SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.44 issue1Causes of the accelerated decline in child undernutrition in Northeastern Brazil (1986-1996-2006)Locus of control and contraceptive knowledge, attitude and practice among university students author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.1 São Paulo Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000100003 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Experiências de discriminação entre universitários do Rio de Janeiro

 

Experiencias de discriminación entre universitarios de Rio de Janeiro

 

 

João Luiz BastosI; Helen GonçalvesI; Eduardo FaersteinII; Aluísio JD BarrosI

IPrograma de Pós-graduação em Epidemiologia. Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pelotas, RS, Brasil
IIInstituto de Medicina Social. Departamento de Epidemiologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Compreender experiências de discriminação vividas por jovens universitários e analisar sua aplicação à construção de escala brasileira de discriminação.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: Estudo qualitativo realizado com cinco grupos focais com 43 universitários do Rio de Janeiro, RJ, em 2008. Foram selecionados estudantes de cursos com distintas relações candidato/vaga, de ambos os sexos e autoclassificados nas categorias de cor/raça branca, parda e preta de duas instituições de ensino público superior. Foi utilizado o roteiro que abrangia os termos preconceito e discriminação e questionava os participantes acerca de suas experiências discriminatórias. Adotou-se o método de interpretação de sentidos, buscando-se apreender o contexto, as razões e as lógicas das falas dos sujeitos.
ANÁLISE DOS RESULTADOS: O preconceito foi interpretado como algo pertencente ao campo das idéias e possivelmente equivocado, podendo ser tanto positivo quanto negativo. A discriminação foi atribuída ao plano dos comportamentos observáveis e com conotação invariavelmente negativa. A interpretação de um evento como discriminatório foi influenciada por fatores subjetivos, tais como os interesses particulares e o grau de afetividade estabelecido entre os indivíduos. Porém, os limites entre o que foi interpretado como discriminatório ou não dependeu fortemente do contexto específico em que ocorreu a interação entre os sujeitos. Diferentes cenários e, eventualmente, mais do que uma motivação foram simultaneamente apontados nas experiências discriminatórias. Os participantes se reconheceram tanto como vítimas quanto perpetradores de discriminação.
CONCLUSÕES: A interpretação de um evento como discriminatório é complexa e as experiências de discriminação são dificilmente generalizáveis. Quando evidentes, os motivos pelos quais os sujeitos supõem que foram discriminados podem ser múltiplos e estar associados. Tais aspectos devem ser considerados na construção de escalas de discriminação.

Descritores: Adulto Jovem. Estudantes. Preconceito. Relações Interpessoais. Pesquisa Qualitativa.


RESUMEN

OBJETIVO: Comprender las experiencias de discriminación vividas por jóvenes estudiantes y analizar su aplicación para construcción de una escala brasilera de discriminación.
PROCEDIMIENTOS METODOLÓGICOS: Estudio cualitativo realizado con cinco grupos focales con 43 universitarios de Rio de Janeiro, Sureste de Brasil, en 2008. Fueron seleccionados estudiantes de cursos con distintas relaciones candidato/cupo, de ambos sexos y autoclasificados en las categorías de color/raza blanca, parda y negra de dos instituciones de enseñanza pública superior. Fue utilizado la guía que abarcaba los términos preconcepto y discriminación y cuestionaba los participantes acerca de sus experiencias discriminatorias. Se adoptó el método de interpretación de sentidos, buscándose aprender el contexto, las razones y las lógicas de las conversas de los sujetos.
ANÁLISIS DE LOS RESULTADOS: El preconcepto fue interpretado como algo perteneciente al campo de las ideas y posiblemente equivocado, pudiendo ser tanto positivo como negativo. La discriminación fue atribuida al plano de los comportamientos observables y con connotación invariablemente negativa. La interpretación de un evento como discriminatorio fue influenciada por factores subjetivos, tales como los intereses particulares y el grado de afectividad establecido entre los individuos. Sin embargo, los limites entre lo que fue interpretado como discriminatorio o no dependió fuertemente del contexto específico en que ocurrió la interacción entre los sujetos. Diferentes escenarios y, eventualmente, más que una motivación fueron simultáneamente apuntadas para las experiencias discriminatorias. Los participantes se reconocieron tanto como víctimas como perpetradores de discriminación.
CONCLUSIONES: La interpretación de un evento como discriminatorio posee gran complejidad y las experiencias de discriminación son difícilmente generalizables. Al ser evidentes, los motivos por los cuales los sujetos suponen que fueron discriminados pueden ser múltiples y estar asociados. Tales aspectos deben ser considerados en la construcción de escalas de discriminación.


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar de as causas das desigualdades sociais em saúde constituírem objeto de investigação acadêmica e de debates políticos há mais de 150 anos, somente no final do século XX a discriminação passou a ser compreendida como um fator importante na produção de doenças e no acirramento das iniqüidades em saúde.10 Em parte, o estudo das relações entre discriminação e saúde tem sido orientado pela teoria ecossocial,8 a qual postula que padrões populacionais de saúde, doença e bem-estar têm suas origens na incorporação de condições materiais e sociais da existência humana, incluindo as variadas formas de discriminação e opressão. Por outro lado, a abordagem biopsicossocial, com maior ênfase sobre o estresse e suas estratégias de enfrentamento, também tem sido utilizada na compreensão dos efeitos patológicos que a discriminação pode acarretar.4

Em saúde coletiva, os primeiros trabalhos sobre as experiências de discriminação abordaram em larga medida os comportamentos racistas,11 em detrimento de outras formas de tratamento injusto baseadas, por exemplo, em idéias com conteúdo sexista ou classista, bem como suas possíveis inter-relações.8 Particularmente, o racismo e a situação da população negra nos Estados Unidos da América (EUA) foram objeto de várias investigações. Nos EUA, esforços têm sido dirigidos ao desenvolvimento de escalas para medir experiências de discriminação racial,ª com a publicação destes instrumentos em periódicos dedicados à resolução de problemas sociais e ao aconselhamento de minorias populacionais. Mais recentemente, o estudo dos efeitos da discriminação sobre as condições e os comportamentos em saúde internacionalizou-se,13 bem como se ampliou a diversidade de formas de discriminação abordadas. Em particular, além dos comportamentos discriminatórios motivados por concepções racistas, o tratamento injusto atribuído a estados de saúde mental, como a esquizofrenia, e à orientação sexual, especialmente a homossexualidade, figuram como formas de discriminação com crescente interesse acadêmico. Contudo, a despeito de haver maior diversidade nos tipos de discriminação abordados, a idéia de que múltiplas formas podem se combinar e ser experimentadas a uma só vez8 permanece sendo pouco investigada.

No Brasil, ainda não há registros do desenvolvimento de escalas de discriminação para uso em estudos sobre os determinantes sociais de condições e comportamentos em saúde. Características das relações sociais brasileiras, com suas marcadas diferenças regionais, poderiam sugerir que uma escala com esta finalidade deveria ser desenvolvida para uso exclusivo no País e/ou em alguma de suas regiões e domínios populacionais. No caso da discriminação racial, vários autores, como Telles12 e Fry5 enfatizam importantes diferenças entre o racismo e as dinâmicas sociais do Brasil e dos EUA, apesar de divergirem em suas interpretações acerca do fenômeno no País. Considera-se, por exemplo, que a segregação espacial constitui o principal mecanismo de discriminação racial nos EUA.12 Este aspecto pode não se aplicar a outros contextos socioculturais e justifica, de acordo com uma abordagem relativista,1 a construção de um instrumento específico para as condições brasileiras. Por outro lado, caso a iniciativa de construir uma escala de discriminação revele que esta é interpretada no Brasil de maneira semelhante a outros contextos socioculturais, reforçar-se-á a importância de que esforços direcionados à adaptação transcultural de um instrumento sejam empregados futuramente.1,7

O objetivo do presente estudo foi compreender experiências de discriminação vividas por jovens universitários e analisar sua aplicação à construção de escala brasileira de discriminação.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Estudo com abordagem qualitativa, cuja população de referência foi constituída por estudantes de duas universidades de ensino público, uma estadual e outra federal, localizadas na cidade do Rio de Janeiro, RJ, no segundo semestre letivo de 2008. Tais instituições foram selecionadas por atenderem populações socioeconomicamente distintas e por apresentarem sistemas de ingresso diferenciados. A estadual reserva parte de suas vagas para estudantes de baixa renda e autoclassificados como pardos ou pretos.

Foram constituídos cinco grupos focais, formados por estudantes selecionados de cursos com distintas relações candidato/vaga, tendo em vista que esta variável poderia afetar a percepção e o relato de diferentes experiências de discriminação. Os sujeitos que participaram da pesquisa foram abordados em sala de aula, nos centros acadêmicos e nas cantinas ou lanchonetes dos campi universitários visitados.

Outro critério para composição dos grupos focais foi a autoclassificação de cor/raça, de acordo com as categorias branca, parda, preta, amarela e indígena, definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Previamente à realização de cada grupo, entre 20 e 25 estudantes potencialmente interessados em participar da pesquisa eram solicitados a preencher um formulário com informações de identificação e contato telefônico, além de dados demográficos, como idade, sexo e autoclassificação de cor/raça. De posse destas informações, o pesquisador responsável compôs os grupos com distribuição equilibrada em relação ao sexo e, aproximadamente, 1/3 de autoclassificados brancos, 1/3 de pardos e 1/3 de pretos. Este procedimento foi realizado para que o ambiente de grupo refletisse as características de convívio social desses estudantes e, assim, que manifestações ligadas às experiências discriminatórias fossem necessariamente compartilhadas em meio a indivíduos de ambos os sexos e em diferentes categorias de cor/raça.

Na universidade estadual, foram conduzidos três grupos, cada um deles formados por estudantes de medicina, educação física e ciências sociais. Na universidade federal foram realizados encontros somente com estudantes de medicina e de educação física devido às dificuldades em reunir estudantes de ciências sociais dessa instituição. A transcrição dos registros foi auxiliada pelas anotações de comportamento não-verbal dos participantes, as dinâmicas estabelecidas, entre outras. Foi elaborado um roteiro contendo uma pergunta inicial, que estimulava os participantes a definir o que entendiam por preconceito, discriminação e se identificavam diferenças entre estes dois termos. Esta pergunta era enunciada logo após a apresentação do título e dos propósitos do projeto de pesquisa ao qual o estudo estava vinculado.b Em seguida, os jovens eram questionados acerca de eventuais experiências discriminatórias pelas quais já haviam passado.

Evitou-se dar ênfase a algum tipo particular de discriminação. Isto foi realizado para que as discussões não se polarizassem em torno de um tipo específico de discriminação, permitindo: (a) que indivíduos que desconhecessem os motivos pelos quais foram discriminados pudessem expressar-se livremente, não sendo sugestionados pela freqüência ou ênfase com que determinada forma de discriminação fosse referida; e, conseqüentemente, (b) que as diferentes experiências de discriminação fossem acessadas da maneira mais nuançada possível naqueles contextos, possibilitando aos participantes apontar nenhuma, uma ou mais motivações para as ocasiões em que se perceberam discriminados.

Foi utilizado o método de interpretação de sentidos, buscando interpretar o contexto, as razões e as lógicas individuais e sociais dos relatos obtidos.6 Foram estabelecidas categorias analíticas no roteiro e também a partir dos depoimentos dos sujeitos. Na trajetória interpretativa, percorreram-se as seguintes etapas: (a) leitura compreensiva das transcrições, visando impregnação, visão de conjunto e apreensão das particularidades do material; (b) identificação e recorte temático dos elementos que emergiram dos depoimentos; (c) identificação e problematização das idéias explícitas e implícitas nos depoimentos; (d) busca de significados mais amplos (socioculturais), subjacentes aos relatos dos sujeitos da pesquisa; (e) elaboração de síntese interpretativa, procurando articular objetivo do estudo e dados empíricos; e (f) diálogo entre as idéias problematizadas e informações provenientes de outros estudos acerca do assunto.

No total, os cinco grupos focais contaram com a participação de 43 universitários, 23 do sexo masculino e 20 do feminino. Dezessete se classificaram brancos, dez como pretos, 12 como pardos, um se autoclassificou amarelo e três não informaram sua cor/raça. A idade dos participantes variou entre 19 e 33 anos e os encontros tiveram duração mínima e máxima de 1h05min e 2h10min, respectivamente. O número de integrantes em cada grupo focal variou entre cinco e 14.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pelotas e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A participação foi voluntária e mediante assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. O anonimato dos sujeitos foi preservado, sendo identificados pelas iniciais GF, seguidas de suas posições numéricas no grupo e da identificação dos cursos e universidades (UE e UF identificam estudantes de universidade estadual e federal, respectivamente).

 

ANÁLISE DOS RESULTADOS

As principais categorias analisadas foram: preconceito e discriminação, fatores que afetam a percepção de discriminação, e cenários e motivos das experiências de discriminação.

Preconceito e discriminação

O preconceito foi concebido como uma idéia geral ou pensamento superficial, previamente estabelecido em relação a algo ou alguém e passível de estar equivocado. Nos grupos, o preconceito esteve pautado por noções de normas, atuações e regras sociais, que abarcariam avaliações e conclusões inevitáveis ("naturais") frente à aparência ou comportamento de alguém, num primeiro momento. Os diferentes tipos de preconceito mencionados foram colocados como idéias compartilhadas socialmente ou em seus grupos específicos. Por exemplo, indivíduos de classe social menos abastada poderiam compartilhar preconceitos específicos contra sujeitos de classes sociais mais altas e vice-versa. Também, as idéias consideradas preconceituosas foram naturalizadas, interpretadas como inerentes a todo e qualquer indivíduo. Ao passarem por este processo de naturalização, tais idéias adquiriram um status de humanidade, tornando-se algo do qual os sujeitos não deveriam necessariamente envergonhar-se de ter como, por exemplo:

"Então, eu não tenho problema nenhum em dizer que sou preconceituoso em diversas questões. (...) Mas, assim, sou preconceituoso e acho que, de fato, todo mundo é... Quando pensa em uma parada que não conhece, que você tá pensando no que é, no que não é... É natural que se crie um pré-julgamento, um preconceito... Agora, a questão é como você dialoga depois." (GF2CSUE)

Em algumas circunstâncias, no entanto, o preconceito foi entendido como sócio-historicamente construído como, por exemplo, no caso do preconceito racial. Um dos participantes do grupo focal com estudantes de ciências sociais da universidade estadual relatou que, após um longo processo de reflexão, estimulado no ambiente universitário, passou a entender o preconceito racial como uma construção social:

"Mas, é lógico que, com o tempo, você vai refletindo sobre isso, até mesmo na universidade, e isso vai passando e você vai vendo que isso é uma construção social. É lógico que é uma questão histórica do negro na escravidão e que, com o passar do tempo, a questão da melanina foi uma questão que fez um recorte social e, automaticamente, os negros são os mais excluídos e, por serem os mais excluídos, são os que têm menor acesso à educação e, automaticamente, uma coisa vai levando à outra e isso acaba levando à margem de pobreza e que a maioria seja negra que vai assaltar... Não é uma questão de melanina e sim uma questão social..." (GF2CSUE)

Por sua vez, a discriminação foi entendida como algo que estaria no plano das ações, dos comportamentos. Os sujeitos compreenderam a discriminação como sendo o resultado, a manifestação concreta de um preconceito - a discriminação seria a ação, enquanto o preconceito seria o pensamento, a idéia. Por ser naturalizado, o preconceito se tornaria de difícil controle, o que poderia não ocorrer com a discriminação. Ao indicarem esta possível relação de progressão e de causa e efeito do preconceito para a discriminação, os sujeitos dos grupos focais também expressaram preocupação para que este "elo causal" não fosse acionado ou demonstrado perante outros, conforme ilustrado nos seguintes relatos:

"O preconceito é algo de que a gente está sendo impregnado a todo o momento e que exige que a gente esteja sempre se avaliando e reavaliando para poder lidar com ele... A questão é o que vem depois... E, aí, sim que é a problemática, que é a discriminação. Que é você ter uma pré-concepção, não lutar contra ela, não tentar reavaliar o seu conceito e, aí, você cair ou incorrer no erro de discriminar sem tentar dialogar com aquela figura da qual você teve uma pré-concepção, sem antes conhecer." (GF1CSUE)

"Não interessa se eu gosto ou se eu não gosto, o que eu não posso é demonstrar. (...) Eu tenho preconceito, eu vou falar... Eu tô mentindo se eu falar que não tenho preconceito de um montão de coisas, mas o que eu não posso deixar é aparecer, né?" (GF6MEDUE)

"Eu acho que... Preconceito é a discriminação interna. É a idéia que está em você, por exemplo, enfim... A discriminação é resultado disso, é a ação. Então, a idéia é o preconceito. (...) Eu tenho um conceito de sexualidade e como lidar com a sexualidade e eu não concordo com o homossexualismo. Mas, isso não me dá direito de discriminar um homossexual." (GF1EFUE)

Os relatos sugerem que a anuência aos preconceitos circulantes na sociedade ocorre de maneira relativamente passiva e inevitável, a exemplo da utilização da palavra "impregnar" em vez de, por exemplo, "aderir". "Impregnar" tem como sinônimo "absorver", ao passo que aderir corresponde a "consentir por convicção ou interesse". Ainda, apesar de os sujeitos reconhecerem a importância social de não discriminar o outro, observou-se que a interação entre eles nos grupos focais ocorreu mediante a manifestação explícita de preconceitos, freqüentemente sob a forma de piadas ou brincadeiras.

Nos grupos focais, a discriminação apresentou uma conotação invariavelmente negativa e, dessa forma, decorrente de preconceitos com significados pejorativos. Por outro lado, o preconceito não foi colocado como algo estritamente depreciativo. Em algumas circunstâncias, este poderia ser positivado e transformado em uma espécie de enaltecimento ao sujeito alvo do preconceito. Por exemplo, um estudante relatou sentir-se discriminado ao ser considerado e chamado de playboy em algumas circunstâncias. No entanto, este sujeito também reconheceu que algo de positivo poderia ser associado ao fato de morar em uma região socialmente valorizada da cidade, a Barra da Tijuca, e apresentar características fenotípicas (cor branca, olhos claros e cabelo louro, conforme sua própria descrição), que tenderiam a lhe conferir maior status. O caráter eventualmente positivo do preconceito foi corroborado por outro participante do mesmo grupo focal:

"Para mim, a diferença entre preconceito e discriminação é que o preconceito, ele pode ser uma coisa tanto positiva quanto negativa. Discriminação, não. É sempre negativa. Você pode olhar uma pessoa bem vestida na rua e, sei lá, achar aquela pessoa demais, sensacional... Mas, na verdade, não é aquilo. É uma forma de preconceito. Tem um conceito antes de conhecer aquela pessoa." (GF4EFUE)

Embora os sujeitos tenham apontado diferenças conceituais importantes entre preconceito e discriminação, os dois termos foram freqüentemente utilizados de forma intercambiável nas discussões.

Fatores que afetam a percepção de discriminação

Segundo os sujeitos dos grupos focais, a discriminação pode ter seu caráter negativo amenizado, quando no contexto de uma relação de maior intimidade e afeto entre as pessoas. Nas situações de maior afeto, a manifestação de determinados preconceitos tenderia a ser tolerada, apesar de continuar sendo entendida como discriminatória. Os termos mantêm o sentido de localizar as pessoas em um espectro de tipos de relações e graus de afeto, podendo, portanto, ser reinterpretados ao assumirem formas mais toleráveis em dadas circunstâncias. Ser chamado com um termo bastante pejorativo em "tom de brincadeira", por exemplo, é algo que pode ser aceito por todos, inclusive por aquele que é alvo do rótulo em questão e que repudia ações discriminatórias. As relações entre os sujeitos dos grupos focais foram, inclusive, mediadas por piadas e brincadeiras com conteúdo preconceituoso, conforme observado nos exemplos a seguir.

"Eu não me preocupo nem um pouco em ser chamado de negão... De repente, nem é a palavra em si... É a forma... É a entonação... Você nota quando o 'negão' é dito de forma amigável, de parceria, de amigo, de até intimidade com a pessoa... Que você dá abertura pra pessoa te tratar dessa maneira... E, outra coisa é quando o 'negão' é usado para discriminar, descrever você, localizar você..." (GF7CSUE)

"Eu acho que, na amizade, se releva... Mas releva-se e, mesmo assim... Por exemplo, eu tenho um amigo que é judeu e eu tenho raiz árabe... Aí, toda hora no telefone: 'Ah! Fala aí, judeu... Vou te mandar pro campo [de concentração].' (...) Da mesma forma que meu amigo diz: 'E, aí, Laden, vou jogar uma bomba em você...' Brincando..." (GF3CSUE)

"Se você falar brincando uma coisa, é assim... É a maneira mais sutil de você falar a verdade pra uma pessoa sem magoar ela..." (GF9EFUF)

Entretanto, quando a dinâmica destas relações se modifica, isto é, quebra-se alguma conduta diária, pré-estabelecida entre pessoas assumidamente diferentes, isso pode ser sinal de que o grau de afetividade entre elas também se modificou. Nestes casos, a percepção dos sujeitos se modifica e os mesmos comportamentos podem ser vistos, a partir de então, como discriminatórios ao ponto de serem rechaçados e inviabilizarem a própria relação. Nos dois casos ilustrados a seguir, a quebra de uma conduta pré-estabelecida entre os sujeitos se daria pela pronúncia de determinados termos de "forma mais rude" do que o usual ou pela manifestação de uma brincadeira em "tom diferente" do esperado. Isto acionaria uma mudança, mesmo que momentânea, no afeto entre os indivíduos e poderia revestir de caráter discriminatório o mesmo comportamento que teria sido aceitável em outras situações.

"Eu sou narigudo. Às vezes eu brinco com isso, a gente brinca com nossos defeitos. Existe de forma saudável isso, a gente leva na boa. (...) E acho que a forma que se coloca. Da mesma forma que, se um amigo meu falar de uma forma mais rude, eu não vou gostar. Mas, é um amigo meu. Depende da forma que se diz." (GF2EFUE)

"Acho que, quando você é amiga da pessoa, você sabe quando é brincadeira. Você vê que é uma brincadeira. Mas, se você passa a ver, se você descobre, sei lá, que aquele seu amigo realmente tem um preconceito com você, ou seja, se realmente a pessoa acha que as louras são burras, aí, eu... Não consigo entender... (...) Ah! O tom da brincadeira. Mas, aí, você tem um limite. Mas, aí, então, você realmente descobre que aquela pessoa tem aquele preconceito. Aí, magoa muito mais do que um preconceito social, porque aquela pessoa é sua amiga, que você confiava nela... Aí, fica mal." (GF5MEDUE)

A riqueza destes depoimentos indica que são claros os limites entre o que será ou não interpretado como discriminatório. Porém, tais limites serão dados pelo contexto específico da relação, no exato momento em que os indivíduos estão interagindo e sob a influência das reminiscências das emoções das experiências/interações anteriores. Em outras palavras, os limites existem, são flutuantes e contingentes. Além disso, no contexto efêmero destas relações interpessoais, os comportamentos podem ter uma conotação discriminatória segundo os interesses particulares daqueles que estão interagindo, a forma como termos são emitidos e ações são manifestadas, incluindo a pronúncia de determinados termos como, por exemplo, aqueles considerados politicamente corretos (e.g. "moreno" no lugar de "negro").

Os universitários, de um modo geral, concordaram que a condição social de pobreza amplia as questões de preconceito e de discriminação. Na maioria dos casos relatados, as relações de poder foram colocadas como mediadoras na transição do preconceito à ação discriminatória, implicando situações de violência, seja física ou simbólica, contra a dignidade e a cidadania dos indivíduos. Neste sentido, foram relatadas, por exemplo, situações em que a relação de poder estabelecida entre professor e aluno, policial e cidadão comum teria facilitado a manifestação de comportamentos discriminatórios. Dessa forma, a percepção da discriminação foi colocada como um processo especialmente subjetivo e afetivo, além de contextual e inerente à sociedade.

Cenários e motivos das experiências de discriminação

Identificaram-se diversas circunstâncias nas quais os participantes dos grupos focais perceberam-se ou perceberam alguém próximo como alvo de discriminação (Tabela). Houve também situações específicas em que o próprio interlocutor não se reconheceu como discriminado, mas alguém que testemunhou o evento o identificou como tal. As situações relatadas foram freqüentemente do tipo "discriminação explícita", tal como sugerido por Blank et al2 (2004) e ocorreram em diferentes cenários; desde escolas, universidades, lojas comerciais, bairros da Zona Norte/Oeste/Sul e subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, até quartéis e outras instituições públicas. Quando houve referência aos perpetradores de discriminação, mencionaram-se indivíduos de diferentes classes sociais, professores, médicos, policiais, instituições militares e instituições de ensino e educação. Os motivos pelos quais os sujeitos supõem que foram discriminados nem sempre foram apontados e, quando o foram, diversas razões emergiram, entre elas: capacidade intelectual, curso de graduação escolhido, ser cotista, não ser elegível para o sistema de cotas, aparência física, local de moradia, vestuário, local de origem, ser inexperiente do ponto de vista profissional, cor/raça (especialmente em relação a brancos e negros), comportar-se de forma a mostrar orientação homossexual.

De modo análogo, alguns termos ou idéias com conteúdo preconceituoso freqüentemente acionaram outro conjunto de preconceitos associados à percepção de discriminação. Por exemplo, o termo negro esteve fortemente associado com outras expressões, tais como pobre, mal-vestido, ônibus, ladrão, assalto e medo. O mesmo ocorreu com outras palavras, como segue:

- Professor universitário velho careca impotente maluco;

- Judeu avareza riqueza esperteza para os negócios;

- Árabe crime terrorismo;

- Estudantes do curso de direito classe social alta terno e gravata, engravatado;

- Estudantes do curso de engenharia espinhas no rosto computador; e

- Estudantes do curso de ciências sociais cabelos compridos barba indivíduos intelectualizados.

Apesar de ter havido consenso entre os sujeitos com relação à idéia de que o preconceito não é algo mensurável e que a discriminação poderia sê-lo enquanto comportamento observável, os sujeitos dos grupos focais mostraram dificuldade em organizar as experiências de discriminação relatadas em uma escala de intensidade. De modo geral, afirmou-se que esta dificuldade decorria das inúmeras questões subjetivas relacionadas às experiências de discriminação. Por fim, os participantes dos grupos focais não se reconheceram apenas como vítimas de discriminação, mas também como eventuais perpetradores de tratamentos discriminatórios, conforme relato a seguir:

"Eu tava indo de ônibus [para a escola] e minha mãe passou a me levar de fusquinha. (...) Eu saí do carro e a galera me olhando sair do carro... (...) Então, automaticamente, eu sofri um preconceito e criei outros preconceitos. (...) Comecei a participar do grêmio, aquela coisa toda e, aí, tinha os moleques que a mãe vinha pegar de carro na porta da escola. Carro novo e tal... E eu ficava zoando: 'Fala playboy!'. E tal... Rotulando pejorativamente. Jogava bolinha de papel, enfim. Criava preconceito e discriminava na via inversa." (GF2CSUE)

De certa forma, isso revela dificuldade de os sujeitos assumirem somente uma posição: ou a de vítima ou a de perpetrador de discriminação. Neste sentido, é possível que experimentar determinados preconceitos e discriminações envolva situações de considerável complexidade, nas quais ser preconceituoso ou discriminador em algum momento (e não somente vítima) faça parte deste processo.

 

DISCUSSÃO

Conhecer como membros da população-alvo compreendem alguns termos como preconceito e discriminação pode iluminar a possibilidade futura de adaptação trans-cultural de qualquer instrumento de discriminação, além de auxiliar na confecção de itens de uma nova escala, pois o uso destas palavras se dará mediante um conhecimento mais preciso de como poderão ser interpretadas. Além disso, abordar a complexidade das experiências discriminatórias permite situar criticamente a escala em relação à complexidade do construto que se pretende medir. Em particular, salienta-se que a maior parte das escalas já publicadas não tem enfatizado o caráter contextual, subjetivo, complexo das experiências de discriminação. De fato, além da discriminação, as escalas têm se proposto a mensurar outros construtos simultaneamente, tais como as estratégias de enfrentamento adotadas frente aos eventos discriminatórios.b Isso impõe desafios ainda maiores às escalas já existentes, na medida em que a quantificação simultânea de construtos é reconhecidamente mais complexa.14

Outro aspecto relevante é que os itens que poderão ser derivados do presente estudo serão marcadamente distintos daqueles formulados para outras escalas. Enquanto o presente trabalho enfocou uma população bastante específica, estudos semelhantes9,c,d procuraram diversificar ao máximo o perfil de seus participantes, tanto do ponto de vista socioeconômico, quanto de local de moradia, país de origem, idade, entre outras características. No trabalho de Collado-Proctorc (1999), por exemplo, tendo em vista que foram incluídos participantes entre 18 e 61 anos, as experiências de discriminação ocorreram consideravelmente mais no ambiente de trabalho. Ainda, grande parte dos eventos discriminatórios foi motivada pelo status de imigrante ilegal das vítimas,c especificamente imigrantes nos EUA, cuja língua materna é o espanhol. A menção às diferenças culturais entre as vítimas e os perpetradores de discriminação também foi notável nestes depoimentos e, em algumas situações, apontadas como motivadoras dos eventos discriminatórios.c Por sua vez, o estudo de Nuru-Jeter et al9 (2009) abordou mães negras norte-americanas e suas experiências de discriminação racial. Os eventos discriminatórios também ocorreram freqüentemente no ambiente de trabalho.9 Além disso, relatou-se que a discriminação racial foi experimentada em meio a um estado de hiper-vigilância das participantes em relação a elas mesmas e aos seus filhos.9 Nenhum destes aspectos encontra paralelo com os resultados da presente investigação.

Por outro lado, ainda que enfocando sujeitos do Rio de Janeiro de baixa renda e faixa etária relativamente mais jovem (18-24 anos), o estudo de Cecchetto & Monteiro3 (2006) revelou aspectos semelhantes das experiências de discriminação em comparação com o que foi encontrado no presente trabalho. Os cenários e as motivações para tais experiências foram similares: em se tratando dos cenários, identificaram-se shopping centers, ruas e outros espaços públicos; já em relação aos motivos, relataram-se local de residência, modo de vestir, cor/raça e classe social, entre outros. Ademais, o sentimento de discriminação ao receber um "olhar diferente", bem como a idéia de que os contatos com a polícia são situações em que a discriminação tende a se manifestar também foram mencionados. Isso indica algo em comum nas experiências de discriminação de jovens de estratos sociais distintos de uma mesma cidade. Porém, um aspecto que distingue os resultados de ambas as pesquisas foi o fato de o mercado de trabalho ter sido mencionado por Cecchetto & Monteiro3 (2006) como uma área onde a discriminação, especialmente a racial, tende a se manifestar com maior freqüência. Por estarem matriculados em universidades públicas e pertencerem a um estrato social mais elevado, é possível que os sujeitos do presente estudo tenham tido um contato ainda restrito com o mercado de trabalho, de forma a não relatarem experiências de discriminação nesta área com ênfase e freqüência semelhantes.

Observa-se que nenhuma das escalas de discriminação racial revisadasb procurou identificar o respondente como potencial perpetrador de atos discriminatórios. Isto contrasta com o que foi verificado no presente estudo, uma vez que os sujeitos também se reconheceram como agentes discriminadores em algumas ocasiões. A idéia de identificar os sujeitos não só como vítimas, mas também como potenciais perpetradores de discriminação já havia sido antecipada por Smithe (2002) e deveria ser considerada dentro de uma perspectiva mais abrangente sobre as experiências de discriminação. É possível que o ato de discriminar o outro também apresente repercussões para o estado de saúde dos indivíduos e, assim, abre-se a possibilidade para que as escalas abordem ambos os aspectos das experiências discriminatórias.

Ainda, as escalas já publicadasb freqüentemente assumiram que os respondentes seriam capazes de distinguir e apontar o (único) motivo pelo qual supõem que foram discriminados. Os resultados da presente pesquisa sugerem que, quando evidentes, os motivos pelos quais os sujeitos supõem que foram discriminados podem ser múltiplos e estar associados. Resultado semelhante foi observado na pesquisa de Cecchetto & Monteiro3 (2006), em que os jovens também relataram a experiência de múltiplas discriminações. Cabe, portanto, debater as vantagens e desvantagens de se procurar medir apenas um tipo particular de discriminação, como algumas escalas têm se proposto. Possivelmente, medir apenas a discriminação racial, por exemplo, implica uma redução metodológica de considerável monta no que se refere à riqueza das experiências discriminatórias e isto tem, potencialmente, impacto direto sobre os resultados observados. Finalmente, há evidências de que os efeitos das experiências de discriminação sobre as condições de saúde estão mais ligados à percepção genérica de tratamento discriminatório do que à suposta motivação para tal evento.13 Recentemente, foi sugerido que as diferentes formas de discriminação tendem a ser igualmente patogênicas, independentemente se do tipo racial, de gênero ou de classe,11 mas com potencial de serem ainda mais danosas à saúde quando experimentadas simultaneamente.f

 

CONCLUSÕES

Tendo em vista o objetivo de subsidiar o desenvolvimento de itens para uma escala brasileira de aferição das experiências de discriminação, uma análise destes resultados aponta nas seguintes direções:

  • caso os itens da escala incluam o termo discriminação em suas formulações, esperar-se-á que os membros desta população específica tendam a associá-lo à idéia de um comportamento observável, com caráter negativo;
  • fatores complexos afetam a percepção de discriminação. Portanto, a riqueza das experiências de discriminação dificilmente será captada em sua totalidade por uma escala, independentemente da forma e do número de itens que este instrumento apresentar. Isto ocorrerá especialmente porque as experiências de discriminação são marcadas por um contexto particular e tomadas por subjetividade;
  • os itens para uma escala de experiências de discriminação poderão ser derivados dos depoimentos organizados na Tabela, tendo em vista sua recorrência nos grupos;
  • os motivos pelos quais os participantes supõem que foram discriminados podem ser múltiplos e estar associados.3 Dessa forma, a futura escala deverá permitir que mais de uma motivação seja apontada para determinada experiência discriminatória;
  • no contato com os participantes dos grupos focais, não foi possível chegar a um consenso quanto à possibilidade de organizar as diferentes experiências de discriminação em um gradiente de intensidade. Este aspecto dificulta a construção imediata de um mapa do construto, tal como está recomendado na literatura14 e teorizado no caso da discriminação racial;2 e
  • os participantes também se reconheceram como perpetradores de discriminação. Dado que este tipo de comportamento pode ser igualmente danoso à saúde, futuras escalas e suas adaptações poderão questionar seus respondentes acerca de situações nas quais estes produziram discriminação.

 

AGRADECIMENTOS

Aos pesquisadores Romeu Gomes, Elaine Ferreira do Nascimento e Lúcia Emília Figueiredo de Sousa Rebello, do Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz, pela contribuição no planejamento dos grupos focais e na condução do trabalho de campo. Aos pesquisadores Ricardo Ventura Santos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, Simone Souza Monteiro do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz e Alba Maria Zaluar do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro pelas sugestões ao projeto que originou este trabalho. Ao pesquisador Fernando Ferreira Pinto de Freitas (Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e sua equipe pelo apoio intelectual e logístico na realização dos grupos focais.

 

REFERÊNCIAS

1. Berry JW, Poortinga YH, Segall MH, Dasen PR. Cross-cultural psychology: research and applications. New York: Cambridge University Press; 2007.         [ Links ]

2. Blank RM, Dabady M, Citro CF. Measuring racial discrimination: panel on methods for assessing discrimination. Washington: The National Academies Press; 2004.         [ Links ]

3. Cecchetto F, Monteiro S. Discriminação, cor e intervenção social entre jovens na cidade do Rio de Janeiro (RJ, Brasil): a perspectiva masculina. Rev Estud Fem. 2006;14(1):199-218. DOI:10.1590/S0104-026X2006000100011        [ Links ]

4. Clark R, Anderson NB, Clark VR, Williams DR. Racism as a stressor for African Americans: a biopsychosocial model. Am Psychol. 1999;54(10):805-16. DOI:10.1037/0003-066X.54.10.805        [ Links ]

5. Fry PH. A persistência da raça: ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África Austral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2005.         [ Links ]

6. Gomes R. Análise e interpretação de dados de pesquisa qualitativa. In: Minayo MCS, organizador. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes; 2007. p.79-108.         [ Links ]

7. Herdman M, Fox-Rushby J, Badia X. A model of equivalence in the cultural adaptation of HRQoL instruments: the universalist approach. Qual Life Res. 1998;7(4):323-35. DOI:10.1023/A:1008846618880        [ Links ]

8. Krieger N. Discrimination and health. In: Berkman LF, Kawachi I, editors. Social epidemiology. New York: Oxford University Press; 2000. p.36-75.         [ Links ]

9. Nuru-Jeter A, Dominguez TP, Hammond WP, Leu J, Skaff M, Egerter S, et al. "It's the skin you're in": African-American women talk about their experiences of racism. an exploratory study to develop measures of racism for birth outcome studies. Matern Child Health J. 2009;13(1):29-39. DOI:10.1007/s10995-008-0357-x        [ Links ]

10. Paradies YC, Williams DR. Racism and health. In: Heggenhougen K, Quah S, editors. International Encyclopedia of Public Health. San Diego: Academic Press; 2008. p.474-82.         [ Links ]

11. Pascoe EA, Smart Richman L. Perceived discrimination and health: a meta-analytic review. Psychol Bull. 2009;135(4):531-54. DOI:10.1037/a0016059        [ Links ]

12. Telles EE. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume Dumará; 2003.         [ Links ]

13. Williams DR, Mohammed SA. Discrimination and racial disparities in health: evidence and needed research. J Behav Med. 2009;32(1):20-47. DOI:10.1007/s10865-008-9185-0        [ Links ]

14. Wilson M. Constructing measures: an item response modeling approach. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates; 2005.         [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
João Luiz Bastos
R. Marechal Deodoro, 1160, 3º piso - Centro
96020-220 Pelotas, RS, Brasil
E-mail: joao.luiz.epi@gmail.com

Recebido: 22/10/2009
Aprovado: 15/11/2009
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ-Processo nº: E-26/110.315/2007).
Bastos JL foi apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (bolsa de doutorado).

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Bastos JL, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, em 2010.
a O termo raça e suas classificações não serão colocados entre aspas, ao longo do texto, apenas para facilitar a leitura. No presente trabalho, tais termos estão sendo entendidos como categorias êmicas, que precisam ser relativizadas e que não representam formas de classificação cientificamente inequívocas, fixas, exaustivas ou excludentes.
b Bastos JLD. Desigualdades "raciais" em saúde: medindo a experiência de discriminação auto-relatada no Brasil [projeto de doutorado]. Pelotas:Departamento de Medicina Social da UFPel; 2009.
c Collado-Proctor SM. The Perceived Racism Scale for Latina/os: a multidimensional assessment of the experience of racism among Latina/os [tese de doutorado]. Durham: Duke University; 1999.
d Paradies YC. Race, racism, stress and indigenous health [tese de doutorado]. Melbourne: Melbourne University; 2006.
e Smith TW. Measuring racial and ethnic discrimination. Chicago: National Opinion Research Center; 2002.
f Frykman J. Discrimination - a threat to public health. Final report. Health and Discrimination Project. Stockholm: National Institute of Public Health; 2006.