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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública v.42 n.6 São Paulo dez. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008000600005 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Uso de sistemas de informação geográfica em campanhas de vacinação contra a raiva

 

Uso de sistemas de información geográfica en campañas de vacunación contra la rabia

 

 

José Henrique de Hildebrand e Grisi-FilhoI; Marcos AmakuI; Ricardo Augusto DiasI; Hildebrando Montenegro NettoII; Noemia Tucunduva ParanhosII; Maria Cristina Novo Campos MendesII; José Soares Ferreira NetoI; Fernando FerreiraI

IDepartamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IICentro de Controle de Zoonoses. Secretaria Municipal de Saúde. Prefeitura Municipal de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Desenvolver método para planejamento e avaliação de campanhas de vacinação contra a raiva animal.
MÉTODOS: O desenvolvimento da metodologia baseou-se em sistemas de informação geográfica para estimar a população e a densidade animal (canina e felina) por setores censitários e subprefeituras do município de São Paulo, em 2002. O número de postos de vacinação foi estimado para atingir uma dada cobertura vacinal. Foram utilizadas uma base de dados censitários para a população humana, e estimativas para razões cão:habitante e gato:habitante.
RESULTADOS: Os números estimados foram de 1.490.500 cães e 226.954 gatos em São Paulo, uma densidade populacional de 1.138,14 animais domiciliados por km2. Foram vacinados, na campanha de 2002, 926.462 animais, garantindo uma cobertura vacinal de 54%. O número total estimado de postos no município para atingir uma cobertura vacinal de 70%, vacinando em média 700 animais por posto foi de 1.729. Estas estimativas foram apresentadas em mapas de densidade animal, segundo setores censitários e subprefeituras.
CONCLUSÕES: A metodologia desenvolvida pode ser aplicada de forma sistemática no planejamento e no acompanhamento das campanhas de vacinação contra a raiva, permitindo que sejam identificadas áreas de cobertura vacinal crítica.

Descritores: Vacinas Anti-Rábicas, provisão & distribuição. Imunização em Massa, organização & administração. Sistemas de Informação Geográfica, utilização. Saúde Pública Veterinária.


RESUMEN

OBJETIVO: Desarrollar método para planificación y evaluación de campañas de vacunación contra la rabia animal.
MÉTODOS: El desarrollo de la metodología se basó en sistemas de información geográfica para estimar la población y la densidad animal (canina y felina) por sectores censales y sub-prefecturas del municipio de Sao Paulo (Sureste de Brasil), en 2002. El número de puestos de vacunación fue estimado para atender una determinada cobertura de vacunación. Se utilizaron una base de datos censales para la población humana, y estimativas para razones perro: habitante y gato: habitante.
RESULTADOS: Los números estimados fueron de 1.490.500 perros y 226.954 en Sao Paulo, una densidad poblacional de 1.138,14 animales domiciliados por km2. Fueron vacunados, en la campaña de 2002, 926.462 animales, garantizando una cobertura de vacunas de 54%. El número total estimado de puestos en el municipio para atender una cobertura de vacunación de 70%, vacunando en promedio 700 animales por puesto fue de 1.729. Estas estimaciones fueron presentadas en mapas de densidad animal, según sectores censales y sub-prefecturas.
CONCLUSIONES: La metodología desarrollada puede ser aplicada de forma sistemática en la planificación y en el acompañamiento de las campañas de vacunación contra la rabia, permitiendo que sean identificadas áreas de cobertura de vacunación crítica.

Descriptores: Vacunas Antirrábicas, provisión & distribución. Inmunización Masiva, organización & administración. Sistemas de Información Geográfica, utilización. Salud Pública Veterinaria.


 

 

INTRODUÇÃO

A prevenção da raiva animal é o instrumento mais importante no controle da raiva humana na zona urbana.6 Esse controle é feito, principalmente, por meio de vacinação de cães e gatos (na forma de campanha de vacinação) e controle da população de cães errantes (por meio de apreensão, esterilização e eutanásia), realizados pelas prefeituras municipais.

O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de São Paulo considera que o número máximo de animais atendidos em um posto por dia deva ser de 700, para que não haja comprometimento da qualidade de vacinação contra a raiva em função de limitações logísticas. Em 2002, aproximadamente 25% dos postos vacinaram mais de 1.000 animais. Além das longas filas, esta situação compromete a qualidade do serviço prestado.ª

Segundo a literatura, a transmissão da infecção entre cães pode ser prevenida pela vacinação de 60% a 80% dos animais.2,3,9 Coleman & Dye3 (1996), por meio da utilização de modelos matemáticos para estimar uma proporção crítica de vacinação, sugerem que uma cobertura vacinal de 70% evitaria a ocorrência de uma epidemia de raiva em 96,5% das situações por eles analisadas.

Sallum et al8 (2000) estimaram uma soroprevalência para raiva de 16,5% para os cães de rua do município de São Paulo. Essa baixa soroprevalência em cães errantes, associada à possibilidade de infecção de outros animais pelo vírus rábico, motiva um planejamento estratégico da campanha de vacinação contra a raiva animal e a manutenção de um sistema eficaz de vigilância epidemiológica.

Para o planejamento e avaliação das ações de vacinação, é necessário se estimar a população e a densidade de cães e gatos em cada local. Com o auxílio de uma base de dados censitários para os municípiosb e dos sistemas de informação geográfica é possível estimar tanto a população canina quanto a população felina em cada setor censitário e estender essas informações para bairros, distritos e o município todo.

Os sistemas de informação geográfica podem ser usados para coleta, estocagem, administração e exibição de dados espaciais. Além de mapeamento, incluem análises gráficas baseadas em localização espacial, análises estatísticas e modelagem.4

Com a instauração das subprefeituras e dos distritos de saúde, foi proposta a descentralização da execução da campanha de vacinação contra a raiva animal no município para os distritos de saúde. No entanto, a divisão do município em subprefeituras substituiu geográfica e administrativamente a divisão em distritos de saúde. As subprefeituras se subdividem em distritos administrativos, uma unidade territorial menor e geradora de dados mais precisos e adequados a cada região. Atualmente, apesar da Secretaria de Saúde adotar outra subdivisão do município (Supervisões de Vigilância em Saúde), os distritos administrativos são as unidades básicas de planejamento, onde são geradas as informações sobre a cidade de São Paulo.

O objetivo do estudo foi desenvolver método para planejamento e avaliação de campanhas de vacinação contra a raiva animal.

 

MÉTODOS

Foram estimadas as populações canina e felina por setor censitário e subprefeitura para todo o município, a partir de informações sobre a população humana e razões cão:habitante e gato:habitante. Estimativas da razão cão:habitante foram realizadas em vários municípios brasileiros.1,5,7 Para São Paulo, foram estimadas as razões cão:habitante de 1:7 e gato:habitante de 1:46.c

Com base no tamanho das populações canina e felina, foram feitas estimativas de densidade animal, de cobertura vacinal na campanha de vacinação contra a raiva realizada em São Paulo em 2002, e do número de postos de vacinação móveis necessários para se atingir uma cobertura vacinal de 70% em cada região.

Para um determinado setor censitário cuja população humana seja Ph, a estimativa da população canina Pc será medida pela expressão:

Pc = rc. Ph

e a população felina Pf será

Pf = rf. Ph ,

onde rc é a razão entre o número de cães e o número de habitantes, e rf é a razão entre o número de gatos e o número de habitantes.

Para uma dada cobertura vacinal (pv), o número de animais a serem vacinados (Nv) será dado por

Nv = pv. ( Pc + Pf ).

Por outro lado, com base nessa expressão acima, e dado um certo número de animais vacinados em uma região, a proporção de cobertura vacinal pode ser estimada por

pv = Nv / ( Pc + Pf ).

Estas relações valem tanto para cada setor censitário, como também para distritos administrativos, subprefeituras e para o município todo, desde que os valores de Ph refiram-se à unidade de interesse.

Os dados da campanha de vacinação contra a raiva de 2002 foram cedidos pelo CCZ de São Paulo. Foram utilizados mapas geograficamente referenciados de São Paulo e dados censitários levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticab para a população humana domiciliada por setor censitário. Os setores censitários foram agrupados de forma a compor os 96 distritos administrativos e, posteriormente, as 31 subprefeituras do município.

O programa ArcView® GIS 9.2 foi utilizado para relacionar camadas de informações gráficas (mapa georreferenciado) com informações não-gráficas (dados censitários e dados da campanha de vacinação).

A partir dessas informações, foi possível elaborar mapas de diferentes variáveis (população, cobertura vacinal) divididas em diferentes unidades de interesse (setor censitário, distritos administrativos e subprefeituras).

 

RESULTADOS

As Figuras 1 e 2 mostram a população animal (canina e felina) distribuída, respectivamente, em subprefeituras e por setores censitários na subprefeitura da Lapa.

 

 

Foi estimada uma população de 1.490.500 cães e 226.954 gatos para todo o município de São Paulo, totalizando uma população de 1.717.454 animais domiciliados na cidade. O município de São Paulo possui uma área territorial total de 1.509 km2,d a densidade populacional animal foi de 1.138,14 animais domiciliados (cães e gatos) por km2, sendo 987,74 cães por km2 e 150,40 gatos por km2.

A Figura 3 mostra a densidade populacional na subprefeitura da Lapa, por setor censitário.

A Figura 4 mostra a cobertura vacinal por subprefeituras. Foram vacinados em 2002 cerca de 926.462 animais em todo o município, garantindo cobertura vacinal de aproximadamente 54%.

 

 

A Figura 5A mostra os números de postos de vacinação nas 31 subprefeituras na campanha de vacinação contra a raiva. A Figura 5B mostra os números estimados de postos de vacinação necessários para se atingir uma cobertura vacinal de 70%, levando em consideração um número de 700 animais vacinados por posto/dia. Na campanha de 2002, o número médio de animais vacinados por posto foi de 788. Na Figura 5C, observa-se a diferença entre os valores estimados para uma cobertura de 70% por subprefeitura e o número de postos de vacinação. Exceto em uma subprefeitura, essa diferença foi sempre positiva, e o primeiro e o terceiro quartis dessa diferença foram 10 e 24 (postos), respectivamente.

 

 

DISCUSSÃO

Quanto à distribuição espacial da população animal, a análise da subprefeitura da Lapa mostra que áreas de maior população (Figura 2) não necessariamente correspondem a áreas de maior densidade (Figura 3). Enquanto o número de postos em uma dada região pode ser estimado em função da população animal, sua localização pode ser estabelecida com base na densidade animal, portanto imprescindível para um bom planejamento das campanhas de vacinação.

Em algumas subprefeituras, a cobertura vacinal estimada superou 100%, o que não é razoável. Algumas hipóteses podem ser levantadas para explicar essa observação: proprietários de regiões vizinhas podem ter trazido seus animais para serem vacinados nessas regiões; alguns postos de vacinação podem ter atendido não apenas os animais domiciliados, mas também os animais semi-domiciliados, ou de vizinhança; ou, ainda, as estimativas de 1:7 e de 1:46 para as razões de cão:habitante e gato:habitante, respectivamente, podem não ser adequadas para algumas regiões, gerando um valor subestimado para a população animal. Neste caso, sugere-se o desenvolvimento de um estudo para estimar as razões cão:habitante e gato:habitante por unidade administrativa (distrito administrativo ou subprefeitura).

Uma limitação do estudo é a participação das clínicas veterinárias particulares na vacinação contra a raiva, não incluídas no presente estudo por não se dispor de dados precisos sobre quantos animais são vacinados por clínicas particulares em cada distrito administrativo.

A cobertura vacinal de 54% alcançada em São Paulo, aliada à vacinação realizada em clínicas particulares, sugere que o município está protegido quanto à introdução do vírus rábico na população animal. Segundo as estimativas de Coleman & Dye,3 (1996) uma cobertura vacinal de 70% preveniria 96,5% das epidemias rábicas. No entanto, Sallum et al8 (2000) estimaram uma soroprevalência para raiva de 16,5% para os cães errantes do município de São Paulo. Essa baixa soroprevalência, aliada ao desconhecimento do tamanho da população de cães errantes, expõe um fator de risco que deve ser considerado no planejamento das ações de proteção contra a reintrodução do vírus rábico. Ainda, a participação das clínicas veterinárias na vacinação anti-rábica além de desconhecida é, provavelmente, heterogênea, e deve variar de acordo com a subprefeitura, assim como a população errante. O desafio é maior na espécie felina, que têm maior contato com outros membros da espécie, assim como com quirópteros e animais silvestres.

A diferença entre o número de postos na campanha de 2002 e o estimado no presente estudo (Figura 5C) se deve a uma cobertura inferior a 70% na campanha de 2002 e ao fato de que a maioria das subprefeituras apresentou uma média maior que 700 animais por posto. Assim, nessas subprefeituras, a estimativa de 700 animais implicaria aumento do número postos, o que não resultaria necessariamente em um aumento de cobertura vacinal em relação a 70%, mas sim em uma melhoria na qualidade do atendimento.

Deste modo, os sistemas de informação geográfica fornecem ferramentas adequadas para as estimativas das diferentes populações caninas e felinas no município, o cálculo de sua densidade e do número de postos de vacinação para cada subprefeitura.

Conclui-se que a metodologia desenvolvida no presente estudo pode ser aplicada de forma sistemática no acompanhamento das ações de vacinação contra a raiva, permitindo-se que sejam identificadas áreas de cobertura vacinal crítica.

 

REFERÊNCIAS

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8. Sallum PC, Almeida MF, Massad E. Rabies seroprevalence of street dogs from São Paulo City, Brazil. Prev Vet Med. 2000;44(3-4):131-9. DOI: 10.1016/S0167-5877(00)00110-0        [ Links ]

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Correspondência | Correspondence:
José Henrique de Hildebrand e Grisi Filho
Laboratório de Epidemiologia e Bioestatística
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - USP
Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87
05508-270, São Paulo, SP, Brasil
E-mail: grisi@vps.fmvz.usp.br

Recebido: 24/8/2007
Revisado: 10/3/2008
Aprovado: 2/6/2008
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Proc. nº 2005/04125-6).
JHH Grisi-Filho foi apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - bolsa de iniciação científica).

 

 

a Centro de Controle de Zoonoses. Proposta para descentralização da campanha de vacinação contra raiva animal no município de São Paulo. São Paulo; 2003. [Documento inédito]
b Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Base de informações por Setor Censitário - Censo Demográfico 2000 [CD ROM]. Rio de Janeiro; 2002.
c Paranhos NT. Estudo das populações canina e felina em domicílio, município de São Paulo, 2001 [dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 2002.
d Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Área territorial e densidade demográfica, segundo subprefeituras e distritos administrativos do município de São Paulo. São Paulo; 2004 [citado 2007 jan 05]. Disponível em: http://www.seade.gov.br/produtos/msp/tabela_sintese.htm