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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.41 no.1 São Paulo Feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102007000100018 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Condições associadas ao grau de satisfação com a vida entre a população de idosos

 

Life satisfaction among elderly population in the city of Botucatu, Southern Brazil

 

 

Luciane Cristina JoiaI; Tania RuizII; Maria Rita DonalisioIII

IFaculdade São Francisco de Barreiras. Barreiras, BA, Brasil
IIDepartamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina de Botucatu. Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita. Botucatu, SP, Brasil
IIIDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Com o aumento geral da sobrevida da população, torna-se importante garantir aos idosos não apenas maior longevidade, mas felicidade e satisfação com a vida. O objetivo do estudo foi descrever os fatores associados ao grau de satisfação com a vida entre a população de idosos.
MÉTODOS: Foram entrevistados 365 idosos no município de Botucatu, SP, em 2003, selecionados por meio de amostragem estratificada proporcional e aleatória. Utilizou-se uma composição dos questionários de Flanagan, de Nahas e o WHOQOL-100. Para complementar o inquérito, foram acrescentadas questões sobre atividade física do Questionário Internacional de Atividade Física; perguntas sobre morbidade referida e avaliação emocional, situação sociodemográfica, além de uma pergunta aberta. O grau de satisfação com a vida foi medido numa escala de um a sete, utilizando reconhecimento visual. Foi realizada análise de regressão logística hierarquizada, considerando como variável dependente a "satisfação com a vida" e variáveis independentes àquelas que compuseram o questionário final, em blocos.
RESULTADOS: A maioria dos idosos estava satisfeita com sua vida em geral e em aspectos específicos. Associou-se com o grau de satisfação com a vida: conforto domiciliar (OR=11,82; IC 95%: 3,27; 42,63); valorizar o lazer como qualidade de vida (OR=3,82; IC 95%: 2,28; 6,39); acordar bem pela manhã (OR=2,80; IC 95%: 1,47; 5,36); não referir solidão (OR=2,68; IC 95%: 1,54; 4,65); fazer três ou mais refeições diárias (OR=2,63; IC 95%: 1,75; 5,90) e referência de não possuir Diabetes Mellitus (OR=2,63; IC 95%: 1,31; 5,27).
CONCLUSÕES: Os idosos, em sua maioria, estavam satisfeitos com a vida e isso se associou a situações relacionadas com o "bem-estar" e a não referência de Diabetes Mellitus.

Descritores: Idoso. Qualidade de vida. Estilo de vida. Questionários.


ABSTRACT

OBJECTIVE: As a result of overall growing population's life expectancy, it has become increasingly important to ensure not only that the elderly have greater longevity but also happiness and life satisfaction. The objective of the study was to describe factors associated with life satisfaction among elderly people.
METHODS: Three hundred and sixty-five older persons, selected by means of random stratified proportional sampling, were interviewed in 2003. The instrument used was a combination of Flanagan and Nahas questionnaires and WHOQOL-100. There were added questions concerning physical activity extracted from International Physical Activity Questionnaire, questions regarding reported morbidity and emotional assessment, sociodemographic condition and an open question. The level of life satisfaction was measured using a scale from one to seven by means of visual recognition. Hierarchical logistic regression analysis was performed including "life satisfaction" as a dependent variable and those included the final questionnaire, in blocks, as independent variables.
RESULTS: Most elderly were generally rather satisfied with life as well as with specific aspects. The level of life satisfaction was associated with: comfort at home (OR=11.82; 95% CI: 3.27; 42.63); appraising leisure as quality of life (OR=3.82; 95% CI: 2.28; 6.39); waking up feeling well in the morning (OR=2.80; 95% CI: 1.47; 5.36); not reporting loneliness (OR=2.68; 95% CI: 1.54; 4.65); having three or more daily meals (OR=2.63; 95% CI: 1.75; 5.90) and not reporting Diabetes Mellitus (OR=2.63; 95% CI: 1.31; 5.27).
CONCLUSIONS: Most elderly in the study were satisfied with life and their satisfaction was associated with situations related to "being well" and not being diabetic.

Keywords: Aged. Quality of life. Life style. Questionnaires.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas três décadas, a população brasileira vem envelhecendo em ritmo mais acelerado devido, principalmente, à rapidez com que declinaram as taxas de fecundidade.4

Com o aumento geral da sobrevida da população, ressalta-se a importância de garantir aos idosos não apenas maior longevidade, mas felicidade, qualidade de vida e satisfação pessoal.

Satisfação é um fenômeno complexo e de difícil mensuração, por se tratar de um estado subjetivo. Define, com maior precisão a experiência de vida em relação às várias condições de vida do indivíduo. A satisfação com a vida é um julgamento cognitivo de alguns domínios específicos na vida como saúde, trabalho, condições de moradia, relações sociais, automonia entre outros, ou seja, um processo de juízo e avaliação geral da própria vida de acordo com um critério próprio. O julgamento da satisfação depende de uma comparação entre as circunstâncias de vida do indivíduo e um padrão por ele estabelecido.1 Satisfação reflete, em parte, o bem-estar subjetivo individual, ou seja, o modo e os motivos que levam as pessoas a viverem suas experiências de vida de maneira positiva.

Albuquerque & Tróccoli1 (2004) relataram que o bem-estar subjetivo busca compreender a avaliação que os indivíduos fazem de suas vidas, em relação aos aspectos: felicidade, satisfação, estado de espírito, afeto positivo, sendo considerada por alguns autores uma avaliação subjetiva da qualidade de vida.

Segundo Ferrans & Power9 (1992), um dos parâmetros importantes para avaliação da qualidade de vida seria a satisfação, salientando ainda, que a satisfação com a vida incluiria aspectos de interação familiar e social, desempenho físico e exercício profissional.

A qualidade de vida e a satisfação na velhice têm sido muitas vezes associada a questões de dependência-autonomia, sendo importante distinguir os "efeitos da idade". Algumas pessoas apresentam declínio no estado de saúde e nas competências cognitivas precocemente, enquanto outras vivem saudáveis até idades muito avançadas.

A literatura conceitua de maneira semelhante os termos "envelhecimento bem sucedido", "envelhecimento ativo" e "qualidade de vida na velhice", sob o foco de satisfação com a vida.3 Paschoal17 (1996) cita que a satisfação de vida, de forma indireta, refletiria a qualidade de vida e seria também uma dimensão chave nas avaliações de estado de saúde na velhice.

O objetivo do presente trabalho foi descrever os fatores associados ao grau de satisfação com a vida entre a população de idosos.

 

MÉTODOS

Realizou-se no ano de 2003 um estudo transversal com indivíduos de idade igual ou superior a 60 anos, moradores do município de Botucatu, SP. Os idosos foram selecionados por amostragem aleatória e proporcional entre os domicílios residenciais. Para a identificação dos domicílios foi utilizado um cadastro contemplando nove mil famílias alocadas aleatoriamente, sorteadas por meio de uma escala de 4/1 domicílios residenciais (26% dos domicílios do município, considerando 1% de ajuste).5 Em seguida selecionou-se aleatoriamente neste cadastro moradores com idade igual ou superior a 60 anos.

Calculou-se o tamanho da população alvo, considerando um erro amostral de 5% relativo e intervalo de confiança de 95% (a bilateral de 0,025); uma prevalência da característica de interesse de 0,5%, desprezando-se o fator de correção da redução de heterogeneidade associada ao desenho de conglomerado. Assim, o tamanho amostral mínimo necessário foi de 384 idosos.

Do total da amostra sorteada, cinco domicílios estavam fechados em mais de três visitas, três eram casas de veraneio e 11 idosos tinham ido a óbito, totalizando 365 idosos dos 384 sorteados. Foram perdidos, portanto, 5% da amostra inicialmente estimada.

O instrumento de coleta de dados foi composto por três questionários: a Escala de Qualidade de Vida de Flanagan11 (1976), Perfil do Estilo de Vida Individual confeccionado por Nahas et al15 (2000) e WHOQOL-100 (World Health Organization Quality of Life) elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e validado no Brasil por Fleck et al12 (1999). Para complementar o inquérito foram acrescentadas questões sobre atividade física, por meio da aplicação do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) proposto pela OMS e validado no Brasil por Matsudo et al14 (2001), perguntas sobre morbidade referida e estado emocional, situação sociodemográfica, e uma pergunta aberta "O que é qualidade de vida para o senhor(a)?".

Em estudo piloto com 15 idosos não pertencentes à amostra, verificou-se que a forma de construto dos questionários não se aplicava à realidade dos idosos, que apresentaram dificuldade de interpretação das questões. Além disso, a acuidade visual, com freqüência diminuída entre os idosos, dificultava muitas vezes a leitura do instrumento. Como a auto-aplicação excluiria idosos não alfabetizados e tratando-se de um estudo populacional, a exclusão dessa população comprometeria a representatividade da amostra. Em função disso, foram feitas adaptações aos questionários validados. A adaptação mais importante foi do uso da "Escala de Motivação" para avaliar o grau de satisfação com a vida. Esta escala consiste em sete rostos desenhados, com as expressões de uma face neutra, três desmotivadas e três motivadas.*

O instrumento final incluiu: dados sociodemográficos do idoso e seus familiares; domínios de bem-estar (saúde, potenciais e limitações), de prevenção (nutrição, vícios, acidentes), de conforto material (utensílios domésticos e residenciais, localização residencial, situação financeira), de relacionamento íntimo e familiar; relações sociais (amizades, lazer, entretenimento), de desenvolvimento intelectual e habilidades, de controle do estresse, de atividade física, de avaliação do estado emocional do idoso, perguntas sobre morbidade referida e vacinação, além da pergunta aberta já mencionada.

O inquérito foi realizado nos meses de março a maio de 2003, por sete entrevistadores treinados.

Após a coleta dos dados, realizou-se a descrição simples de todas as variáveis, segundo a distribuição de seus valores ou segundo a lógica do seu conteúdo. A questão aberta foi analisada com método qualitativo, identificando-se categorias no conteúdo das respostas.

Foi estimada a associação univariada com o evento "grau de satisfação com a vida" de todas as variáveis do questionário e, posteriormente, a regressão logística adotando-se como variável dependente a questão "Considerando a vida que o(a) senhor(a) leva, o(a) senhor(a) diria que a sua satisfação com a vida em geral, no momento, é". Estas alternativas foram recodificadas em: "boa" (incluindo as alternativas "muito" e "médio") e "ruim".

As variáveis independentes associadas ao evento na análise univariada foram agrupadas em blocos: sociodemográfico, satisfação com os diferentes aspectos da vida, estilo de vida, morbidade, estado emocional, formas de socialização, grau de atividade física, estrato social e as variáveis produto da pergunta aberta. Análise de regressão logística foi realizada para cada bloco com o mesmo evento.

Após o estudo por blocos, as variáveis que apresentaram associação significativa (p<0,05) foram incluídas em um modelo final de regressão logística, colocando-se cada uma no modelo por ordem da magnitude do odds ratio e eliminando-se as variáveis que deixaram de apresentar significância.

Todo o processo da pesquisa obedeceu aos princípios éticos dispostos na Resolução n. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, garantindo aos participantes, entre outros direitos, o seu consentimento livre e esclarecido, sigilo das informações e privacidade. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em 11/11/2002.

 

RESULTADOS

Dos entrevistados, 59,7% (n=218) dos idosos eram do sexo feminino. A maioria dos idosos de sexo masculino estava casada (76,9%, n=113), enquanto que no sexo feminino essa proporção foi de 43,6% (n=95). Houve predominância de idosos aposentados (61,9%), e destes, 18,4% ainda permaneciam no mercado de trabalho. Apenas 26,8% (n=98) possuíam escolaridade acima de quatro anos e somente 9,3% (n=34) deles completaram o curso superior (Tabela 1). Apesar disso, 43,6% desses idosos se disseram satisfeitos com sua escolaridade.

Com relação à aposentadoria, 83,0% (n=122) eram do sexo feminino aposentados, porém no sexo masculino essa proporção foi de apenas 47,7% (Tabela 1).

A distribuição de renda individual se concentrou na faixa de três salários-mínimos e se associou estatisticamente com o sexo (p<0,05). Os idosos do sexo feminino tinham rendas individuas mais baixas.

Somente 18,1% (n=66) das famílias dos idosos possuíam renda per capita superior a dois salários-mínimos. As famílias eram relativamente pequenas, com 87,1% delas compostas de quatro pessoas no máximo.

No que se refere ao número de cômodos na residência dos idosos, a maioria se encontrava na faixa de cinco a seis cômodos (47,4%), indicando residências confortáveis.

Cerca de 18,9% (n=69) dos idosos vivia sozinho em seus domicílios e 38,6% (n=141) moravam com um acompanhante, sem diferença estatística por faixa etária. A maioria (77,5%) residia no município de Botucatu há mais de 20 anos, indicando uma população estável.

Dos idosos entrevistados apenas 60,3% haviam sido vacinados contra gripe no ano anterior.

Observou-se que 236 idosos (64,7%) não tinham o hábito de caminhar com finalidade de praticar exercícios físicos. Os idosos sentiam-se felizes, pois, quando perguntado como estava sua vida atual, 51,2% (n=187) declararam ter vida muito boa, e 43,6% (n=159) ter vida boa.

Com relação à satisfação com a vida em geral, 51,5% (n=187) se disseram muito satisfeitos e 43,6% (n=159). Na Figura apresentam-se os valores relativos ao grau de satisfação com diferentes situações da vida e com a vida em geral da população estudada. Observa-se que os valores correspondentes aos escores mais baixos ocorrem nas variáveis aprendizado escolar e situação financeira.

 

 

Observa-se na Tabela 2 que o grau de escolaridade, entre as variáveis sociodemográficas se associou ao grau de satisfação com a vida. Em relação às demais, a maioria se relacionou com situações que geram "bem-estar".

Os indicadores de renda e as categorias da questão aberta sobre o que é qualidade de vida, não se apresentaram associadas ao grau de satisfação com a vida em geral.

Após a análise por blocos, a composição do modelo final de regressão logística revelou que a "satisfação com o conforto domiciliar", "valorizar o lazer como qualidade de vida", "acordar bem pela manhã", "fazer três ou mais refeições ao dia", "não sentir solidão, mesmo acompanhado" e a "não referência de Diabetes Mellitus" (Tabela 3) foram as que melhor representaram, entre todas as estudadas, a determinação da satisfação com a vida entre os idosos estudados.

Em resumo, o idoso do município de Botucatu vivia em famílias relativamente pequenas, em residências confortáveis e renda modesta. O índice de alfabetização dos idosos encontrado foi relativamente baixo, ressaltando-se, porém que os idosos com idades mais baixas possuiam maior nível de escolaridade.

 

DISCUSSÃO

A maioria dos idosos se disse satisfeito com a vida. Xavier el al23 (2003) obtiveram resultados semelhantes na cidade de Veranópolis (RS), onde 57,0% da população idosa estudada referiram valores significativos de satisfação com a vida. Esses autores indicaram saúde, presença do ambiente familiar e renda como determinantes de boa qualidade de vida. Em Botucatu, a satisfação com a vida foi relacionada ao conforto domiciliar, a acordar bem pela manhã, a ter três ou mais refeições diárias, à não sensação de solidão, não ser diabético e valorizar o lazer como qualidade de vida. No trabalho desenvolvido por Santos et al20 (2002), com a população de 60 anos e mais, no município de João Pessoa (PB), a satisfação com a vida e a qualidade de vida dos idosos variou de pouca a moderada. Esses resultados sugerem que, apesar das regiões Nordeste, Sudeste e Sul apresentarem maior proporção de idosos, a região Nordeste parece apresentar maior concentração de idosos insatisfeitos, possivelmente em decorrência da desigualdade social e da falta de acesso a um padrão de vida que propicie mais conforto.2

Os resultados do presente trabalho revelaram que a maior parte dos idosos não praticava atividade física programada. Entretanto, nas análises por blocos de variáveis, a presença de atividades de grande esforço se associou à satisfação com a vida. Costa et al7 (2003), em estudo descritivo sobre a população idosa brasileira, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, relataram que a maioria dos idosos não realizava atividades físicas.

No presente estudo, satisfação com o conforto do domicílio foi a situação que mais se associou à satisfação com a vida. Para Veras & Alves22 (1995), fatores socioeconômicos têm influência importante na qualidade de vida da população, pois a situação econômica oferece suporte material para o bem-estar do indivíduo, influencia os modos de lidar com os graus de qualidade de habitação, com as pessoas que o rodeiam, com a independência econômica e com a estabilidade financeira. O conforto domiciliar pode, entretanto, ser interpretado simplesmente como situação que produz bem-estar.

A satisfação com a saúde entre os idosos de Botucatu foi considerada boa (58,9%), comparada à encontrada em estudo epidemiológico conduzido em Bambuí,6 no Brasil, onde a percepção da saúde como boa/muito boa entre os idosos variou em torno de 25%. Em estudo de Ryff19 (1989), os idosos consideraram a saúde como o elemento mais importante para a qualidade de vida e sua falta como maior motivo de infelicidade. Eles associaram a manutenção da funcionalidade e a aceitação das alterações, entre outros, às mudanças positivas relacionadas ao envelhecimento e aos significados de bem-estar. No presente estudo "não ser portador de Diabetes Mellitus" foi a morbidade referida que se associou à satisfação com a vida. Entretanto, Souza et al21 (1997), em estudo sobre a qualidade de vida da pessoa diabética, verificaram que 66,6% dos diabéticos idosos estavam satisfeitos com a vida e que o grau de satisfação relacionava-se, sobretudo, ao seu bem-estar físico (54,5%), estabilidade socioeconômica (26%), e bem-estar emocional e espiritual (16,9%). Isso pode refletir certo grau de adaptabilidade do idoso à sua condição física.

Hickson & Frost,13 em pesquisa sobre a relação da qualidade de vida, estado nutricional e função física em idosos de Londres, Inglaterra, concluíram que o estado nutricional não influencia a qualidade de vida, mas poderia afetar diretamente a função física. No presente estudo, a associação entre fazer três ou mais refeições diárias e satisfação com a vida, mediu mais o estilo de vida e aspectos psicológicos de bem-estar do que aspectos nutricionais. Cabe lembrar que a pergunta limitava-se ao número de refeições.

A não-referência de solidão também se associou com a satisfação com a vida. A literatura aponta que a procura pelo lazer poderia estar associada à fuga de solidão,18 e que sintomas de ansiedade foram associados à menor satisfação com a vida e ao pior padrão de qualidade de vida.

Estudos baseados na aplicação de questionários à população idosa destacaram a importância de alguns fatores levantados pelos idosos de Botucatu. Ferraz & Peixoto10 (1997) revelaram dados positivos sobre a qualidade de vida dos idosos pertencentes a uma instituição de recreação, tanto para indicadores objetivos quanto para subjetivos. No presente estudo concluiu-se que a saúde e a independência foram os principais determinantes da felicidade. Outras razões mencionadas pela população estudada foram: sistema de apoio, serem aceitos pela comunidade, afetividade, descrição positiva do casamento e condições familiares que reforçam a percepção do convívio social e familiar. Najman & Levine16 (1981) verificaram que a satisfação com a vida esteve relacionada à descrição positiva do casamento, boas condições familiares, boa convivência social e familiar e à relação entre as aspirações e realizações. Esses autores concluíram que o principal determinante da percepção de alta satisfação com a vida é um relacionamento social estável.

Os resultados das análises por blocos e o modelo final de regressão para a determinação do grau de satisfação com a vida em geral entre idosos, sugerem que os fatores associados à satisfação com a vida na velhice, de alguma maneira, estão relacionados à sensação de conforto e bem-estar, independentemente de serem indicadores de renda ou de estrato social.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Ricardo Cordeiro, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp pela sua contribuição na realização da pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Luciane Cristina Joia
Rodovia BR 135 km 1 n. 2341 Boa Sorte
47805-270 Barreiras, BA, Brasil
E-mail: lucianejoia@yahoo.com.br

Recebido: 10/7/2006
Aprovado: 11/9/2006
Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo n. 02/09842-0).

 

 

Pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde Pública, Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP.
Baseado em dissertação de mestrado de LC Joia, apresentada à Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP, em 2004.
* Martins CO. A influência da música na atividade física. Florianópolis: Centro dos Desportos, Universidade Federal de Santa Catarina; 1996