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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública v.41 n.4 São Paulo ago. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102007000400010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Vulnerabilidade de gênero para a paternidade em homens adolescentes

 

Gender vulnerability for parenthood among male adolescents

 

 

Anecy de Fátima Faustino AlmeidaI; Ellen HardyII

IDepartamento de Educação. Centro Universitário de Três Lagoas. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Três Lagoas, MS, Brasil
IIDepartamento de Tocoginecologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar as relações de gênero vivenciadas por adolescentes do sexo masculino e como elas contribuem para torná-los vulneráveis à gravidez na adolescência.
MÉTODOS: Estudo qualitativo realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 2003. Participaram 13 adolescentes masculinos com menos de 20 anos, com um único filho de até 11 meses, cuja mãe estava na mesma faixa etária do pai. Realizaram-se entrevistas semi-estruturadas gravadas. Após transcrição, procedeu-se à análise temática de conteúdo.
RESULTADOS: Identificaram-se estereótipos de gênero em que se destacavam papéis de líder, provedor e ativo sexualmente, bem como a rejeição a ser cuidador. Esses papéis apareceram consolidados principalmente na perspectiva dos entrevistados acerca do trabalho como marcador de sua condição de homem e provedor da família. A liderança dos adolescentes prevaleceu no relacionamento com a mãe de seu filho, notadamente na iniciativa das relações sexuais e no uso de contraceptivos. A gravidez foi considerada por eles como "por acaso" e inesperada, mas a paternidade foi vivenciada como uma prova final de sua condição de homens adultos.
CONCLUSÕES: Verificou-se a condição de vulnerabilidade dos adolescentes para a paternidade em virtude da socialização de gênero nos moldes tradicionais. Isso foi evidenciado com a ausência dos papéis relativos ao cuidado consigo próprio e com os outros, com a incorporação precoce de papéis de dominação sexual masculina e de trabalhador e pai, ou seja, deixar de ser criança e alcançar a condição de homem.

Descritores: Comportamento do adolescente. Paternidade. Identidade de gênero. Gravidez não planejada. Vulnerabilidade. Pesquisa qualitativa.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze gender relations perceived by male adolescents and how they contribute to making them more vulnerable to pregnancy during adolescence.
METHODS: Qualitative study carried out in Campo Grande, Midwestern Brazil, in 2003. Subjects were 13 male adolescents under 20 years of age, fathers of an only child aged up to 11 months whose mother was in the same age group as them. Semi-structured interviews were carried out, tape recorded and transcribed. Thematic content analysis was carried out.
RESULTS: Gender stereotypes were identified in which the role of leader, provider, and sexually active was stressed and the role of caregiver was rejected. These roles seemed consolidated especially in the subjects' perspective regarding paid employment as a marker of their male condition as well as of a family provider. Adolescents' leadership prevailed in the relationship with the mother of their child especially in taking initiative in sexual intercourse and the use of contraceptives. They considered that pregnancy was unexpected and happened "by chance". However, fatherhood was experienced as a definite evidence of their status as adult men.
CONCLUSIONS: Male adolescents showed to be vulnerable to fatherhood due to gender socialization following traditional patterns. This was evidenced by the inexistence of roles related to self care and care for others, and early playing roles of male sexual dominance, of father and family provider in order to grow up and become a man.

Key words: Adolescent behavior. Paternity. Gender identity. Pregnancy, unplanned. Vulnerability. Qualitative research.


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar da ênfase sobre a inclusão dos homens como sujeitos dos processos reprodutivos,22 ainda há predominância de estudos com mulheres na produção científica brasileira sobre relações de gênero. Especialmente em relação à gravidez na adolescência, é comum tomar-se quase como sinônimo a questão da maternidade nesse período da vida, pouco se abordando a paternidade adolescente.8

Em estudos brasileiros que incluíram homens adolescentes,4,7,8,15 a perspectiva dos que se tornam pais difere daquela das mães adolescentes, bem como as conseqüências distintas da gravidez em sua trajetória de vida. Heilborn et al15 também apontam que a maneira como mulheres e homens adolescentes vivenciam uma gravidez nessa etapa da vida também depende de diferenças de classe social.

As diferenças quanto à perspectiva de mulheres e homens adolescentes em relação à gravidez remete ao conceito de relações sociais de gênero13 que se tornou uma das ferramentas essenciais na análise das questões de saúde sexual e reprodutiva. Olhar esse fenômeno através das relações de gênero permite situá-lo em seu contexto social, para além dos aspectos biológicos e epidemiológicos.

Como resultado de estereótipos de gênero, observa-se com freqüência que a percepção masculina e das instituições sociais é de que os homens não são os atores principais dos processos reprodutivos, embora ocupem uma posição privilegiada de poder no exercício da sexualidade, em detrimento das mulheres.2,12

Os papéis sociais de gênero são aprendidos desde a infância e se consolidam ao longo da adolescência, quando a pessoa busca estabelecer sua identidade e planejar mais concretamente o futuro, de forma autônoma.9 Isto pode significar, dependendo do contexto socioeconômico e cultural, que os homens adolescentes venham a se expor a diversos riscos associados a uma visão tradicional de seus papéis de gênero. Como exemplo, citam-se o contágio de doenças sexualmente transmissíveis, inclusive Aids, paternidade, violência, dependência de drogas e acidentes de trânsito, entre outros.

Nesse mesmo sentido, no âmbito das relações de gênero, a percepção que os homens adolescentes têm de sua heterossexualidade obrigatória e dos requisitos sociais para que sua masculinidade seja reconhecida refletem-se nas situações concretas de sua vida. Esses aspectos podem se constituir em fatores de vulnerabilidade para a paternidade na adolescência. A partir dessa hipótese, o presente estudo teve por objetivo avaliar as relações de gênero capazes de tornar adolescentes do sexo masculino vulneráveis à gravidez na adolescência.

 

MÉTODOS

Foi realizado estudo qualitativo, com entrevistas semi-estruturadas, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 2003. A amostragem foi intencional, seguindo critérios de seleção pré-definidos: homens com idade entre 12 e 19 anos, com um único filho de até 11 meses de idade, cuja mãe estava na mesma faixa etária do pai. O limite estabelecido para a idade do filho visou a enfocar um período em que a criança requisitasse o apoio paterno de forma intensa, demandando suporte afetivo e financeiro paterno. A idade da mãe foi definida para que estivesse vivenciando as mesmas modificações biopsicossociais que o pai. O número de participantes (13) foi determinado pela saturação das informações.10

Para a identificação de possíveis participantes, visitaram-se: escolas de ensino fundamental e médio, o Serviço Nacional de Aprendizagem para a Indústria (SENAI), o Instituto Mirim de Campo Grande (IMCG) e a Cidade dos Meninos. Nesses locais alguns adolescentes se ofereceram para participar e também indicaram outros que não tinham nenhum vínculo com as referidas instituições. Porém, observou-se dificuldade inicial de identificar os participantes devido a uma espécie de invisibilidade da paternidade ou falta de evidência física, que levava os diretores e coordenadores a afirmarem que não existiam pais adolescentes em suas escolas. Os primeiros casos só surgiram após contato direto com os alunos. Os possíveis participantes identificados foram visitados em seus domicílios ou contatados por telefone para verificar se cumpriam os critérios de inclusão. Os que cumpriam os critérios foram convidados a participar do estudo e lhes foi explicado o objetivo e no que implicaria sua participação. Os locais para a realização das entrevistas pelos participantes foram escolas, residências e apenas um no local de trabalho.

Os participantes moravam em bairros periféricos e em diferentes regiões da cidade. A maioria deles estudava, cerca da metade cursava o ensino médio. A minoria havia interrompido os estudos antes de completarem o ensino fundamental. Cerca da metade dos pais dos adolescentes eram separados. Um aspecto comum dos participantes foi se autoclassificarem como trabalhadores, metade deles começou a trabalhar quando tinha entre 11 e 12 anos de idade.

Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas individuais, realizadas com auxílio de um roteiro temático que abordou a socialização de gênero e o exercício da sexualidade. As entrevistas foram gravadas, com autorização dos participantes, e logo transcritas. Os textos foram conferidos com os conteúdos gravados, em uma segunda leitura. O processamento e a análise dos dados foram feitos com o auxílio do programa The Ethnograph 5.0.23 Para a análise temática do conteúdo foram seguidas as orientações de Minayo:18 leituras flutuantes sucessivas das entrevistas transcritas para se identificar unidades de significado relacionadas com os objetivos do estudo. A partir desse processo foram estabelecidas seis categorias de análise, dentro de cada uma das quais se agruparam as idéias-chave extraídas da fala dos adolescentes. Neste artigo são apresentados resultados referentes a quatro das categorias, descritas na Tabela 1: socialização de gênero, papeis de gênero, influências de gênero no exercício da sexualidade, e paternidade como consolidação dos valores de gênero.

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Obteve-se autorização para que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido fosse assinado somente pelos participantes, sem a necessidade da assinatura conjunta do responsável legal. Isto foi feito visando a preservar o anonimato dos participantes, pois a paternidade dos adolescentes poderia não ser conhecida pelo adulto que deveria assinar e sua descoberta causar constrangimentos ao participante. Foram seguidas as diretrizes da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.Nas transcrições, bem como neste artigo, os adolescentes são identificados por nomes fictícios.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A faixa etária dos participantes variou de 17 a 19 anos de idade, sete deles tinham 18 anos na ocasião das entrevistas. A idade das mães dos seus filhos variou de 14 a 19 anos, a maioria com mais de 17 anos. Sete adolescentes cursavam o ensino fundamental, cinco estavam no ensino médio e um fazia curso superior. Todos pertenciam às camadas populares da comunidade.

Socialização de gênero

Os adolescentes referiram brincadeiras e atitudes próprias e outras proibidas para meninos assim como para as meninas: eles podiam brincar com carrinho, mas não podiam chorar, nem brincar com boneca. Elas podiam fazer comidinha, ninar bonecas, mas não podiam brincar com carrinho.

É... que não podia (...) as meninas que brincasse de carrinho ía virar homem. (...) Os homens que brincasse de boneca ia virar mulherzinha. (Renan, 19 anos)

Quando eu era pequeno prá mim brincar de casinha junto com minha irmã eu tinha que brincar escondido.(...) prá minha irmã brincar de carrinho de bolita comigo tinha que ser escondido. (...) é que tinha medo de o pai ou a mãe bater na gente. (Alberto, 18 anos)

Nas brincadeiras entre meninos predominavam as trocas de insultos verbais e não o contato físico. Em geral, os insultos são em forma de violação e revides sexuais verbais que constituem um exercício homoerótico importante para a construção da identidade masculina.17 Dessa forma, os meninos expressam a dominação entre si20 e também que "podem tudo", e nunca são passivos.21

Não, minha brincadeira de tocar sempre no corpo de outro [menino] sempre foi brincando de dar porrada, sabe. (Marcel,18 anos)

Poucos adolescentes tiveram a experiência do cuidar, que a sociedade atribui às mulheres.3 Segundo os entrevistados, as atividades relacionadas ao cuidado de outras pessoas eram praticadas ao brincar com boneca, escondido, e resistindo às críticas dos outros garotos e ao medo de serem castigados pelos adultos quando fossem descobertos. O máximo que se permitia era atender irmãos ou primos enquanto a mãe ou a tia trabalhava. A falta de oportunidade para exercitar o cuidar durante a infância se reflete na atitude negligente ou omissa dos adolescentes em cuidar de si mesmos e de outros:

(...) a gente cuidava assim tipo brincando dentro de casa assim pra num saí pra rua, mais. (Edison,19 anos)

Resultados semelhantes foram observados por Barker & Loewenstein entre homens adolescentes e jovens, de 14 a 30 anos de idade, no Rio de Janeiro.4 Eles referiram raramente ter sido encarregados de cuidar de outra pessoa, e identificavam em seus próprios pais o exemplo de não cuidarem de ninguém, ao contrário da mãe, sempre cuidadora.

Os participantes também referiram que nas brincadeiras infantis eles exerciam sempre os papéis de marido, pai e provedor:

A gente brincava de casinha essas coisas. Minhas primas sempre me chamavam que eu tinha que ser o marido, tal. (...) Fazia o papel do marido, mas num, num chegava a fazer nenhuma relação. Às vezes passava um pouquinho assim, mas não chegava fazer nada, não, não tinha noção do que era. (...) Ah era mais ou menos [abraçar, beijar, roçar o pênis no corpo na menina] às vezes ficava até pelado. [Risos] (Felício, 18 anos)

As brincadeiras relatadas evidenciavam a ênfase sobre a ocupação do espaço público pelo homem enquanto a mulher domina o espaço doméstico. Em relação ao corpo, as brincadeiras também davam oportunidade a que o garoto pudesse descobrir suas sensações e da menina naturalmente, treinando assim o papel de gênero que lhe cabe desempenhar.

Esses resultados apontam as diferenças de gênero, freqüentemente marcantes na socialização de homens e mulheres.15 Essa socialização contribui para que os homens adolescentes não se sintam à vontade para expressar de forma articulada o que eles sentem, acreditam ou precisam.4

Papéis de gênero

Esses papéis apareceram consolidados na perspectiva do trabalho como marcador de sua condição de homem. Todos se autoclassificavam trabalhadores, embora, por ocasião da entrevista, três deles encontravam-se desempregados. Alguns, inclusive, já haviam desempenhado a função de provedor da família, (dois desde a infância e três a partir da adolescência) assumiram o sustento parcial da família junto com suas mães e um com o pai. Nas falas dos entrevistados percebeu-se que o trabalho proporcionou sentimentos de contentamento, bem como de gratidão e obrigação para com os próprios pais. Também promoveu os adolescentes à condição de adultos, pois entendiam, a partir da convivência com adultos, que ser homem significava ser responsável, sustentar a família, ajudar em casa, ter educação ou saber tratar as pessoas, e ter um trabalho remunerado. Ser trabalhador e provedor – ainda que dividindo essa responsabilidade com outra pessoa – atende às expectativas sociais da masculinidade, garantindo sua passagem para outra fase da vida: a adulta. A sociedade define quais as atitudes e atividades relacionadas com a maturidade.19

(...) já comecei a trabalhar na adolescência então eu já sabia mais ou menos o que era já. Ser homem é trabalhar, é ter responsabilidade, ajuda dentro de casa, isso daí. (Edison, 19 anos)

O papel de provedor da família é tradicionalmente atribuído e assumido pelos homens no contexto das relações de gênero, e o ser trabalhador é condição indispensável para isto.11 Porém, o significado do trabalho e sua inserção na trajetória de vida dos indivíduos dependem também de sua condição de classe. Entre adolescentes de camadas populares, semelhantes aos que participaram do presente estudo, Cabral8 observou o quão importante era ter um trabalho. O trabalho se constituía numa espécie de universo moral para esses jovens, além de ser importante elemento na construção de sua identidade masculina. Essa perspectiva, aliada às condições concretas da existência desses adolescentes, resulta em que a primazia seja sempre pela busca do trabalho, em detrimento da escola, como também foi observado em outros estudos.8,15

Influência de gênero no exercício da sexualidade

Com respeito à sexualidade, os entrevistados revelaram ter incorporado, a partir do exemplo de outros homens, que eles poderiam exercitá-la livremente, uma vez que ela é incontrolável. A heterossexualidade apareceu como natural e desejada no contexto social. A partir dessa perspectiva, os adolescentes entendiam que a sexualidade devia ser praticada para obter a satisfação de suas necessidades corporais e de prazer. Por outro lado, eles entendiam que se as mulheres agissem assim estariam sendo promíscuas:

É por que homem quando... homem quando é mulherengo, tal ninguém fala? Mas quando é mulher? que dá prá todo mundo aí já fala: ô essa vagabunda, não sei o que. (Edgar, 18 anos)

Quanto à sexarca, primeira relação sexual com uma mulher (Tabela 2), observou-se que, no tocante à quem tomou a iniciativa, não houve predominância dos homens (5) ou das mulheres (4), nem da iniciativa em conjunto (4). A iniciativa foi do homem quando nos relacionamentos havia algum vínculo (amizade, "ficar", ou namoro); a iniciativa foi partilhada com a namorada em um único caso. Quando não havia relacionamento de compromisso (vizinhas, colegas de escola), os adolescentes disseram que a iniciativa para ter a relação sexual foi conjunta com as parceiras. Nesses casos observa-se que a aquiescência da mulher exime o homem de qualquer responsabilidade em assumir compromisso e conseqüências futuras relacionadas ao ato sexual. Os rapazes referiram que a iniciativa de ter a relação foi das mulheres somente quando a primeira relação sexual deu-se com parceira de mais idade ou mais experiente (profissional do sexo) do que eles.

Os relatos dos entrevistados são coerentes com os estereótipos de gênero na sociedade brasileira, que tendem a reprovar a curiosidade, iniciativas e relações sexuais das mulheres fora do casamento. Por outro lado, as atividades sexuais masculinas são estimuladas a ponto de esperar-se que os homens tenham grande curiosidade sobre o sexo, e aceitar-se que eles busquem livremente a satisfação dessa curiosidade na multiplicidade de experiências. Esse tratamento diferenciado da sexualidade de mulheres e homens tem sido associado aos papéis reprodutivos de cada um, e constitui-se em um dos elementos fundamentais da diferenciação por gênero.24

(...) eu ainda não sabia da vida sexual (...) e daí ela começou me beijá, me beijá, eu senti que ficou a ereção. (...) Daí comecei, ela começou, me atentá, me atentá. Eu senti vontade, eu pedi pra ela deixá (...) Acabou acontecendo. (Alberto, 18 anos)

A sexarca caracterizou-se por sentimentos, emoções e sensações prazerosas que, associadas à ousadia e impulsividade da adolescência, podem ter contribuído sinergicamente para sua ocorrência e para a ausência de cuidados preventivos. Na sexarca o conhecimento dos riscos não parece ter prevalecido, já que metade dos entrevistados não atendeu as orientações familiares para uso de preservativo, não se preocupando com a prevenção de doenças nem de gravidez. Essa postura também corresponde às características tradicionais do gênero masculino, em que se salientam a impetuosidade, a coragem, o não temer nada.5

Quanto à primeira relação sexual com a mãe do seu filho, os adolescentes disseram que ocorreu no período de menos de um mês até cinco meses de relacionamento. Em cinco casos essa foi a primeira relação sexual das garotas, o que as tornavam, aos olhos dos rapazes, mulheres confiáveis ou sem doenças. Quase todos afirmaram ter usado preservativo nessa relação apenas para evitar a gravidez:

Não, ela era nova. Eu sabia... eu tinha a maior confiança nela (...) a única coisa que nós tinha medo era de ela engravidar. (Alberto, 18 anos)

Apenas um dos participantes referiu que a parceira usou pílula anticoncepcional por três meses aproximadamente. Nos outros casos, as parceiras parecem ter confiado que os homens usavam preservativos. Porém, só quatro deles o fizeram de forma consistente, o que lhes permitiu evitar a gravidez da parceira por até dois anos.

A justificativa dos adolescentes para interromper o uso do preservativo em geral foi descuido, negligência; em um caso foi para engravidar e continuarem juntos após proibição do pai da garota, e outro garoto disse que foi para atender pedido da parceira.

O uso inconsistente do preservativo masculino, especialmente à medida que os parceiros vão se tornando mais íntimos, constitui registro freqüente dos estudos sobre comportamento sexual, tanto entre adultos16 quanto entre adolescentes.14 Ao mesmo tempo, há maior dificuldade de as mulheres negociarem o uso do preservativo com os parceiros, que acabam detendo o poder de decisão a esse respeito, comprometendo a possibilidade de se adotar medidas preventivas, tanto em relação a doenças de transmissão sexual quanto à gravidez.8,15

É possível também relacionar o não uso, ou uso inadequado do preservativo masculino, à idéia de que sua principal utilidade seria evitar as doenças de transmissão sexual e não a gravidez. Assim, a maior intimidade com a parceira e os estereótipos de gênero, que impõem aos homens uma imagem de coragem – que desafia o perigo, não o teme e despreza quaisquer medidas preventivas – se somariam para produzir essa situação.14

Por outro lado, o comportamento contraceptivo dos adolescentes é marcado por dificuldades para usar adequadamente os métodos anticoncepcionais, especialmente em vista da maior imprevisibilidade das relações sexuais nesse grupo. Também se observa que esse comportamento, assim como a adoção de medidas preventivas quanto às doenças de transmissão sexual, varia de acordo com o contexto da relação e do tipo de parceria vivenciado pelos adolescentes.8

Paternidade: consolidação dos valores de gênero

A pressão sofrida pelos adolescentes para ter relações heterossexuais foi repassada para suas parceiras durante o namoro, utilizando-se para isto uma estratégia bastante eficaz: comunicar-lhes "o desejo de ser pai". Vários o expressaram a suas parceiras, alguns até com detalhes sobre número de filhos, seus nomes e as preferências quanto ao sexo. Porém, a evidência de que esse "desejo" não era real – mas um pretexto para terem sexo, agradar ou mostrar que gostavam da garota – pôde ser verificada na afirmação unânime de que a gravidez ocorreu por acaso. Cerca da metade dos adolescentes disse ter reagido à gravidez da parceira com surpresa e "choque", como se estivesse diante de um fato totalmente inesperado.

A expressão pelo homem do desejo de ser pai ou planejar uma família vai ao encontro de objetivos prioritários na vida das mulheres, adquiridos da socialização de gênero: casar e ter filhos.1,14 Esse encontro potencializa os riscos de gravidez, recebida com surpresa pelos homens adolescentes, pois não era um projeto. A ocorrência da gravidez pode até ser vista pelos homens como uma imposição das mulheres, que os obriga a mudar o rumo de suas vidas, a tornarem-se pais quando não queriam e "assumir responsabilidades" de homens adultos.2

Porém, na amostra estudada, após o nascimento do bebê, a paternidade foi percebida como algo enaltecedor, que trouxe satisfação aos entrevistados. Isso pode ser explicado pelo fato de que ser pai insere o homem no mundo dos adultos e reforça sua masculinidade, pois significa assumir responsabilidades.2,6 Dessa forma, relaciona-se o significado do ser pai na adolescência com o conceito de homem, aprendido dos adultos. Os adolescentes citaram os mesmos atributos para paternidade e idade adulta: aumento da responsabilidade; o trabalho tornar-se obrigatório; perda da liberdade. Conclui-se, portanto, que, para os adolescentes, ser pai era o mesmo que ser homem.

(...) toda a vida eu trabalhei, mas a responsabilidade não é a mesma, né?(...) o dia que você num quisé trabalhá você num trabalha, quando você tem filho você é obrigado a trabalhar, né? (Cláudio, 19 anos)

Embora os adolescentes tenham citado que uma das conseqüências de ser pai é o trabalho obrigatório, na verdade, o trabalho já era parte da sua rotina. O que parece ocorrer com a paternidade é uma re-significação do trabalho, que passa a se constituir no meio pelo qual o jovem se torna provedor da sua própria família. Entretanto, a maioria deles necessita de ajuda de seus pais, notadamente no que diz respeito a continuar morando na mesma casa ou em outra construída no mesmo terreno. Heilborn et al15 salientam que a paternidade na adolescência pode provocar entre os rapazes das classes populares uma relação de maior compromisso com o trabalho. Mas isso não muda a natureza da sua relação com a necessidade de trabalhar desde muito cedo, muitas vezes abandonando a escola, lutando contra o desemprego e assumindo os empregos disponíveis e da melhor maneira possível no âmbito de suas duras condições materiais de existência. Esses autores concluem que a situação de classe e os constrangimentos de gênero são mais relevantes para a trajetória escolar e de trabalho dos adolescentes do que a ocorrência ou não da paternidade nessa fase da vida.

Os resultados apontam uma condição de vulnerabilidade dos homens adolescentes em relação à paternidade. Evidenciaram-se as marcas de socialização de gênero nos moldes tradicionais, com destaque para a ausência dos papéis relativos ao cuidado consigo próprio e com os outros e para a incorporação precoce de papéis de dominação sexual masculina. Também os adolescentes vivenciavam relações de gênero em seu cotidiano que atuavam no sentido de cristalizar os papéis aprendidos desde a infância, o que contribuiu para acentuar a referida vulnerabilidade.

O enfoque de gênero é constantemente mencionado nas abordagens em saúde sexual e reprodutiva com adolescentes. Todavia, em sua operacionalização, parece mais recorrente a atuação nas mulheres dessa faixa etária do que nos homens. É preciso recuperar a natureza relacional do conceito também em sua utilização prática, de maneira que se reitera a necessidade de promover e intervir sobre o desenvolvimento dos adolescentes – homens e mulheres. Essa intervenção é principalmente no pensamento crítico e à auto-estima, para que possam questionar apropriadamente a ordem social e decidir sobre suas escolhas afetivas e sexuais. Os adolescentes necessitam de acesso a informações científicas atualizadas e ao conhecimento de seus direitos reprodutivos; a serviços de saúde e de educação com profissionais capacitados para atendê-los. Tal capacitação refere-se não somente à competência técnica, mas também à sensibilidade adequada para estimular e respeitar a autonomia dos adolescentes como sujeitos de sua vida reprodutiva.

 

AGRADECIMENTOS

Aos adolescentes que participaram do estudo e ao Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas, pelo apoio técnico e logístico.

 

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Correspondência | Correspondence:
Ellen Hardy
Departamento de Tocoginecologia
Faculdade de Ciências Médicas-Unicamp
Caixa Postal 6181 13084-971 Campinas, SP, Brasil
E-mail: hardy@unicamp.br

Recebido: 14/6/2006
Revisado: 27/2/2007
Aprovado: 12/4/2007
Financiado pelo Fundo de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão (Faepex) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Processo n.º 354/04.

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de AFF Almeida, apresentada ao Departamento de Tocoginecologia, Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, em 2005.

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