SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.39 issue4Skin lesions in diabetic patientsDoes hearing radio increase the risk of being bitten by mosquitoes? author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.39 no.4 São Paulo Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102005000400025 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Isolamento do vírus da raiva em Artibeus fimbriatus no Estado de São Paulo

 

 

Elenice M Sequetin CunhaI; Maria do Carmo C S H LaraI; Alessandra Figueiredo de Castro NassarI; Miriam M SodréII; Luis Flávio Vani AmaralIII

ICentro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Animal. Laboratório de Raiva e Encefalites Virais. Instituto Biológico de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IICentro de Controle de Zoonoses de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIICentro de Controle de Zoonoses de São José do Rio Preto. São José do Rio Preto, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Descrevem-se, pela primeira vez, o isolamento e a identificação do vírus da raiva em morcego frugívoro Artibeus fimbriatus no município de São José do Rio Preto, Estado de São Paulo. O vírus foi isolado de exemplar encontrado em área urbana, caído sob uma árvore e ainda vivo. O diagnóstico foi realizado pelas técnicas de imunofluorescência direta e inoculação intracerebral em camundongos.

Descritores: Vírus da raiva. Isolamento. Quirópteros. Raiva.

 


 

 

A formulação de programas de controle da raiva está diretamente relacionada às diferentes espécies animais infectados pelo vírus e responsáveis pela disseminação da doença. O ciclo urbano da raiva, na grande maioria das cidades brasileiras, ainda é mantido pelo cão, sendo este responsável por 80% de casos de raiva humana de 1994 a 2003.2 No entanto, os morcegos participam da cadeia de transmissão da doença assumindo um papel cada vez mais relevante. Segundo Uieda,4 a raiva já foi observada em 27 espécies de morcegos no Brasil, incluindo espécies hematófagas e não hematófagas.

Entre os morcegos da família Phyllostomidae já foram registrados como positivos para o vírus da raiva alguns exemplares de A. lituratus, A. jamaicensis e A. planirostris.3,4 Porém, não existe descrição da doença na espécie Artibeus fimbriatus.

Artibeus fimbriatus é uma espécie que ocorre no Brasil, desde a Bahia até o Rio Grande do Sul, mais comumente encontrada na zona da Mata Atlântica. Pertence à família Phyllostomidae, morcegos frugívoros ou fitófagos, que consumem principalmente frutos, folhas e partes florais. Os dados sobre a alimentação, o abrigo e a reprodução da espécie A. fimbriatus são pouco conhecidos, ao contrário do outro exemplar do mesmo gênero, Artibeus lituratus, que é freqüentemente encontrado em áreas urbanas.

O caso descrito ocorreu em um morcego macho adulto, ainda vivo, encontrado caído no chão, embaixo de árvore frutífera Terminalia catappa (Combretaceae), popularmente conhecida como setecopas ou chapéu de couro, na área urbana do município de São José do Rio Preto, no Estado de São Paulo. Sua identificação foi realizada pelas características morfológicas e morfométricas externas (em milímetros) segundo Taddei.5 Após identificação, o exemplar foi depositado no Setor de Quirópteros do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, sob registro nº 190/04.

O espécime ainda foi examinado para presença do vírus da raiva, pela técnica de imunoflorescência direta (IFD) e inoculação intracerebral de camundongos.1

O exame pela técnica de imunofluorescência direta resultou positivo e na inoculação intracerebral de camundongos, todos os animais (seis) morreram com sinais clínicos da raiva. O período de incubação durou de oito a 10 dias.

Foram capturados 20 morcegos no município de São José do Rio Preto, entre 1998 e 2003. Esses morcegos, de espécies frugívoras e insetívoras de área urbana, foram diagnosticados positivos para raiva, alguns dos quais com histórico de agressão ou contato com animais de estimação e humanos.* A. imbriatus foi observado alimentando-se de frutos de Terminalia catappa em outros centros urbanos. Isso sugere que o plantio de alguns vegetais atrativos para morcegos pode determinar ou contribuir para sua permanência nesses locais, favorecendo sua sinantropia e possíveis riscos à saúde humana e animal.

Assim, a presente nota relata a primeira ocorrência da doença nesta espécie, no Brasil.

 

REFERÊNCIAS

1. Meslin FX, Kaplan MM, Koprowsky H. Laboratory techniques in rabies. Genebra: World Health Organization; 1996.        [ Links ]

2. Organización Panamericana de la Salud. EER Noticias Semanales: Enfermidades infecciosas emergentes y reemergentes, Región de las Américas. Rabia humana transmitida por murciélagos em el estado de Pará, Brasil. Enferm Infecc Emerg Reemerg [periódico on-line] 2004;2(13):1-5. Disponível em URL: www.paho.org [2004 abr 15]        [ Links ]

3. Passos EC, Carrieri ML, Silva MMS, Pereira Jr RG, Melo JATS, Maule LJ. Vírus rábico isolado de morcego frugívoro (Artibeus lituratus) capturado em 1997 no município de Rio Claro. Braz J Vet Res Anim Sci 1999;36(1):40-2.        [ Links ]

4. Uieda W, Hayashi MM, Gomes LH, Silva MMS. Espécies de quirópteros diagnosticadas com raiva no Brasil. Bol Inst Pasteur 1996;1:17-35.        [ Links ]

5. Taddei VA, Nobile CA, Versute EM. Distribuição geográfica e análise morfométrica comparativa em Artibeus obscurus (Schinz, 1821) e Artibeus fimbriatus Gray, 1838 (Mammalia, Chiroptera, Phyllostomidae). Ensaio Ciênc 1998;2:71-127.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Elenice M Sequetin Cunha
Laboratório de Raiva e Encefalites Virais
Instituto Biológico
Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252
04014-002 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: cunha@biologico.sp.gov.br

Recebido em 28/6/2004. Reapresentado em 15/3/2005. Aprovado em 26/3/2005.

 

 

* Sequetin Cunha EM et al. Pesquisa do vírus da raiva em morcegos capturados no norte e noroeste do Estado de São Paulo. Dados inéditos de pesquisa em andamento.