SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.34 número4Mortalidade materna em cidade de médio porte, Brasil, 1997 índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública v.34 n.4 São Paulo ago. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102000000400001 

Editorial

Editorial

Fatos ou pura ficção em ciência
Facts or pure science fiction

 

 

A propósito do poder dos meios de informação, Marcelo Gleiser abre o prefácio de seu proveitoso livro, "Retalhos Cósmicos", escrevendo que "hoje em dia, nada mais comum do que vermos um beduíno, em seu camelo, com sua calça Levi's e óculos Giorgio Armani, entoando uma canção de Elton John. Na testa do camelo, em árabe, vemos escrito: Lady Di, nós te amamos". Este comentário, de saborosa ironia, com ou sem exageros, dá-nos conta do poder dos meios de informação, exercido com enorme eficácia, mas nem sempre com a devida perfeição, que se estende por todos os campos da atividade humana.

No campo da ciência é sabido que a pressão do processo social, muito bem aproveitada pelos meios de informação, na aceitação ou negação de uma teoria científica acaba levando a uma perspectiva relativista: nas fases iniciais, durante a "moda", o componente social acaba sendo passageiro, para, ao final, prevalecer o componente não passageiro, do quanto a teoria explica determinado fenômeno.

Pode-se reconhecer que os conhecimentos científicos e seus métodos podem ser desconfortáveis, mas tal desconforto é sempre melhor do que a ignorância. Muito embora a ciência não nos ensine a viver, é ela que nos ajuda a atingir os objetivos específicos. A ciência é um árbitro legítimo das verdades relevantes, chamando a atenção, constantemente, para a extraordinária coerência de todas as forças em jogo, em todos os níveis da realidade, e abrindo debates, em que se pede que haja menos certezas e mais humildade.

Como em ciência não deve existir `moda", só quem não sabe o que é ciência se arrisca a opinar, sem olhar o outro lado da moeda. Pode, também, se interessar em explorar a capacidade de manipulação, em favor de interesses próprios, ou ao amparo do que cada um considera um bom motivo, esquecendo-se que motivos não são importantes por si próprios. Motivos são importantes, sim, quando aliados à fundamental necessidade do bem-estar de toda a sociedade, no presente e no futuro.

Mudar, em ciência, é importante, como importante é que os meios de informação o façam saber, não pela simples razão de ser "moda" mas para que nos aproximemos melhor da realidade. Claro exemplo é o nascer da biologia molecular. Em vez de pensarmos na célula em termos de energia e metabolismo, com a descoberta da estrutura do DNA mudamos nossos interesses, mais nos preocupando com a organização dos aminoácidos na composição das proteínas, o que se tornou ainda mais fácil com a descoberta do RNA. Um outro exemplo diz respeito ao processo da evolução, sobre o qual passou a ser "moda", recentemente, considerá-lo de pura ficção, levantando-lhe algumas dúvidas, dúvidas estas que têm origem na confusão que se faz entre a evolução, em si, e os mecanismos que lhe deram origem, esquecendo, ao mesmo tempo, o que a própria biologia molecular e a genética de populações nos têm ensinado. Tentar caracterizá-la como ficção é pura perda de tempo, além de nos deixar a terrível suspeita de que, face ao que ainda não conhecemos, o processo mais cativante de informar é fazê-lo de modo mais acessível, intelectualmente, com enorme carga de imaginação, confusão, determinação e paixão. Desejável será que tais "predicados" não venham a manifestar-se a respeito do seqüenciamento genômico humano.

É bom não esquecer que os benefícios concretos advindos deste novo saber talvez só venham a concretizar-se quando já tiver passado mais de um século. Tempo em que só constante, árduo e profícuo trabalho vai-nos elucidar sobre a atividade codificadora das dezenas de milhares de genes humanos e do quase imenso número de suas combinações. Ao termo imenso deu o físico Walter Elasser o significado de algo que descreve um número maior do que 10110.

Realmente, compreender os processos da ciência e suas idéias é tarefa árdua, razão pela qual surge sempre maior interesse pela tal apresentação da informação mais simplificada e atraente, com vistas a melhorar nossa vasta ignorância. Ou, quem sabe, talvez isso tenha sucedido pela imperiosa necessidade de cicatrizar alguma humilhante ferida na auto-estima intelectual.

 

José Alberto Neves Candeias
Editor Associado