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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.41 no.1 São Paulo Feb. 2007  Epub Nov 28, 2006

https://doi.org/10.1590/S0034-89102006005000015 

Apoio no nascimento: percepções de profissionais e acompanhantes escolhidos pela mulher

 

Support during childbirth: perception of health care providers and companions chosen by women

 

 

Odaléa Maria BrüggemannI; Maria José Duarte OsisII; Mary Angela ParpinelliIII

IDepartamento de Enfermagem. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IICentro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IIIDepartamento de Tocoginecologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a percepção de profissionais da saúde sobre prestar assistência à parturiente na presença do acompanhante por ela escolhido, e a percepção dos acompanhantes sobre essa experiência.
MÉTODOS: Realizou-se estudo qualitativo, a partir de ensaio clínico randomizado controlado. A amostra estudada foi intencional e definida por saturação de informação. Foram entrevistados 11 profissionais da saúde e 16 acompanhantes no centro obstétrico de uma maternidade em Campinas, SP, de outubro de 2004 a março de 2005. Empregou-se a técnica de análise temática de discurso, utilizando-se as figuras metodológicas: idéia central, expressões-chave e o discurso do sujeito coletivo.
RESULTADOS: Entre as idéias centrais dos profissionais destacaram-se: não houve diferença em prestar assistência com acompanhante durante o trabalho de parto e parto; com o acompanhante ocorreram mudanças positivas na assistência; o acompanhante dá apoio emocional à parturiente, que fica mais satisfeita, segura e tranqüila; existem muitos aspectos positivos no comportamento e participação das parturientes com acompanhante; o acompanhante não causou problema e fez o profissional ter atitude mais humana e menos rotineira. As principais idéias centrais dos acompanhantes foram: sentimentos positivos, emoção, satisfação com a experiência; poder ajudar ao dar apoio emocional; sentir-se bem recebido pelos profissionais.
CONCLUSÕES: Os profissionais da saúde consideraram importante o apoio do acompanhante não tendo sido observado problema em prestar assistência na sua presença. Os acompanhantes se sentiram satisfeitos e recompensados com a experiência. Não foram detectados conflitos de opinião entre os envolvidos.

Descritores: Parto humanizado. Equipe de assistência ao paciente. Conhecimentos, atitudes e prática em saúde. Pesquisa qualitativa. Acompanhantes de pacientes. 


ABSTRACT

OBJECTIVE: To understand health care providers' perception on managing laboring women in the presence of a labor companion of their choice, and the labor companion's perception of this experience.
METHODS: A qualitative study was conducted based on a controlled randomized clinical trial. Sampling was intentional and determined through information saturation. Semi-structured interviews were carried out with 11 health care providers and 16 laboring companions in the obstetric unit of a maternity facility at the hospital complex, in Campinas, Southern Brazil, between October 2004 and March 2005. The thematic analysis of discourse was applied using the following methodological figures: central idea, key expressions and discourse of the collective subject.
RESULTS: The most remarkable central ideas of health care providers were: no difference was observed in managing laboring women with a labor companion; positive changes were noted in labor management when a labor companion was present; the companion provided emotional support to laboring women who were more pleased, and felt safer and peaceful; many positive aspects were seen in the behavior and involvement of laboring women with a labor companion; the companion caused no problems and encouraged health providers to engage in a more humane and less routine attitude. The main central ideas of labor companions were: positive feelings, emotions, a sense of satisfaction with the experience; being with the laboring woman was a great opportunity to provide her emotional support; and they felt welcome by health care providers.
CONCLUSIONS: Health providers considered positive the support provided by a labor companion and had no problems in managing laboring women in the presence of their companions. Labor companions were pleased and happy with this experience. There was no conflicting opinions.

Keywords: Humanizing delivery. Patient care team. Health knowledge, attitudes, practice. Qualitative research. Patient's companion.


 

 

INTRODUÇÃO

O bem-estar da futura mãe deve ser assegurado por meio do livre acesso de um membro de sua família, escolhido por ela, durante o nascimento e em todo período pós-natal.13 O respeito à escolha da mulher sobre seus acompanhantes foi classificado como uma prática comprovadamente útil e que deve ser estimulada, com base nas evidências científicas sobre o apoio durante o nascimento.3,14

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece os benefícios e a ausência de riscos associados à inserção do acompanhante, e recomenda que todos os esforços devem ser realizados para garantir que toda parturiente tenha uma pessoa de sua escolha para encorajá-la e dar-lhe conforto durante todo o processo do nascimento.1

Mesmo antes dessa recomendação, algumas maternidades permitiam a presença do acompanhante de escolha da parturiente durante o processo do nascimento.5,7,8,2 Entretanto, em muitos serviços, essa prática ainda não é adotada.1,3,4

Há expectativa de mudança nessa situação a partir da sanção da Lei n. 11.108, em abril de 2005,5 resultado de vários esforços, especialmente da Rede de Humanização do Nascimento. A vigência dessa lei, porém, não assegura a sua implementação. De fato, inicia-se um processo de reorganização dos serviços de saúde e dos profissionais para vivenciarem essa prática. A inserção do acompanhante, escolhido pela parturiente, para lhe dar apoio no processo do nascimento, é uma intervenção comportamental que mobiliza a opinião dos profissionais de saúde e das pessoas escolhidas para desempenharem esse papel.

Estudos que abordam a percepção dos profissionais sobre a presença do acompanhante escolhido pela parturiente, assim como a percepção dos acompanhantes sobre a experiência, têm sido realizados em maternidades em que essa prática ocorre desde a implantação do serviço, ou após um processo de mudança institucional.7,6,7 Porém, não há estudos sobre a reação de profissionais que não foram previamente sensibilizados ou não assimilaram que esse é um direito da mulher, a ser respeitado e concretizado nas instituições de saúde.

O objetivo do presente artigo foi descrever a percepção de profissionais de saúde em prestar assistência à parturiente na presença do acompanhante por ela escolhido, e a percepção dos acompanhantes sobre a experiência de prover apoio.

 

MÉTODOS

Pesquisa qualitativa de natureza exploratória, parte de um ensaio clínico controlado randomizado que avaliou o apoio à parturiente pelo acompanhante por ela escolhido quanto aos aspectos de sua satisfação e dos resultados maternos, perinatais e aleitamento materno.8

O estudo foi realizado no centro obstétrico de uma maternidade do complexo hospitalar de uma universidade, localizada em região metropolitana de Campinas, São Paulo. Nessa instituição, a presença do acompanhante durante o processo do nascimento não fazia parte da rotina assistencial. Entretanto, em virtude da realização do referido ensaio clínico controlado randomizado, as parturientes do grupo de intervenção tiveram um acompanhante de sua escolha durante todo o processo do nascimento.

Não foi realizado nenhum treinamento ou sensibilização com os profissionais para receberem o acompanhante no centro obstétrico. Ocorreram apenas contatos verbais nos plantões matutino, vespertino e noturno, nos quais foram apresentados os objetivos da pesquisa e a forma como seria desenvolvida.

Os acompanhantes – provedores de apoio – não tiveram qualquer preparo no pré-natal para desempenharem essa atividade, mas receberam uma orientação verbal e escrita, dada pela pesquisadora principal, antes de entrarem no centro obstétrico. As orientações contemplaram as atividades de apoio à parturiente, o comportamento esperado frente às possíveis manifestações de cansaço, ansiedade e preocupação da parturiente; o cumprimento das normas do serviço e a possibilidade de solicitar informações aos profissionais de saúde. Também foi ressaltada a necessidade de preservar a privacidade das demais parturientes no ambiente de pré-parto coletivo.

A amostra foi intencional e seu tamanho, estabelecido durante a coleta de dados pelo critério de saturação.12 Participaram do estudo 11 profissionais de saúde (dois médicos e duas médicas obstetras, três enfermeiras e quatro auxiliares de enfermagem) que trabalhavam nos diferentes turnos, e com idades entre 25 e 48 anos. Também participaram 16 acompanhantes, que possuíam algum parentesco com a parturiente, entre os quais, companheiro/pai da criança (oito), mãe (três), tia (três), cunhada (uma) e sogra (uma). A faixa etária dessas pessoas variou entre 23 e 51 anos, predominou a escolaridade de nível fundamental (sete) e médio (sete), e a maioria exercia alguma atividade remunerada (14).

A coleta dos dados ocorreu entre outubro de 2004 e março de 2005. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas gravadas, com um roteiro temático para os profissionais de saúde e outro para os acompanhantes. As entrevistas foram transcritas integralmente e conferidas.

Para tratamento dos dados foi utilizada uma técnica de análise temática de discurso. Identificaram-se as idéias centrais e as expressões-chave, a partir das quais foi construído o Discurso do Sujeito Coletivo, que consiste em uma síntese, na primeira pessoa do singular, das expressões-chave correspondentes a cada idéia central. O uso dessa estratégia discursiva torna mais clara uma representação social, bem como o conjunto das representações que conforma um dado imaginário social. Este pode ser definido como uma espécie de meio-ambiente ideológico que afeta a todos os indivíduos em uma dada comunidade, estabelecendo as possibilidades de sua visão acerca da realidade em que se inserem.4 Para o processamento das informações procedentes das entrevistas, utilizou-se o programa Ethnograph V 5.O.9

Os resultados obtidos sofreram um processo de validação externa12 por pares do pesquisador, que discutiram as oposições e/ou objeções sobre os achados.

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e autorizado pela Diretoria Clínica da maternidade. Os participantes foram esclarecidos sobre os objetivos e o desenvolvimento da pesquisa, e manifestaram desejo de participar por escrito, por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Percepções dos profissionais da saúde

Os temas e as idéias centrais (Tabela 1) que emergiram das entrevistas com os profissionais de saúde contemplam aspectos sobre a sua experiência prévia, sua expectativa em prestar assistência com o acompanhante presente, e sua opinião após vivenciarem essa prática.

A percepção dos profissionais de saúde quanto à experiência vivida foi marcadamente positiva. Apesar de não terem praticamente nenhuma experiência anterior em prestar assistência com o acompanhante presente durante o processo do nascimento, os profissionais manifestaram inicialmente uma expectativa negativa, superada após a experiência.

Da totalidade das idéias centrais (Tabela 1), são apresentadas, a seguir, as que mais se destacaram, com os respectivos discursos do sujeito coletivo.

Idéia central - A expectativa sobre o acompanhante era negativa

Eu achava que não daria certo, que realmente ia atrapalhar, tinha receio pelo fato deles não terem uma orientação no pré-natal. Fiquei preocupada, a gente não está acostumada, tinha um pé atrás, sabe (...) esses acompanhantes não sabem nem conversar direito... vão impor algumas condições e eu vou ter que ceder. Imaginei que eles iriam ficar alterados no parto e nervosos com a demora do trabalho de parto. As outras pacientes poderiam se assustar, eles poderiam agredir uma de nós ou os médicos. Tinha medo... a gente não sabe qual a reação do acompanhante numa eventual emergência, quando vira cesárea ou aquele fórceps mais difícil.

Em outros estudos qualitativos sobre o tema, os profissionais de saúde também apresentaram rejeição inicial, preconceito, medo da suposta violência dos acompanhantes, e dos possíveis questionamentos sobre a conduta profissional.7 Entre os profissionais de enfermagem, especificamente, verificaram-se resultados semelhantes, com medo do desconhecido, especialmente pela falta de habilidade em lidar com uma interação afetiva junto à parturiente e seu acompanhante.7

A superação das expectativas negativas dos profissionais de saúde relacionou-se diretamente à sua percepção de que não houve alteração da assistência e da rotina hospitalar em virtude da presença do acompanhante. Os profissionais constataram que isto não limitou, restringiu ou alterou a conduta, em especial do médico, responsável pela assistência ao parto na referida instituição.

Idéia central - Na sala de parto não há problema o acompanhante estar presente, pois a assistência não muda

Às vezes, na sala de parto, você tenta não transparecer uma situação de estresse para que a pessoa não perceba. Se eu achasse que tinha que fazer determinada coisa, independente de tá ou não com o acompanhante, eu iria fazer... Se a minha conduta é essa, vai ser essa. Mesmo num fórceps mais difícil ou que depois virou cesárea, eles não se manifestaram assim... Ele também tem que se adaptar às regras (...), não ficar adiando a indicação de um fórceps ou uma cesárea porque o acompanhante tá na sala. Nessa hora você tá tão ligado, que esquece do acompanhante, já nem tá vendo a cara de ninguém, tá mais preocupado com a resolução do parto. Fiz um Kielland com o pai na sala, mas ele nem percebeu, a gente tem uma visão e ele tem outra. Não é difícil ter alguém junto na sala de parto, não é um monstro de sete cabeças, a pessoa não atrapalha a sua rotina diária.

Em estudos realizados em maternidades que permitem rotineiramente o acompanhante, os profissionais também passaram a considerar essa prática benéfica após a vivência.7,11 Além disso, os profissionais referiram que experiências positivas com o acompanhante fortaleceram a equipe e melhoraram a compreensão das necessidades da parturiente e seus familiares,7 assim como se verificou no presente estudo.

Idéia central - Nas urgências o acompanhante não interfere na assistência, mas a sua presença gera maior ansiedade no profissional de saúde

Eu tive uma experiência de urgência, um prolapso de cordão (...) aí você percebe que tem uma ansiedade maior pelo acompanhante estar na sala. E isso de certa forma atrapalhou um pouco, gerou um pouco mais de estresse na equipe. Não que você não vá tomar as atitudes corretas... mas eu me senti um pouco mais ansioso em tomar as decisões pelo fato da pessoa estar na sala... no sentido de resolver logo..., mas não chegou a interferir na assistência. Se tivesse um sofrimento fetal, bradicardia (...) nessa hora você tem que deixar o acompanhante de lado e partir para o atendimento da paciente.

Apesar dos aspectos positivos prevalecerem, os profissionais entrevistados referiram que, em situações de urgência, a presença do acompanhante gerou maior ansiedade, e o desejo de resolver logo a intercorrência. Entretanto, isto não interferiu na forma como a assistência foi prestada, pois o profissional concentrava sua atenção na parturiente. No estudo de Pinto2 (2001), porém, os profissionais julgaram que a presença do acompanhante nas emergências pode prejudicar o atendimento, devido à falta de preparo deste último para enfrentar essa situação.

Além das questões mais técnicas e de tomada de decisão, muitas idéias centrais mostraram claramente que o acompanhante gerou mudanças benéficas na assistência, bem como sentimentos positivos e emoção na equipe. Sua presença aumentou a orientação e a privacidade dadas à parturiente. Também foi salientado que, quando os profissionais vivenciam a emoção do acompanhante, resgata-se o sentido do nascimento como um acontecimento de vida e alegria,7 e isto repercute na atenção dada às mulheres. A presença do acompanhante também proporciona maior abrangência ao cuidado, pois amplia a observação à parturiente e a comunicação das suas necessidades. Isto contribui para que os acompanhantes sejam vistos pelos profissionais de forma positiva.2

Idéia central - Com o acompanhante ocorrem mudanças positivas na assistência, inclusive sentimentos positivos e emoção na equipe

Você consegue explicar para a paciente o que tá acontecendo, fica mais atento, quer cuidar mais e mostrar que aquilo ali é normal, que o nenê vai nascer bem, que tá tudo bem. A gente quer dar mais atenção pro acompanhante também, começa a englobar ele na assistência, mas nada que venha atrapalhar a rotina da gente. Se a paciente ou acompanhante está constrangida, a gente trabalha isso. A gente acaba dando mais privacidade pra paciente, entre aspas incomodando um pouco menos, talvez porque sabe que tem alguém junto. O acompanhante estando junto é melhor, ele tá vendo que a paciente tá sendo bem cuidada. Eles têm direito e acho legal, me sinto feliz, o clima na sala de parto fica bom. Não se torna tão estressante. Você se sente que é um profissional importante para aquela pessoa que tá acompanhando quem ela gosta muito. Você vê a emoção, acaba chorando, se emocionando junto, principalmente quando é o esposo e a esposa. Parece que a gente fica mais sensível, dá mais valor a esse momento importante, lindo.

Os profissionais de saúde identificaram muitos aspectos positivos quanto aos sentimentos, comportamento, participação e satisfação das parturientes com acompanhante, enquanto as sem acompanhante demonstraram mais medo e dificuldade para vivenciar o nascimento.

Os aspectos negativos percebidos pelos profissionais de saúde quanto à presença do acompanhante referiram-se a um possível comportamento inadequado das parturientes: algumas ficaram mais dengosas, mimadas, e desestabilizadas por acharem que o acompanhante era a "salvação", quando estavam cansadas e pensavam que não agüentariam até o final do trabalho de parto (Tabela 1, Tema V - IC17). Essa opinião reflete que os profissionais, em geral, esperam da parturiente um comportamento adequado, de passividade, resignação e aceitação das circunstâncias, inerente ao modelo de assistência centrado na conveniência do profissional de saúde e da instituição, e não nas necessidades da mulher.9

Idéia central - Existem muitos aspectos positivos com relação ao comportamento e a participação das parturientes que possuem acompanhante

A gente vê que não é a mesma coisa compartilhar com a gente o que ela compartilha com a pessoa que tá do lado dela. Ela pode verbalizar algumas coisas que às vezes não verbaliza pra equipe médica e enfermagem. Eu acho que elas ficam mais confortadas, mais seguras e colaboram mais na sala, até entendem melhor a gente. Ela não está assustada ou com medo, então ela vai ter muito mais força no trabalho de parto e no parto. Parece que ela quer mostrar que ela é forte, que ela vai conseguir e que o bebê vai nascer bem, para aquela pessoa que tá ali... independente se for marido, mãe ou amiga. É diferente de estranhos solicitando que ela faça o puxo, orientando ela no parto. Elas são mais fortes para o trabalho de parto chegar ao fim, a satisfação delas é maior, a gente percebe isso no modo delas agirem.

Segundo os profissionais de saúde, a duração do trabalho de parto foi igual nas parturientes com e sem acompanhante, geralmente rápido, devido ao protocolo da instituição, de manejo ativo do trabalho de parto. No entanto, destacaram que os efeitos positivos da presença do acompanhante sobre a participação das parturientes contribuíram para a boa evolução do trabalho de parto e parto.

Idéia central - O acompanhante influencia positivamente a evolução do trabalho de parto e parto, porque muda o comportamento da parturiente

Ah! eu acho que com o acompanhante é mais tranqüilo e o trabalho de parto flui melhor, porque elas estão mais seguras e têm mais confiança de que tudo vai dar certo. Mesmo que ela fique mais dengosa, acha que vai ser melhor. Umas eu acho até que evoluem mais rápido, porque elas ficam mais tranqüilas e colaboram mais, prestam mais atenção no que o médico e a enfermagem estão explicando... Elas se empenham mais a fazer força na hora de nascer, então tudo sai bem melhor, parece que ela fica mais confiante. Essas que não têm acompanhante acabam sendo diferentes, elas reclamam, choram muito, e com medo elas não conseguem fazer uma boa força na hora que tá nascendo (...)

Os profissionais de saúde reconheceram que o apoio provido pelos acompanhantes gera sentimentos positivos na parturiente, tornando-as mais seguras e colaborativas. Isto é congruente com resultados de outro estudo, em que a presença do acompanhante escolhido pela parturiente foi incentivada pela equipe de profissionais por considerá-la uma fonte segura de suporte emocional e apoio na facilitação do trabalho de parto.11

Idéia central - O acompanhante dá apoio emocional à parturiente

Acho que o principal papel do acompanhante é estar junto com a parturiente, independente do conhecimento que ele tenha, se é pai da criança, marido, namorado, a mãe, não importa. O importante é a parturiente ter aquele carinho, que muitas vezes a gente não consegue dar.... Vimos acompanhantes super carinhosos, participando, dando apoio, segurando a mão, acalmando, incentivando ela a se comportar de acordo com aquele momento, pra ela ter força. Quando elas estão alteradas, ansiosas ou nervosas, o acompanhante tranqüiliza e estimula a colaborar mais... acolhe ela bem, ele fica ali o tempo todo do lado. Às vezes elas têm dúvidas que não querem perguntar pra gente, acabam perguntando pra eles.... A gente percebe que no parto o acompanhante ajuda a parturiente a fazer força, segurando a mão, tando ali do lado... uns falavam assim: "vamos ajudar, fazer força".

O acompanhante foi visto como um dos aspectos da humanização do parto, capaz de levar os profissionais de saúde a repensar o significado do nascimento, e a mostrar uma atitude mais humana e menos rotineira. De modo semelhante, Castro10 (2003) associou a presença do acompanhante com maior empenho dos profissionais para prestarem uma assistência melhor. Entretanto, no presente estudo, as idéias centrais dos discursos dos profissionais expressam que a analgesia de parto também é um aspecto bastante relevante da humanização, e independe da presença do acompanhante. O amplo uso da analgesia, na visão de alguns profissionais, é um marcador da assistência humanizada, em contraposição ao modelo de atenção ao parto proposto pela OMS, que não recomenda a sua prática rotineira.10,9

Idéia central - O acompanhante faz o profissional assumir uma atitude mais humana e menos rotineira

O acompanhante favorece e em muito a humanização do parto, pra equipe médica e de enfermagem, pra equipe de dentro do hospital... pra gente não tornar o parto algo rotineiro, algo mecânico... ajuda a lembrar que aquela paciente tem uma família que se importa com ela, que tá todo mundo atento ao desfecho obstétrico e neonatal. É uma visão que vem de fora que pode acrescentar muito pra gente, resgatando o lado humano do parto, e não o lado técnico e científico e de rotina de trabalho. Todo mundo presta mais atenção no jeito como fala com a paciente, fica mais educado, se policia mais sobre o que vai falar. Presta mais atenção que o momento tá mágico ali... não é só uma paciente que veio ganhar bebê e vai embora...

Percepções dos acompanhantes

Os temas e as idéias centrais que representam os sentimentos referidos pelos acompanhantes entrevistados – provedores de apoio à parturiente durante o processo do nascimento, estão descritos na Tabela 2.

Os acompanhantes se sentiram bem recebidos pelos profissionais de saúde, possivelmente devido a ausência de conflito entre eles, e da percepção dos profissionais de que o apoio foi benéfico para a parturiente e para a própria equipe de saúde.

Idéia central - O acompanhante se sentiu bem recebido pelos profissionais

Melhor não podia ser, me senti nossa!!! o pessoal daqui é muito bom, são profissionais mesmo sabe, me deixaram à vontade, deixaram ela à vontade, brincam com a gente para ajudar a relaxar. Gostei muito e tenho vontade de dar parabéns para eles, eles são bons mesmo. Não tenho do que reclamar não... eu não atrapalhei em nada e eles também não reclamaram nada... Qualquer dúvida que eu tive eu perguntei e eles foram muito pacientes pra tá explicando (...) tudo nota 10, eu não tenho queixa de nada, nada mesmo!!!

As idéias centrais e seus respectivos dicursos do sujeito coletivo expressam enfaticamente que os acompanhantes sentiram-se satisfeitos com a experiência vivida no centro obstétrico, pois puderam ajudar a parturiente e compartilhar um momento especial – o nascimento. A percepção foi influenciada positivamente pelo fato de os acompanhantes sentirem-se bem recebidos pelos profissionais de saúde, poderem presenciar a assistência prestada à parturiente e acharem que elas foram bem atendidas.

Idéia central - O acompanhante teve sentimentos positivos, emoção, satisfação com a experiência, e se sentiu confiante para ajudar

Ah! sei lá, foi uma emoção tão grande, viu... foi chocante e ao mesmo tempo emocionante, é uma coisa que não tem como explicar... achei bárbaro, fantástico. É uma experiência muito boa mesmo... eu adorei, foi ótimo, fiquei muito contente, fiquei muito emocionada. Me senti muito bem... eu gostei de todos os momentos, até na sala de cirurgia... Foi muito bom pra nós, acho que pro neném também... É uma experiência que a gente não vai esquecer nunca... não há nada que pague o dia de hoje. Ver meu filho nascer (...) tô feliz, porque é um momento muito especial da minha vida. Meu Deus, que sensação mais boa... Eu faria tudo de novo, se fosse o caso.

Os acompanhantes ressaltaram a satisfação em ter proporcionado ações de apoio para que a parturiente vivenciasse de forma mais tranqüila o processo do nascimento. Esse tipo de apoio, especialmente permanecer ao lado da parturiente e segurar a sua mão, também foi o mais identificado no estudo de Pinto et al6 (2003). Diversas pesquisas mostram que o acompanhante considera a experiência muito boa, pois a sua presença ajuda a parturiente, bem como é importante para o desenvolvimento da paternidade e para reforçar os vínculos familiares.2,6,10,6

Idéia central - Estar junto ajudou muito porque o acompanhante pôde dar apoio emocional

Eu acho que dei bastante força pra ela, quando cheguei ela tava bem desesperada, eu acho que ela se fortaleceu... Dei apoio pra ela, estando do lado e conversando bastante (...) ela se sentiu mais à vontade, ficou mais tranqüila, mais compreensiva, ficou bem mais calma, ajudou muito... ela segurou muito na minha mão, acho que ela se sentiu protegida. Com certeza, se ela tivesse sozinha ela não tinha tanta força pra fazer o nenê nascer. Ela se sentiu com mais coragem, ... a gente orou muito, pedimos pra Deus pra ele ajudar nós... Acho que ajudei muito dando apoio, segurei a mão, fiz um carinho no cabelo, na hora do banho eu fiquei junto, fiz certinho do jeito que eles mandaram (...) passando a mão na barriga, tentando acalmar ela, falando para ela que é assim mesmo. Isso é muito importante (...) é tudo nessa hora. Se eu não tivesse acompanhado ela ia ficar nervosa, talvez não tinha sido tão rápido como foi, e ela não sofreu tanto. No primeiro filho, a gente sente insegura, então eu achei que ela se sentiu segura...

 

CONCLUSÕES

De modo geral, os resultados descritos no presente trabalho indicam a possibilidade de desconstruir a idéia, muitas vezes pré-concebida, de que a presença do acompanhante pode gerar problemas durante o processo do nascimento. Em que pese a necessidade de se considerar que o discurso extremamente positivo dos profissionais pode conter um viés de cortesia, o conjunto das percepções evidenciou boa aceitação por parte dos profissionais. Além disso, a experiência foi vivenciada de maneira positiva pela pessoa que desempenhou o papel de provedor de apoio.

Ressalta-se que, mesmo sem qualquer sensibilização dos profissionais para receber esse "novo personagem" no cotidiano do atendimento ao processo de nascimento, os profissionais podem aceitar a proposta e incorporá-la de forma positiva no desenvolvimento de suas atividades assistenciais. Essa receptividade, entretanto, não garante que as maternidades passem a inserir o acompanhante, pois a efetivação dessa medida requer diretrizes institucionais, cuja implementação, certamente, demanda mais esforço e pode suscitar maior resistência do que a experiência vivida pelos profissionais durante a realização do ensaio clínico em questão.

Os achados do presente estudo podem, quiçá, contribuir para estimular e subsidiar a implementação da atual legislação em vigor no Brasil, abrindo possibilidades para que todas as parturientes, independente do seu nível socioeconômico e cultural, tenham o apoio de uma pessoa de sua escolha durante todo o processo do nascimento.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Odaléa Maria Brüggemann
Departamento de Enfermagem
Centro de Ciências da Saúde
Campus Universitário Trindade
88040-970 Florianópolis, SC, Brasil
E-mail: odalea@nfr.ufsc.br

Recebido: 20/10/2005
Revisado: 10/5/2006
Aprovado: 3/10/2006

 

 

OM Brüggemann foi bolsista de doutorado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
1 Ministério da Saúde. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher. Brasília (DF); 2001.
2 Pinto CMS. Parto com acompanhante: a experiência dos profissionais [dissertação de mestrado]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 2001.
3 Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo - Cremesp. Avaliação dos serviços de saúde de assistência ao parto e ao neonato do Estado de São Paulo: 1997-1998. São Paulo; 1998.
4 Boaretto MC. Avaliação da política de humanização ao parto e nascimento no município do Rio de Janeiro [dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz; 2003. Disponível em http://teses.cict.fiocruz.br/cgi-bin/wxis1660.exe/lildbi/iah/ [acesso em 10 jul 2005]
5 Brasil. Lei n. 11.108, de 7 de abril de 2005. Altera a Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. Diário Oficial da União. 8 abr 2005;Seção 1:1.
6 Storti JPL. O papel do acompanhante no trabalho de parto e parto: expectativas e vivências do casal [dissertação de mestrado]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP; 2004. Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/22/22133/tde-13102004-152521/ [acesso em 23 nov 2004
7 Florentino LC. A participação do acompanhante no processo de nascimento numa perspectiva de humanização [tese de doutorado]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 2003.
8 Bruggemann OM. O apoio à mulher no nascimento por acompanhante de sua escolha: abordagem quantitativa e qualitativa [tese de doutorado]. Campinas: Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas; 2005.
9 Diniz CSG. Entre a técnica e os direitos humanos: possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto [tese de doutorado]. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva da USP; 2001. Disponível em http://www.mulheres.org.br/parto [27 jun 2004]
10 Castro JC. Parto humanizado na percepção dos profissionais de saúde envolvidos coma assistência ao parto [dissertação de mestrado]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP; 2003.

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