SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.43 issue6Efficacy and safety of the Brazilian vaccine against Hepatitis B in newbornsRisk and protective factors of acute respiratory infections in infants author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • text in English
  • English (pdf) | Portuguese (pdf)
  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.43 no.6 São Paulo Dec. 2009  Epub Dec 18, 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102009005000079 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Tendência temporal da amamentação na cidade do Rio de Janeiro: 1996-2006

 

 

Tendencia temporal del amamantamiento en la ciudad de Rio de Janeiro, Brasil: 1996-2006

 

 

Inês Rugani Ribeiro de CastroI, II; Elyne Montenegro EngstromI, III; Letícia Oliveira CardosoIV; Jorginete de Jesus DamiãoI, II; Rosane Valéria Fonseca Viana RitoV; Maria Auxiliadora de Souza Mendes GomesVI, VII

IInstituto Annes Dias. Subsecretaria de Promoção, Atenção Básica e Vigilância em Saúde. Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIDepartamento de Nutrição Social. Instituto de Nutrição. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIICentro de Saúde Escola Germano Sinval Faria. Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IVDepartamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. ENSP-Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
V Coordenação de Linhas de Cuidado e Programas Especiais. Subsecretaria de Atenção Básica. Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
VIDepartamento de Ensino. Instituto Fernandes Figueira. Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
VII Superintendência de Maternidades. Subsecretaria de Atenção Hospitalar, Urgência e Emergência. Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a tendência temporal da prática de aleitamento materno (AM) e de aleitamento materno exclusivo (AME).
MÉTODOS: Foram analisados dados de sistema de monitoramento baseado em inquéritos realizados nos anos de 1996, 1998, 2000, 2003 e 2006 durante a Campanha Nacional de Imunização na cidade do Rio de Janeiro, RJ. A população de estudo foi constituída de 19.044 crianças menores de um ano de idade que compareceram aos postos de vacinação. Para cada ano foi estudada uma amostra probabilística por conglomerado (postos de vacinação), auto-ponderada representativa da população de crianças menores de 12 meses (<12). Foi aplicado questionário estruturado com questões fechadas sobre alimentação da criança no momento do estudo e características sociodemográficas da mãe. Foram adotados os indicadores de AM e de AME propostos pela Organização Mundial da Saúde.
RESULTADOS: O AM<12 aumentou de 61,3% para 73,4% entre 1996 e 2006. Tendência similar foi observada em todas as faixas etárias analisadas. O AME em crianças <4 e <6 meses (AME<6) aumentou, respectivamente, de 18,8% para 42,4% e de 13,8% para 33,3%. Melhorias em AM>6 e em AME<6 foram observadas em todas as categorias de todas as variáveis sociodemográficas maternas. Para AME<6, a desvantagem observada em 1996 entre mulheres de menor escolaridade e em 1998 entre mulheres que trabalhavam não foi completamente superada até 2006.
CONCLUSÕES: O AM e o AME aumentaram no período estudado independentemente da faixa etária da criança e das características sociodemográficas maternas. Não foram totalmente superadas diferenças observadas entre mulheres em diferentes situações sociodemográficas.

Descritores: Aleitamento Materno, epidemiologia. Nutrição do Lactente. Fatores Socioeconômicos. Saúde Materno-Infantil. Estudos de Séries Temporais.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la tendencia temporal de la práctica del amamantamiento materno (AM) y del amamantamiento materno exclusivo (AME).
MÉTODOS: Fueron analizados datos del sistema de monitoreo con base en pesquisas realizadas en los años de 1996, 1998, 2000, 2003 y 2006 durante la Campaña Nacional de Inmunización en la ciudad de Rio de Janeiro, Sureste de Brasil. La población de estudio fue constituida por 19.044 niños menores de un año de edad que asistieron a los puestos de vacunación. Para cada año fue estudiada una muestra probabilística por conglomerado (puestos de vacunación), autoponderada representativa de la población de niños menores de 12 meses (<12). Fue aplicado cuestionario y estructurado con preguntas cerradas sobre alimentación del niño en el momento del estudio y características sociodemográficas de la madre. Fueron adoptados los indicadores de AM y de AME propuestos por la Organización Mundial de la Salud.
RESULTADOS: El AM<12 aumentó de 61,3% a 73,4% entre 1996 y 2006. Tendencia similar fue observada en todos los grupos etarios analizados. El AME en niños <4 y <6 meses (AME<6) aumentó, respectivamente, de 18,8% a 42,4% y de 13,8% a 33,3%. Mejorías en AM>6 y en AME<6 fueron observadas en todas las categorías de todas las variables sociodemográficas maternas. Para AME<6, la desventaja observada en 1996 entre mujeres de menor escolaridad y en 1998 entre mujeres que trabajaban no fue completamente superada hasta 2006.
CONCLUSIONES: El AM y el AME aumentaron en el período estudiado independientemente del grupo etario del niño y de las características sociodemográficas maternas. No fueron totalmente superadas las diferencias observadas entre mujeres en diferentes situaciones sociodemográficas.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o crescente processo de valorização e investimento da prática da amamentação é fruto do envolvimento e mobilização da sociedade civil organizada, da atuação de organismos internacionais e da implementação de políticas públicas.13,16,17,ª Contudo, a avaliação da repercussão dessas ações na melhoria dos índices de amamentação é escassa na literatura mundial.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 35% das crianças menores de quatro meses sejam exclusivamente amamentadas e que a duração mediana da amamentação seja de 18 meses, com importantes diferenças entre os países e as regiões do mundo.18

No Brasil, observou-se considerável declínio do aleitamento materno (AM) entre os anos 1960 e 1970 e a intensificação de ações voltadas ao resgate dessa prática a partir da década de 1980.1,6,8,10,14,15 Pesquisas nacionais revelam que a mediana de duração do AM passou de 74 dias em 1975 para 134 dias em 1989, para aproximadamente 210 dias em 1996 e para 282 dias em 2006.15,b,c,d No que diz respeito ao aleitamento materno exclusivo (AME), estimou-se, em 1986, que 3,6% de bebês menores de quatro meses de idade recebiam somente leite materno sem qualquer outro líquido ou alimento sólido.e Em 1999, estudos nas capitais dos estados brasileiros e no Distrito Federal indicaram que as prevalências de AM e de AME aos seis meses de idade variaram de 53,8% a 84,6% e de 2,8% a 16,9%, respectivamente. Entre crianças com quatro meses de idade, essas prevalências variaram, respectivamente, de 64,6% a 90,0% e de 7,2% a 32,2%.11 Em média, a prevalência de AME entre crianças com idade entre zero e quatro meses foi de 35,6%.14 Em 2006, estudo nacional indicou, para crianças menores de seis meses, prevalências de AM e AME de, respectivamente, 91,8 e 39,8%.f Esse conjunto de resultados aponta importante aumento da amamentação nas últimas décadas no Brasil.

Em consonância com o processo de intensificação da promoção da amamentação no País, a cidade do Rio de Janeiro, RJ, vem implementando diversas estratégias desde a década de 1980. Visando acompanhar as tendências temporais dessa prática na cidade, com o apoio de diversas instituições acadêmicas, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio) implantou um sistema de monitoramento de base populacional das práticas alimentares em menores de um ano de idade em 1996.g

O objetivo do presente estudo foi analisar a tendência temporal da prática de aleitamento materno e de aleitamento materno exclusivo e sua evolução segundo características sociodemográficas maternas.

 

MÉTODOS

Foram utilizados dados de inquéritos conduzidos como atividade de rotina da (SMS-Rio). Esses inquéritos são realizados durante as campanhas nacionais de Vacinação contra Poliomielite (cobertura média de 98,7% do público-alvo, na cidade, no período de estudo), a partir dos quais são construídos indicadores referentes à alimentação atual da criança ("current status").3,14 Foram analisados dados dos inquéritos de 1996, 1998, 2000, 2003 e 2006.

A população de estudo foi constituída de crianças menores de um ano de idade. Amostras probabilísticas por conglomerado (postos de vacinação) auto-ponderadas representativas dessa população foram calculadas com base no número de menores de um ano vacinados em cada posto de vacinação no ano anterior à realização de cada inquérito.

A coleta de dados se deu por meio de aplicação de questionário estruturado fechado aos acompanhantes das crianças por voluntários treinados, em sua maioria alunos de cursos de graduação em nutrição, supervisionados por profissionais da SMS-Rio e por docentes de universidades parceiras.

Embora os inquéritos tenham sido planejados para serem realizados na primeira etapa da campanha de vacinação, por limitações logísticas, até o ano de 2003, parte das entrevistas (em média, 37%) foi realizada na segunda etapa. Para evitar que uma mesma criança fosse entrevistada duas vezes, em cada etapa a coleta de dados cobriu parte do território do município, fazendo com que postos de vacinação de uma mesma área geográfica fossem estudados em uma única etapa.

O questionário utilizado abordou os seguintes temas: alimentação da criança no momento do estudo (sendo utilizado método de freqüência alimentar em 1996 e, a partir de 1998, recordatório de 24h); características do parto e do nascimento; alimentação no primeiro dia em casa (para menores de quatro meses de idade) e características maternas (idade, paridade, escolaridade, trabalho no momento do estudo). Algumas alterações ocorridas no questionário ao longo do período estudado não comprometeram a comparabilidade entre os inquéritos no que diz respeito aos indicadores de amamentação e de amamentação exclusiva.

Foram adotadas as categorias da OMS de amamentação:h aleitamento materno exclusivo (AME) - crianças que recebiam somente leite materno e não recebiam outros líquidos ou sólidos com exceção de suplementos minerais, vitaminas ou medicamentos; aleitamento materno (AM) - crianças que recebiam leite materno, com ou sem complementos.

Assim, os indicadores de amamentação construídos para análise da tendência temporal foram: prevalências de AME e AM entre crianças com idade abaixo de quatro meses, entre quatro e 5,9 meses e abaixo de seis meses (respectivamente AME<4, AME4-5,9, AME<6, AM<4, AM4-5,9 e AM<6) e prevalência de AM para crianças a partir de seis e abaixo de 12 meses de idade (AM>6 e AM<12). O erro-padrão das estimativas de prevalência foi calculado levando-se em conta o desenho da amostra por conglomerado.

Para a comparação das estimativas de amamentação entre os anos de estudo, visando controlar o possível efeito que eventuais mudanças do perfil sociodemográfico das mães das crianças estudadas pudessem ter sobre as prevalências estimadas, foi realizada análise de regressão logística para cada um dos indicadores de amamentação construídos. A variável dependente foi o indicador de amamentação e as independentes foram o ano dos inquéritos e as características maternas disponíveis: idade (<20, 20-24, 25-29, 30-34 e >35 anos) e escolaridade (<7, 8-10 e >11 anos de estudo).

Foram realizados dois tipos de comparação entre os anos. Primeiro, o ano de estudo foi inserido no modelo como variável dummy, sendo examinadas as razões de chance de prevalência (RCP) de cada ano em relação ao ano-base (1996). Considerou-se que as estimativas de RCP eram estatisticamente significativas quando seus intervalos de confiança não incluíam o valor 1.

Em seguida, para exame da tendência linear das estimativas de prevalência, o ano de estudo foi inserido no modelo como variável contínua, sendo considerada tendência estatisticamente significativa quando a variável ano apresentava valor de p<0,05 para a estatística de Wald.

Foram realizadas, ainda, análises adicionais de tendência linear para os desfechos de interesse utilizando-se o conjunto de dados de 1998 a 2006 e sendo consideradas no ajuste todas as características maternas disponíveis para esse período: idade, escolaridade, primiparidade (sim ou não) e trabalho (sim ou não).

O exame da evolução da amamentação segundo características maternas foi realizado para os indicadores AME<6 e AM>6, com base na recomendação internacionali de amamentação exclusiva até o sexto mês de vida e manutenção da amamentação até dois anos ou mais. Para essa análise, a comparação entre os anos de estudo segundo idade e escolaridade maternas foi feita por meio de modelos de regressão que consideraram o conjunto de dados 1996-2006 e que incluíram como variáveis independentes o ano de estudo e a escolaridade e a idade maternas. Para análise da evolução desses indicadores segundo paridade e trabalho maternos, tendo em vista que essas informações só estavam disponíveis a partir de 1998, foram utilizados modelos que consideraram o conjunto de dados 1998-2006 e que incluíram como variáveis independentes o ano de estudo e a escolaridade, a idade, a paridade e o trabalho maternos.

A análise da associação entre AM>6 e AME<6 e características maternas para cada ano utilizou modelos de regressão logística.

Tendo em vista a diferença de intervalos de tempo entre os estudos, a análise de tendência foi complementada com o exame da taxa de variação anual absoluta das prevalências de AM e AME segundo faixas etárias selecionadas.

Os bancos de dados foram construídos utilizando-se o software Epi Info versão 6.04 e a análise de dados foi realizada utilizando-se o software SPSS versão 13.0.

A representatividade populacional das amostras foi examinada pela comparação de algumas variáveis do estudo com o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Foram comparadas as seguintes variáveis: baixo peso ao nascer (% <2500g), idade e escolaridade maternas (categorizada em <7, 8-11 e >12 anos de estudo, seguindo estrutura do Sinasc).

A população estudada nos cinco inquéritos totalizou 19.044 crianças menores de um ano, sendo estudadas 3.738, 3.742, 3.652, 4.279, 3.633 crianças, respectivamente nos anos de 1996, 1998, 2000, 2003 e 2006. A distribuição das amostras em relação à idade da criança e às características maternas está apresentada na Tabela 1.

Os inquéritos realizados seguiram os padrões éticos exigidos pela Declaração de Helsinque e pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. A partir de 2003, os protocolos de pesquisa foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

 

RESULTADOS

Para o total de crianças estudadas, AM<12 aumentou de 61,3% a 73,4% entre 1996 e 2006 (p de tendência=0,000), com aumento estatisticamente significativo a partir de 2003 (quando considerados os modelos que trataram o ano de estudo como variável dummy). Tendência similar de aumento foi também observada em todas as faixas etárias analisadas (Tabela 2).

O AME apresentou tendência linear de aumento em todas as faixas etárias analisadas (p=0,000), sendo observadas, ao final do período estudado, prevalências entre 2,3 e 2,5 vezes maiores do que as do início do período (Tabela 3). Diferenças estatisticamente significativas para AME<4, AME<6 e AME4-5,9 foram observadas a partir de, respectivamente, 2000, 1998 e 2006 (quando considerados os modelos que trataram o ano de estudo como variável dummy).

Análises adicionais de tendência linear levando-se em conta o conjunto de dados de 1998 a 2006 e todas as variáveis maternas disponíveis para este período (idade, escolaridade, primiparidade e trabalho) também apresentaram tendência de aumento estatisticamente significativa para ambos os indicadores (AM e AME) em todos as faixas etárias analisadas, (p=0,000, exceto para AM<4 meses (p=0,001) e para AME4-5,9 (p=0,002)).

No período de 1996 a 2006, as taxas médias de aumento de AME<4 e AME<6 foram superiores às observadas para AM<6 e AM>6, sendo as variações mais elevadas observadas para AME no período de 2003-06 e, para AM, no período de 2000-03 (Tabela 4).

Observou-se tendência de aumento estatisticamente significativa de AME<6 e de AM>6 entre mães de todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, entre mães primíparas e multíparas e entre mães que trabalhavam e que não trabalhavam no momento do estudo (p de tendência=0,000 em todas as situações).

Modelos que trataram o ano de estudo como variável dummy indicaram diferenças estatisticamente significativas nas estimativas de AME<6 e AME>6 ao longo do período estudado, corroborando os resultados obtidos por meio dos modelos de regressão linear.

O exame da associação entre AME<6 e AM>6 e características maternas mostrou não haver associação entre esses indicadores e idade e paridade maternas (exceto para idade e AME<6 em 1996 e pra paridade e AM>6 em 1998). A escolaridade materna mostrou-se diretamente associada ao AME<6, mas não ao AM>6 (exceto em 1996) e o trabalho materno se mostrou associado aos dois indicadores em todos os anos de estudo em que essa informação estava disponível. A desvantagem observada entre mulheres de menor escolaridade não foi superada até 2006. Por outro lado, a vantagem observada para AME<6 entre as mulheres que não trabalhavam diminuiu no período estudado, passando a razão de prevalência desse indicador de 2,73 em 1996 para 1,86 em 2006. Isso ocorreu em função do aumento proporcionalmente maior de AME entre as mulheres que trabalhavam (Tabela 5).

 

DISCUSSÃO

Com base nos cinco inquéritos realizados, pode-se afirmar que houve aumento da prevalência de AM entre crianças menores de um ano, tanto no primeiro quanto no segundo semestre de vida, e grande aumento de AME nas três faixas etárias estudadas (<4; 4 a 5,9; e <6 meses). Ainda, o incremento de AME<6 e AM>6 ocorreu entre mães de todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, entre mães primíparas e multíparas e entre mães que trabalhavam e que não trabalhavam no momento do estudo. A desvantagem observada para AME<6 entre mães que trabalhavam diminuiu, mas não foi completamente superada ao final do período estudado.

No tocante à representatividade populacional das amostras, a distribuição de idade materna em todos os anos estudados foi semelhante à observada no Sinasc. Por outro lado, na distribuição de escolaridade materna, observou-se sub-representação do segmento de mulheres com maior escolaridade (12 ou mais anos de estudo) (média de 12,1% nos estudos e de 24,4% no Sinasc). Por conseqüência, as estimativas de prevalência de AME, que se mostrou associada positivamente com escolaridade materna, podem estar subestimadas no presente estudo. Ou seja, a magnitude de AME é no mínimo a observada. O cotejamento desses achados com os de outros estudos não é simples, uma vez que tanto os métodos adotados para coleta de dados quanto os indicadores construídos muitas vezes não são comparáveis. Estudos realizados em cidades de diferentes regiões do Brasil, no período entre 1997 e 2002, com metodologia comparável e adoção de pelo menos uma dessas categorias: AME<4, AME<6 ou AM<12. Reunidos, eles oferecem dados de 143 cidades.4,5,8,11,12,14,15

Nesses estudos, AME<4 variou de 18,8% (município do Rio de Janeiro, em 1996, dados do presente estudo) a 48,8%15 (Feira de Santana, BA, em 2001). O melhor resultado para AME<4 observado no Rio de Janeiro (42,4% em 2006) foi inferior aos observados em Florianópolis, SC, em 1997 (46,3%),5 quase dez anos antes, e em Feira de Santana em 2001 (48,8%). A média de AME<4 observada para as capitais de estados brasileiros em 1999 (35,6%) foi superior em mais de dez pontos percentuais à estimada para o Rio de Janeiro no mesmo ano (23%, quando interpolados os dados obtidos nos inquéritos de 1998 e 2000).

Comparando-se os valores de AME<6, disponíveis para um número menor de estudos, observou-se que, em 1999, a cidade do Rio de Janeiro apresentava índice superior aos da média de 111 municípios do estado de São Paulo (17,5 (quando interpolados os resultados de 1998 e 2000) e 13,9%, respectivamente).14 No entanto, os melhores resultados obtidos para a cidade do Rio de Janeiro (33,3% em 2006) foram inferiores aos registrados em Feira de Santana (38,5% em 2001). Já em relação ao AM<12, também disponível em um número menor de estudos, os índices variaram de 50,7% (João Pessoa, PB, em 1997)5 a 73,4% (Rio de Janeiro, RJ, em 2006).

Esses resultados mostram a grande heterogeneidade do AM e do AME em diferentes realidades brasileiras. Além de possíveis diferenças culturais, socioeconômicas e demográficas entre as localidades, outro aspecto que pode explicar essa heterogeneidade é o nível de implementação de políticas públicas que promovam amamentação em cada uma dessas realidades, omitido em quase todos os estudos.14

A associação positiva entre AME<6 e escolaridade materna observada no presente estudo corrobora os resultados obtidos no estudo de 111 cidades de São Paulo,14 enquanto a associação positiva entre AM>6 e trabalho materno reforça os achados de estudo realizado em Londrina, PR, referentes a AM entre crianças menores de um ano. 12

A dinâmica de evolução de AM e AME observada entre 1996 e 2006 pode ser dividida em dois períodos: no primeiro, de 1996 a 2000, foram registrados estabilidade de AM em todas as faixas etárias estudadas e aumento de AME<6. No segundo, de 2000 a 2006, foram registrados aumento de AM em todas as faixas etárias e aumento de AME<6 em ritmo mais intenso do que entre 1996 e 2000 tanto entre crianças com idade <4 quanto entre 4 a 5,9 meses. Esses dados indicam a complexidade da evolução dessas práticas, sugerindo a necessidade do monitoramento dessa dinâmica como instrumento para a formulação e, quando necessário, o redirecionamento de ações de promoção da amamentação. Isso porque, assim como são heterogêneas as prevalências de AME e AM em cada realidade, as dinâmicas de sua evolução também podem ser heterogêneas, uma vez que elas parecem estar influenciadas pela magnitude inicial dessas práticas e pelas diferenças nas abordagens adotadas nas ações de promoção que venham a ser desenvolvidas.14

O relevante aumento de AM e AME no Rio de Janeiro é condizente com a intensificação de ações de promoção da amamentação no País e na cidade nas últimas décadas. Em âmbito nacional, os aspectos que caracterizam esse processo são: a coordenação nacional das ações, a articulação entre poder público e sociedade civil, as ações inovadoras de mobilização social, as campanhas de mídia e a efetiva implementação de estratégias propostas internacionalmente, como a regulamentação da propaganda e venda de alimentos substitutos do leite materno, a Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC), a implementação de uma rede bancos de leite humano, a realização anual da semana de mobilização sobre amamentação e a capacitação de recursos humanos.1,9,10,14

Todas essas atividades vêm sendo desenvolvidas na cidade do Rio de Janeiro. Como resultado disso, em 2006 observou-se que, do total de nascidos vivos em maternidades municipais, 77,4% foram atendidos em unidades credenciadas na IHAC, o que corresponde a 27,4% do total de nascidos vivos residentes nesse município.

Além dessas atividades, a partir do ano 2000 foi instituída no município do Rio de Janeiro Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação (IUBAAM), que visa à promoção, proteção e apoio à amamentação na rede básica de saúde.7 Inspirada na IHAC e em consonância com a proposição de organização das ações de saúde em linhas de cuidado, a Iniciativa propõe diretrizes para ações desde o pré-natal até os primeiros anos de vida e aborda a prática da amamentação considerando aspectos da sexualidade, das transformações ocorridas durante a gravidez e lactação, dos direitos das mulheres trabalhadoras e estudantes, dentre outros. Ainda, são valorizados os princípios do aconselhamento em amamentação.7 Ao que parece, a implementação da IUBAAM influenciou a intensificação do aumento de AM e AME, conforme sugerem os achados de estudo realizado em uma unidade básica de saúde do município do Rio de Janeiro.2

Em conclusão, os resultados aqui apresentados revelaram a dinâmica de evolução do AM e do AME durante uma década em uma capital de estado, de um país em desenvolvimento. Foi mostrado o quanto essa prática pode se alterar em períodos curtos de tempo, sugerindo que o investimento em ações de promoção podem de fato repercutir positivamente para o aumento de sua prevalência.

 

REFERÊNCIAS

1. Almeida JAG, Novak FR. Amamentação: um híbrido natureza-cultura. J Pediatr (Rio J). 2004;80(5 Supl):119-25. DOI:10.1590/S0104-11691998000300009        [ Links ]

2. Cardoso LO, Vicente AST, Damião JJ, Rito RVVF. Impacto da implementação da Iniciativa Unidade Básica amiga da Amamentação nas prevalências de aleitamento materno e nos motivos de consulta em uma Unidade Básica de Saúde. J Pediatr (Rio J). 2008;84(2):147-153. DOI:10.2223/JPED.1774        [ Links ]

3. Carvalhaes MABL, Parada CMGL, Manoel CM, Venancio SI. Diagnóstico da situação do aleitamento materno em área urbana do Sudeste do Brasil: utilização de metodologia simplificada. Rev Saude Publica. 1998;32(5):430-6. DOI:10.1590/S0034-89101998000500005        [ Links ]

4. Figueiredo MG, Sartorelli DS, Zan TAB, et al. Inquérito de avaliação rápida das práticas de alimentação infantil em São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil. Cad Saude Publica. 2004;20:172-9. DOI:10.1590/S0102-311X2004000100033        [ Links ]

5. Kitoko PM, Rea MF, Venâncio SI, Vasconcelos ACCP, Santos EKA, Monteiro CA. Situação do aleitamento materno em duas capitais brasileiras: uma análise comparada. Cad Saude Publica. 2000;16(4):1111-9. DOI:10.1590/S0102-311X2000000400029        [ Links ]

6. Monteiro CA, Zuniga HPP, Benício MH, Rea MF, Tudisco ES, Sigulem DM. The Recent Revival of Breast-feeding in the City of São Paulo, Brazil. Am J Public Health. 1987;77(8):964-6. DOI:10.2105/AJPH.77.8.964        [ Links ]

7. Oliveira MIC, Camacho LAB, Souza IEO. Promoção, proteção e apoio à amamentação na atenção primária à saúde no Estado do Rio de Janeiro, Brasil: uma política de saúde pública baseada em evidência. Cad Saude Publica. 2005;21(6):1901-10. DOI:10.1590/S0102-311X2005000600040        [ Links ]

8. Parada CMGL, Carvalhaes MABL, Winckler CC, Winckler LA, Winckler VC. Situação do aleitamento materno em população assistida pelo programa de saúde da família-PSF. Rev Latinoam Enferm. 2005;13(3):407-14. DOI:10.1590/S0104-11692005000300016        [ Links ]

9. Rea MF, Toma TS. Amamentação: evidências científicas e ações para incentivar sua prática. In: Kac G, Sichieri R, Gigante DP, organizadores. Epidemiologia nutricional. Rio de Janeiro. Atheneu; 2007. p.427-44.         [ Links ]

10. Rea MF. Reflexões sobre a amamentação no Brasil: de como passamos a 10 meses de duração. Cad Saude Publica. 2003;19(Supl 1):37-45. DOI:10.1590/S0102-311X2003000700005        [ Links ]

11. Sena MCF, Silva EF, Pereira MG. Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras. Rev Assoc Med Bras. 2007;53(6):520-4. DOI:10.1590/S0104-42302007000600020        [ Links ]

12. Vannuchi MTO, Thomson Z, Escuder MML, Tacla MTGM, Vezozzo KMK, Castro LMCP, Oliveira MMB, Venâncio SI. Perfil do aleitamento materno em menores de um ano no Município de Londrina, Paraná. Rev Bras Saude Mater Infant. 2005;5(2):155-62. DOI:10.1590/S1519-38292005000200003        [ Links ]

13. Venâncio SI, Monteiro CA. A tendência da prática da amamentação no Brasil nas décadas de 70 e 80. Rev Bras Epidemiol. 1998;11(1):40-9. DOI:10.1590/S1415-790X1998000100005        [ Links ]

14. Venâncio SI, Monteiro CA. Individual and contextual determinants of exclusive breast-feeding in São Paulo, Brazil: a multilevel analysis. Public Health Nutr. 2006; 9(1):40-6.         [ Links ]

15. Vieira GO, Guerra de Almeida JA, Silva LR, Cabral VA, Netto PVS. Fatores associados ao aleitamento materno e desmame em Feira de Santana, Bahia. Rev Bras Saude Matern Infant. 2004;4(2):143-50. DOI:10.1590/S1519-38292004000200004        [ Links ]

16. World Health Organization / Fundo das Nações Unidas para a Infância. Innocenti Declaration on the protection, promotion and support of breastfeeding. Florence; 1990.         [ Links ]

17. World Health Organization. Breast-feeding - the technical basis and recommendations for action. Geneva; 1993.         [ Links ]

18. World Health Organization. Global data bank on breastfeeding. Geneva; 1996.         [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
Inês Rugani Ribeiro de Castro
Instituto de Nutrição Annes Dias
Av. Pasteur, 44 - Botafogo
22290-240 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: inesrrc@uol.com.br

Recebido: 13/6/2008
Revisado: 18/4/2009
Aprovado: 11/5/2009

 

 

Trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Pediatria, Rio de Janeiro, RJ, em 2008.
a World Health Organization. The optimal duration of exclusive breastfeeding. Results of a WHO systematic review. Geneva; 2001. (Note for the Press, 7).
b Leão MM, Coitinho DC, Recine E, Costa LAL, Lacerda AJ. O perfil do aleitamento materno no Brasil. In: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística / Fundo das Nações Unidas para a Infância. Perfil estatístico de crianças e mães no Brasil. Rio de Janeiro, 1989. p.97-110.
c Bem-Estar Familiar no Brasil. Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde [Relatório de Pesquisa]. Rio de Janeiro; 1997
d Ministério da Saúde. PNDS 2006. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher. Brasília; 2008.
e Monteiro CA. O panorama da nutrição infantil nos anos 90. São Paulo: UNICEF; 1997. (Série Cadernos de Políticas Sociais. Documentos para Discussão, 1).
f Ministério da Saúde. PNDS 2006. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher. Brasília; 2008.
g Castro IRR, Damião JJ, Montenegro CA, Gomes MASM, Azevedo AMF, Brasil CLP, et al. Breast-feeding Surveillance System (BSS) nested in national days of vaccination: design and findings in the city of Rio de Janeiro (Rio)-Brazil. In: Abstracts of International Congress of Nutrition. Vienna: Austrian Nutrition Society; 2001. p.437.
h World Health Organization. Indicators for assessing breastfeeding practices. Report of an informal meeting. Geneva; 1991.
i World Health Organization. The optimal duration of exclusive breastfeeding. Results of a WHO systematic review. Geneva; 2001.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License