. cruzii, que se aproxima e adentra o domicílio para realizar a hematofagia, demonstrando atração dessa espécie pelo homem. Forattini et al3 (1990) descrevem a capacidade do An. cruzii em migrar alternadamente entre o ambiente silvestre e o domicílio. Apesar da antropofilia, o An. cruzii não permanece na residência após o repasto sangüíneo, reafirmando sua associação com o meio silvestre, ou assinantropia, como relatado por Forattini et al4,5 (1993) e Guimarães7 (1998). Dessa forma, e segundo Forattini et al6 (1968), a presença do An. cruzii no domicílio estaria diretamente relacionada com a proximidade do mesmo com o ambiente silvestre.

Os Culicini apresentaram maiores variações em relação às estações de captura. Ae. serratus foi a única que esteve presente nas três estações, com distribuição semelhante àquelas verificadas para os anofelinos. Forattini et al5 (1993) relatam a presença do Ae. serratus em ambiente antropicamente modificado; no presente estudo foi encontrada no extra e peridomicílio. Esse comportamento eleva sua importância epidemiológica, tendo sido incriminada como vetor de arboviroses em outras oportunidades.

An. cruzii e Cq. chrysonotum invadiram o domicílio da estação C, sendo essa última a única que apresentou a estação C como favorita. Essas ocorrências justificam-se pela atração que a luz exerce sobre várias espécies do gênero Coquillettidia, como afirma Guimarães7 (1998).

Cx. nigripalpus foi encontrado por Guimarães7 (1998), exclusivamente em ambientes de mata, e por Lourenço-de-Oliveira12 (1984) em áreas altamente alteradas no Estado do Rio de Janeiro. No presente estudo, apresentou favoritismo pela estação A, mata fechada, e foi a segunda com maior tendência à estação C, ocorrendo exclusivamente no extradomicílio. Essa incidência do Cx. nigripalpus pode estar relacionada à ornitofilia, sendo atraída para o extradomicílio pela presença de galinheiros ao redor da casa. A pouca avidez por sangue humano é relatada em Guimarães7 (1998), que cita que muitos espécimes permaneciam pousados por longo tempo na vegetação circundante antes de investirem sobre a isca humana. Forattini et al5 (1993) ressaltam que essa proximidade ao domicílio faz aumentar a importância epidemiológica da espécie, que tem sido incriminada como transmissora de arboviroses como ESL (Encefalite de São Luís) e EL (Encefalite do Tipo Leste).

Ps. ferox não foi encontrada na estação C e, seguindo Forattini et al5 (1993), Guimarães et al8 (1984) e Guimarães7 (1998), essa espécie tem preferência pelo ambiente sem ação antrópica.

A ausência de Ru. reversa na estação C, preferindo a estação A e em menor número a B, esteve em desacordo com as observações de Forattini et al6 (1968) e Guimarães7 (1998), que relatam a espécie visitando o domicílio.

Assim como Ru. reversa, nenhum outro Sabethini analisado esteve presente na estação C, confirmando-as como espécies essencialmente silvestres. Esses dados comprovam os relatos de Forattini et al1 (1978) e Guimarães7 (1998), apesar desse último e de Forattini et al2 (1978) terem encontrado alguns espécimes nas proximidades do domicílio. Ru. frontosa e Ru. humboldti ocorreram única e exclusivamente na estação A, caracterizando-se como espécies relacionadas a ambientes de mata fechada.

Tr. simile, Ru. theobaldi, Wy. theobaldi, Wy. pilicauda e Sa. intermedius foram encontradas apenas nas estações A e B, com preferência pela estação A, mata fechada. A única exceção foi Sa. intermedius que apresentou tendência, ainda que pouco marcante, pela estação B.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), na pessoa do Diretor do Parque Nacional da Serra da Bocaina, pelas facilidades concedidas para realização dos estudos. À Monique Albuquerque Motta do Instituto Oswaldo Cruz e ao Ralf Harbach do "Natural History Museum, London, UK", pelo auxílio na identificação dos Sabethini. Aos colegas do Laboratório de Diptera do Instituto Oswaldo Cruz pela colaboração nos trabalhos de campo.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência para/Correspondence to:
Anthony Érico Guimarães
Caixa Postal 926
21045-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: anthony@fiocruz.br

*Trabalho realizado com auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq (Processo nº 41.1613/88).
Recebido em 22/7/1999. Reapresentado em 6/10/1999. Aprovado em 26/11/1999.

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