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Revista de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.37 n.2 São Paulo abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102003000200007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Validação do "King's Health Questionnaire" para o português em mulheres com incontinência urinária

 

Validation of the Portuguese version of the King's Health Questionnaire for urinary incontinent women

 

 

José Tadeu Nunes Tamanini; Carlos Arturo Levi D'Ancona; Neury José Botega; Nelson Rodrigues Netto Jr

Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Traduzir e adaptar para o português o questionário de qualidade de vida denominado "King's Health Questionnaire" (KHQ) em mulheres com incontinência urinária.
MÉTODOS: Cientes dos objetivos da pesquisa científica, dois tradutores brasileiros prepararam duas versões do KHQ para o português, as quais foram retro-traduzidas por outros dois tradutores ingleses. As diferenças foram harmonizadas e pré-testadas em um estudo piloto. As versões finais do KHQ e de outro questionário, o "Short-Form Health Survey" (SF-36), já vertido e publicado em português, foram simultaneamente administradas a 156 e 119 pacientes, respectivamente. Foram testadas as propriedades psicométricas do KHQ como confiabilidade (consistência interna e teste-reteste) e validade de constructo. O reteste foi realizado em um período de duas semanas, a partir da primeira entrevista.
RESULTADOS: O processo de adaptação cultural não alterou a versão em português do KHQ comparado ao original, exceto no modo de administração para pacientes com baixo grau de alfabetização. Neste caso, o questionário mudou de auto-avaliação para ser lido para as pacientes durante entrevista com o pesquisador. Para as outras pacientes, o KHQ foi auto-administrado. O alfa de Cronbach padronizado do KHQ foi de 0,87 e avaliado por seus domínios variou de 0,49 a 0,92. A confiabilidade, medida pelo índice de correlação intraclasses (ICC) foi considerada de moderada a forte em todos os domínios e na escala de medidas de gravidade, variando de 0,53 a 0,81. O coeficiente de correlação de Pearson entre o KHQ e o SF-36 foi considerado de fraco a moderado na maioria dos domínios afins, variando de -0,27 a -0,53.
CONCLUSÕES: A versão para o português do KHQ, traduzida e adaptada para seu uso em mulheres brasileiras com queixas de incontinência urinária. Representa um importante instrumento para a avaliação de mulheres incontinentes em pesquisa clínica.

Descritores: Incontinência urinaria. Saúde da mulher. Qualidade de vida. Questionários. Tradução (processo). Validação. "Kings Health Questionnaire".


ABSTRACT

OBJECTIVE: To translate into Portuguese and evaluate the condition-specific quality of life King's Health Questionnaire (KHQ) for female urinary incontinence.
METHODS: Two Brazilian translators, aware of the aim of the project, prepared two versions of the KHQ into Portuguese, which were back-translated into English by two other English translators. The differences were harmonized and pre-tested in a pilot study. The final version of the KHQ and the "Short-Form Health Survey" (SF-36), which has already been translated and validated into Portuguese were simultaneously administered to 156 and 119 women respectively. KHQ's psychometric properties such as reliability (internal consistency and retest) and construct validity were tested. A retest was performed within 2 weeks from the start date.
RESULTS: The cultural adjustment process resulted in no changes in the KHQ Portuguese version, although for low schooling patients the questionnaire had to be read by the researcher during face-to-face interview. For all other patients, the KHQ was self-administered. KHQ's standardized Cronbach's alpha was 0.87 and when assessed by domains ranged from 0.49 to 0.92. Reliability measured by intraclass correlation (ICC) was considered moderate to strong for all domains and the severity measure scale ranged from 0.53 to 0.81. Pearson´s correlation coefficient between KHQ and SF-36 was considered weak to moderate in the majority of the related domains, ranging from -0.27 to -0.53.
CONCLUSIONS: The KHQ Portuguese version was translated and adjusted for Brazilian women with urinary incontinence complaints. It represents an important tool for the assessment of incontinent women in clinical trials.

Keywords: Urinary incontinence. Women's health. Quality of life. Questionnaires. Translating. Validdation. Kings Health Questionnaire.


 

 

INTRODUÇÃO

Incontinência urinária é definida pela Sociedade Internacional de Continência (ICS) como a perda involuntária de urina objetivamente demonstrada, podendo causar problemas de ordem social ou de higiene.1

Em estudo epidemiológico realizado nos Estados Unidos, Diokno et al5 (1986) observaram prevalência de 37,7% de incontinência urinária em mulheres com mais de 60 anos. Em pesquisa populacional domiciliar no município de Campinas, Guarisi et al,8 observaram que cerca de 35% das mulheres climatéricas apresentavam queixa de incontinência urinária de esforço.

A incontinência urinária provoca alterações graves na vida de pacientes por ela acometida, tornando-se estressante e debilitante, além de gerar alta morbidade por afetar o nível psicológico, ocupacional, doméstico, físico e sexual.10 Por esse motivo, a ICS tem recomendado que medidas de avaliação de qualidade de vida sejam incluídas, em todos os estudos, como um complemento das medidas clínicas.2 A eficácia do tratamento da incontinência urinária tem sido usualmente avaliada segundo parâmetros objetivos (estudo urodinâmico, teste de absorventes e teste de esforço). Esses parâmetros, porém, falham em avaliar o impacto que a doença e o respectivo tratamento causam sob o ponto de vista do paciente. Em razão dessas dificuldades, têm sido criados questionários genéricos e específicos de medida de qualidade de vida para acessar tanto os aspectos subjetivos de doenças como o impacto que elas e seus tratamentos causam aos pacientes.

Entre os questionários genéricos de avaliação de saúde, o mais famoso é o "The Medical Outcomes Study 36-item Short Form Health Survey", mais conhecido como SF-36.3,16 Este questionário não tem validade de conteúdo para incontinência urinária e, desta forma, tem menor sensibilidade a mudanças do que um instrumento específico. No caso da incontinência urinária, aspectos tão importantes quanto a percepção do impacto que ela causa nas vidas das pacientes e as medidas de sua gravidade tornar-se-iam minimizadas ou não avaliadas pela aplicação desses questionários genéricos. Percebendo a necessidade de um instrumento específico, Kelleher et al12 (1997), construíram e validaram no idioma inglês um questionário específico para avaliação da qualidade de vida de mulheres com incontinência urinária denominado "King's Health Questionnaire" (KHQ). Este instrumento mostrou-se confiável e válido na análise de suas propriedades psicométricas, tendo sido validado até o ano de 2000 para sete idiomas, além de estar em processo de validação para outros idiomas.11

Instrumentos de avaliação específicos validados para o português são raros na literatura nacional, sendo que até o presente não existe qualquer questionário de qualidade de vida em incontinência urinária publicado nos bancos de dados pesquisados (MEDLINE e LILACS, de Janeiro/1992 a maio/2002). No presente estudo optamos pelo KHQ por ser um questionário completo, que avalia tanto o impacto da incontinência urinária nos diferentes domínios da qualidade de vida, como os sintomas por elas percebidos. A ICS o classifica como "altamente recomendável", ou nível "A", para utilização em pesquisas clínicas, principalmente por sua popularidade e pelo fato de já estar em uso, após processos de tradução e validação em outros idiomas.6

O presente trabalho tem por objetivo traduzir para o português e avaliar as propriedades de medida do KHQ aplicado em mulheres com incontinência urinária.

Pacientes

Realizou-se estudo observacional (tipo corte transversal) em 156 mulheres com queixa de incontinência urinária, atendidas consecutivamente, no período de agosto a dezembro de 2001. As pacientes foram consideradas incontinentes ao declararem média igual ou superior a um episódio de perda urinária por semana, durante os últimos três meses; sendo que as referidas queixas não foram confirmadas por meio de estudos urodinâmicos. Foram excluídas pacientes em período gestacional ou em lactância e com idade inferior a 15 anos.

O tamanho da amostra foi determinado, admitindo-se uma correlação mínima de -0,30 entre os domínios dos dois instrumentos; fixando-se um a (erro tipo I) de 5% e um b (erro tipo II) de 0,10. Assim, obteve-se um tamanho amostral de 113 pacientes.

Variáveis clínicas e instrumentos

Na abordagem inicial das pacientes, foram coletadas informações sociodemográficas (idade, cor da pele declarada, estado civil, renda familiar, atividade, grau de escolaridade) e clínicas (índice de massa corpórea-IMC), tipo de queixa (urge-incontinência, incontinência urinária de esforço e incontinência urinária mista) e tempo de queixa (menor de um ano ou maior ou igual a um ano), antecedentes de cirurgia prévia para correção de incontinência urinária, uso de absorventes (sim ou não) e número de absorventes utilizados/dia (1-2; 2-4 ou mais de 4 unidades/dia) e co-morbidades. Como parâmetros clínicos de gravidade de incontinência urinária, utilizamos as variáveis "tipo de queixa" e "tempo de queixa", bem como "o uso de absorventes" e "o número de absorventes utilizados/dia".

Na mesma ocasião, foram administradas a versão final do KHQ e outra versão já validada para o português do SF-36,3 com o objetivo de se avaliar as correlações entre os domínios afins dos dois questionários.

O KHQ é composto de 21 questões, divididas em oito domínios a saber: percepção geral de saúde (um item), impacto da incontinência urinária (um item), limitações de atividades diárias (dois itens), limitações físicas (dois itens), limitações sociais (dois itens), relacionamento pessoal (três itens), emoções (três itens), sono/disposição (dois itens). Além destes domínios, existem duas outras escalas independentes: uma avalia a gravidade da incontinência urinária (medidas de gravidade) e outra a presença e a intensidade dos sintomas urinários (escala de sintomas urinários). Estas escalas, tipo likert, são graduadas em quatro opções de respostas ("nem um pouco, um pouco, moderadamente, muito" ou "nunca, às vezes, freqüentemente, o tempo todo"), exceção feita ao domínio percepção geral de saúde com cinco opções de respostas ("muito boa, boa, regular, ruim, muito ruim") e ao domínio relações pessoais ("não aplicável, nem um pouco, um pouco, moderadamente e muito"). O KHQ é pontuado por cada um de seus domínios, não havendo, portanto, escore geral. Os escores variam de 0 a 100 e quanto maior a pontuação obtida, pior é a qualidade de vida relacionada àquele domínio.

O SF-36 é um questionário multidimensional, formado por 36 itens, reunidos em dois grandes componentes denominados físico e mental. Cada um destes componentes é formado por quatro domínios, que por sua vez, se constituem de itens, que avaliam uma mesma área da vida dos pacientes. O componente físico é composto pelos seguintes domínios: capacidade funcional (10 itens), aspectos físicos (quatro itens), dor (dois itens), estado geral de saúde (cinco itens); já o componente mental abrange domínios como vitalidade (quatro itens), aspectos sociais (dois itens), aspectos emocionais (três itens) saúde mental (cinco itens). Existe, ainda, uma questão de avaliação comparativa entre as condições atuais de saúde e as de há um ano. As opções de respostas são também apresentadas em escala tipo likert. Pode-se obter um escore final de cada domínio que varia de 0 a 100, sendo que, inversamente à pontuação do KHQ, quanto maior a pontuação, melhor é o estado de saúde avaliado.

Procedimentos

Todas as pacientes concordaram em participar do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Após ter sido submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o projeto de pesquisa foi aprovado sob o número 261/2001.

O presente processo de tradução e adaptação cultural seguiu as normas publicadas por Guilhemin et al9 (1993), bem como orientações técnicas fornecidas por seus autores.

A tradução do KHQ* original foi realizada por dois professores brasileiros, fluentes no idioma inglês e cientes dos objetivos da pesquisa. As duas traduções foram comparadas, obtendo-se uma tradução consensual "T1". Esta última foi vertida para o inglês por dois cidadãos ingleses que vivem no Brasil, fluentes nas duas línguas. As duas versões originadas desta etapa foram também comparadas e harmonizadas em uma versão final de retrotradução "V1", a qual mostrou-se gramatical e semanticamente equivalente ao instrumento original. Tal procedimento permitiu que, até esta fase, a "T1" fosse aceita como a tradução do KHQ para o português. As equivalências idiomática e cultural de "T1" foram analisadas por um comitê de sete juizes bilíngües, todos eles da área da saúde. Após serem acatadas pequenas considerações desses juizes e reavaliadas as questões duvidosas, obteve-se a tradução "T2", que foi pré-testada em estudo piloto com 10 pacientes com queixa de incontinência urinária. As questões que apresentaram índice maior ou igual a 20% de incompreensão foram reavaliadas. Após novas correções, a "T2" foi novamente pré-testada e finalmente considerada apta para ser aplicada à amostra populacional em questão.

Nos casos de analfabetismo ou baixo grau de alfabetização, os itens dos instrumentos foram lidos para a paciente durante entrevista com o pesquisador. Nos demais casos, o KHQ foi auto-administrado.

Confiabilidade

A consistência interna do KHQ foi calculada com base nos escores finais obtidos dos questionários preenchidos por ocasião da primeira entrevista a 156 pacientes.

A avaliação da reprodutibilidade do KHQ foi realizada após duas semanas em 119 pacientes que foram convidadas para nova aplicação do KHQ. Neste período, estas pacientes não foram submetidas à alteração de medicação ou de tratamento para incontinência urinária.

Validade de constructo e concorrente

A validade de constructo foi avaliada pela correlação entre os resultados obtidos dos domínios do KHQ e do SF-36, aplicados na primeira entrevista a 119 pacientes. A validade concorrente foi avaliada pela associação dos domínios do KHQ com algumas variáveis clínicas selecionadas.

Também foi avaliada a associação entre pior qualidade de vida e a maior gravidade de alguns parâmetros clínicos pesquisados como, por exemplo, o tipo e o tempo de queixa, o uso e o número de absorventes.

Análise dos dados

A análise estatística descritiva utilizou freqüência, média (± desvio-padrão) e mediana (intervalo). Como medida de confiabilidade foram utilizadas a consistência interna, através do coeficiente a de Cronbach padronizado15 e o teste-reteste, avaliado pelo coeficiente de correlação intraclasses (CCI).15 A validade de constructo foi analisada através do coeficiente de correlação linear de Pearson15 e a validade concorrente foi analisada pelos testes Mann-Whitney e Kruskal-Wallis.4

Para comparação de proporções foi utilizado o teste Qui-quadrado ou o teste exato de Fisher, quando necessário. Na comparação das variáveis contínuas ou ordenáveis entre dois grupos independentes, foi utilizado o teste Mann-Whitney. Para três ou mais grupos, o teste de Kruskal-Wallis. O nível de significância adotado foi de 5%.

Os programas computacionais utilizados foram SAS System for Windows (Statistical Analysis System), versão 8.2. (SAS Institute Inc, 1999-2001) e o SPSS for Windows, versão 10.0. SPSS (Statistical Package for Social Sciences for Personal Computer (SPSS-PC Inc, 1989-1999).

 

RESULTADOS

Os dados dascaracterísticas sociodemográficas das 156 mulheres entrevistadas com queixa de incontinência urinária foram: idade média de 51,8 anos (DP ±11,2), mediana de 51 anos (variando entre 15 e 78 anos). A cor da pele declarada na primeira entrevista distribui-se em 125 (80,13%) brancas, 8 pretas (5,13%), 22 pardas (14,10%) e uma amarela (0,64%). Para fins de análise estatística, foram considerados dois grupos: brancas e não-brancas. A maioria delas (124 ou 79,49%) vivia com esposo ou companheiro. Quanto à renda familiar, 23 (14,74%) pacientes referiram um salário-mínimo, enquanto que 91 (58,33%) referiram de dois a quatro. A maioria delas (132 ou 84,62%) tinha alguma atividade como trabalho ou estudo. Das 95 (61%) pacientes que usavam absorventes, 28 (29,5%) usavam mais de quatro absorventes/dia. Em relação ao grau de escolaridade, 23,7% dessa amostra populacional era composta por pacientes sem nenhuma escolaridade. Outras características sociodemográficas e clínicas encontram-se na Tabela 1.

 

 

A Tabela 2 apresenta os valores médios dos escores obtidos para cada domínio do KHQ e do SF-36. Não foram observadas diferenças significantes, quando comparadas variáveis sociodemográficas como cor da pele declarada, estado civil, ocupação e renda familiar em cada domínio do KHQ. Quanto às variáveis clínicas co-morbidades e antecedentes de cirurgias prévias para correção de incontinência urinária, não foram observadas diferenças estatisticamente significantes nos grupos estudados.

 

 

Estudo de confiabilidade

O coeficiente a de Cronbach padronizado geral (considerando os oito domínios clássicos, além da escala de medidas de gravidade, que doravante passará a ser considerado como domínio e da escala de sintomas urinários) foi de 0,87. Considerando-se individualmente os domínios, seu escore variou entre 0,49 (sono/disposição) e 0,92 (emoções). Os CCI, que avaliam o teste-reteste bem como os valores do a de Cronbach de cada domínio, encontram-se na Tabela 3. Os domínios percepção geral de saúde e impacto da incontinência urinária, compostos de itens únicos, não tiveram a consistência interna calculada

 

 

Estudo das validades de constructo e concorrente

Foram realizadas correlações entre as médias dos escores obtidos nos domínios do KHQ com os do SF-36, bem como associações com parâmetros clínicos (Tabelas 4 e 5, respectivamente).

 

 

 

DISCUSSÃO

Algumas limitações deste estudo estão relacionadas à amostra populacional, composta predominantemente de mulheres pertencentes a estratos socioeconômicos intermediários e baixos. A seleção das pacientes para este estudo foi feita de acordo com suas queixas clínicas, apresentadas aos ginecologistas ou aos clínicos dos postos de atendimento básico de saúde, os quais encaminhavam as pacientes para consulta com o pesquisador. O mesmo padrão de seleção de pacientes tem sido reportado por outros autores na literatura.14 Os autores do KHQ também selecionaram as pacientes através de suas queixas e tinham como objetivo principal a avaliação das propriedades psicométricas do novo instrumento, sendo a avaliação da qualidade de vida, de acordo com o diagnóstico urodinâmico, seu objetivo secundário.12 Já, o estudo de validação do KHQ para a Língua Espanhola13 foi multicêntrico, envolvendo 23 hospitais, sendo que o KHQ foi auto-administrado imediatamente antes do estudo urodinâmico.

Outra limitação importante foi a forma de administração. Originalmente, o KHQ foi elaborado para ser preenchido pela paciente. Como mostra a Tabela 1, das 156 pacientes, 37 (23,7%) eram analfabetas. De acordo com dados do Censo 2000,7 a taxa de analfabetismo em pessoas de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 15 anos foi de 13,3%, sendo que a média de anos de estudo foi de 5,7 anos. Graças ao nível de alfabetização da população brasileira e, particularmente, de amostra populacional da presente pesquisa, optou-se por ler o instrumento para as pacientes com baixo grau de escolaridade ou analfabetas durante as entrevistas com o pesquisador. Para as pacientes que eram capazes de ler o questionário, optou-se pelo auto-preenchimento. Em nosso meio, este procedimento é usual, principalmente em estudos que utilizam escalas. Acrescente-se que Weinberger17 (1996), após comparação de diferentes formas de administração do SF-36, que 70% das pacientes preferiram as entrevistas e 20% as formas de auto-preenchimento.

A consistência interna do KHQ, medida pelo coeficiente a de Cronbach padronizado, foi satisfatória, obtendo-se índice geral de 0,87, excedendo o valor mínimo geralmente utilizado como referência de 0,7 em trabalhos clínicos.10 Em relação à consistência interna dos domínios em separado, obtiveram-se valores entre 0,49 (sono/disposição) a 0,92 (emoções). Apesar de o a de Cronbach, no domínio sono/disposição, ter seu valor menor comparado aos outros valores, não houve modificação no valor do a de Cronbach geral padronizado, quando da retirada deste domínio, inclusive diminuindo o seu valor para 0,86. A consistência interna da escala de sintomas poderia não ter sido calculada, pois não era esperado que as pacientes apresentassem todos os sintomas ao mesmo tempo. Mesmo assim, foi observado valor de a de Cronbach de 0,73. Este dado revela que os sintomas referidos pelas pacientes têm bom grau de correlação entre si.

De maneira geral, o instrumento traduzido tem correlação positiva entre os seus itens e está realmente medindo o impacto da incontinência urinária na qualidade de vida das pacientes estudadas.

A consistência interna da versão original em inglês12 variou entre 0,72 (limitações físicas) a 0,89 (relações pessoais) e em espanhol13 variou de 0,65 (medidas de gravidade) a 0,92 (relações pessoais). A confiabilidade teste-reteste foi analisada pelo ICC. Os índices de correlação obtidos em cada domínio em particular foram considerados moderados a fortes, variando de 0,53 (percepção geral de saúde) a 0,81 (medidas de gravidade). Apenas o domínio percepção geral de saúde obteve um coeficiente de correlação moderado (0,53). Este resultado já era esperado, pois este domínio era o único que poderia sofrer alguma alteração espontânea, uma vez que as pacientes não foram tratadas, bem como o tempo entre as aplicações do KHQ não foi suficientemente longo para haver mudança da queixa de incontinência urinária. Os CCI obtidos nos domínios do KHQ na versão espanhola13 variaram entre 0,74 (limitações sociais) a 0,88 (medidas de gravidade).

A validade de constructo foi avaliada pela correlação entre os dois questionários aplicados por ocasião da primeira consulta e a validade concorrente pela associação do KHQ com alguns parâmetros clínicos relacionados à incontinência urinária. O grau de correlação foi moderado entre os domínios afins analisados. Deve-se lembrar que as correlações foram negativas em razão das características de pontuação de cada questionário.

De uma maneira geral, a qualidade de vida foi considerada pior quando o tipo de queixa era incontinência urinária mista (em todos os domínios do KHQ, com exceção do domínio percepção geral de saúde) e este dado é corroborado pela literatura internacional.6 Também a qualidade de vida foi considerada pior quando o tempo de queixa era maior de um ano (também observado em cinco dos nove domínios do KHQ, como percepção geral de saúde, impacto da incontinência urinária, emoções, sono/disposição e medidas de gravidade), quando as pacientes utilizavam absorventes (diferença em todos os domínios do KHQ, com exceção dos domínios percepção geral de saúde e sono/disposição) ou ainda quando o número de absorventes usados por dia era maior que quatro unidades (observado nos domínios impacto da incontinência urinária e medidas de gravidade). Em conjunto, estas análises de dados confirmam as hipóteses previamente levantadas de que a pior qualidade de vida estaria relacionada à maior gravidade dos parâmetros clínicos pesquisados (Tabela 5).

Observou-se que o SF-36 não foi suficientemente sensível para detectar diferenças entre as categorias "sim" e "não" da variável "uso de absorventes", por exemplo. Porém, neste sentido, não era esperado que o fosse. Enquanto a grande maioria dos domínios do KHQ demonstrou diferença significante em relação às categorias propostas (à exceção dos domínios percepção geral de saúde e sono/disposição), o SF-36 conseguiu demonstrar apenas diferenças significativas em um (aspectos físicos) dos seus oito domínios. Isto se deve, provavelmente, à pobre validade de conteúdo que o SF-36 tem para incontinência urinária. Por outro lado, evidenciou-se forte esta mesma validade para o KHQ, quando este mesmo fenômeno foi avaliado (Tabela 6)

 

 

Estudo realizado na Espanha encontrou correlações semelhantes entre os domínios do KHQ.13

Na comparação dos escores obtidos pela aplicação do KHQ na Inglaterra, na Espanha e no Brasil (Figura), observa-se que os resultados obtidos são semelhantes, seguindo a mesma tendência de impacto nos diferentes domínios. A variação para mais, encontrada no presente estudo no domínio emoções, pode dever-se a diferenças nas características sociodemográficas e clínicas da amostra populacional, ou mesmo a uma tendência da população brasileira de expressar mais enfaticamente suas emoções.

 

 

A sensibilidade da versão para o português do KHQ a alterações temporais deverá ser avaliada em futuras pesquisas. Os próximos objetivos estão voltados para o estudo de sua responsividade, isto é, a avaliação do impacto na qualidade de vida em mulheres com incontinência urinária, após tratamentos específicos. Desta forma, completa-se o processo de adaptação cultural.

Pelo fato de ser o primeiro e, até agora, único questionário condição-específico em incontinência urinária no Brasil, poderá ser utilizado como instrumento para avaliação de qualidade de vida em mulheres que apresentam esse sintoma de incontinência urinária, especialmente em pesquisa clínica.

Em conclusão, a versão para o idioma português do King's Health Questionnaire mostrou-se confiável e válida neste estudo envolvendo mulheres com queixa de incontinência urinária.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação Educacional Dr. Raul Bauab de Jaú, pelo apoio material; à Profª. Drª. Cleusa Camilo Atique, Diretora das Faculdades Integradas da Fundação Educacional "Dr. Raul Bauab" pelo apoio material e incentivo à pesquisa; à Profª. Débora Maria Nuñez, da Fundação Educacional de Jaú pelo auxílio na fase de tradução do questionário; às alunas de Pós-Graduação do Departamento de Cirurgia da Unicamp, fisioterapêuta Viviane Marques Capelini e enfermeira Renata Cristina de Oliveira Souza Castro pelo auxílio na coleta dos dados.

 

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Endereço para correspondência
José Tadeu Nunes Tamanini
Rua Floriano Peixoto, 443
17201-100 Jaú, SP, Brasil
E-mail:
tadeutamanini@netsite.com.br

Baseado em dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, 2002
Recebido em 3/6/2002
Reapresentado em 6/11/2002
Aprovado em 29/11/2002

 

 

*Cópias da versão completa do KHQ para o português podem ser obtidas por meio de solicitação escrita aos autores do presente artigo

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