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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.43 no.2 São Paulo Apr. 2009  Epub Mar 06, 2009

https://doi.org/10.1590/S0034-89102009005000008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Sentimento de discriminação em estudantes: prevalência e fatores associados

 

Sentimiento de discriminación en estudiantes: prevalencia y factores asociados

 

 

Alex Avelino BittencourtI; Denise Rangel Ganzo de Castro AertsI; Gehysa Guimarães AlvesI; Lílian PalazzoI; Lisiane MonteiroII; Patrícia Conzatti VieiraI; Silvia Letícia FreddoI

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Universidade Luterana do Brasil. Canoas, RS, Brasil
IISecretaria Municipal de Educação. Gravataí, RS, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência e fatores associados ao sentimento de discriminação entre estudantes.
MÉTODOS: Estudo transversal com amostra representativa de 1.170 escolares de um total de 2.282 matriculados na sétima série do ensino fundamental em escolas municipais de Gravataí (RS), em 2005. Os participantes foram selecionados por amostragem aleatória por conglomerado. Os dados foram obtidos com instrumentos auto-aplicados (Global School-based Student Health Survey, body shape questionnaire, classificação socioeconômica) preenchidos em sala de aula. Foi utilizada a regressão de Cox modificada para estudos transversais, segundo modelo hierarquizado em quatro etapas.
RESULTADOS: A prevalência de sentimento de discriminação foi de 21,0%, mais prevalente entre: as meninas (RP=1,93, IC 95% 1,51;2,46); os que apresentaram absenteísmo escolar (RP=1,54, IC 95% 1,21;1,97); os que fizeram uso na vida de tabaco (RP=1,53, IC 95% 1,18;1,98); os preocupados com sua imagem corporal (RP=1,42, IC 95% 1,07;1,88); os com sentimento de solidão (RP=2,50, IC 95% 1,80;3,46) e tristeza (RP=1,29, IC 95% 1,02;1,62); os com dificuldade para dormir (RP:1,41, IC 95% 1,08;1,83); os com ideação suicida (RP=1,45, IC 95% 1,13;1,85) e os que sofreram algum tipo de injúria acidental (RP=1,56, IC 95% 1,23;1,97) ou intencional (RP=2,04, IC 95% 1,51;2,76).
CONCLUSÕES: O sentimento de discriminação esteve associado ao sexo e à experiência com tabaco. Sua associação com fatores psicossociais indica a coexistência de situações adversas, como a insatisfação com a imagem corporal, sintomas depressivos e presença de injúrias. Esses resultados mostram a importância da atuação conjunta de professores e profissionais de saúde na identificação precoce desse sentimento, orientação e acompanhamento de jovens enfrentando essas situações.

Descritores: Adolescente. Estudantes. Preconceito. Relações Interpessoais. Fatores Socioeconômicos. Psicologia do Adolescente. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia y factores asociados al sentimiento de discriminación entre estudiantes.
MÉTODOS: Estudio transversal con muestra representativa de 1.170 escolares de un total de 2.282 matriculados en la séptima serie de la enseñanza fundamental en escuelas municipales de Gravataí (Sur de Brasil), en 2005. Los participantes fueron seleccionados por muestreo aleatorio por conglomerado. Los datos fueron obtenidos con instrumentos auto-aplicados (Global School-based Student Health Survey, body shape questionnaire, clasificación socioeconómica) llenados en sala de aula. Fue utilizada la regresión de Cox modificada para estudios transversales, según modelo jerarquizado en cuatro etapas.
RESULTADOS: La prevalencia de sentimiento de discriminación fue de 21,0%, más prevalente entre: las niñas (RP= 1,93, IC 95% 1,51; 2,46); los que presentaron ausentismo escolar (RP= 1,54, IC 95% 1,21; 1,97); los que hicieron uso de tabaco en la vida (RP= 1,53, IC 95% 1,18; 1,98); los preocupados con su imagen corporal (RP=1,42, IC 95% 1,07;1,88); aquellos con sentimiento de soledad (RP=2,50, IC 95% 1,80;3,46); y tristeza (RP=1,29, IC 95% 1,02;1,62); aquellos con dificultad para dormir (RP:1,41, IC 95% 1,08;1,83); los que presentaron ideación suicida (RP=1,45, IC 95% 1,13;1,85) y los que sufrieron algún tipo de injuria accidental (RP=1,56, IC 95% 1,23;1,97) o intencional (RP=2,04, IC 95% 1,51;2,76).
CONCLUSIONES: El sentimiento de discriminación estuvo asociado al sexo y a la experiencia con tabaco. Su asociación con factores psicosociales indica la coexistencia de situaciones adversas, como la insatisfacción con la imagen corporal, síntomas depresivos y presencia de injurias. Estos resultados muestran la importancia de la actuación conjunta de profesores y profesionales de salud en la identificación precoz de ese sentimiento, orientación y acompañamiento de jóvenes enfrentando esas situaciones.

Descriptores: Adolescente. Estudiantes. Prejuicio. Relaciones Interpersonales.Factores Socioeconómicos. Psicología del Adolescente. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

A violência entre escolares é um problema mundial de grande relevância para a saúde coletiva e do escolar, representando uma questão crítica e desafiadora.23 O impacto da violência sobre o desenvolvimento da criança e do adolescente pode provocar danos, inclusive em termos de habilidades cognitivas,3 respostas emocionais e neuroendócrinas,7 além de interferir nas atividades cotidianas, desempenho escolar, motivação para o lazer e, muitas vezes obrigando-os a adaptações bruscas e repentinas.11

No Brasil, os custos da violência são imensos. Segundo cálculos do Banco Internacional de Desenvolvimento (BID), os gastos institucionais, públicos e privados totalizaram 30 bilhões de dólares. Considerando que muitos atos de violência ocorrem dentro do ambiente escolar, o custo para as escolas é também significativo, tanto material quanto humano.1,2,23

Segundo Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, violências são ações realizadas por indivíduos, grupos, classes ou nações e que ocasionam danos físicos, emocionais e espirituais a si próprio ou aos outros.16 A discriminação também é um tipo de violência e pode ser entendida como sendo o "tratamento preconceituoso dado a certas categorias sociais e raciais." Esse tratamento discriminatório provém das crenças de origem social e cultural que cada indivíduo ou grupo mantém com respeito ao outro e das formas de controle e opressão que são consideradas manifestações de luta pela manutenção do poder e dos privilégios.13

No âmbito escolar, a discriminação pode envolver professores, funcionários, familiares e alunos, sendo qualquer um desses o agente discriminador.

Quando ocorre entre alunos, o jovem discriminado não é a única vítima, o agressor também é, habitualmente, alguém com problemas de insegurança e de relacionamento social. Além do agressor e da vítima, existem os expectadores dessa situação que se calam por medo de se transformarem na próxima vítima e que, por isso, tornam-se por vezes também agressores.18

A discriminação não é um problema restrito ao universo escolar, ela ocorre nas famílias, nas comunidades e na sociedade em geral. Apesar de sua relevância, são escassos os estudos sobre esse problema em escolares. A maioria dos estudos existentes sobre o tema enfocou a população em geral, abordando a discriminação relacionada à raça/cor de pele,13 à conduta sexual, obesidade10 e ideação suicida,5 ao portador do HIV/Aidsª e ao sexo feminino.14 Assim, o presente estudo teve por objetivo estimar a prevalência e fatores associados ao sentimento de discriminação entre estudantes.

 

MÉTODOS

Estudo de delineamento transversal, realizado com uma amostra representativa dos estudantes de sétima série do ensino fundamental das escolas públicas municipais de Gravataí, RS, em 2005. A cidade está localizada na região Sul do Brasil, a 22 km do município de Porto Alegre, possui forte vocação industrial, com destaque ao pólo automotivo, setores do comércio e de serviços. Apresenta uma população de, aproximadamente, 270.763 habitantes em 2005, predominantemente na área urbana (91,2%), com expectativa de vida de 73,6 anos. A população-alvo foi constituída por 2.282 alunos matriculados na sétima série, distribuídos em 75 turmas, nas 52 escolas localizadas na área urbana e 14 na rural. Optou-se por estudar esse grupo populacional tendo em vista o papel da escola na promoção da saúde dos jovens, na preparação para sua cidadania e por facilidades operacionais na obtenção da amostra.

Para o cálculo do tamanho da amostra foram utilizados como parâmetros uma prevalência de 50% para a referência de sentimento de discriminação, nível de significância de 0,05, erro máximo de 3% e um efeito delineamento de 1,5. Com isso, chegou-se ao número de 728 alunos. Para repor as possíveis perdas, a amostra foi ampliada em 20%, totalizando 1.312 escolares. Como esse número representava cerca de metade dos 2.282 escolares matriculados na sétima série das escolas municipais de Gravataí, sorteou-se a metade mais uma das turmas existentes em cada uma das 15 regiões administrativas. Uma vez sorteada a turma, todos os alunos foram incluídos.

Ao final do processo de amostragem por conglomerado, foram selecionados 1.366 jovens de 53 turmas, representando 30 escolas diurnas, uma vez que o município não apresentava escolas noturnas. Desses, 31 se recusaram a responder o questionário, 30 não foram autorizados pelos pais, 105 trocaram de escola, 17 não compareceram nos dias da aplicação do questionário, um foi expulso da escola e 12 não responderam por abandono da escola. Desse modo, a amostra final foi de 1.170 alunos, tendo poder para detectar razões de prevalência maiores ou iguais que 1,5 para exposições com freqüência maior ou igual a 10%.

Para coleta de dados foram utilizados três instrumentos autoaplicáveis e uma ficha coletiva de registro de função administrativa. Dessa ficha coletiva (por turma/escola), foram retiradas as variáveis sexo, idade e cor da pele auto-referida de cada aluno avaliado.

Os questionários foram entregues aos sujeitos da pesquisa pela equipe coletora, previamente capacitada para esclarecimento de dúvidas, verificação da completude dos instrumentos e contagem do número de questionários distribuídos/recebidos. Esses coletores eram mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e bolsistas de iniciação científica da área da enfermagem e nutrição.

O primeiro questionário utilizou questões do instrumento elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) denominado Global School-based Student Health Survey (GSSHS)b para investigar a saúde de escolares. Desse, foi obtido o desfecho (sentimento de discriminação nos últimos 30 dias), a partir da pergunta: "nos últimos 30 dias, em que situações você se sentiu discriminado ou mal tratado?". Essa pergunta foi formulada exatamente como no questionário proposto pela OMS. No entanto, diferentemente desse, não foi dirigida exclusivamente à discriminação no ambiente escolar, podendo ter ocorrido na família, na comunidade ou em qualquer outro local.

Além do desfecho, foram obtidos os seguintes fatores em estudo: absentismo escolar nos últimos 30 dias (sim e não); bom relacionamento com colegas (sim e não); uso na vida de álcool, tabaco, outras drogas (sim e não); sentimento de compreensão pelos pais nos últimos 30 dias (sim e não); número de amigos (<1 e >2); sentimento de solidão, de tristeza, dificuldade para dormir e ideação suicida nos últimos 12 meses (sim e não); medo de ir à escola (sim e não); participação em brigas nos últimos 30 dias (sim e não) e sofrimento de injúrias mais sérias nos últimos 12 meses, categorizada em "não sofreu", "injúria acidental", "injúria auto-infligida" e "injúria intencional praticada por terceiros".

O segundo instrumento foi o Body Shape Questionnaire" (BSQ), traduzido para o português por Cordás & Castilhos8 e utilizado para avaliar a preocupação com imagem corporal. A preocupação com a imagem corporal originalmente classificada em "não se preocupa", "raramente se preocupa", "preocupa-se moderadamente" e "sempre se preocupa" foi classificada em três categorias, tendo sido agrupadas as duas últimas em função do pequeno número de respondentes.

O terceiro questionário foi elaborado especialmente para pesquisa, tendo fornecido os dados para classificação socioeconômica dos escolares, com base na proposta da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).c

Foi utilizada a regressão de Cox modificada para estudos transversais, sendo o tempo considerado como uma constante, uma vez que a observação dos indivíduos ocorreu em um mesmo momento. 4 Com isso, foi possível estimar o efeito dos fatores em estudo sobre o sentimento de discriminação e conhecer as razões de prevalência, intervalos de confiança de 95% e níveis de significância associados a cada um desses fatores. A análise multivariada foi realizada tomando como base o modelo conceitual (Figura), no qual as variáveis foram introduzidas em quatro etapas respeitando a hierarquia proposta. A participação das variáveis na etapa posterior à sua entrada no modelo foi determinada pelo seu nível de significância (<0,10).

As razões de prevalência, intervalos de confiança e níveis de significância apresentados na análise multivariada referiram-se aos valores encontrados na etapa em que a variável foi introduzida no modelo, com o ajuste das variáveis das hierarquias superiores e da mesma etapa. No modelo final, permaneceram somente as variáveis que mostraram um nível de significância inferior a 0,05 na etapa em que foram originalmente introduzidas.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Luterana do Brasil (protocolo 2004-37H5).

 

RESULTADOS

Entre os 1.170 escolares estudados, 52,5% eram do sexo feminino; 52,6% se declararam brancos e 21,9% pertenciam à categoria B da classificação socioeconômica, 58,8% à C e 19,3% à categoria D+E. Nenhum escolar foi classificado na categoria A. Apenas 2,9% dos jovens freqüentavam escolas na área rural. Em relação à faixa etária, 79,0% tinham idades entre 12 e 14 anos e 21,0% entre 15 e 18 anos, sem diferenças significativas quanto ao sentimento de discriminação entre essas duas faixas.

A prevalência do sentimento de discriminação entre os jovens nos últimos 30 dias foi de 21,0%.

Na primeira etapa da regressão multivariada (Tabela 1), das três variáveis que ingressaram no modelo, somente o sexo apresentou associação significativa, mostrando que as meninas referiram 93% mais sentimento de discriminação do que os meninos. Em relação à cor da pele, apesar da maior prevalência de discriminação entre não brancos, não houve associação significativa.

Na segunda etapa, das sete novas variáveis introduzidas, somente o absenteísmo escolar e o uso na vida de tabaco se associaram significativamente ao desfecho. Entre os jovens que faltaram à escola uma ou mais vezes nos últimos 30 dias observou-se 55% mais sentimento de discriminação. Na análise multivariada, o uso na vida de bebida alcoólica, que havia apresentado associação estatisticamente significativa na análise univariada, perdeu sua significância. Análises complementares mostraram que isso ocorreu quando essa variável foi controlada pelo uso na vida de tabaco. Para os jovens que haviam experimentado tabaco, o sentimento de discriminação foi 54% mais freqüente do que entre aqueles que nunca fumaram (Tabela 1).

Na terceira etapa da análise, além das variáveis selecionadas anteriormente, foram introduzidas outras cinco que permaneceram no modelo em função do nível de significância encontrado. Nas análises univariadas, o efeito dessas sobre o desfecho era maior, tendo perdido parte de sua magnitude ao serem controladas entre si e pelas variáveis de hierarquia superior (Tabela 1).

Quanto à imagem corporal, observou-se 42% a mais de sentimento de discriminação entre os estudantes preocupados com sua imagem. Em relação ao sentimento de solidão, constatou-se que os jovens que se sentiam sós referiram 2,5 vezes mais sentimento de discriminação do que os que não se sentiam sós. Da mesma forma, os com dificuldade para dormir (41%), os que se sentiam tristes (29%) e os com ideação suicida (45%) também se sentiram mais discriminados do que seus pares de referência. Por fim, na última etapa da regressão (Tabela 1) foram incluídas as variáveis restantes. O medo de ir à escola, que na análise univariada não havia se associado ao desfecho, passou a se associar, mostrando que os jovens com medo de ir à escola referiram 35% menos discriminação. Os que sofreram algum tipo de injúria acidental ou intencional provocada por terceiros referiram, respectivamente, 56% e 100% mais sentimento de discriminação. Na Tabela 2, modelo final, se encontram todas as variáveis que apresentaram nível de significância inferior a 0,05.

 

DISCUSSÃO

O aspecto inovador do presente estudo é o fato de investigar o sentimento de discriminação e fatores associados em uma amostra representativa de adolescentes que freqüentam escolas municipais.

Em função disso, os resultados não podem ser extrapolados para adolescentes que freqüentam as escolas particulares e os que estão fora das escolas.

A recusa de alguns estudantes em responder o questionário poderia estar relacionada a comportamentos de risco, como uso ou tráfico de drogas, e envolvimento com gangues, ocasionando um viés de não respondentes. Entretanto, as recusas, tanto dos escolares quanto de seus responsáveis, representaram apenas 4,5% do total da amostra selecionada e se distribuíram igualmente entre os sexos e regiões administrativas do município. Assim, não houve prejuízo às conclusões da presente pesquisa, e acredita-se ser possível extrapolar os presentes achados para os estudantes de escolas municipais de Gravataí e da região metropolitana de Porto Alegre.

A exposição à discriminação tem sido medida de diferentes maneiras, e realizar comparações entre esses estudos é tarefa difícil, devido à grande diversidade entre técnicas utilizadas nos estudos publicados.

A OMS, juntamente com The United Nations Children's Fund (UNICEF), The United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO), The Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS), e com apoio técnico do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), desenvolveram o GSSHSb na tentativa de minimizar esse problema. Esse instrumento fornece dados a respeito da saúde dos escolares e do seu cotidiano, entre eles, o sentimento de discriminação. Entretanto, diferentemente do presente estudo, o instrumento utilizado pelo GSSHS enfoca, exclusivamente, a discriminação entre iguais em ambiente escolar (bullying).

Por definição, bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotada por um ou mais estudante contra outros, causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder, podendo ser observado em qualquer local onde haja convivência de pessoas em iguais condições. O conceito de discriminação é mais amplo e o bullying é uma de suas manifestações.

Em estudo realizado com escolares chineses, em 2003, com o instrumento da OMS, observou-se prevalência de discriminação entre iguais de 31,9% e, nas Filipinas, 36,6%. Em 2004, estudos realizados na Guiana e na Jordânia constataram que 40,1% e 45,1%, respectivamente, dos estudantes sentiam-se discriminados. Nos Emirados Árabes Unidos, em 2005, e, no Marrocos, em 2006, os resultados apontaram 20,9% e 44,7%, respectivamente, desse desfecho.b No presente estudo, a prevalência foi de 21%, semelhante à encontrada nos Emirados Árabes Unidos e em Portugal (21%).6

Levando em conta que a discriminação, na forma considerada pelo presente estudo, incluía o bullying, a prevalência encontrada foi inferior à maioria dos estudos referidos. É possível que isso ocorra devido à amostra ser mais homogênea que os demais, uma vez que foram estudados somente alunos de escolas públicas e de inserção socioeconômica mais semelhante. Outra possibilidade seria a negação dos escolares sobre essa vivência. Estudo realizado no Brasil, pela UNESCO,d em 2001, aponta que a negação está possivelmente relacionada à dificuldade do adolescente em falar de seus sentimentos.

Entre os jovens de Gravataí, observou-se a associação entre o sentimento de discriminação e sexo, com prevalência mais alta nas estudantes do sexo feminino. Esse achado diferencia-se de outros estudos que encontraram uma freqüência aumentada entre os do sexo masculino.6 Entre as do sexo feminino, as formas de discriminação verbal ou mais veladas,1 como às relacionadas ao corpo, são as mais freqüentes, semelhante aos achados do presente estudo. Talvez isso favoreça uma maior prevalência do sentimento de discriminação no sexo feminino.

Em relação à cor da pele, 1,4% dos escolares de Gravataí referiramsentimento de discriminação relacionado a essa variável. Possivelmente, em função desse pequeno número, não se evidenciou associação entre o desfecho e a cor de pele.

No Brasil, em 2002, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 53,7% da população declararam cor da pele branca, 6,2% negra, 38,5% parda e 1,6% com outra cor de pele. Em Gravataí, o percentual de indivíduos autorreferidos como brancos foi 87,9%, 6,5% de negros, 4,6% de pardos e 0,9% de outros.e Entretanto, essa proporção não manteve-se nas escolas municipais, onde 47,3% dos jovens se declaram negros e pardos. É possível que essa situação de maior homogeneidade tenha contribuído para a baixa prevalência de sentimento de discriminação relacionado à cor de pele e a não associação entre essas duas variáveis. Comparada a outros estudos, essa prevalência foi somente superior à encontrada em Beijing, na China (0,6%). Segundo a UNESCO,2 em estudo realizado com 44.812 adolescentes de escolas municipais e estaduais de Porto Alegre, 4,9% deles declararam terem sido discriminados em função da cor de sua pele. No Brasil, 4,7% responderam ter sido discriminado e, para os não-brancos, esse percentual foi ainda mais alto (13%).

Estudo realizado por Fazzi, em duas escolas públicas de Belo Horizonte, mostrou que crianças com idades entre sete e nove anos possuem pensamento pautado na noção de raça. Essa noção, embora incipiente, já motiva atitudes e comportamentos discriminatórios, e monstra associação entre "tipo racial" e atributos morais.12

A inserção socioeconômica também não se associou ao desfecho. Novamente, é possível que a maior homogeneidade da amostra tenha contribuído para esse resultado. Os grupos sociais foram bastante semelhantes, uma vez que nenhum escolar pertencia à categoria mais alta da classificação da ABEP, existindo poucas diferenças entre os da categoria B, utilizada como categoria de base, e os demais.

Quanto aos jovens que faltam às aulas sentirem-se mais discriminados, supõe-se que o sentimento de discriminação possa ser uma das razões para o absenteísmo.15 No entanto, em função do delineamento utilizado, não é possível identificar qual situação influencia a outra, pois os jovens que se sentem discriminados também poderiam faltar à escola como forma de fugir de situações nas quais se sintam discriminados.

O uso na vida de bebida alcoólica, que havia apresentado associação estatisticamente significativa na análise bivariada, na multivariada, perdeu sua significância com a entrada da variável uso na vida de tabaco. No entanto, aqueles que experimentaram tabaco referiram mais sentimento de discriminação. A experimentação e o uso do tabaco podem ocorrer como forma de aplacar a ansiedade motivada pela vivência de sentimentos desagradáveis, como o de estar sendo discriminado. Por outro lado, também é possível que os adolescentes que se sentem discriminados busquem no cigarro a aceitação de seus pares.21

A faixa etária entre 14 e 16 anos é o período em que, com maior freqüência, os jovens fazem uso de drogas ilícitas, evidenciando-se a ocorrência de problemas que poderão influenciar sua vida futura.9 Apesar de muitos estudos encontrarem elevada prevalência de uso abusivo de drogas ilícitas no Brasil,f em Gravataí essa situação não foi evidenciada. É possível que esse fato tenha contribuído para não ter sido encontrada associação entre uso na vida de outras drogas e o sentimento de discriminação.

Com relação à percepção da imagem corporal, sabe-se que está submetida aos valores da sociedade, à sua cultura e representações.20 Para o adolescente, o corpo tem importância ainda maior, sendo o meio pelo qual manifesta sua identidade. Apesar desse tipo de discriminação ser mais freqüente entre as meninas, verificou-se que os jovens que se sentiram discriminados eram aqueles que estavam preocupados com sua imagem corporal e esse efeito manteve-se significativo mesmo quando controlado pelo sexo.

No presente estudo, optou-se por investigar situações freqüentes na vida do jovem, como os sentimentos de tristeza e solidão, dificuldade para dormir e, mesmo, ideação suicida. Em função do delineamento adotado, não se pode saber se os jovens mais deprimidos sentem-se discriminados, exacerbando os sintomas depressivos, ou se o sentimento de rejeição, conseqüente à discriminação, é o que leva à depressão. Entretanto, a associação encontrada entre esses sintomas e o sentimento de discriminação é relevante, visto que a depressão é um problema de saúde pública e muito freqüente na adolescência,22 sendo pouco identificada e tratada nesta etapa,19 podendo ter conseqüências danosas para o sujeito, inclusive o suicídio.5 Jovens com medo de irem à escola referiram menos sentimento de discriminação do que seus pares, quando se esperaria o contrário. É possível que isso esteja relacionado ao fato de presenciarem situações de discriminação ou outros tipos de violência, envolvendo colegas, professores ou funcionários.17 A insegurança dentro ou nas imediações da escola pode provocar temor nos estudantes. Entretanto, esses alunos ainda não são vítimas de discriminação e, mesmo com medo, vão à escola. Diferentemente, os jovens que estão sendo discriminados são os que faltam, como mostram os resultados da pesquisa. A referência do medo de ir à escola leva a se pensar que esse é o local onde ocorre a discriminação.

Jovens vítimas de injúrias, i.e., aqueles que se machucaram acidentalmente ou que foram agredidos por terceiros, também se sentiram mais discriminados, diferentemente dos que informaram terem se machucado propositalmente. É possível que o pequeno número de adolescentes com injúrias auto-infligidas tenha impedido a identificação de associação com o desfecho.

O presente estudo identificou algumas características comuns entre os adolescentes que sofrem discriminação, como o absentismo escolar; a preocupação com a imagem corporal; os sentimentos de solidão e tristeza; a dificuldade para dormir; a ideação suicida e a ocorrência de injúrias. No entanto, em função do delineamento utilizado, não é possível afirmar se essas situações são causas ou conseqüências da discriminação. Apesar disso, elas são, por si só, bastante preocupantes, merecendo esses jovens atenção especial tanto por parte dos professores como dos profissionais da saúde, na dependência do local onde forem identificadas.

Nesse contexto, a escola é local privilegiado para a prevenção da discriminação e de outras formas de violência, visando à redução de danos e seqüelas que podem ser percebidas por toda vida. Para tanto, é necessário que o estado proponha políticas públicas saudáveis, capazes de desencadear a reflexão crítica sobre a qualidade das relações no cotidiano escolar, envolvendo direção, funcionários, professores, alunos e comunidade.

 

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Correspondência | Correspondence:
Alex Avelino Bittencourt
Av. Farroupilha, nº 8001
Prédio 14, Sala 228 Bairro São José
92425-900 Canoas, RS, Brasil
E-mail: enf.bittencourt@gmail.com

Recebido: 18/8/2008
Aprovado: 7/9/2008

 

 

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