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Revista de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.41 n.2 São Paulo abr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102007000200017 

COMUNICAÇÕES BREVES

 

Uso de álcool e anfetaminas entre caminhoneiros de estrada

 

Alcohol and amphetamines use among long-distance truck drivers

 

 

Eurípedes Costa do NascimentoI; Evania NascimentoII; José de Paula SilvaII

IGrupo de Pesquisa Psicologia e Instituições. Universidade Estadual Paulista. Assis, SP, Brasil
IIFaculdade de Enfermagem. Fundação de Ensino Superior de Passos. Passos, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

O objetivo do estudo foi analisar a incidência do uso de álcool e anfetaminas entre caminhoneiros de estrada. Foram estudados 91 sujeitos, abordados em um posto de combustíveis em Passos, MG, em novembro de 2005. Os dados dos participantes foram obtidos por meio de um questionário contendo 19 questões de múltipla escolha. Utilizou-se para a análise dos dados estatística descritiva, teste do qui-quadrado e o coeficiente de correlação de Cramér. Os resultados indicaram que 66% dos caminhoneiros usavam anfetaminas durante os percursos de viagens, principalmente em postos de combustíveis (54%) à beira das rodovias. O álcool era utilizado por 91% deles, dos quais 43% consumiam a bebida nos postos de combustíveis. Concluiu-se que há a necessidade de campanhas preventivas e informativas voltadas para esta categoria profissional nos postos de combustíveis e empresas de transportes, alertando sobre os riscos de ingestão dessas substâncias no período de trabalho.

Descritores: Caminhoneiros. Alcoolismo, epidemiologia. Transtornos relacionados ao uso de anfetaminas, epidemiologia. Riscos ocupacionais. Saúde do trabalhador. Saúde mental.


ABSTRACT

The purpose of the study was to assess the incidence of alcohol and amphetamine use among long-distance truck drivers. There were studied 91 truck drivers at the gas station in Passos, Southeastern Brazil, in November 2005. Data was collected using a questionnaire comprising 19 multiple choice questions. Descriptive statistics, Chi-square test and Cramér's correlation coefficient were used for data analysis. The results indicated that 66% of the long-distance truck drivers used amphetamines during their travels, mainly at gas stations along the highways (54%). Alcohol was consumed by 91% of them and 43% of them consumed it at gas stations. It is concluded that there is a need of preventive and education campaigns targeting this occupation category at gas stations and transportation companies, focusing on the risks of these substances use during working hours.

Keywords: Truck drivers. Alcoholism, epidemiology. Amphetamine-related disorders, epidemiology. Occupational risks. Occupational health. Mental health.


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de álcool e anfetaminas entre caminhoneiros de estrada vem crescendo nos últimos anos e se tornando um sério problema de saúde pública. Os caminhoneiros de estrada representam uma categoria profissional de grande relevância na economia do Brasil. Assim, encontrar alternativas para minimizar o consumo abusivo dessas substâncias e conscientizar sobre seus riscos constitui importante desafio, assim como melhorar suas condições de trabalho e qualidade de vida.

Entre os caminhoneiros de estrada, é bastante comum1,2,5,6 o uso de anfetaminas para reduzir o sono e diminuir o cansaço em percursos de longa distância. A bebida alcoólica também é muito consumida entre os caminhoneiros, além de ser uma das principais causadoras de acidentes e mortes no trânsito.2,3,6 Associado a fatores socioeconômicos, como dívidas pessoais, crise no setor de transportes e exigências de entrega de cargas em curto prazo, muitos caminhoneiros chegam a rodar mais de 18 horas por dia para cumprir horários. Eles recorrem ao uso de anfetaminas e álcool para reduzir o sono e aliviar a ansiedade, respectivamente.6 Partindo destas considerações, o presente estudo teve por objetivo identificar a incidência do uso de álcool e anfetaminas entre caminhoneiros de estrada.

 

MÉTODOS

Estudo de caráter exploratório e descritivo, do qual participaram 91 caminhoneiros de estrada que fazem percursos de longa distância e que freqüentavam um posto de combustíveis situado à beira da rodovia MG-050 na cidade de Passos, Estado de Minas Gerais, em novembro de 2005. Essa rodovia liga a capital Belo Horizonte ao norte do Estado de São Paulo, com fluxo acentuado de caminhões durante o ano. A seleção dos caminhoneiros foi por amostragem acidental, quando eram atendidos em uma unidade móvel de atendimento de saúde. A coleta de dados dos participantes da pesquisa foi feita por meio de um questionário anônimo contendo 19 questões de múltipla escolha. Para a análise dos dados, foi utilizada estatística descritiva, teste do qui-quadrado e o coeficiente de correlação de Cramér para verificar o grau de associação entre as variáveis: condições de trabalho, uso de álcool e uso de anfetaminas.

Os sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

 

RESULTADOS

A Tabela apresenta dados sobre as condições de trabalho, uso de álcool e anfetaminas entre os caminhoneiros entrevistados. A maioria desses profissionais possuía tempo de profissão acima de dez anos (81%) e preferiam trafegar durante a noite (33%) e de madrugada (38%). Em relação às horas de descanso na estrada, 37% dormiam de quatro a seis horas por dia, e 34% possuíam jornada de trabalho acima de 12 horas.

Verificou-se que 66% costumavam fazer uso de anfetaminas durante o percurso de viagem, dentre os quais 27% as usavam diariamente e 60% de duas a três vezes por semana. A maioria (76%) apontou como principal motivo para o uso dessa substância a pressa para chegar ao local de destino, e 27% relataram envolvimento em acidentes nas estradas devido ao uso. As anfetaminas eram adquiridas nos postos de combustíveis (54%), nas drogarias (38%) e nas próprias empresas de transportes (8%).

O teste do qui-quadrado mostrou significância estatística entre as variáveis tempo de profissão e freqüência do uso de anfetaminas (p<0,05). Por outro lado, o coeficiente de correlação de Cramér apresentou valor considerado moderado (V=0,36), indicando que o tempo de profissão, nesse caso, pode ser uma variável que influencia moderadamente o caminhoneiro a fazer uso de anfetaminas. Foi significativa e forte a correlação entre período para trafegar na estrada e uso de anfetaminas (p<0,001; V=0,91), sugerindo que o período noturno seja uma variável determinante para o uso dessa droga. Os demais cruzamentos entre as categorias condições de trabalho e anfetaminas não apresentaram significância estatística (p<0,05).

Observou-se ainda que 91% dos caminhoneiros faziam uso de bebidas alcoólicas nas jornadas de trabalho, dos quais 24% utilizavam o álcool todos os dias e 35% o consumiam de duas a três vezes por semana. Os postos de combustíveis eram os locais preferidos para 43% dos caminhoneiros que afirmaram consumir esta substância. Os dados também revelaram que 17% já se envolveram em acidentes nas estradas por causa do uso de álcool e e para 63% dos caminhoneiros, o principal motivo do uso da bebida é a participação no grupo de amigos.

O teste do qui-quadrado mostrou significância estatística entre as variáveis horas de descanso e acidentes nas estradas com o uso de álcool (p<0,05) e uma correlação considerada moderada (V=0,32). Isso sugere que menos horas de descanso ou sono podem contribuir moderadamente no envolvimento em acidentes sob o efeito do álcool. Outro dado que apresentou significância estatística foi o local de uso da bebida e acidentes nas estradas (p<0,05), apesar da correlação moderada entre essas variáveis (V= 0,41). Isso indica que o local onde o álcool é consumido pode influenciar moderadamente o envolvimento do caminhoneiro em acidentes nas estradas. Cruzando essas variáveis, dos 14 caminhoneiros (17%) que haviam se envolvido em acidentes, 11 deles (79%) faziam uso de álcool em postos de combustíveis. Os demais cruzamentos entre condições de trabalho e uso de álcool não apresentaram significância estatística (p<0,05).

 

DISCUSSÃO

Os resultados da presente pesquisa permitem considerar que o uso de anfetaminas é uma realidade na vida de muitos caminhoneiros, particularmente daqueles que trafegam durante a noite e/ou de madrugada, dormindo no máximo seis horas por dia. Esses dados confirmam os de outra pesquisa sobre o assunto,6 e os percentuais encontrados na presente investigação foram superiores aos de outros trabalhos.1,2,4,5

O uso de anfetaminas até três vezes por semana, relatado por 60% dos caminhoneiros, pode desencadear o desenvolvimento da dependência a longo prazo. Embora a presente pesquisa não tivesse a finalidade de diagnosticar dependência do uso de anfetaminas, constatou-se que 27% dos caminhoneiros faziam uso diário dessas substâncias. O uso diário de anfetaminas permite considerar a hipótese de dependência nesses sujeitos, sugerindo que outras pesquisas investiguem com maior aprofundamento o grau de dependência nesses trabalhadores.

A empresa como local de aquisição de anfetaminas destacou-se como aspecto que precisa ser interpretado como preocupante, pois pode desencadear uma possível dependência desta substância ao longo dos anos. Portanto, torna-se necessário a implantação de campanhas educativas e preventivas nas empresas de transportes, incluindo reavaliação dos prazos de entrega da carga por parte dos seus proprietários. Isso poderá reduzir as chances de caminhoneiros utilizarem anfetaminas ou desenvolverem dependência durante o período de trabalho. Os postos de combustíveis também podem ser considerados nessas campanhas, pois, 54% dos caminhoneiros disseram conseguir anfetaminas nesses locais.

O consumo de álcool, relatado por 91% dos caminhoneiros, foi apontado como um potencializador de sociabilidade, pois, 63% consumiam a bebida para participar da roda de amigos. O alto percentual de consumo de álcool durante as viagens de trabalho confirma os dados de outra pesquisa,6 porém com percentuais menos acentuados (50,9%). Desse modo, uma fiscalização nos postos de combustíveis nas estradas quanto à venda de álcool e anfetaminas, torna-se necessária uma vez que dados da literatura revelaram que a maioria dos acidentes de trânsito nas estradas está relacionada ao uso dessas substâncias.2,3,6

O índice de acidentes relacionados ao uso de anfetaminas encontrado na presente pesquisa (27%) foi maior que o relacionado ao consumo de álcool (17%). Isso sugere a necessidade de discutir esse problema nos meios de comunicação para uma campanha mais informativa sobre os riscos de ingestão dessas substâncias no período de trabalho.

O uso diário de álcool por caminhoneiros durante as viagens de trabalho pode ser indicativo de dependência, carecendo, ainda, de outras pesquisas em empresas de transportes e postos de combustíveis para detectar o grau dessa dependência com maior profundidade.

A literatura especializada ainda apresenta escassa publicação sobre o consumo de álcool e anfetaminas entre caminhoneiros de estrada. Pesquisas mais detalhadas com os prováveis dependentes, focalizando as razões pessoais ou subjetivas para o uso dessas substâncias, podem contribuir para compreensão mais abrangente do problema. Uma alternativa seria a realização de futuras pesquisas e campanhas educativas no Serviço Social do Transporte e no Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (SEST-SENAT) localizados nas principais malhas rodoviárias do País.

Portanto, pode-se concluir que o uso de anfetaminas e álcool entre os caminhoneiros de estrada é um sério problema para a saúde pública, pois os presentes achados devem se repetir em outras rodovias do País. Embora a legislação proíba a venda de bebidas alcoólicas e a comercialização de anfetaminas em postos de combustíveis, há a necessidade de campanhas preventivas e educativas voltadas para esta categoria profissional, além de uma fiscalização criteriosa nas estradas a respeito de dirigir sob efeitos de álcool e outras drogas. Os caminhoneiros devem ser alertados sobre os riscos de dependência dessas substâncias, em um trabalho intensivo de informação e conscientização visando à melhoria da qualidade de vida desses profissionais.

 

REFERÊNCIAS

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2. Crouch DJ, Birky MM, Gust SW, Rollins DE, Walsh JM, Moulden JV, et al. The prevalence of drugs and alcohol in fatally injured truck drivers. J Forensic Sci. 1993;38(6):1342-53.        [ Links ]

3. Pinsky I, Laranjeira R. O fenômeno de dirigir alcoolizado no Brasil. Rev ABP-APAL. 1998;20:160-5.        [ Links ]

4. Silva AO, Yonamine M, Greve JMD, Leyton V. Drug abuse by truck drivers in Brazil. Drugs Educ Prev Policy. 2003;10(4):135-9.        [ Links ]

5. Silva AO, Yonamine M. Drug abuse among workers in Brazilian regions. Rev Saúde Pública. 2004;38(4):552-6.        [ Links ]

6. Souza JC, Paiva T, Reimão R. Sleep habits, sleepiness and accidents among truck drivers. Arq Neuropsiquiatr. 2005;63(4):925-30.        [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
Eurípedes Costa do Nascimento
Rua Espanha, 70 Novo Mundo
37901-086 Passos, MG, Brasil
E-mail: nascimentoec@yahoo.com.br

Recebido: 7/6/2006
Revisado: 20/9/2006
Aprovado: 7/11/2006

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