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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.35 no.4 São Paulo Aug. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102001000400009 

Freqüência de larvas e pupas de Aedes aegypti e Aedes albopictus em armadilhas, Brasil*
Frequency of Aedes aegypti and Aedes albopictus larvae and pupae in traps, Brazil

Nildimar Alves Honório e Ricardo Lourenço-de-Oliveira

Departamento de Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz, Laboratório de Transmissores de Hematozoários, Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

 

DESCRITORES
Aedes.# Ecologia de vetores.# Insetos vetores.# Dengue. Larva. Pupa. Habitat. ¾ Aedes aegypti. Aedes albopictus. Pneus.
RESUMO

OBJETIVO:
Avaliar a freqüência mensal de larvas e pupas de Ae. albopictus, Ae. aegypti e de outras espécies de mosquitos e verificar a influência de fatores ambientais dessas espécies em pneus.

MÉTODOS:
A pesquisa foi desenvolvida no município de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Efetuaram-se coletas mensais de formas imaturas, em quatro pneus, no período de novembro de 1997 a outubro de 1998. Os pneus foram numerados e dispostos em forma de pirâmide, um na base (pneu 1) e os três restantes (2, 3 e 4) inclinados sobre o primeiro. Os pneus 1 e 4 eram mais sombreados, e 2 e 3 eram expostos ao sol, já que não eram alcançados, como os demais, pela sombra de árvores e de um galinheiro próximos a esses pneus. Foram estudadas as variáveis: pluviosidade; temperatura ambiente; volume; pH da água; e condições de isolamento de água em pneus.

RESULTADOS:
Coletaram-se 10.310 larvas e 612 pupas. Ae. albopictus foi a espécie predominante tanto na fase larvar quanto na de pupa; Ae. aegypti e Ae. albopictus foram coletados em todos os meses, sendo mais freqüentes naqueles de maior pluviosidade. A temperatura, a pluviosidade e o volume de água apresentaram diferenças significativas, quando correlacionados ao número de larvas de Ae. aegypti. Não houve diferença significativa na freqüência de larvas quanto ao pH da água. Registrou-se maior número de larvas de Ae. albopictus em pneus mais sombreados.

CONCLUSÕES:
Ae. albopictus instala-se muito mais freqüentemente em pneus do que Ae. aegypti. Pneus descartados parecem representar importantes focos de manutenção de ambos os Aedes, durante todo o ano. Mesmo próximo uns ao outros, os pneus podem oferecer diferentes condições para a colonização desses mosquitos, de acordo com o volume d'água e a exposição ao sol.

KEYWORDS
Aedes.# Ecology, vectors.# Insect vectors.# Dengue. Larva. Pupa. Habitat. ¾
Aedes albopictus. Aedes aegypti. Tires.
ABSTRACT

OBJECTIVE:
To evaluate the monthly frequency of larvae and pupae of
Aedes albopictus, Aedes aegypti and other mosquitoe species in tires, and the influence of environmental factors on that.

METHODS:
The immature stages of mosquitoes were collected monthly from four tires in the municipality of Nova Iguaçu, Brazil, from November 1997 to October 1998. The following variables were measured: rainfall, temperature, water volume, water pH. The tires were arranged in a pyramid, one at the base (tire 1) and 3 others (2,3 e 4) laying over it.

RESULTS:
Were collected 10,310 larvae and 612 pupae.
Aedes albopictus was the most common species in both the larval and pupal stages. Aedes aegypti and Aedes albopictus were collected throughout the year but were more frequent during in the rainy season. The number of Aedes aegypti was significantly correlated with the temperature, rainfall and water volume of the tires. The correlation between water pH and number of larvae was not significant. Aedes albopictus larvae were more frequent in tires left in the shade.

CONCLUSIONS:
Aedes albopictus was more abundant in tires than Aedes aegypti. Discarded tires seem to be an important source of both Aedes species throughout the year. The favored environmental conditions of the tires, such as water volume and exposure to sunlight differ for Aedes albopictus and Aedes aegypti.

 

 

INTRODUÇÃO

Aedes (Stegomyia) aegypti (Linnaeus, 1762) e Aedes (Stegomyia) albopictus (Skuse, 1894) (Diptera: Culicidae) são mosquitos vetores de arbovírus que infectam o homem e, no Brasil, infestam 3.592 e 1.533 municípios, respectivamente. Diversos estudos sobre ecologia, biologia, controle e descrição de criadouros dessas espécies têm sido desenvolvidos (Lopes,7 1997; Gomes,4 1995). Os criadouros preferenciais para Ae. aegypti e Ae. albopictus são os recipientes artificiais como: latas, vidros, vasos de cemitérios, caixas d'água e pneus. Dentre os criadouros artificiais, onde ambas as espécies são encontradas, os pneus têm merecido atenção da vigilância epidemiológica por apresentarem criação relevante desses mosquitos. Esses depósitos conseguem armazenar grande quantidade de água, proporcionam baixa evaporação e são importantes artigos de comércio em nível nacional e internacional (Souza-Santos,12 1999; Reiter et al,10 1991), o que facilita a dispersão passiva das espécies.

A interação de Ae. albopictus e Ae. aegypti requer atenção, pois essas espécies se desenvolvem essencialmente nos mesmos criadouros artificiais e são muito comuns em áreas de grande concentração humana. O aumento da população e a expansão de Ae. albopictus em muitas áreas estão relacionados ao declínio de Ae. aegypti (O'Meara et al,9 1995). Em vista disso, o presente estudo se propôs a avaliar a freqüência de larvas, pupas (Ae. aegypti e Ae. albopictus) e de outros mosquitos e verificar a influência de alguns fatores ambientais na freqüência dessas espécies, em pneus usados como armadilhas.

 

MÉTODOS

Estação de coleta larvária e descrição da armadilha

Para coleta de larvas e pupas de mosquitos foram instalados quatro pneus, que serviram como armadilhas, em uma residência localizada no bairro de Ambaí, município de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro (22º45'S e 43º27'W). Esse local foi escolhido devido à densidade de mosquitos reportada por inquéritos efetuados previamente pela Fundação Nacional de Saúde. Ambaí é um bairro com a maioria das ruas não asfaltadas, porém atendido pela rede pública de abastecimento de água. A casa se localiza em uma das laterais de um terreno em leve aclive não pavimentado, caracterizando-se pela presença de árvores frutíferas e gramíneas. Os pneus foram numerados e dispostos em forma de pirâmide, um servindo como base (pneu 1) e os três restantes (2, 3 e 4) inclinados sobre o primeiro, formando um ângulo de aproximadamente 45° com o solo (Figura 1). Os pneus 1 e 4 eram mais sombreados, enquanto os pneus 2 e 3 eram mais expostos ao sol, já que não eram alcançados, como os demais, pela sombra de árvores e de um galinheiro próximos a esses pneus. No momento da instalação, as paredes internas dos pneus foram previamente lavadas com água e flambadas para que fossem eliminados eventuais ovos de mosquitos. Após esse procedimento, foi adicionada, em cada uma das armadilhas, água suficiente para preenchê-las, ou seja, cerca de dois litros de água. Introduziu-se também quantidade semelhante de folhas de árvores, escolhidas ao acaso dentre as encontradas caídas no próprio terreno da casa. A água utilizada para lavar as folhas e para preencher os pneus foi obtida de um poço artesiano vedado, localizado na mesma residência.

 

 

Metodologia das coletas, identificação das formas imaturas e aferição das variáveis ambientais

As coletas de formas imaturas foram realizadas na primeira semana de cada mês, no período de novembro de 1997 a outubro de 1998. A cada coleta, toda água contida em cada pneu era retirada com auxílio de um sifão, coada em um tecido fino (organza) e transferida para uma proveta, a fim de ser quantificada. Após quantificação da água e limpeza das folhas (lavagem com água do mesmo poço artesiano), toda a água e as folhas retiradas eram devolvidas ao pneu de origem. As larvas e pupas que ficavam retidas no tecido eram arrastadas pela água para sacos plásticos, etiquetados quanto à data da coleta e ao número do pneu de origem. As larvas de primeiro e segundo estádios eram criadas em laboratório até atingirem o quarto estádio, quando eram identificadas. No laboratório, era registrado o número de formas imaturas de cada espécie encontrada por pneu. A cada visita ao local, aferia-se o potencial hidrogeniônico (pH) da água contida em cada um dos pneus, com o auxílio de tiras indicadoras (Fix 0-14). Eram apuradas as temperaturas ambiente máxima e mínima entre as coletas e a umidade relativa do ar no momento da coleta. A pluviosidade foi obtida por meio da Estação Agro-Meteorológica de Itaguaí-RJ, situada, aproximadamente, a 20 km da estação de coleta.

Análise estatística

Os testes estatísticos usados foram Mann-Whitney, Kruskall-Wallis e regressão linear, utilizando-se o programa "SPSS for Windows" ¾ versão 8.0, com significância de 5%.

 

RESULTADOS

Variáveis ambientais

A temperatura média anual variou de 18,4ºC a 29ºC; a umidade relativa do ar, de 66% a 77%; e a pluviosidade, de 23,6 mm a 279,4 mm. O volume de água nos pneus variou de 0,009 litros a 3,5 litros. De novembro de 1997 a março de 1998, foram registrados os maiores volumes de água na maioria dos pneus, que coincidem com o período de maior pluviosidade (Figura 2).

 

 

Larvas: freqüência mensal segundo as espécies e armadilhas

Foram coletadas 10.310 larvas pertencentes a quatro espécies: 7.331 Ae. albopictus (71%), 1.751 Ae. aegypti (17%), 1.218 Limatus durhamii (11,9%) e dez Culex quinquefasciatus (0,1%) (Tabela 1). Observou-se que Ae. albopictus predominou sobre Ae. aegypti no total dos quatro pneus que serviam de armadilha (p<0,001 Teste Mann-Whitney). Sua freqüência foi maior em todos os meses e em todas as armadilhas, com exceção para o pneu 3, em julho e outubro de 98; para o pneu 2, em maio e junho de 98 e em setembro do mesmo ano, quando o número de larvas de Ae. aegypti foi igual ou maior ao de larvas de Ae. albopictus; e para o pneu 1, em outubro de 98, quando Li. durhamii suplantou ambas as espécies de Aedes.

 

 

Aedes albopictus foi mais freqüente nos pneus 1 e 4 do que nos demais, pois o número de larvas coletadas nesses criadouros correspondeu a 65,7% do total obtido nos quatro pneus. Por meio do teste de Kruskal Wallis, verificou-se que a disposição dos pneus influenciou o número de larvas de Ae. albopictus (p<0,05).

A freqüência de larvas de Ae. albopictus quase se equiparou nos pneus mais ensolarados, ou seja, nos de números 2 (17% do total coletado da espécie) e 3 (17,3%). Ae. aegypti foi mais abundante no pneu 4, em que se obtiveram 34,4% do total coletado na área. Freqüências semelhantes para a espécie foram encontradas nos pneus 3 (25,5%) e 2 (22,3%). No pneu 1, o mais sombreado, coletou-se o menor número de larvas de Ae. aegypti (17,8%), ao contrário de Ae. albopictus. A disposição dos pneus não influenciou o número de larvas de Ae. aegypti (p>0,05; Kruskal Wallis).

Não houve expressiva variação na freqüência de larvas de Li. durhamii nos diferentes pneus, embora no 1 tenha sido coletado o maior número de larvas (30,9% do total dos quatro pneus). Foram coletadas apenas dez larvas de Cx. quinquefasciatus. O maior número de larvas dessa espécie foi coletado no pneu 4 (70%). Nenhuma larva foi coletada no pneu 1, de água aparentemente menos turva, com pouca matéria orgânica e mais sombreado (Tabela 1).

A variação do pH não influenciou a densidade de larvas de Ae. aegypti e Ae. albopictus (p>0,05; regressão linear). Entretanto, houve nítida relação entre a freqüência de larvas de Ae. aegypti e o volume de água contido nos pneus (p<0,05; regressão linear), o que não foi constatado em relação a Ae. albopictus (p>0,05; regressão linear). De novembro de 1997 a março de 1998, quando o volume de água se apresentou mais elevado, a quantidade de larvas dessas espécies também aumentou. A maior freqüência de ambos Ae. aegypti e Ae. albopictus foi registrada nos meses de dezembro e fevereiro, coincidindo exatamente com o período mais quente e de maior pluviosidade ¾ verão (p<0,001; regressão linear) (Figura 2). Os menores números de larvas coletadas desses aedinos, se tomadas em conjunto, foram registradas em pleno inverno (agosto), ao final do período mais seco do ano. Elevada freqüência de larvas de Ae. aegypti foi também registrada na primavera, no início das chuvas, particularmente nos meses de outubro e novembro. Porém, para Ae. albopictus, o verão (36,7%) foi nitidamente a estação de maior freqüência.

Pupas: freqüência mensal, segundo as espécies e armadilhas

Foram coletadas 612 pupas de mosquitos (Tabela 2), das quais 478 (78% do total) eram Ae. albopictus. Esse número correspondeu a mais de cinco vezes o número de pupas de Ae. aegypti (15%). Li. durhamii representou apenas 7% do total de pupas coletadas, ao passo que nenhuma pupa de Cx. quinquefasciatus foi encontrada.

 

 

Novamente observou-se nítida predominância de Ae. albopictus sobre Ae. aegypti, em todos os quatro pneus e durante todo o período de estudo, exceto no pneu 4 (em novembro de 1997 e em outubro de 1998, quando o número de pupas de Ae. aegypti foi maior que Ae. albopictus). Por meio do Teste de Mann Whitney, verificou-se que o número de pupas de Ae. albopictus apresentou diferença significativa, quando comparado ao de Ae. aegypti (p<0,05).

Nos pneus 1, 3 e 4, coletou-se maior quantidade de pupas de Ae. albopictus do que no pneu 2. Não se coletou pupa de Ae. albopictus em março e maio, no pneu 1; fevereiro, abril, agosto e outubro, no pneu 2; março, no pneu 3; e maio e agosto, no pneu 4. Foi no pneu 4 onde Ae. aegypti foi mais freqüente na fase de pupa (68% do total), seguido dos pneus 3 (20%) e 2 (11%). Apenas uma pupa de Ae. aegypti foi coletada no pneu 1, em fevereiro. A distribuição de pupas de Ae. aegypti não foi homogênea: pupas dessa espécie foram coletadas em dezembro, junho e setembro, no pneu 2; em dezembro, maio, julho, agosto e outubro, no pneu 3; e, para o pneu 4, a ocorrência foi notada nos meses de novembro, dezembro, fevereiro, maio, julho a outubro.

 

DISCUSSÃO

Na primeira etapa do presente estudo, quando foi avaliada a freqüência de larvas de Ae. aegypti e Ae. albopictus em pneus usados como armadilhas, notou-se que a presença predominante de Ae. albopictus foi sobre Ae. aegypti em todos os pneus durante a maioria dos meses estudados; houve um pequeno decréscimo ou equivalência na freqüência desses mosquitos em poucos meses da observação (Tabela 1). Entretanto, nunca houve total ausência de Ae. albopictus nos quatro pneus. Dados semelhantes foram encontrados na Flórida (EUA) e Tailândia, conforme relataram O' Meara et al9 (1995) e Suwonkerd et al13 (1996). Esses autores verificaram que, quando essas espécies de Aedes coexistem nos criadouros, há uma tendência ao aumento de Ae. albopictus, tanto em áreas urbanas, como foi o presente caso, quanto em zonas rurais, embora nestas o Ae. albopictus substitua ou desloque o Ae. aegypti.

Outras espécies encontradas nessas armadilhas, embora em números muito inferiores ao Ae. aegypti e Ae. albopictus, foram Li. durhamii e Cx. quinquefasciatus. Li. durhamii compareceu em todos os quatro pneus, porém em quantidade mais elevada nos pneus 1 e 3, que representavam situações bastante distintas quanto à insolação e à qualidade da água (Tabela 1). Seu convívio e capacidade competitiva em relação do Ae. albopictus e Ae. aegypti merecem ser investigados, em vista da freqüência com que essas espécies têm sido encontradas criando-se juntas. No entanto, sabe-se que Cx. quinquefasciatus tem preferência por criadouros ricos em matéria orgânica em decomposição, o que pode explicar a baixa freqüência desse mosquito nas armadilhas usadas.

A maior freqüência de larvas, tanto de Ae. aegypti quanto de Ae. albopictus, foi em fevereiro, coincidindo com o período de maior pluviosidade e, portanto, com o mais alto nível de água registrado nos pneus. Essa constatação tem similaridade com estudos realizados no Japão e na Tailândia, onde se mostrou clara relação do aumento da freqüência de larvas do Ae. aegypti e Ae. albopictus aos altos índices pluviométricos e ao decréscimo em períodos secos (Mori,8 1979; Suwonkerd et al,13 1996). Gomes et al3 (1992), realizando estudos sobre micro-habitats de Ae. albopictus em São Paulo, verificaram que essa espécie desenvolve-se melhor em criadouros com volume de água superiores a 600 ml. Yates14 (1979), trabalhando com Aedes geniculatus na Inglaterra, verificou que a maior quantidade de adultos emergidos foi obtida em criadouros com grande volume de água.

Os índices de maior acidez da água foram detectados entre janeiro e maio, coincidindo com o período de maior pluviosidade, quando maior quantidade de larvas de ambas as espécies de Aedes foram detectadas. Enquanto no período de junho a setembro, meses de menor pluviosidade, o pH da água dos pneus oscilava entre neutro e alcalino, sendo também registrado o menor número de formas imaturas. No entanto, quando se comparou a densidade larvária de Ae. aegypti e Ae. albopictus com o pH da água dos pneus, não se observou diferença significativa (p>0,05; regressão linear).

Dados biológicos obtidos por Barrera et al1 (1979), na Flórida, com relação ao grau de sombreamento dos criadouros, mostraram que formas imaturas de Ae. aegypti têm preferência por locais abrigados do sol. Resultados semelhantes foram obtidos por Beier et al2 (1983), nos Estados Unidos e por Lopes et al6 (1993), no Brasil, trabalhando com essa espécie em criadouros artificiais (pneus).

No pneu 1, em que se coletaram mais larvas de Ae. albopictus e menos de Ae. Aegypti, as condições de insolação e de qualidade da água pareceram ser semelhantes às do pneu 4, em que ambas as espécies abundaram. Não foi possível explicar essa diferença a partir dos parâmetros avaliados. De fato, a maior densidade larvária total registrada no pneu 1 mostra ocorrer em uma intensa competição por alimento. Teriam as fêmeas de Ae. aegypti sido inibidas à oviposição no pneu 1 devido a esse fato ou à flagrante densidade larvária do Ae. albopictus, seu competidor? Soman & Reuben11 (1970), na Índia, verificaram que Ae. aegypti prefere desovar onde haja larva da mesma espécie. Com efeito, provavelmente a presença de formas imaturas da mesma espécie num criadouro funciona como indicador de que há no local boa condição para o desenvolvimento da espécie. Contudo, Gubler5 (1971) verificou que a presença de larvas e pupas nas águas dos criadouros não exerce efeito atrativo sobre a atividade de oviposição das fêmeas de Ae. albopictus.

Sabe-se que Ae. albopictus também se cria em água com pouca matéria orgânica em decomposição, desenvolvendo-se preferencialmente em locais sombreados ou parcialmente sombreados. Ao se analisar os dados quanto à posição dos pneus e à quantidade de larvas obtidas, verificou-se que os pneus 1 e 4 (Figura 1, Tabela 1), nos quais a incidência dos raios solares era menor, o número de larvas de Ae. albopictus foi consideravelmente maior, atingindo mais que o dobro do coletado nos outros pneus mais ensolarados (2 e 3).

Observou-se no Japão que, quando as larvas de Ae. albopictus são encontradas em baixa densidade, o período larvar é menor e a taxa de emergência dos adultos é maior, resultando em fêmeas grandes e com habilidade de pôr muitos ovos. Entretanto, essas fêmeas tendem a ficar próximas ao criadouro e a realizar pequenos repastos sangüíneos após a emergência. Conseqüentemente, a população de Ae. albopictus tende a sofrer um acréscimo paulatino. Contudo, quando as larvas são criadas em alta densidade, a tendência é oposta. Com base nesses achados, verifica-se que a população de larvas de Ae. albopictus é regulada primariamente pela própria densidade larvar na área (Mori,8 1979).

Quanto à freqüência de pupas, Ae. Albobictus foi novamente a espécie predominante em todos os pneus, apresentando-se com menores números que Ae. Aegypti apenas no pneu 4, em dois meses de estudo ¾ outubro e novembro ¾, no início da estação chuvosa (Tabela 2).

Os resultados obtidos no presente trabalho evidenciam a predominância de Ae. albopictus sobre Ae. aegypti nos pneus usados como armadilha (depósito artificial que deve contribuir bastante para a manutenção da elevada freqüência anual de adultos desses vetores de dengue na área). Segundo à legislação brasileira vigente sobre a proteção do meio ambiente, pneumáticos não podem mais ser queimados. Além disso, esses depósitos, durante os períodos de maior pluviosidade, favorecem a manutenção de alta densidade dos vetores de dengue. Assim, torna-se importante que os pneus sejam enterrados no momento do descarte e que haja maior controle sobre esse tipo de criadouro, particularmente na estação primavera-verão.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência para/Correspondence to:
Nildimar Alves Honório
Departamento de Entomologia ¾ Fiocruz
Av. Brasil, 4365
21045-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: honorio@ioc.fiocruz.br

*Financiado pelo CNPq ( Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ¾ Processo no 52.1474/95-7); Papes (Programa de Apoio à Pesquisa Estratégica em Saúde) e Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) ¾ Processo no 0250.250.392) e US National Institute of Health-Grant AI-47793 (LP Lounibos, PI).

Recebido em 4/10/2000. Reapresentado em 15/3/2001. Aprovado em 7/4/2001.