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Revista de Saúde Pública

versión impresa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.43 no.5 São Paulo oct. 2009 Epub 25-Sep-2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102009005000058 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Inatividade física no lazer de adultos e fatores associados

 

Inactividad física en ocio de adultos y factores asociados

 

 

Taís Galdêncio MartinsI; Maria Alice Altenburg de AssisII; Markus Vinícius NahasIII; Heide GaucheIV; Erly Catarina MouraV

IPrograma de Pós-Graduação em Educação Física. Centro de Desportos. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IIDepartamento de Nutrição. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IIIDepartamento de Educação Física. Centro de Desportos. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IIIPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IVNúcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a associação entre inatividade física no lazer de adultos com fatores sociodemográficos e indicadores de risco e proteção para doenças crônicas.
MÉTODOS: Estudo transversal com indivíduos com idade de 18 anos e superior (n=1996). Foram utilizados dados obtidos do Sistema Municipal de Monitoramento de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis, por meio de entrevistas telefônicas, em Florianópolis, SC, 2005. Analisaram-se fatores sociodemográficos e comportamentais de proteção e de risco. Os resultados das análises de regressão logística múltipla para associação entre inatividade física no lazer e variáveis independentes foram expressos por razões de prevalência.
RESULTADOS: A prevalência da inatividade física no lazer foi de 54,6% (47,3% homens, 61,4% mulheres). Após análise ajustada, entre os homens, maior probabilidade de inatividade física no lazer foi associada ao aumento da faixa etária, à diminuição do nível de escolaridade e ao fato de trabalharem; menor probabilidade de inatividade física no lazer foi associada ao consumo abusivo de bebida alcoólica, independentemente da faixa etária, nível de escolaridade e trabalho. Entre as mulheres, maior probabilidade de inatividade foi observada entre as que relataram nível de escolaridade inferior a 12 anos de estudo e que trabalhavam. Análises ajustadas pelo nível de escolaridade e trabalho mostraram maior probabilidade de inatividade física no lazer para mulheres que relataram consumo de frutas e hortaliças com freqüência inferior a cinco vezes por dia e consumo de leite integral.
CONCLUSÕES: Os fatores associados à inatividade física no lazer apresentaram perfil diferente entre homens e mulheres. Para mulheres, a inatividade física se associou a comportamentos de risco para doenças crônicas, em especial aos hábitos alimentares, e para os homens, se associaram a fatores sociodemográficos.

Descritores: Aptidão Física.Atividades de Lazer.Fatores de Risco.Fatores Socioeconômicos.Doença Crônica, prevenção & controle.Levantamentos Epidemiológicos.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la asociación entre inactividad física en ocio de adultos con factores sociodemográficos e indicadores de riesgo y protección para enfermedades crónicas.
MÉTODOS: Estudio transversal con individuos con edad de 18 años y superior (n=1996). Fueron utilizados datos obtenidos del Sistema Municipal de Monitoreo de Factores de Riesgo para Enfermedades Crónicas No Transmisibles, por medio de entrevistas telefónicas, en Florianópolis, Sur de Brasil, 2005. Se analizaron factores sociodemográficos e de comportamiento de protección y de riesgo. Los resultados de los análisis de regresión logística múltiple para asociación entre inactividad física en ocio y variables independientes fueron expresados por razones de prevalencia.
RESULTADOS: La prevalencia de la inactividad física en ocio fue de 54,6% (47,3% hombres, 61,4% mujeres). Posterior al análisis ajustado, entre los hombres, mayor probabilidad de inactividad física en ocio fue asociada al aumento del grupo etario, a la disminución del nivel de escolaridad y al hecho de trabajar; menor probabilidad de inactividad física en ocio fue asociada al consumo abusivo de bebida alcohólica, independientemente del grupo etario, nivel de escolaridad y trabajo. Entre las mujeres, mayor probabilidad de inactividad física fue observada entre las que relataron nivel de escolaridad menor a 12 años de estudio y que trabajaban. Análisis ajustados por el nivel de escolaridad y trabajo mostraron mayor probabilidad de inactividad física en ocio en mujeres que relataron consumo de frutas y hortalizas con frecuencia inferior a cinco veces por día y consumo de leche integral.
CONCLUSIONES: Los factores asociados a la inactividad física en ocio presentaron perfil diferente entre hombres y mujeres. Para mujeres, la inactividad física se asoció a comportamientos de riesgo para enfermedades crónicas, en especial a los hábitos alimentarios, y para los hombres, se asociaron a factores sociodemográficos.

DESCRIPTORES: Acondicionamiento Físico.Actividades Recreativas.Factores de Riesgo.Factores Socioeconómicos.Enfermedad Crónica, prevención & control. Encuestas Epidemiológicas.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos conduzidos com a população adulta brasileira mostram que a participação em atividade física no lazer é mais freqüente em homens do que em mulheres, em grupos de idade mais jovem, de maior renda e nível educacional.1,4,11,18 Adicionalmente, sujeitos que participam de atividade física no lazer de forma regular têm melhores níveis de percepção de saúde se comparados aos sedentários.2 Fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, como o tabagismo e a obesidade, podem estar associados à inatividade física no lazer.1,5 Contudo, há poucas investigações sobre as possíveis associações entre inatividade física no lazer e indicadores do consumo de alimentos e bebidas associados à proteção ou ao risco para doenças crônicas na população adulta brasileira.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS),23 80% dos casos de doenças coronarianas, 90% dos casos de diabetes tipo 2 e 30% dos casos de câncer poderiam ser evitados com mudanças nos hábitos alimentares, níveis de atividade física e uso de produtos derivados do tabaco. A atividade física regular pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer do cólon e da mama, prevenir a osteoporose e auxiliar na manutenção do peso saudável.23 Investigações sobre as associações entre dieta e doenças crônicas também confirmam o efeito protetor da alimentação saudável - combinando alto consumo de frutas, legumes, verduras e cereais integrais -, e o impacto negativo de dietas com alto teor de gorduras saturadas sobre o risco de doenças cardiovasculares.23

Entender as relações entre atividade física e consumo alimentar, as quais constituem fatores de risco, poderá auxiliar na formulação de propostas para melhoria de condições de saúde.

O presente estudo teve por objetivo analisar a associação entre inatividade física no lazer de adultos e fatores sociodemográficos e indicadores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis.

 

MÉTODOS

Estudo transversal, de base populacional, abrangendo adultos com idade igual ou superior a 18 anos, residentes em domicílios servidos por linhas telefônicas fixas no município de Florianópolis, SC. Foram analisados dados do inquérito Sistema Municipal de Monitoramento de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis -"SIMTEL - Cinco cidades", coletados no ano de 2005, em Florianópolis, e em outras quatro capitais brasileiras (Belém/PA Goiânia/GO, Salvador/BA e São Paulo/SP).O SIMTEL tem por base realizar inquéritos anuais em amostra probabilística da população adulta residente em domicílios servidos por linhas telefônicas fixas. A fundamentação científica, objetivos e metodologia desse inquérito foram descritos em publicação anterior.12

A primeira etapa da amostragem em Florianópolis (SIMTEL/Fpolis) envolveu sorteio sistemático de 14.000 linhas telefônicas, de um universo de 126.088 linhas que formam um cadastro eletrônico de uma empresa de telefonia por meio do método de amostras autoponderadas de linhas telefônicas residenciais. O processo de sorteio foi estratificado, segundo os bairros e regiões da cidade, mantendo na amostra a proporcionalidade de cada estrato no cadastro. A seguir, as 14.000 linhas sorteadas foram re-sorteadas e divididas em 40 conjuntos de 350 linhas, chamados de réplicas, por reproduzir a mesma composição da amostra total. A segunda etapa, executada paralelamente à realização das entrevistas, consistiu no sorteio de um morador com pelo menos 18 anos de idade para cada linha sorteada, após relação nominal de todos os adultos residentes no domicílio contatado.

Para a obtenção do número mínimo de 2.000 entrevistas - que permite estimar com coeficiente com 95% de confiança e erro máximo de cerca de dois pontos percentuais a freqüência de qualquer fator de risco na população estudada,12 - utilizaram-se 15 réplicas, totalizando 5.250 linhas telefônicas. Todas as linhas foram chamadas até dez vezes, em dias diferentes (dias de semana, sábado e domingo) e em horários distintos (manhã, tarde e noite), conforme metodologia desenvolvida para estudos desta natureza.12 Foram consideradas elegíveis 3.280 linhas (62,5%), as não elegíveis foram: linhas fora de serviço ou que correspondiam a empresas ou que não existiam mais (n=1970).

Foram consideradas como perdas: ligações que não responderam a dez chamadas realizadas em dias e horários distintos, ligações concluídas para residências em que não se conseguiu contato com algum morador adulto para aquiescência e sorteio, residências nas quais se realizou o sorteio, mas não se conseguiu novo contato para realizá-la; e linhas com sinal de ocupado, fax ou secretária eletrônica (n=963). Assim, realizaram-se 2.013 entrevistas (809 homens e 1.204 mulheres) entre maio e dezembro de 2005. A taxa final de número de entrevistas por número de linhas elegíveis foi de 61,4%, as perdas representaram 29,4% e as recusas 9,3%. As entrevistas tiveram a duração média de 7,5 (desvio-padrão= 3,3) minutos.

Visando ao controle de qualidade, todas as 500 entrevistas iniciais e uma amostra aleatória de 20% das entrevistas ulteriores foram revisadas e, quando necessário, realizou-se novo contato telefônico com o entrevistado para checagem de respostas.

Para as análises do presente estudo, a amostra foi composta por 1.996 indivíduos (51,8% de mulheres), excluindo-se os dados das gestantes (n=17).

O questionário do SIMTEL foi constituído por 75 perguntas curtas e simples sobre: características demográficas e socioeconômicas; características do padrão de alimentação e de atividade física associadas à ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis; freqüência do consumo de cigarros e de bebidas alcoólicas; e auto-avaliação do estado de saúde e referência a diagnóstico médico anterior de hipertensão arterial, colesterol e triglicérides elevados, diabetes e osteoporose.

A variável de desfecho foi a inatividade física no lazer, definida como a não-realização ou a prática referida com freqüência menor que uma vez por semana de atividades físicas no tempo livre (exercícios físicos ou esporte).

Os indicadores selecionados do questionário SIMTEL para estudar a associação com a inatividade física envolveram variáveis sociodemográficas (idade, peso e altura, cor da pele, escolaridade, estado civil e inserção no mercado trabalho), de indicadores de risco (consumo abusivo de bebidas alcoólicas, tabagismo, excesso de peso, consumo de refrigerantes com ou sem açúcar, e o hábito de consumo de leite integral e de carnes gordurosas) e de proteção (consumo de frutas, legumes e verduras) para doenças crônicas.

A idade referida em anos completos foi agrupada em faixa etária (18 a 24; 25 a 34; 35 a 44; 45 a 54 ou 55 e mais). A cor da pele (opções no questionário: branca, negra, parda ou morena, amarela) foi classificada em branca ou não-branca. A escolaridade foi categorizada em anos de estudo (zero a quatro, cinco a oito, nove a 11 ou 12 e mais). O estado civil foi classificado em casado ou solteiro, viúvo e separado. A existência de trabalho remunerado foi indicada por meio de respostas "sim" ou "não".

O consumo abusivo de bebida alcoólica (não ou sim) foi obtido por meio de resposta sobre a ingestão de cinco doses de qualquer bebida alcoólica em pelo menos um dia do último mês, independentemente do sexo.

O tabagismo foi categorizado em fumante (indivíduo que referia ser fumante no momento da entrevista); ex-fumante ou nunca fumante.

O excesso de peso foi categorizado em não-excesso de peso (índice de massa corporal - IMC < 25 kg/m2), pré-obesidade (IMC ³ 25 kg/m2 e < 30 kg/m2) e obesidade (IMC ³30 kg/m2)22 segundo os valores do IMC, calculados a partir do peso (kg) dividido pelo quadrado da altura (m), ambos auto-referidos.

O consumo de refrigerantes, incluindo tipos diet ou light, foi categorizado em raramente (nunca e raramente); uma a duas ou três e mais vezes na semana. O consumo de leite integral (não/sim) foi computado pela combinação das respostas sobre o hábito de tomar leite e o tipo de leite em relação ao teor de gordura. O consumo de carnes gordurosas (não/sim) foi obtido a partir da combinação das respostas sobre o hábito de consumir carne vermelha gordurosa ou de frango com pele sem remoção da gordura visível do alimento.

A freqüência diária de consumo de frutas, verduras e legumes foi classificada conforme a combinação de respostas de freqüência de consumo de frutas, de saladas cruas, de verduras e legumes cozidos, sendo categorizada em cinco e mais vezes, três a quatro, uma a duas ou menos de uma vez.

As análises bivariada e de regressão logística múltipla foram realizadas no programa Stata versão 9.0. Estimou-se a razão de prevalência (RP) com os intervalos com 95% de confiança (IC 95%) por meio da regressão de Poisson com variância robusta, com ingresso das variáveis seguindo modelo hierarquizado.21 No primeiro nível do modelo foram incluídas as variáveis sociodemográficas e, no segundo nível, as variáveis de risco e proteção para doenças crônicas. A seleção dos indicadores para o modelo hierárquico levou em conta sua importância para a determinação da inatividade física no lazer em estudos realizados no Brasil1,5,11 e em outros países.3,8-10

As variáveis com p<0,20 foram introduzidas no modelo conforme o nível hierárquico, para controle de fatores de confusão. Consideraram-se como fatores associados à inatividade física no lazer aqueles com teste de heterogeneidade ou de tendência linear significativo (p<0,05).

Os dados foram estratificados por sexo e as estimativas de prevalência foram produzidas para a população adulta total do município, utilizando fatores de expansão conforme a distribuição sociodemográfica do Censo de 2000.12

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. O termo de consentimento livre e esclarecido foi substituído pelo consentimento verbal, devidamente gravado, obtido por ocasião dos contatos telefônicos.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta características sociodemográficas da população com telefone estudada pelo SIMTEL em Florianópolis em comparação com as características da população adulta do município, segundo amostra aleatória de 10% dos domicílios pesquisados pelo Censo Demográfico em 2000.a É possível observar similaridades entre as duas amostras: na amostra estudada, houve maior proporção de mulheres (59,8% contra 52,6% no censo), menor proporção de jovens entre 18 e 24 anos de idade (16,6% contra 20,8% no censo) e maior proporção de indivíduos com escolaridade igual ou superior a nove anos (74,2% contra 58,2% no censo).

 

 

As médias de idade e de anos de escolaridade para a população estudada foram de 39,7 (DP= 15,0) e 11,2 (DP= 4,4) anos, respectivamente.

Foram encontradas distribuições semelhantes das variáveis sociodemográficas entre os sexos nas diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade, prevalecendo homens e mulheres de cor branca. Maior proporção de homens do que mulheres relataram ser casados e estar trabalhando. Para os fatores de risco ou proteção para doenças crônicas, observou-se maior freqüência de homens do que de mulheres com pré-obesidade, que relataram consumo abusivo de bebida alcoólica e ser fumantes. Por outro lado, foi encontrada maior proporção de mulheres do que de homens que relataram consumir frutas, legumes e verduras com freqüência diária maior do que três a quatro vezes, consumir raramente refrigerantes, não consumir leite integral e carnes gordurosas. (Tabela 2)

 

 

Dos 1.996 participantes, 1.090 relataram inatividade física no lazer, 58,3% eram mulheres. A prevalência de inatividade física no lazer foi de 54,6% (IC 95%: 51,8;57,4) no geral, 47,3% (IC 95%: 42,8;51,7) para os homens, e 61,4% (IC 95%: 58,1;64,7) para as mulheres.

As Tabelas 3 e 4 apresentam as prevalências e razões de prevalências brutas e ajustadas para associação entre inatividade física no lazer, variáveis sociodemográficas e variáveis de risco e proteção para doenças crônicas em homens e em mulheres.

Entre os homens, a análise bivariada mostrou associação da inatividade física no lazer com o aumento da faixa etária, diminuição do nível de escolaridade, condição de ser casado e de trabalhar. Relativamente aos fatores de risco comportamentais, os homens que relataram ser fumantes, consumir leite integral e carne gordurosa apresentaram maior probabilidade de inatividade física no lazer. Por outro lado, o consumo abusivo de bebida alcoólica foi associado a menor prevalência de inatividade no lazer.

Análises ajustadas do primeiro nível do modelo hierárquico mantiveram as associações de maior prevalência de inatividade física no lazer com o aumento da faixa etária, a diminuição do nível de escolaridade e a condição de trabalhar, mas anularam a associação com o estado civil casado. Análises ajustadas do segundo nível, controladas por faixa etária, escolaridade e trabalho, confirmaram a associação entre menor prevalência de inatividade física no lazer e consumo abusivo de bebida alcoólica, embora com diminuição da magnitude do efeito. O ajuste também resultou em perda de significância estatística das associações entre inatividade no lazer e o consumo de carne gordurosa e de leite integral. Relativamente ao tabagismo, a significância estatística no teste de heterogeneidade foi preservada, mas os limites inferiores dos intervalos de confiança nas categorias ex-fumante e fumante foram menores do que a unidade. (Tabela 3)

Entre as mulheres, nas análises bivariadas com fatores sociodemográficos, somente a escolaridade associou-se à inatividade física no lazer; quanto menor o nível de escolaridade, maior a probabilidade de inatividade. Nessas análises, os fatores de risco e proteção nutricionais selecionados foram positivamente associados com uma maior probabilidade de inatividade física no lazer. Consumo abusivo de bebida alcoólica, tabagismo e estado nutricional não apresentaram associação com inatividade física no lazer.

Análises do primeiro nível do modelo hierárquico, ajustadas pelas variáveis escolaridade e trabalho, potencializaram a magnitude das associações entre mais alta prevalência de inatividade física no lazer e níveis de escolaridade abaixo de 12 anos de estudo e revelaram uma associação inversa com a condição de trabalhar, anteriormente não identificada na análise bivariada. Análises ajustadas do segundo nível, controladas pelas variáveis escolaridade e trabalho, confirmaram as associações entre maior prevalência de inatividade física no lazer e o consumo de frutas, legumes e verduras nas categorias de freqüência inferior a cinco vezes por dia, atenuaram a magnitude do efeito de associação entre inatividade física e o consumo de leite integral e anularam a associação com o consumo de carne gordurosa, anteriormente observada na análise bivariada. (Tabela 4)

 

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo indicaram que associações da inatividade física no lazer com fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis foram encontradas em ambos os sexos, e os dados confirmaram as já conhecidas diferenças nos padrões de atividade física no lazer (com as mulheres menos ativas que os homens) e nos fatores de risco para doenças crônicas (com as mulheres apresentando geralmente níveis mais baixos dos principais fatores de risco).

A prática de atividade física no lazer é somente uma das dimensões da atividade física. As recomendações de saúde pública enfatizam a importância da atividade física acumulada em vários cenários da vida diária, incluindo lazer (exercícios físicos e esportes), atividades ocupacionais, deslocamento e atividade física em casa.6 Contudo, a medida da atividade física no lazer vem ganhando importância por seu caráter opcional e prazeroso e porque apresenta associações mais consistentes com os fatores de risco de doenças cardiovasculares quando comparada às atividades ocupacionais.19

O presente estudo apresenta algumas limitações. Primeiro, a amostra entrevistada pelo SIMTEL só permite inferências populacionais para a população adulta que reside em domicílios cobertos pela rede de telefonia fixa, que não é universal, podendo ser baixa nos estratos de menor nível socioeconômico. Assim, para corrigir ao menos parcialmente, vieses determinados pela não-cobertura universal da rede telefônica, aplicaram-se pesos pós-estratificação.12 Segundo, todas as informações obtidas foram auto-referidas. No entanto, os indicadores de atividade física e sedentarismo e de consumo de alimentos e bebidas apresentaram boa reprodutibilidade e adequada validade em estudos com os participantes do SIMTEL/São Paulo,13,14 ainda que estes resultados não possam ser expandidos para Florianópolis ou outras cidades, principalmente pelas diferenças regionais e culturais. Terceiro, os achados do presente estudo provém de pesquisa com delineamento transversal, apropriados para hipóteses de associações ou de co-ocorrência de comportamentos. Os dados não fornecem informações sobre a forma como comportamentos associados operam para influenciar a saúde. Os fatores de risco e desfecho foram vistos em um mesmo momento e o viés de causalidade reversa para os fatores comportamentais não poder ser eliminado. A metodologia utilizada não permite afirmar se, por exemplo, o hábito de fumar, o não consumo de bebida alcoólica, a baixa freqüência de consumo de frutas, legumes e verduras e/ou o consumo de leite integral precede a inatividade física.

Os aspectos positivos do estudo referem-se aos procedimentos de amostragem e ao treinamento dos entrevistadores para a padronização das entrevistas, submetidas a rigoroso controle de qualidade.

A prevalência de inatividade física no lazer encontrada no presente estudo (54,6% no geral; 47,3% para homens; 61,4% pra mulheres), foi menor do que a encontrada pelo SIMTEL/Goiânia (66,5% no geral; 53,2% para homens; 67,1% para mulheres).17

As questões relativas à atividade física no questionário SIMTEL apresentam diferenças em relação a outros questionários, limitando as comparações com as freqüências de inatividade física no lazer obtidas em outras pesquisas populacionais no Brasil. A maioria dos estudos de larga escala conduzidos no Brasil com a população adulta utilizou diferentes questionários e definições para inatividade física no lazer. Em pesquisa sobre padrões de vida, conduzida no nordeste e sudeste em 1996-1997, incluindo pessoas com 20 anos ou mais, 87% relataram não realizar atividade física no lazer (definida como 30 minutos ou mais de exercícios físicos ou esportes pelo menos uma vez por semana).11 No município do Rio de Janeiro (RJ), em 1996, a freqüência de inatividade física no lazer (não realizar atividade física regular ou esportes no mês anterior à entrevista) em homens e mulheres com 12 anos ou mais foi de 59,8% e de 77,8%, respectivamente.4 Em Salvador (BA), no ano 2000, a prevalência de inatividade física no lazer (não participar de atividades físicas nos momentos de lazer, em uma semana habitual) em homens e mulheres entre 20 e 94 anos, foi de 60,4% e de 82,7%, respectivamente.18 Em Pelotas (RS) em 2003, a prevalência de inatividade física no lazer em homens e mulheres com 20 anos ou mais (avaliada por meio da forma longa do International Physical Activity Questionnaire e definida como escore = zero minuto por semana) foi de 49,8% e de 64,4%, respectivamente.5

As associações entre inatividade física no lazer e fatores sociodemográficos encontradas no presente estudo confirmam os achados de outros estudos no Brasil1,4,5,11 e nos Estados Unidos (EUA),8 onde os indivíduos com mais idade e menos anos de escolaridade apresentaram maior prevalência de inatividade. A associação de inatividade física no lazer com a faixa etária, somente entre os homens, também foi relatada para o município de Pelotas, em pesquisa conduzida em 2003.1 No presente estudo, em ambos os sexos não foi encontrada associação entre inatividade física no lazer e cor da pele, e entre inatividade física no lazer com pré-obesidade e obesidade, em concordância com o estudo realizado em Pelotas.5

Observou-se uma associação inversa entre inatividade física no lazer e o consumo de bebidas alcoólicas, com prevalência de inatividade superior (53,5%) entre os homens que referiram não ingerir álcool de forma abusiva em comparação aos que relatavam consumo abusivo (34,4%). Esse comportamento, também relatado em outros estudos com trabalhadores da indústria catarinense2 e no Behavioral Risk Factor System nos EUA,15 configura um padrão de estilo de vida em que fatores de risco e proteção coexistem com a prática de atividade física no lazer. Parte da explicação desse achado pode ser pela presença de fator de confusão residual não mensurado no presente estudo e, conseqüentemente, não controlado na análise. Por exemplo, num estudo realizado na Suécia (The Malmö Diet and Cancer Study) foi observado que os indivíduos com baixos níveis de atividade física no lazer relatavam menor participação em atividades sociais (festas, reuniões, esportes coletivos) em relação aos de maior nível.7 Futuras pesquisas poderiam investigar se os inativos no lazer estariam menos expostos a ambientes facilitadores do consumo de bebida alcoólica. Achados da Pesquisa sobre Padrões de Vida11 mostraram que os homens brasileiros praticam mais atividades em grupo (futebol, voleibol, basquetebol) do que as mulheres.Entre os homens brasileiros, a prática de atividade física no lazer está mais relacionada ao gosto e ao prazer do que a preocupações com a saúde.1,11

Por outro lado, a associação entre trabalho e inatividade física no lazer, mostrando maior prevalência de inatividade entre os que trabalham em comparação com os que não trabalham, é mais facilmente explicada pelo fator falta de tempo disponível para o lazer, relatado com freqüência como uma barreira à prática de exercícios físicos ou esportes.

Associações similares da atividade física no lazer com os hábitos alimentares foram observadas em estudos conduzidos nos EUA3,9,15 e países europeus.10,16,20 A prática de atividade física no lazer foi associada à maior freqüência de consumo de frutas, suco de frutas, legumes e verduras, e ao decréscimo do consumo de gorduras totais e saturadas3,9,10,15,21 e hábitos alimentares mais saudáveis no café da manhã.10,16

Os achados do presente estudo confirmam os dados de outras pesquisas de base populacional, conduzidos por meio de inquéritos telefônicos ou de entrevistas domiciliares, em que a prevalência de inatividade física no lazer tende a se integrar a comportamentos de risco para doenças crônicas não transmissíveis, tais como o tabagismo (entre os homens) e a um padrão alimentar menos saudável, especialmente entre as mulheres. Outros fatores não investigados no presente estudo - tais como o preço dos alimentos saudáveis (por exemplo, das frutas, legumes e verduras), o poder aquisitivo e o contexto ambiental em que as pessoas vivem - poderiam auxiliar na interpretação das associações entre padrões não saudáveis de alimentação e inatividade física no lazer.

Em conclusão, os resultados do presente estudo indicaram que uma maior probabilidade de inatividade física no lazer foi observada entre as mulheres com nível de escolaridade inferior a 12 anos de estudo, que trabalhavam e que relatavam consumo de frutas, legumes e verduras com freqüência inferior a cinco vezes por dia e consumo de leite integral. Entre os homens, uma maior probabilidade de inatividade física no lazer foi associada ao aumento da faixa etária, à diminuição do nível de escolaridade e ao fato de trabalharem; uma menor probabilidade de inatividade foi associada ao relato de consumo abusivo de bebida alcoólica.

Dados com essa abrangência e como parte de um sistema de vigilância de fatores de risco à saúde podem estimular o desenvolvimento de ações específicas para promoção de estilos de vida mais ativos e saudáveis na população adulta.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Maria Alice Altenburg de Assis
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário - CCS
88040-900 Florianópolis, SC, Brasil
E-mail: massis@ccs.ufsc.br

Recebido: 10/9/2008
Aprovado: 10/2/2009
Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (CNPq, Processo Nº: 477272/2004-5)

 

 

Artigo baseado em tese de mestrado de Martins TG, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2008.
a Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2000: Brasil [CD-ROM]. Brasília; 2000.