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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42 no.4 São Paulo Aug. 2008 Epub June 27, 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008005000034 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Transtornos mentais comuns e uso de psicofármacos: impacto das condições socioeconômicas

 

Trastornos mentales comunes y uso de psicofármacos: impacto de las condiciones socioeconómicas

 

 

Maria Cristina Pereira LimaI; Paulo Rossi MenezesII; Luana CarandinaIII; Chester Luiz Galvão CesarIV; Marilisa Berti de Azevedo BarrosV; Moisés GoldbaumII

IDepartamento de Neurologia e Psiquiatria. Faculdade de Medicina de Botucatu. Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (Unesp). Botucatu, SP, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina de Botucatu. Unesp. Botucatu, SP, Brasil
IVDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública. USP. São Paulo, SP, Brasil
VDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a influência das condições socioeconômicas na associação entre transtornos mentais comuns, uso de serviços de saúde e de psicofármacos.
MÉTODOS: Estudo transversal populacional conduzido na cidade de Botucatu, SP, com amostragem probabilística, estratificada e por conglomerados. Foram realizadas entrevistas domiciliares com 1.023 sujeitos de 15 anos ou mais de idade, entre 2001 e 2002. Transtorno mental comum foi avaliado utilizando o Self Reporting Questionnaire (SRQ-20). O uso de serviços foi investigado com relação à quinzena anterior à entrevista e uso de psicotrópicos, nos três dias anteriores. Utilizou-se regressão logística para análise multivariável, considerando o efeito do desenho.
RESULTADOS: No total da amostra, 13,4% (IC 95%: 10,7;16,0) procuraram serviços de saúde na quinzena anterior à entrevista. A procura de serviços de saúde se associou ao sexo feminino (OR=2,0) e à presença de transtorno mental comum (OR=2,2). Na amostra 13,3% (IC 95%: 9,2;17,5) referiram ter usado ao menos um psicotrópico, destacando-se os antidepressivos (5,0%) e os benzodiazepínicos (3,1%). Na análise multivariável, sexo feminino e presença de transtorno mental comum mantiveram-se associados ao uso de benzodiazepínicos. Renda per capita mostrou-se direta e independentemente associada ao uso de psicofármacos, conforme aumento da renda.
CONCLUSÕES: Menor renda associou-se à presença de transtorno mental comum, mas não ao uso de psicotrópicos. A associação entre transtorno mental comum e uso de psicotrópicos e maior renda reforça a hipótese da existência de iniqüidades no acesso à assistência médica na população estudada.

Descritores: Transtornos Mentais, epidemiologia. Psicotrópicos, uso terapêutico. Fatores Socioeconômicos. Desigualdades em Saúde. Estudos Transversais.


RESUMEM

OBJETIVO: Evaluar la influencia de las condiciones socioeconómicas en la asociación entre trastornos mentales comunes, uso de servicios de salud y de psicofármacos.
MÉTODOS: Estudio transversal poblacional realizado en la ciudad de Botucatu, (Sudeste de Brasil), con muestreo probabilístico, estratificado y por conglomerados. Fueron realizadas entrevistas domiciliares con 1.023 sujetos de 15 años o mas de edad, entre 2001 y 2002. Trastorno mental común fue evaluado utilizando el Self Reporting Questionnaire (SRQ-20). El uso de servicios fue investigado con relación a la quincena anterior a la entrevista y uso de psicotrópicos, en los tres días anteriores. Se utilizó regresión logística para análisis multivariable, considerando el efecto del diseño.
RESULTADOS: En el total de la muestra, 13.4% (IC 95%: 10.7;16.0) buscaron servicios de salud en la quincena anterior a la entrevista. La búsqueda de servicios de salud se asoció al sexo femenino (OR=2.0) y la presencia de trastorno mental común (OR=2.2). En la muestra 13.3% (IC 95%: 9.2; 17.5) se refirieron a haber usado al menos un psicotrópico, destacándose los antidepresivos (5.0%) y los benzodiazepínicos (3.1%). En el análisis multivariable, sexo femenino y presencia de trastorno mental común se mantuvieron asociados al uso de benzodiazepínicos. Renta per capita se mostró directa e independientemente asociada al uso de psicofármacos, de acuerdo al aumento de la renta.
CONCLUSIONES: Menor renta se asoció a la presencia de trastorno mental común, pero no al uso de psicotrópicos. La asociación entre trastorno mental común y uso de psicotrópicos y mayor renta refuerza la hipótesis de la existencia de injusticias en el acceso a la asistencia médica en la población estudiada.

Descriptores: Trastornos Mentales, epidemiología. Psicotrópicos, uso terapéutico. Factores Socioeconómicos. Desigualdades en la Salud. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

Transtornos mentais comuns (TMC) são altamente prevalentes e têm sido consistentemente associados a piores condições socioeconômicas em diferentes países,16 incluindo-se o Brasil.9,10,13 Pessoas com TMC têm maior probabilidade de buscar atendimento em serviços de saúde, aspecto fundamental no planejamento e execução de políticas públicas voltadas para a saúde.14 No entanto, nem sempre a busca por serviços de saúde e o acesso a intervenções terapêuticas são mais freqüentes entre aqueles com maior necessidade. Mendoza-Sassi et al,14 na cidade do Rio Grande (RS) mostraram que, embora baixa renda fosse fator de risco para TMC, era no grupo de nível de renda mais elevado que se observava o maior uso de serviços de saúde. Resultado semelhante foi obtido por Lima et al9 em levantamento conduzido em Pelotas (RS). Os autores9 observaram que, apesar de menor renda per capita estar associada à prevalência de TMC, não era neste grupo que se encontrava a maior proporção de sujeitos em uso de psicotrópicos. Segundo os autores, não houve uma relação direta entre ser grupo de risco para TMC e receber benzodiazepínicos, o que configuraria aquilo que Hart5 denominara "inverse care law". Segundo Hart, a oferta de cuidados de saúde de boa qualidade tenderia a variar de forma inversa à necessidade da população considerada.

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a influência da condição socioeconômica na relação entre TMC, uso de serviços de saúde e de psicofármacos. A hipótese testada foi de que uso de serviços e psicofármacos estariam independentemente associados à presença de TMC, mas não às características socioeconômicas dos participantes. Esta hipótese foi baseada no fato de que Botucatu possui uma ampla rede de serviços públicos de saúde, distribuídos segundo densidade demográfica. Deste modo, renda não deveria ser um fator preditor da utilização de serviços de saúde e de psicofármacos.

 

MÉTODOS

O estudo faz parte de pesquisa ampla, que objetivou estimar a saúde referida da população, analisar fatores de risco para diversas condições de saúde e sua relação com uso de serviços de saúde. Trata-se do Inquérito Multicêntrico de Saúde,a realizado nas cidades de São Paulo (sub-prefeitura do Butantã), Campinas, Botucatu e em uma área da região sudoeste da Grande São Paulo, composta pelos municípios de Taboão da Serra, Embu e Itapecerica da Serra.

Foi feito um recorte desse Inquérito e analisados os dados da cidade de Botucatu, localizada na região oeste do estado de São Paulo, a 230 km da capital, possuindo uma população de 108 mil habitantes, com extensa rede de serviços de atenção à saúde, distribuídos segundo densidade demográfica na atenção primária. No município há programas de dispensa de medicação que incluem benzodiazepínicos e antidepressivos.

Foi conduzido um estudo transversal, com amostragem estratificada por conglomerados, representativa da população urbana de Botucatu. Objetivou-se investigar condições de vida, transtornos mentais comuns, utilização de serviços de saúde e medicamentos, entre outros. Foram incluídos sujeitos com 15 anos ou mais que consentiram em participar do estudo.

A amostragem probabilística foi realizada em dois estágios: inicialmente com sorteio de setores censitários e posteriormente de domicílios. Os setores foram estratificados segundo escolaridade do chefe da família. Ao todo foram sorteados 30 setores censitários e o número de domicílios variou em cada setor, sendo sorteado um maior número de domicílios nos setores maiores. Para o cálculo amostral considerou-se uma estimativa de prevalência de 50%, com nível de confiança de 95%, erro máximo de 0,10 e efeito de delineamento igual a 2. Entrevistadores foram treinados e toda a coleta de dados foi feita nos domicílios. Como um dos objetivos do estudo multicêntrico era identificar morbidade associada à variação sazonal, a coleta durou um ano: do final de abril de 2001 a maio de 2002.

A presença de TMC foi avaliada utilizando-se o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20),4 desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde para rastreamento na atenção primária. O SRQ-20 tem sido largamente utilizado em inquéritos populacionais uma vez que pode ser aplicado por entrevistadores leigos, a partir de treinamento rápido. Possui propriedades psicométricas consideradas adequadas: sensibilidade entre 63% e 90% e especificidade entre 44% e 95%, tendo sido validado no Brasil11 e utilizado em estudos nacionais.9,10,13 O SRQ-20 é composto por 20 questões sobre sintomas físicos e psíquicos, com respostas dicotômicas (sim/não). Foram considerados possíveis casos de TMC os homens com escore maior ou igual a 6 e as mulheres com escore maior ou igual a 8.

Foram obtidas informações sobre uso de serviços de saúde nos 15 dias anteriores à entrevista. Para investigar o uso de medicamentos nos três dias anteriores, foi solicitado que o respondente apresentasse as caixas dos medicamentos utilizados. Os fármacos foram classificados segundo a Anatomical Therapeutic Chemical.18

A utilização de serviços de saúde e de medicação psicotrópica (benzodiazepínicos e antidepressivos) foi considerada variável dependente; sua associação com as variáveis explicativas foi investigada por meio da estimativa de razões de prevalência e odds ratio (OR) simples e ajustadas. Foi utilizado o programa Stata 8.0 que permite incorporar as ponderações e o efeito dos conglomerados e da estratificação. A significância estatística foi avaliada pelo teste do qui-quadrado,6 considerando-se significativo quando p<0,05. A análise multivariável compreendeu modelos de regressão logística com cálculo de OR ajustados. Foram incluídas no modelo as variáveis que mostraram associação com desfecho com p<0,25 na análise univariada.7 Para se identificar confusão negativa, foram incluídas as variáveis relevantes, segundo a literatura, independentemente do valor de p obtido. Os modelos foram analisados por meio do teste de razão de verossimilhanças (likelihood ratio test).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho".

 

RESULTADOS

A amostra total consistiu de 1.086 pessoas, tendo havido 38 recusas a participar da entrevista e 25 sujeitos excluídos por não terem respondido ao SRQ-20, totalizando 1.023 sujeitos (94,2%) analisados. Não foram encontradas diferenças significativas entre a amostra e a população do município e as características gerais da amostra podem ser vistas na Tabela 1. A distribuição de homens e de mulheres na amostra foi semelhante, havendo um predomínio de sujeitos jovens (mais de 50% tinham menos de 40 anos). Mais de 50% tinham de cinco a 11 anos de escolaridade, predominando os sujeitos com renda per capita de um a três salários mínimos. A renda per capita mensal variou de R$8,00 a R$8.500,00, com mediana de R$340,00.

 

 

Dentre os participantes, 13,4% (IC 95%:10,7;16,0) procuraram um serviço de saúde na última quinzena, dos quais 25% utilizaram serviços privados e os demais, públicos. Na análise multivariável apenas sexo feminino e presença de TMC mantiveram-se independentemente associadas à procura por serviços de saúde (Tabela 2). Para ambas a razão de chances foi praticamente o dobro daquela encontrada para homens e sujeitos sem TMC.

 

 

Quanto a uso de medicamentos, 13,3% (IC 95%: 14,2;18,8) utilizaram ao menos um psicofármaco nos três dias anteriores à entrevista. Ainda em relação ao total dos sujeitos, observou-se que 3,1% (2,2% entre os homens e 5,7% das mulheres) utilizaram benzodiazepínicos e 5,0% (4,6% dos homens e 12,0% das mulheres) usaram antidepressivos. Os demais psicotrópicos utilizados incluíam anticonvulsivantes, estabilizadores do humor, antiparkinsonianos, colinesterásicos, anfetaminas, entre outros. A freqüência com que estes fármacos foram referidos variou de 1,1% no caso dos anticonvulsivantes até 0,4% no caso das anfetaminas.

Na amostra, 18,5% das mulheres e 8,0% dos homens, fizeram uso de ao menos um psicofármaco (Tabela 3). Observou-se também uma associação com faixa etária: quanto maior a idade, maior o risco do sujeito ter feito uso de psicotrópicos. Donas de casa e aposentados também se destacaram dos demais no relato de uso de ao menos um psicotrópico (26,6% e 20,6%, respectivamente). Nas análises univariadas, sem ajustes por idade e sexo, os separados e viúvos apresentaram o dobro da chance dos solteiros de estarem usando um psicofármaco. Finalmente, o percentual de sujeitos com TMC em uso de psicofármacos foi 27,1%, enquanto que entre os sujeitos sem TMC foi 9,7%. Não se observou associação com renda e com o uso de psicofármacos em geral.

 

 

Para a análise multivariável (Tabela 4) optou-se por construir três modelos diferentes: para qualquer psicofármaco, para benzodiazepínicos e para antidepressivos. A análise de benzodiazepínicos e antidepressivos se justifica pelo fato de serem os fármacos mais comumente utilizados para pacientes com TMC. Semelhante ao que ocorreu para uso de serviços, sexo feminino e presença de TMC mantiveram-se independentemente associados a uso destes fármacos. No que diz respeito a uso de "qualquer psicofarmaco" apenas estas duas variáveis mantiveram-se associadas. Nos modelos para uso de benzodiazepínicos e de antidepressivos, renda per capita mostrou-se significativamente associada, independentemente de sexo e presença de TMC. Ainda na Tabela 4, observa-se que sujeitos com menos de um salário mínimo per capita apresentaram OR=0,2 (IC 95%: 0,1;0,6) para uso de benzodiazepínicos e OR=0,2 (IC 95%: 0,1;0,5) para uso de antidepressivos, após o ajuste para as demais variáveis incluídas no modelo.

 

DISCUSSÃO

O percentual de respostas obtido (94%) minimiza a possibilidade de viés de seleção. Do mesmo modo, como o tempo utilizado para referir uso de serviços e de medicamentos foi, respectivamente, 15 e três dias, é pouco provável que tenha ocorrido viés de memória para esse item. Uso de medicações foi avaliado a partir da observação direta das medicações utilizadas nos últimos três dias. Desta forma, evitou-se viés de memória, mas pode ter ocorrido uma subestimativa do uso dessas medicações. Segundo Zandstra et al,19 embora intervalos curtos de tempo minimizem viés de memória, acabam por incluir sujeitos que iniciaram o uso recentemente, igualando-se uso recente e uso crônico. O intervalo de tempo utilizado poderia explicar as diferenças nas estimativas de uso de benzodiazepínicos encontradas no presente estudo, 3,1% "últimos três dias" e em levantamentos anteriores. Lima et al9 estimaram em 8% o uso de benzodiazepínicos na quinzena anterior à entrevista, enquanto que Mari et al12 e Galduroz et al3 em, respectivamente, 8,0% e 0,9% o uso ao longo da vida. Rodrigues et al17 repetiram o estudo transversal de Lima et al9 na cidade de Pelotas, encontrando 9,9% de uso de psicofármacos na população urbana daquela cidade, percentual próximo daquele obtido no estudo anterior. Beck et al,2 descrevendo dados de um estudo transversal realizado no Canadá, observaram que o uso de medicação psicotrópica era bastante comum. Cerca de 7% haviam feito uso de algum psicofármaco no último ano, havendo uma relação direta com o envelhecimento, semelhante ao encontrado no presente estudo.

A utilização de serviços de saúde associou-se à presença de TMC, mas não à renda, como em outros estudos.14 É possível que isto tenha ocorrido em função da ampla oferta de equipamentos de saúde no município. Do mesmo modo, a distribuição dos serviços de atenção primária em Botucatu obedece à lógica da densidade demográfica, fato que poderia ter facilitado o acesso. De qualquer modo, a associação entre TMC e procura de serviços, já insistentemente observada, deveria ser uma preocupação dos gestores no planejamento e organização dos serviços de atenção à saúde.

Embora o acesso aos serviços de saúde possa estar equacionado, ele ainda não elimina as iniqüidades, como pode ser observado na análise dos psicotrópicos utilizados. A utilização de benzodiazepínicos mostrou-se mais prevalente no sexo feminino e na presença de TMC e, semelhante ao observado em outros estudos brasileiros, nos segmentos sociais de maior renda.9,12 A mesma análise pode ser feita sobre a estimativa de uso de antidepressivos, que sofreu influência da renda per capita. Sujeitos com renda inferior a um salário mínimo, embora apresentassem maiores chances de TMC (OR=4,6) mostraram as menores probabilidades de terem feito uso de psicofármacos. O uso de qualquer psicotrópico não sofreu a mesma influência da renda. Isto sugere que para outros transtornos não ocorra a questão da iniqüidade no acesso a medicamentos. Embora se possa supor que baixa renda tenha sido um limitante na aquisição de benzdiazepinicos e antidepressivos, esses medicamentos estão disponíveis na rede pública municipal. Para estabelecer a intervenção terapêutica, os médicos precisam identificar adequadamente os portadores de TMC, o que nem sempre ocorre.1,8

No Brasil, a formação em saúde mental ainda ocorre majoritariamente em serviços especializados, como hospitais psiquiátricos, e não em serviços comunitários. Assim sendo, os alunos têm contato com portadores de transtornos mentais graves e não TMC, mais prevalentes, e associados a piores condições socioeconômicas. O desafio que se coloca para as instituições de ensino é formar profissionais aptos a diagnosticar e tratar adequadamente os transtornos mentais, especialmente os mais prevalentes. Em estudo1 desenvolvido com médicos generalistas que atuavam na atenção primária em dois municípios do Rio Grande do Sul, os profissionais relataram dificuldades em diagnosticar e tratar pacientes com problemas de saúde mental. Ainda segundo esses médicos, estes cuidados deveriam ser prestados pelos especialistas e não no contexto da atenção primária.

Além de melhorar a formação dos profissionais de saúde no Brasil, são também necessários mais estudos que dimensionem a morbidade psiquiátrica, o acesso aos serviços de saúde e às intervenções terapêuticas, avaliando estas últimas quanto à sua efetividade. As intervenções terapêuticas não devem se restringir à prescrição de medicamentos. Moncrieff15 recentemente destacou o aumento das prescrições em diversos países, explorando a relação deste uso com as características do modelo neoliberal. Segundo Moncrieff,15 embora tenham ocorrido avanços, como a melhora no acesso de serviços de saúde e de informação, as pessoas hoje estão submetidas a piores condições de vida e em especial, de trabalho. A autora ressalta ainda que a centralização no paradigma biológico pode reduzir a compreensão do sofrimento psíquico a alterações neurofisiológicas apenas, impedindo a exploração dos aspectos sociais e mesmo políticos que podem estar relacionados a ele.15

Em conclusão, no presente estudo observou-se que, ao menos no que diz respeito ao acesso ao uso de psicofármacos, a "inverse care law" descrita por Hart5 ainda é uma realidade a ser enfrentada no País. Recomenda-se que outros estudos investiguem o acesso dos sujeitos a outras intervenções terapêuticas, buscando identificar fatores psicossociais que estejam associados ao acesso. Como em outros países em desenvolvimento, é necessário mapear e intervir sobre as iniqüidades, em especial aquelas relacionadas à saúde, enquanto as políticas públicas de combate às desigualdades não se traduzem em mudanças sociais efetivas.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Maria Cristina Pereira Lima
Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria
Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP
CP 540
18618-000 Botucatu, SP, Brasil
E-mail: mclima@fmb.unesp.br

Recebido: 9/8/2007
Revisado: 23/3/2008
Aprovado: 22/4/2008
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp; Processo no 98/14099-7) e pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Lima MCP apresentada ao Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da USP, em 2004.
a Cesar CLG, Carandina L, Alves MCG, Barros MBA, Goldbaum M. Saúde e Condição de vida em São Paulo. Inquérito Multicêntrico de saúde no Estado de São Paulo - Inquérito de Saúde (ISA-SP); São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 2005.