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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.40 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102006000100018 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores associados à vacinação contra influenza em idosos em município do Sudeste do Brasil

 

 

Maria Rita DonalisioI; Tânia RuizII; Ricardo CordeiroI

IDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IIDepartamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina de Botucatu. Universidade Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil

Correspondência/ Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Mesmo gratuita e disponível no Brasil desde 1999, a cobertura vacinal contra a influenza ainda é inadequada em diversos municípios do País. O objetivo da pesquisa foi estimar a cobertura vacinal e identificar fatores relacionados à vacinação contra a influenza em idosos.
MÉTODOS: Realizou-se inquérito domiciliar em amostra aleatória sistemática (N=365) da população urbana maior de 60 anos em Botucatu, São Paulo. Foi aplicado modelo de regressão logística múltipla, cuja variável dependente foi ter sido vacinado em 2002. Foram testadas no modelo as covariáveis: sexo, idade, socioeconômicas (renda per capita, número de pessoas por cômodo, escolaridade, estado civil, ocupação, tempo de moradia), antecedentes mórbidos, de internação, hábito de fumar, sintomas respiratórios nos últimos 15 dias e atividades comunitárias (trabalho voluntário, atividades no bairro, igreja).
RESULTADOS: Registrou-se cobertura vacinal de 63,2% (IC 95%: 58,3-68,2). Foi observado menor percentual de vacinados entre os idosos na faixa etária de 60 a 64 anos. As variáveis que se mostraram associadas à vacinação e permaneceram no modelo final foram: idade (OR=1,09 por ano; IC 95%: 1,06-1,13); hipertensão arterial (OR=1,92; IC 95%: 1,18-3,13); inserção em atividades na comunidade (OR=1,63; IC 95%: 1,01-2,65). A vacinação em portadores de doenças crônicas não atingiu níveis adequados conforme esperado para este grupo de risco, com exceção dos hipertensos. A participação em atividades comunitárias e sociais foi relacionada com o estado vacinal.
CONCLUSÕES: Condições socioeconômicas, hábitos e idade não restringiram o acesso à campanha vacinal. Por outro lado, campanhas específicas, endereçadas a indivíduos da faixa de 60 a 64 anos, podem ampliar a cobertura da vacinação.

Descritores: Programas de vacinação, estatística & dados numéricos. Saúde do idoso. Vacina contra influenza, uso terapêutico. Fatores socioeconômicos. Inquéritos de morbidade.


 

 

INTRODUÇÃO

O impacto positivo da vacinação contra a influenza na prevenção de internações e mortes por doenças respiratórias tem sido observado em várias partes do mundo. Estima-se que em maiores de 65 anos a vacinação reduza as hospitalizações e mortes por complicações da infecção respiratória viral em 40 a 70%.8,13

Embora a vacinação de idosos contra a influenza seja gratuita e disponível no Brasil desde 1999, as coberturas ainda são insatisfatórias em vários municípios do País. No Estado de São Paulo, o percentual de vacinados entre os maiores de 65 anos foi de 84%, em 1999. De 2000 a 2003, as coberturas registradas para maiores de 60 anos foram 63,9%, 66,6%, 65,6% e 75%, respectivamente. Mesmo sem atingir níveis esperados, as coberturas vacinais foram crescentes. A grande maioria dos municípios ainda apresenta percentuais inferiores a 80%.1

Investigações5,6,10,14 sobre as razões da não-adesão à vacina têm sido propostas por técnicos da área da saúde visando a direcionar intervenções para reverter este quadro e garantir maior proteção às populações de maior risco.

Assim, o objetivo do presente trabalho foi estimar a cobertura vacinal e analisar variáveis relacionadas à vacinação contra a influenza entre os maiores de 60 anos.

 

MÉTODOS

Foi realizado inquérito domiciliar em amostra aleatória sistemática (N=384) da população idosa na zona urbana de Botucatu, região centro-oeste do Estado de São Paulo (130 mil habitantes). O tamanho da amostra foi projetado estabelecendo-se erro a igual a 0,05; erro ß igual a 0,2 (teste com poder igual a 0,8) e pressupondo-se a prevalência das variáveis de estudo em 0,50. Para a composição da amostra utilizou-se cadastro de 9 mil famílias, elaborado no ano anterior à coleta dos dados para uma investigação de base populacional sobre acidentes do trabalho no município.4 Dentre os indivíduos sorteados, os critérios de inclusão no estudo foram: ter 60 anos ou mais, residir em Botucatu, estar no domicílio em alguma das três tentativas de visita, não ser institucionalizado e concordar em participar da pesquisa, assinando termo de consentimento informado. Foram coletadas informações sobre: sexo, idade, renda per capita, número de pessoas por cômodo, escolaridade, tempo de moradia na cidade, estado civil, ocupação, antecedentes mórbidos e de internação no último ano, e sobre antecedente vacinal no ano anterior, hábito de fumar, queixas respiratórias nos últimos 15 dias e atividades sociais/comunitárias. Do total da amostra sorteada, cinco domicílios foram encontrados fechados, três eram casas de veraneio e 11 idosos haviam morrido, totalizando assim, 365 idosos dos 384 sorteados (perda de 5%). Realizou-se treinamento da equipe de pesquisadores de campo e pré-teste.

Por meio do teste qui-quadrado analisou-se a homogeneidade da cobertura vacinal e de queixas respiratórias nas diferentes faixas etárias. Em análise bivariada foi estudada a associação entre vacinação contra a influenza em 2002 e covariáveis de interesse, tendo o odds ratio como estimador de associação e seus respectivos intervalos de confiança.15 Foram selecionadas as covariáveis que apresentaram p<0,20 e testadas em modelo logístico múltiplo, o qual incluiu no modelo final, as que apresentaram nível de significância menor que 0,05.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu/Universidade Estadual Paulista.

 

RESULTADOS

Observou-se que 63,2% (IC 95%: 58,3-68,2) dos idosos referiram vacinação em 2002. As coberturas vacinais nas diferentes faixas etárias são mostradas na Tabela 1, indicando que os indivíduos de 60 a 64 anos foram os menos vacinados no período. A análise exploratória da amostra mostrou distribuição etária e por sexo semelhantes à da população da faixa etária do município.

 

 

A Tabela 2 mostra distribuição semelhante das queixas respiratórias nas diferentes faixas etárias (c2=3,18; gl=4; p=0,53). Os principais sintomas respiratórios são apresentados na Tabela 3. Dos 55 indivíduos com sintomas gripais nos últimos 15 dias, 30 (54,6%) referiram mais de um, entre eles tosse e coriza em 10 casos (18,2%), tosse e catarro no peito em sete (12,7%) e dor de garganta e mal estar em cinco indivíduos (9,1%).

 

 

 

 

Dos 365 entrevistados, 15,4% referiram ser diabéticos, 7,4% pneumopatas, 23,1% cardíacos e 47,5% hipertensos. Com exceção dos hipertensos, os demais indivíduos com as doenças crônicas acima mencionadas apresentaram cobertura vacinal semelhante aos que não a referiram.

Variáveis socioeconômicas (renda per capita, número de pessoas por cômodo da casa, escolaridade) não estiveram associadas à vacinação. Porém, a inserção do idoso na comunidade (trabalho voluntário, reuniões, atividades no bairro) esteve associada significativamente com a referência de vacinação em 2002.

A Tabela 4 apresenta estatísticas obtidas da análise bivariada e múltipla. As variáveis que se mostraram associadas à referência de vacinação foram: idade (OR=1,09 relativo à variação de um ano; IC 95%: 1,06-1,13); hipertensão arterial (OR=1,92; IC 95%: 1,18-3,13); inserção em atividades na comunidade (OR=1,63; IC 95%: 1,01-2,65).

 

DISCUSSÃO

A cobertura vacinal detectada em 2002 (63,2%; IC 95%: 58,3%-68,2%) foi próxima da registrada pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica (SVE) do município (58,3%).

Foi observado menor percentual de vacinados entre os idosos na faixa etária de 60 a 64 anos. Esse segmento etário foi ainda menos vacinado (40,9%; IC 95%: 35,8-45,9) quando comparado com os dados oficiais do SVE (52,9%). A probabilidade de ser vacinado aumenta com a idade segundo vários pesquisadores5,14,16 e confirmado na presente análise.

A referência de sintomas respiratórios nos últimos 15 dias não se associou à vacinação no modelo logístico final. Uma grande variedade de agentes etiológicos pode estar associada aos quadros respiratórios virais. Entre os vírus mais relevantes estão: sincicial respiratório, o parainfluenza, rhinovírus, adenovírus, entre outros; além do vírus da influenza.7,12 Assim, a vacinação não estaria prevenindo a população contra qualquer infecção de vias respiratórias, mas somente os casos de infecção pelos vírus que fazem parte da composição da vacina na estação.2

Quanto aos sintomas, a febre foi pouco referida entre os idosos mesmo na vigência de outros sintomas respiratórios mais freqüentes como tosse, coriza e dor de garganta.

Embora a vacinação tenha sido mencionada pela população e não documentada, a sensibilidade e a especificidade têm sido consideradas altas (0,98) e moderadas (0,71), respectivamente, em estudo realizado com idosos.9

O tempo de moradia na cidade não se mostrou associado com a vacinação. A maioria dos idosos residia no município há mais de 10 anos o que não permitiu avaliar o grupo recém instalado na cidade. O maior tempo de moradia poderia facilitar a integração e adaptação com a vida na cidade e o contato com informações sobre as campanhas vacinais.

Não foi observada diferença na vacinação de indivíduos segundo a escolaridade, renda per capita ou número de pessoas por cômodo, em que pese o significado limitado da escolaridade em idosos no Brasil. Alguns autores3,6 identificam variações étnicas, sociais e de escolaridade no comparecimento à vacinação. Nos EUA, brancos aderem mais à vacina que afro-americanos e hispânicos, mesmo entre populações de maior risco, embora não tenham sido discutidos os prováveis vieses que interagem nestes achados.

Com exceção dos hipertensos, a população que referiu ser portadora de doenças crônicas como Diabetes Mellitus, doença cardíaca e/ou doença pulmonar, apresentou cobertura vacinal semelhante à que não referiu tais doenças, ao contrário do que observam outros autores.5,11 Os benefícios da vacinação para esses doentes indicam formalmente a imunização.2

Os que referiram ser hipertensos foram mais vacinados, embora não haja informações no presente estudo para validar a auto-referência de hipertensão nesses indivíduos. Uma hipótese explicativa seria que a maior proximidade desses pacientes com os serviços de saúde públicos facilite o seu comparecimento às campanhas. Por outro lado, alguns estudos5,6,9 chamam a atenção para a baixa indicação de vacina por parte das equipes de saúde, não obstante estes autores encontraram associação entre o comparecimento à vacinação e a recomendação médica. Moura & Silva10 (2004), observaram que profissionais de saúde indicam pouco a vacina, mesmo para pacientes que teriam indicação formal.

Não foi a limitação da idade ou do nível socioeconômico que restringiu a vacinação contra a influenza entre os idosos no município. Explicações de outra ordem podem estar relacionadas com a adesão às campanhas. Alguns autores identificaram como causas da recusa à vacina: o descrédito sobre a eficácia da vacina, o medo de eventos adversos e a crença que a gripe é uma doença banal.5,10,14,16 Preconceitos, inseguranças, boatos, desconhecimento sobre a vacina e, particularmente a não indicação do imunobiológico pelas equipes de saúde contribuem para a não vacinação de grande número de pacientes que poderiam se beneficiar com a proteção da vacina.

Embora não tenha sido objetivo do presente estudo aprofundar a natureza da participação do idoso na comunidade, algumas sugestões podem ser apontadas. Por exemplo, a provável oportunidade de maior esclarecimento sobre o assunto por parte de idosos que se inserem em atividades no bairro, igreja e centros comunitários. Também é de se esperar que essas atividades facilitem o contato de equipes de saúde com esse segmento da população, propiciando maior divulgação e discussão sobre os benefícios da vacina, além de esclarecimentos sobre suas indicações e riscos.

Possivelmente, o maior determinante do não comparecimento à vacinação não é a falta de acesso. Sugere-se ampliar a divulgação sobre a vacina entre os profissionais de saúde bem como em campanhas específicas para portadores de doenças crônicas para aumentar a cobertura em grupos de maior risco de complicações clínicas das infecções respiratórias. Da mesma forma, a adesão por parte dos idosos com menos de 65 anos pode ser aumentada com campanhas de divulgação específicas para a faixa etária.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência/ Correspondence:
Maria Rita Donalisio
Departamento de Medicina Preventiva e Social
Faculdade de Ciências Médicas - Unicamp
Caixa Postal 6111
13083-970 Campinas, SP, Brasil
E-mail: donalisi@fcm.unicamp.br

Recebido em 4/8/2004. Reapresentado em 8/6/2005. Aprovado em 6/9/2005.
Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo n. 2003/02821-0).