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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.1 São Paulo Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000100005 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Mapa das juventudes de Santo André, SP: instrumento de leitura das desigualdades sociais

 

Mapa de las juventudes de Santo André, Sureste de Brasil: instrumento de lectura de las desigualdades sociales

 

 

Tatiana YonekuraI; Cássia Baldini SoaresII; Elaine Garcia MinuciIII; Célia Maria Sivalli CamposII; Carla Andrea TrapéI

IPrograma de Pós-Graduação em Enfermagem. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Enfermagem em Saúde Coletiva. Escola de Enfermagem. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIIFundação Seade. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar as desigualdades sociais de jovens moradores em área urbana pelo mapeamento de dados sociodemográficos e econômicos.
MÉTODOS: Utilizando-se dados do Censo Demográfico 2000, 57 variáveis sociodemográficas e econômicas de jovens de 15 a 24 anos do município de Santo André, SP, foram distribuídas por 43 regiões de dados estatísticos que correspondem a um recorte do território em distritos menores. Os dados foram coletados no Departamento de Indicadores Sociais e Econômicos da Prefeitura Municipal de Santo André, referentes ao ano 2000. Por meio de análise fatorial, 13 variáveis foram agrupadas em dois fatores - condições de trabalho e condições de vida, que discriminaram estatisticamente regiões semelhantes entre si. Foi realizada análise por agrupamento das regiões, resultando em quatro grupos sociais.
RESULTADOS: O espaço que concentrava os jovens com mais acesso à riqueza foi classificado como central e aqueles com menos acesso, como periférico. Duas gradações intermediárias puderam ser identificadas, uma mais próxima ao extremo do acesso ("quase central") e outra mais próxima à privação ("quase periférica"). As variáveis discriminantes estavam relacionadas ao trabalho, à migração, escolaridade, fecundidade, posição do jovem no domicílio, presença de cônjuge ou companheiro, condição de moradia e posse de bens.
CONCLUSÕES: As diferenças entre os grupos sociais expressaram desigualdades importantes entre os jovens que vivem, estudam e/ou trabalham na cidade, o que contribuirá para o planejamento de políticas sociais públicas dirigidas a esses grupos.

Descritores: Adulto Jovem. Condições de Trabalho. Condições Sociais. Distribuição Espacial da População. Iniqüidade Social. Indicadores Sociais.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar las desigualdades sociales de jóvenes moradores en área urbana por el mapeo de datos sociodemográficos y económicos.
MÉTODOS: Utilizándose datos del Censo Demográfico 2000, 57 variables sociodemográficas y económicas de jóvenes de 15 a 24 años del municipio de Santo André, Sureste de Brasil, fueron distribuidas por 43 regiones de datos estadísticos que corresponden a un recorte del territorio en distritos menores. Los datos fueron colectados en el Departamento de Indicadores Sociales y Económicos de la Prefectura Municipal de Santo André, referentes al año 2000. Por medio de análisis factorial, 13 variables fueron agrupadas en dos factores – condiciones de trabajo y condiciones de vida, que discriminaron estadísticamente regiones semejantes entre sí. Fue realizado análisis por agrupamiento de las regiones, resultando en cuatro grupos sociales.
RESULTADOS: El espacio que concentraba los jóvenes con más acceso a la riqueza fue clasificado como central y aquellos con menos acceso, como periférico. Dos gradaciones intermediarias pudieron ser identificadas, una más próxima al extremo del acceso ("quase central") y otra más próxima a la privación ("quase periférica"). Las variables discriminantes estaban relacionadas al trabajo, a la migración, escolaridad, fecundidad, posición del joven en el domicilio, presencia de conyugue o compañero, condición de vivienda y pose de bienes.
CONCLUSIONES: Las diferencias entre los grupos sociales expresaron desigualdades importantes entre los jóvenes que viven, estudian y/o trabajan en la ciudad, o que contribuirá para la planificación de políticas sociales públicas dirigidas a esos grupos.


 

 

INTRODUÇÃO

A juventude é uma temática cada vez mais discutida na sociedade contemporânea, notadamente em função da complexidade dos problemas que vem enfrentando. Por ser objeto de interesse de diversos campos do conhecimento, mobiliza o desenvolvimento de pesquisas e de políticas públicas.

O crescimento da distribuição etária da população na faixa entre 15 e 24 anos na década de 1990, especialmente nas regiões metropolitanas brasileiras,3 justifica o interesse social por esse grupo como ator estratégico no desenvolvimento. Por outro lado, a chamada "crise do emprego" ameaça a incorporação dos jovens ao mercado de trabalho:6 enquanto aqueles de grupos sociais economicamente estáveis tem continuidade dos estudos e a permanência com a família de origem, aos demais resta a submissão a empregos ruins e com baixos salários.ª

A perspectiva da saúde coletiva compreende a juventude a partir das categorias classe social e geração, submetendo a leitura da realidade contemporânea dos jovens à sua condição de classe. Há portanto várias juventudes, e embora tenham em comum a condição geracional, acabam por vivenciá-la de diferentes formas de acordo com a inserção de suas famílias na produção e no consumo.12

A epidemiologia crítica, um dos principais instrumentos da saúde coletiva, tem como objeto as desigualdades de reprodução social. A classe social é uma categoria de análise capaz de revelar o peso das desigualdades em saúde e concretizar a abstração que se esconde por trás da categoria população, concebida como agrupamento homogêneo de indivíduos sem que se refiram às suas possibilidades de ação.9

No pressuposto de que o mapeamento das desigualdades constitui ferramenta útil para o planejamento de políticas públicas voltadas aos jovens, o estudo apóia-se também no conceito de espaço de Santos.10 "Por espaço vamos entender o meio, o lugar material da possibilidade dos eventos (...) Consideramo-lo com algo dinâmico e unitário, onde se reúnem materialidade e ação humana. O espaço seria o conjunto indissociável de sistemas de objetos naturais ou fabricados e de sistemas de ações, deliberadas ou não. A cada época, novos objetos e novas ações vêm juntar-se às outras, modificando-se o todo, tanto formal quanto substancialmente."

A categoria espaço permite reconhecer a heterogeneidade urbana, uma vez que incorpora a estrutura e a dinâmica social - onde e como vivem as pessoas; o que determina a produção e a circulação dos bens e serviços.2 A classificação de espaços como centro e periferia, comumente associada à equação riqueza e pobreza, não retrata plenamente a dinâmica social, que vem sofrendo mudanças históricas e "não nos permite prever os conteúdos sociais associados à moradia no local".14

Assim, para melhor compreender as desigualdades sociais é necessário incorporar variáveis que reflitam diferentes ângulos da reprodução social.

Os mapas temáticos constituem um instrumento de apresentação de resultados que viabiliza representar a realidade de maneira rápida e abrangente, proporcionando uma imagem de conjunto das diferenças sociais da cidade.2 Dessa forma, agregar informações a referências espaciais é ferramenta potente para analisar e compreender dados, visando ao planejamento de ações pelas políticas públicas. Esses mapas permitem analisar características e diferenças apresentadas em cada espaço territorial, para além da simples divisão geográfica.8

Políticas sociais baseadas nas diferenças territoriais mostram-se importantes para transformar a forte negatividade que as áreas de pobreza possuem pela ausência de serviços de infra-estrutura urbana, habitação, saneamento, educação, segurança pública, entre outras, e que acabam sendo fatores decisivos para a reprodução da pobreza.15

O objetivo do presente estudo foi analisar as desigualdades sociais de jovens moradores em área urbana pelo mapeamento de dados sociodemográficos e econômicos.

 

MÉTODOS

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE), o município de Santo André, SP, tinha em junho de 2008 população estimada de 671.696 habitantes e, em 2005, produto interno bruto de 17.066 reais per capita, praticamente igualando-se à média do estado de São Paulo. O índice de desenvolvimento humano é considerado elevado (0,835), sendo o 24º lugar no estado de São Paulo.b No Atlas da Exclusão Social, o município estava em oitavo lugar entre as 100 cidades com maior número de famílias ricas do Brasil e em terceiro lugar entre as 45 do estado de São Paulo.7

Inicialmente, selecionou-se um conjunto de 57 variáveis demográficas e socioeconômicas relativas aos jovens de 15 a 24 anos a partir do Censo de 2000. Considerou-se a categoria reprodução social como construção teórica que reúne padrões de inserção na produção (condições de trabalho) e padrões de inserção no consumo (condições de vida) para servir de base à captação de dados empíricos em diferentes realidades sociais.11 Os dados, disponibilizados pelo Departamento de Indicadores Sociais e Econômicos (DISE)c da Prefeitura Municipal de Santo André, se referiam a: características demográficas da população (sexo, cor e raça, migração, nupcialidade, fecundidade), características socioeconômicas (escolaridade, religião, trabalho e rendimento, potencial de consumo - posse de eletrodomésticos e bens) e características domiciliares (condição de ocupação da moradia e do terreno, densidade de morador por dormitório, e saneamento). As variáveis correspondentes aos 57 dados foram distribuídas por regiões de dados estatísticos (REDE) - um recorte do território em distritos menores.c O município foi dividido em 43 REDE segundo as divisões territoriais utilizadas para planejamento da gestão municipal.

Os dados foram pré-selecionados e submetidos à análise fatorial utilizando-se o software SPSS 2004.

Em um primeiro momento, foram excluídas as variáveis com pouca variabilidade entre as REDE e, portanto, pouco discriminantes. Por outro lado, se a variável fosse considerada qualitativamente importante para avaliar potenciais de fortalecimento e de desgaste da população jovem, esta era inicialmente considerada na análise multivariada a despeito do valor do desvio-padrão.

Em um segundo momento, a análise fatorial5 buscou reduzir o conjunto de variáveis em duas, três, quatro (ou mais) fatores sem diminuir a capacidade explicativa de diferenciação das REDE. Essa técnica gera uma medida (comunalidade) que permite analisar a proporção da variância de cada variável explicada pelos fatores comuns, sendo a variável eliminada quando essa medida é igual ou menor que 0,6.

Dessa forma, chegou-se ao conjunto de variáveis discriminadas na Tabela 1, para o qual foram identificados dois fatores extraídos por análise de componentes principais, os quais explicam quase 78% da variância total das variáveis originais. O primeiro fator (condições de vida) explica 59,6% da parcela da variância enquanto que o fator 2 (condições de trabalho) explica 18,0%.

 

 

Apenas a variável fossa séptica apresentou comunalidade inferior a 0,6, mas permaneceu no modelo final por se constituir em potencial de desgaste importante para alguns grupos sociais da população estudada, que vive em áreas de mananciais.

Para esse resultado da análise fatorial, obteve-se um valor de KMO=0,866. O teste Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) é uma ferramenta estatística que indica a proporção da variância dos dados que pode ser considerada comum a todas as variáveis, ou seja, que pode ser atribuída a um fator comum. Dessa forma, quanto mais próximo de 1 (unidade) melhor o resultado e mais adequada é ao conjunto de dados à aplicação da análise fatorial. Comprovado também pelo teste de esfericidade de Bartlett que rejeitou a hipótese de não correlação entre os dados a um nível de significância de 5%. Logo, a aplicação da análise fatorial se mostrou adequada a esses dados.

Com base nesses fatores, utilizou-se a análise de agrupamentos,1 com base no método de k-means. Foi possível identificar quatro grupos sociais com base nas agregações de REDE discriminadas pelas variáveis.

 

RESULTADOS

O grupo que concentrou os jovens com mais acesso à riqueza foi classificado como central (C) e os com menos acesso como periférico (P). Dois grupos intermediários foram identificados, um mais próximo ao extremo do acesso (quase central - QC) e outro mais próximo à privação (quase periférico - QP). No entanto, os matizes mais escuros, representativos dos espaços mais periféricos, de maior privação, aparecem também junto a espaços mais centrais, mostrando que a relação centro-periferia não é tão simétrica, como observado no caso das REDE 13 e 16 (Figura).

Os jovens corresponderam a 18,8% da população de Santo André, sendo distribuídos de maneira homogênea: 18,2%, no grupo C; 17,8%, no QC, 18,6% no grupo QP e 20,1% no P.

O menor número de REDE compôs o espaço C (4) e QC (10), ficando o maior número de REDE nos espaços mais distanciados - QP (19) e P (10). O grupo C concentrou o menor número de jovens (Tabela 2).

 

 

As variáveis que discriminaram as REDE estão apresentadas na Tabela 3. Quanto ao local de nascimento dos jovens, a variável que discriminou os quatro grupos foi ter nascido fora do estado de São Paulo. Os resultados mostraram que dentre os jovens residentes no grupo P, encontrou-se a maior percentagem de jovens nascidos em outros estados, excluindo São Paulo - a maioria procedente da região Nordeste do País.

Cinco variáveis foram selecionadas para discriminar as REDE quanto ao acesso ao ensino. Os jovens que freqüentavam o ensino fundamental chegavam a 6% no grupo C e a 29,4% no grupo P. Jovens que deveriam estar completando ou ter completado o ensino fundamental aos 15 anos apresentavam defasagem escolar, sendo menos presentes no grupo C. Independentemente da idade, a maior percentagem de jovens que freqüentavam o ensino médio estava no grupo QP. Quanto mais pobres eram os jovens, maiores eram as freqüências de ter concluído apenas o ensino fundamental. Assim, 54,9% dos jovens que tinham como último curso concluído o ensino fundamental eram do grupo P. Dentre todos os jovens que não tinham nível superior, ainda que estivessem na faixa etária adequada, 25,1% estavam no grupo P.

A variável de trabalho que discriminou os quatro grupos foi não ter trabalho remunerado. Os resultados mostraram que não ter trabalho remunerado diminuía à medida que se avançava nos espaços mais precarizados da cidade, exceto pelo grupo localizado na área mais periférica. Este grupo apresentava um índice até maior de trabalho não remunerado do que o de grupos mais centrais, já que muitos jovens não trabalhavam por não ter emprego. Enquanto a inserção no mercado de trabalho pode ser adiada até o final da formação profissional para os mais ricos, para os mais pobres a não-inserção no mercado de trabalho é determinada pelo desemprego.

Uma das variáveis de condições de vida dos jovens que discriminou os grupos foi a posição do jovem como responsável pelo domicílio. Dentre os jovens nessa posição, a maior parte era proveniente do grupo P. Observa-se que a responsabilidade do jovem pela provisão do domicílio, e certamente a pressão pela inserção no mercado de trabalho, aumentava em direção aos espaços periféricos. Tal fato deve agravar a precarização das condições de vida dessas famílias, uma vez que os menores índices de renda per capita se concentram nessas regiões. Outra variável discriminante foi a presença de cônjuge ou de companheiro. A maior percentagem de jovens que vivia com cônjuge ou companheiro era do grupo P, assim como o fato do jovem ter até dois filhos.

Três variáveis relacionadas a condições de moradia ajudaram a definir os grupos: densidade de moradores por dormitório maior do que três e a condição do terreno da moradia ser cedido e destino do esgoto domiciliar por fossa séptica. Dentre as residências com essas condições, a maioria estava no grupo P.

Entre as variáveis associadas à posse de bens, não ter automóvel foi a que contribuiu estatisticamente para discriminar os grupos. A maioria dos jovens sem automóvel pertencia ao grupo P.

As demais variáveis também apresentaram diferenças entre os grupos, porém essas diferenças serão discutidas em outro artigo.

 

DISCUSSÃO

O mapa das juventudes de Santo André permitiu identificar, dentre um conjunto grande de variáveis, dois fatores capazes de discriminar entre si os diferentes espaços do município: condições de vida e de trabalho. A agregação desses espaços por semelhança, com base em método de análise por agrupamento, revelou a existência de quatro diferentes grupos sociais distribuídos pelos espaços do município de Santo André. Embora a diferença centro rico e periferia pobre seja marcante, o mapa revelou a localização de grupos sociais pobres fora do chamado espaço periférico e próximo a espaços mais centrais. Os resultados do presente trabalho assemelham-se a de outros estudos. No município de São Paulo, SP, constatou-se que "níveis mais altos de privação estão presentes em distritos mais distantes, particularmente ao norte, leste e sul da região metropolitana, ao passo que os grupos mais ricos estão altamente concentrados na área central de São Paulo."14

O mapa, construído para refletir os perfis de reprodução social dos jovens, apresenta também bastante semelhança com o mapa da distribuição da pobreza de Santo André, configurado a partir da variável renda per capita de meio salário mínimo.7

O menor número de REDE compôs o espaço C e QC, e o maior número compôs os espaços mais distanciados (QP e P), confirmando o padrão nacional excludente e concentrador de riquezas. A renda familiar mensal média dos mais ricos correspondia em 2003 à cerca de R$ 22.000, valor 14 vezes maior do que a renda familiar mensal média do País e cerca de 80 vezes superior à linha de pobreza, abaixo da qual se situam os 20% mais pobres.7 Quanto ao segmento da população jovem, 31,3% pode ser considerado pobre, com renda familiar per capita de até meio salário mínimo. Apenas 8,6% são oriundos de famílias com renda familiar per capita superior a dois salários mínimos e cerca de 60% pertence ao estrato intermediário, com renda per capita entre meio e dois salários mínimos.ª

Essa distribuição acompanha a proporcionalidade entre as classes, encontrada em amostra de pesquisa realizada na cidade de São Paulo, em 2001, em que se mostrou proporção crescente da presença de jovens na população à medida que se mergulha em espaços de privação.14

O padrão centro-rico e periferia-pobre não se revela suficiente para retratar a desigualdade dos jovens no município, já que existem espaços de pobreza próximos ao centro, como observado na cidade de São Paulo em 2003.4 Assim, embora a relação dual centro-periferia que marcou a consolidação de São Paulo como metrópole industrial brasileira, nas décadas de 1960 e 1970, tenha evoluído para um modelo menos polarizador, com criação de subcentros, não houve ruptura com padrões consolidados de desigualdade, apenas criando-se novos contornos, com disseminação da pobreza em espaços mais próximos ao centro.4

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2005 sobre escolarização mostraram-se coerentes com os dos jovens de Santo André: a renda familiar per capita era um divisor explícito da escolarização, uma vez que a escolarização dos 20% mais pobres era quase a metade da dos 20% mais ricos (25,1% contra 48,6%).d Em âmbito nacional, sabe-se que muitos jovens interrompem os estudos no ensino fundamental e nem a metade dos jovens brasileiros entre 15 e 17 anos freqüentam o ensino médio.e

Em Santo André a desigualdade social é ainda maior quando se trata da freqüência em cursos do ensino superior, assemelhando-se ao que ocorre em âmbito nacional, cujas taxas variam conforme a renda per capita, oscilando de 4,7% entre os que ganham de meio a um salário mínimo até 59,8% para os que recebem cinco salários mínimos ou mais.ª

Assim, pode-se afirmar que a situação educacional dos jovens no município de Santo André acompanha o panorama nacional, podendo ser sintetizado como "existência de 1,5 milhão de analfabetos; persistência de elevada distorção idade-série, o que compromete o acesso ao ensino médio na idade adequada; baixa freqüência ao ensino superior; e restritas oportunidades de acesso à educação profissional".f

Por sua vez, a escolaridade dos chefes de família está associada à renda familiar per capita, numa relação diretamente proporcional.f

Quanto a condições de trabalho, análise do desemprego no Brasil revela que as maiores taxas estão entre os jovens, responsáveis por 50% do desemprego nacional. Dentre os jovens desempregados, 26,2% pertencem a famílias de baixa renda, enquanto que entre os jovens de renda elevada é de 11,6%. Os jovens de família de maior renda têm maior acesso a trabalho assalariado e a contrato formal, o que significa que os jovens de famílias de baixa renda estão mais excluídos dos benefícios da legislação social e trabalhista. Registra-se o fenômeno de regressão intergeracional, ou seja, mesmo com escolaridade superior a de seus pais, os jovens não conseguem obter melhores condições de trabalho e de vida.7,g

O número de horas trabalhadas também varia conforme a escolaridade: enquanto 41% daqueles que têm somente até a quarta série do ensino fundamental trabalham mais de oito horas por dia, esta sobrecarga atinge 13% dos jovens trabalhadores com nível superior.h

Os jovens mais pobres e que constituem famílias mais cedo são os que acabam sofrendo os momentos de maior precariedade no trabalho e na vida. Além disso, a condição de maternidade/paternidade apresenta forte variação quanto à escolaridade e renda familiar. A percentagem de jovens com filhos e com menor grau de escolaridade até o ensino fundamental é mais de 30% e reduzindo para 9% entre jovens com curso superior.i

Já no que diz respeito a condições de vida, a Síntese dos Indicadores Sociaisc revela que a redução no número médio de filhos por mulher em todo o País não ocorre homogeneamente em todas as classes sociais e faixas etárias. Por referência à classe social, particularmente à renda, em 2005, entre as mulheres mais pobres em idade reprodutiva, 74% já tinham pelo menos um filho; enquanto que, entre aquelas com rendimento familiar per capita de dois salários mínimos ou mais, a proporção era de 49,2%. Quanto às diferenças por faixa etária, houve um aumento discreto na proporção de meninas de 15 a 17 anos de idade com filhos, de 2004 para 2005, de 6,8% para 7,1%.c

Uma vez que a renda advém do trabalho e determina as condições de moradia e as possibilidades de consumo, é de se esperar que os jovens moradores das áreas mais periféricas tenham piores condições de moradia e menos acesso ao consumo de bens duráveis.

Nessa direção, estudo no município do Rio de Janeiro mostrou que domicílios com alta densidade de moradores estão situados nas áreas de alta concentração de pobreza, em uma clara relação com a desigualdade de renda.13

Essa relação também é válida para acesso a serviços de infra-estrutura urbana. Se por um lado os índices nacionais indicam melhoria na cobertura de esgotamento sanitário das residências, com aumento da ligação à rede de esgoto e estabilidade na freqüência de casas com fossa séptica, por outro, essa melhoria não foi suficiente para melhorar as condições de vida, de maneira homogênea, de todos os segmentos sociais.14

A decisão de utilizar dados do Censo para construir o mapa das juventudes revela algumas limitações e potencialidades. Entre as principais limitações, pode-se destacar a não-correspondência plena entre a categoria reprodução social, marco teórico de análise, e o conjunto dos dados secundários disponibilizados pelo Censo, escolhidos como variáveis para receber tratamento estatístico. O mapeamento tem caráter macro-espacial e, portanto, não permite avaliar diferenças sociais internas aos grupos/espaços formados. Variáveis que podem representar potenciais de fortalecimento e desgaste, como dívidas ou número de horas gastas com transporte, não são habitualmente coletadas no censo. Apesar de os dados serem do ano de 2000, o que pode não refletir a realidade do município na atualidade, o método de construção do mapa possibilitou a identificação das desigualdades sociais. Além disso, o mapa constitui ferramenta importante tanto para a consecução de novas pesquisas que tomem o jovem como sujeito, podendo instrumentalizar o processo de delimitação de amostragem proporcional aos diversos grupos, quanto para o planejamento de políticas sociais públicas dirigidas aos diferentes grupos nos espaços da vida social. Ao levar em consideração os territórios desiguais, as políticas sociais têm potencia para promover, a médio e longo prazo, a integração social de setores juvenis segregados pela pobreza.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Departamento de Indicadores Sociais e Econômicos (DISE) da Prefeitura Municipal de Santo André, pela disponibilização dos dados e da estrutura de regiões de dados estatísticos; ao Programa de Saúde da Juventude da Secretaria de Saúde de Santo André, pelas sugestões ao projeto.

 

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Correspondência | Correspondence:
Cássia Baldini Soares
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419
Cerqueira César
005403-000 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: cassiaso@usp.br

Recebido: 23/1/2009
Revisado: 11/5/2009
Aprovado: 30/7/2009
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP - Processo Nº: 06/51671-9). Yonekura T foi apoiada pela Fapesp (Processo nº 06/61299-0; bolsa de iniciação científica).

 

 

Trabalho apresentado no Simpósio Internacional de Iniciação Científica realizado em Ribeirão Preto, SP, em 23/11/2007.
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c Departamento de Indicadores Sociais e Econômicos (DISE). Dados da cidade. Textos analíticos. 2006 [Internet]. [citado 2007 abr 20]. Disponível em: http://www.santoandre.sp.gov.br/BN_CONTEUDO.ASP?COD=3844
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