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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.2 São Paulo abr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000200002 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Efetividade superior do esquema diário de suplementação de ferro em lactentes

 

Efectividad superior del esquema diario de suplementación de hierro en lactantes

 

 

Catarina Machado AzeredoI,II; Rosângela Minardi Mitre CottaIII; Luciana Ferreira da Rocha Sant'AnaIII; Sylvia do Carmo Castro FranceschiniIII; Rita de Cássia Lanes RibeiroIII; Joel Alves LamounierIV; Flávia Araújo PedronV

IPrograma de Pós-graduação em Ciência da Nutrição. Universidade Federal de Viçosa Viçosa (UFV). Viçosa, MG, Brasil
IINúcleo de Gestão Microrregional de Saúde. Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais. Viçosa, MG, Brasil
IIIDepartamento de Nutrição e Saúde-UFV. Viçosa, MG, Brasil
IVDepartamento de Pediatria. Faculdade de Medicina. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil
VCoordenadoria de Nutrição. Secretaria Municipal de Saúde de Viçosa. Viçosa, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a efetividade de esquemas, diário e semanal, de suplementação profilática de ferro medicamentoso na prevenção da anemia ferropriva em lactentes não anêmicos.
MÉTODOS: Estudo populacional, prospectivo, de abordagem quantitativa com intervenção profilática, realizado no município de Viçosa, MG, em 2007/8. Foram selecionadas 103 crianças não anêmicas, entre seis e 18 meses de idade, correspondendo a 20,2% das crianças cadastradas e atendidas pelas Equipes de Saúde da Família. As crianças foram divididas em dois grupos de suplementação: dosagem diária recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (grupo 1, n=34) e dosagem semanal preconizada pelo Ministério da Saúde (grupo 2, n=69). As avaliações ocorreram no início do estudo e após seis meses, sendo realizadas dosagem de hemoglobina (ß-hemoglobinômetro portátil), avaliação antropométrica e dietética, e aplicação de questionário socioeconômico. Os indicadores de impacto utilizados foram a prevalência de anemia, variação de hemoglobina, adesão e efeitos adversos aos suplementos.
RESULTADOS: Os grupos se mostraram homogêneos quanto às variáveis socioeconômicas, biológicas e de saúde anteriores à intervenção. Após seis meses de suplementação, observaram-se maiores médias de hemoglobina no grupo 1 em relação ao grupo 2, (11,66; DP=1,25 e 10,95; DP=1,41, respectivamente, p=0,015); além de menores prevalências de anemia (20,6% e 43,5%, respectivamente, p=0,04). Apenas o tempo de suplementação influenciou na anemia grave (p=0,009). Não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes para as variáveis adesão ao suplemento e efeitos adversos.
CONCLUSÕES: A dosagem diária recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostrou-se mais efetiva na prevenção da anemia em lactentes, quando comparada à dosagem utilizada pelo Ministério da Saúde. A dosagem semanal recomendada pelo programa do governo brasileiro precisa ser reavaliada para aumentar sua efetividade na prevenção de anemia em crianças atendidas em serviços públicos de saúde.

Descritores: Ferro na Dieta, administração & dosagem. Compostos Ferrosos. Anemia Ferropriva, prevenção & controle. Nutrição do Lactente. Saúde da Criança. Estudos de Intervenção.


RESUMEN

OBJETIVO: Evaluar la efectividad de esquemas, diario y semanal, de suplementación profiláctica de hierro medicamentoso en la prevención de anemia ferropriva en lactantes no anémicos.
MÉTODOS: Estudio poblacional, prospectivo, de abordaje cuantitativo con intervención profiláctica, realizado en el municipio de Vinosa, Sureste de Brasil, en 2007/8. Fueron seleccionados 103 niños no anémicos, entre seis y 18 meses de edad, correspondiendo a 20,2% de los niños catastrados y atendidos por los Equipos de Salud de la Familia. Los niños fueron divididos en dos grupos de suplementación: dosificación diaria recomendada por la Sociedad Brasilera de Pediatría (grupo 1, n=34) y dosificación semanal establecida por el Ministerio de la Salud (grupo 2, n=69). Las evaluaciones ocurrieron en el inicio del estudio y posterior a seis meses, siendo realizadas dosificación de hemoglobina (b-homoglobinómetro portátil), evaluación antropométrica y dietética, y aplicación de cuestionario socioeconómico. Los indicadores de impacto utilizados fueron la prevalencia de anemia, variación de hemoglobina, adhesión y efectos adversos a los suplementos.
RESULTADOS: Los grupos se mostraron homogéneos con relación a las variables socioeconómicas, biológicas y de salud anteriores a la intervención. Posterior a seis meses de suplementación, se observaron mayores promedios de hemoglobina en el grupo 1 con relación al grupo 2, (11,66; DP=1,25 e 10,95; DP=1,41, respectivamente, p=0,015); así como menores prevalencias de anemia (20,6% y 43,5%, respectivamente, p=0,04). Sólo el tiempo de suplementación influyó en la anemia grave (p=0,009). No fueron encontradas diferencias estadísticamente significativas para las variables adhesión al suplemento y efectos adversos.
CONCLUSIONES: La dosificación diaria recomendada por la Sociedad Brasilera de Pediatría se mostró más efectiva en la prevención de la anemia en lactantes, al compararla con la dosificación utilizada por el Ministerio de la Salud. La dosificación semanal recomendada por el programa de gobierno brasilero precisa ser reevaluada para aumentar su efectividad en la prevención de anemia en niños atendidos en servicios públicos de salud.

Descriptores: Hierro en la Dieta, administración & dosificación. Compuestos Ferrosos. Anemia Ferropénica, prevención & control. Nutrición del Lactante. Salud del Niño. Estudios de Intervención.


 

 

INTRODUÇÃO

A anemia ferropriva constitui problema de saúde pública global, atingindo simultaneamente os países em desenvolvimento e os desenvolvidos, com graves conseqüências à saúde humana e ao desenvolvimento social e econômico dos países.21 Embora a anemia ocorra em todas as faixas etárias, as crianças de seis a 24 meses estão entre os grupos mais vulneráveis a essa deficiência, pelas elevadas necessidades de ferro para seu crescimento.9

Diante disso, os organismos oficiais19 recomendam que sejam implementadas medidas para a prevenção dessa deficiência nutricional nos países com prevalência de anemia superior a 40%. Dentre as ações básicas para prevenção da anemia, destacam-se o controle das infecções parasitárias, a educação sanitária associada a medidas de aumento do consumo de ferro, incluindo o incentivo ao aleitamento materno, a fortificação de alimentos e a suplementação medicamentosa.13

A utilização de ferro medicamentoso tem a vantagem de produzir rápidas alterações no estado nutricional de ferro e, além disso, é uma estratégia que pode ser direcionada especificamente aos grupos populacionais com maior risco.14 Por este fato, no Brasil, usualmente se adota a suplementação profilática para lactentes nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Tradicionalmente, utilizava-se a recomendação da American Academy of Pediatrics5 e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP),a de ofertar sulfato ferroso na dosagem de 1mg de ferro/kg/dia para crianças nascidas a termo e com peso adequado, entre seis e 24 meses de idade. Porém, a partir de 2005, o Ministério da Saúde (MS) adotou o Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF) como estratégia de suplementação profilática de ferro para o controle da anemia no Brasil, preconizando a suplementação semanal com xarope de sulfato ferroso (25mg de ferro) para lactentes entre seis e 18 meses de idade.b

Embora existam diferentes esquemas e recomendações de suplementação profilática com sais de ferro na infância, ainda não há consenso sobre a melhor estratégia a ser adotada.7,8,12,17 Deste modo, o objetivo do presente trabalho foi avaliar o impacto de esquemas de suplementação de ferro na prevenção da anemia ferropriva em lactentes não anêmicos, comparando a efetividade da dose profilática semanal de ferro (25mg ferro) versus dose diária (1mg/kg/dia).

 

MÉTODOS

Estudo populacional, prospectivo, de abordagem quantitativa com intervenção profilática de anemia por seis meses, realizado no município de Viçosa, localizado na zona da mata do estado de Minas Gerais. A população estimada do município, em 2007, foi de 76.081 habitantes.c

O processo de implantação do Programa de Saúde da Família (PSF) teve início em 1997; em 2007 existiam 13 Equipes de Saúde da Família (ESF) que ofereciam cobertura à aproximadamente 56% da população residente no município. Todas as ESF estavam completas, possuindo médico, enfermeiro, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde (ACS); além destes profissionais, seis equipes possuíam dentistas, auxiliar de consultório dentário e nutricionistas.d

Crianças entre seis e 18 meses de idade atendidas pelas ESF do município foram avaliadas entre agosto de 2007 e maio de 2008. De 1.027 crianças nessa faixa etária, residentes no município, 560 eram atendidas pelas ESF e as demais se dividiam entre particulares, convênios, e atendimentos no Centro de Saúde do Município.d

A captação das mães e crianças ocorreu por meio de convite entregue nos domicílios pelos ACS e cartazes afixados nas UBS. As avaliações ocorreram em dias previamente agendados em cada uma das UBS; as crianças que perderam a data de sua avaliação foram convidadas pelos ACS, por meio de busca ativa, para comparecerem no centro de saúde do município.

Participaram 327 crianças, correspondendo a 31,8% do total de crianças nesta faixa etária, residentes no município e a 54,5% das crianças atendidas pelas ESF. Das 327 crianças, observou-se uma prevalência de anemia de 30,6% (n=100), das quais 30 crianças apresentaram anemia grave (hemoglobina [Hb]<9,5g/dL). As demais crianças (n=227) foram incluídas no estudo.

Inicialmente realizou-se dosagem de hemoglobina (Hb) de amostra de sangue obtido por punção digital ou calcanhar, por leitura direta no fotômetro portátil (Hemoglobinômetro), marca Hemocue®, previamente calibrado. As crianças anêmicas (Hb <11g/dL)19 foram encaminhadas para o atendimento médico das ESF para receberem a dose terapêutica de sulfato ferroso, sendo excluídas do estudo.

As não-anêmicas (Hb >11g/dL) foram alocadas nos dois grupos, da seguinte forma: as que já recebiam suplementação segundo a SBP (1mg/kg/dia), anteriormente ao estudo e que continuaram seguindo este esquema, constituindo o grupo 1 (n=94); as que não recebiam suplementação anterior ao estudo fizeram parte do grupo suplementado com o xarope de sulfato ferroso do PNSF (25mg de ferro/semana), constituindo o grupo 2 (n=133). A distribuição das crianças nos dois grupos seguiu exigência do serviço de saúde local. As possíveis influências de um tempo de suplementação profilática superior para o grupo 1 foram levadas em consideração na análise estatística e discutidas posteriormente.

Foi possível avaliar o impacto dos esquemas de suplementação em 103 (45,4%) crianças: 34 crianças do grupo 1 e 69 do grupo 2. Os motivos para não inclusão das crianças nas análises estão representadas na Figura. Observou-se que o percentual de perdas foi superior no grupo 1 (63,8%) em relação ao 2 (48,1%). As perdas dos dois grupos não diferiram entre si e comparando-se as perdas com as crianças que completaram o estudo só foi observada diferença para a média de idade. Esses resultados minimizam a possibilidade de que os resultados finais tivessem sido influenciados pelo viés das perdas diferenciadas e de certa forma asseguram que as crianças que completaram o estudo são representativas do total de crianças inicialmente avaliadas, exceto pela média de idade.

A ausência de um grupo controle ocorreu devido aos aspectos éticos de deixar crianças sem acesso à suplementação profilática, que é extremamente importante nessa faixa etária.

Informações acerca das condições socioeconômicas das famílias foram obtidas por meio de questionário semi-estruturado. O peso e o comprimento das crianças foram aferidos utilizando-se balança eletrônica, pediátrica, com capacidade de 15 kg e graduação de 10g, e antropômetro infantil, com extensão de 1,5m e subdivisão em milímetros. As medidas foram realizadas de acordo com as recomendações de Jellife.10

A avaliação dietética das crianças foi feita por meio de um questionário de freqüência de consumo alimentar (QFCA), capaz de caracterizar a dieta habitual de indivíduos numa única aplicação. O QFCA era seletivo para os alimentos ricos em ferro (carne de boi e/ou porco, frango, peixe, fígado, hortaliças folhosas verde-escuro e feijão), estimuladores (sucos naturais ou frutas) e inibidores (café, chá mate, achocolatado ou chocolate e refrigerante) da sua absorção, aplicado ao final do estudo. As mães também responderam se estavam amamentando e em caso negativo, por quanto tempo haviam amamentado.

O acompanhamento das crianças foi realizado por profissionais das ESF segundo a rotina de funcionamento das UBS. Após seis meses da avaliação inicial, foi realizada reavaliação do estado nutricional, dosagem de hemoglobina e entrevista com as mães utilizando questionário semi-estruturado, com questões referentes à adesão, efeitos adversos e interrupção do uso dos suplementos.

O banco de dados foi digitado no software EpiInfo versão 6.04. As análises estatísticas foram realizadas no software SPSS versão 15.0. Para a comparação de proporções utilizou-se o teste do qui-quadrado ou o teste exato de Fisher quando o valor esperado, em alguma casela foi inferior a cinco. O teste de Kolmogorov-Smirnov foi empregado para verificar a adesão das variáveis numéricas à distribuição normal. Utilizou-se o teste t de Student para comparação de dois grupos independentes e o teste de Mann-Whitney como seu correspondente não paramétrico. Considerou-se nível de significância de 5%.

Como as crianças do grupo 2 tiveram cerca de seis meses de suplementação e as do grupo 1 tiveram tempo superior, o tempo de suplementação foi incluído como variável de confundimento nas análises estatísticas de comparação entre os grupos.

Para a variação da Hb foi desenvolvido um modelo de regressão linear e para as variáveis anemia e anemia grave foram ajustados modelos de regressão de Poisson com variância robusta. Nos dois processos foram inicialmente incluídas as covariáveis que poderiam influenciar no estado nutricional de ferro, sendo retiradas uma a uma até que o modelo final incluísse somente aquelas com valor de p < 0,05. A análise multivariada foi feita no software R, de domínio público.

O estado nutricional dos lactentes foi avaliado por meio dos índices peso/idade, peso/comprimento, comprimento/idade e IMC/idade expressos em escore z, utilizando-se o padrão de referência da Organização Mundial de Saúde.20

Para a análise da freqüência de consumo alimentar agrupou-se o mesmo em três categorias: quatro a sete vezes/semana, uma a três vezes/semana, e raro. As ingestões quinzenais, mensais, raras e o não-consumo foram incluídos no consumo "raro".4 Quando em determinado grupo de alimentos estiveram presentes as três freqüências de consumo, o teste estatístico foi realizado entre a maior e a menor freqüência para comparar os grupos de suplementação.

Crianças que interromperam a suplementação por período superior a um mês foram excluídas das análises. Para as demais, avaliou-se a adesão à suplementação, por método indireto, que consistiu de questões específicas da utilização do sulfato ferroso como: dificuldades, interrupções, aceitação e relato dos dias e quantidade de suplemento administrada. No grupo 2 a adesão foi avaliada de acordo com a quantidade de xarope utilizada durante os seis meses, segundo informação fornecida pelas mães. Se a criança tivesse ingerido mais de 75% da quantidade prevista (>90ml) a adesão era classificada como alta, se tivesse ingerido menos, baixa.12 Para o grupo diário, a adesão também foi auto-referida, entretanto, referiu-se a quantos dias na semana o suplemento era administrado. Neste caso, a alta adesão foi considerada acima de 75% em relação aos dias de administração (>5 dias) e não ao volume utilizado. Isso ocorreu porque o esquema diário tem quantidade determinada por quilo de peso, resultando em variação do volume utilizado entre as crianças.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa, em conformidade com a resolução nº196 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

As características biológicas, de consumo alimentar e socioeconômicas das crianças que completaram o estudo foram comparadas às perdas de seguimento, havendo diferença estatística para a média de idade, que foi superior para as perdas (p=0,04), nos dois grupos de suplementação. Em conseqüência, a média de peso (p=0,048) e comprimento também foram superiores (p=0,044), embora não se tenha encontrado diferença estatística entre o estado nutricional destas crianças (p>0,05) para nenhum dos indicadores antropométricos.

Os dois grupos de suplementação mostraram similaridade entre si em relação às características biológicas, de consumo alimentar e socioeconômicas no início do estudo (Tabela 1). De modo geral, as famílias eram socioeconomicamente desfavorecidas, com baixa escolaridade materna, baixa renda familiar e per capita, ainda que grande parte das mães vivesse com companheiros e em área urbana.

Ao comparar os grupos 1 e 2 quanto à freqüência de consumo dos diferentes alimentos, não houve interferência diferenciada do ferro da dieta, para os dois grupos (Tabela 2). Dentre as fontes mais biodisponíveis de ferro analisadas foi observado alto percentual de consumo de carnes e raro consumo de miúdos. Entre as fontes vegetais destaca-se alto consumo de feijão pela maioria das crianças, mas observou-se um consumo bem menor de hortaliças folhosas verde-escuro. Quanto aos alimentos inibidores da absorção do ferro, o café apareceu como alimento mais freqüentemente consumido.

Na segunda avaliação, observou-se diferença estatisticamente significante entre as variáveis média de Hb, prevalência de anemia, variação da Hb (Hb final subtraída da Hb inicial) e tempo de suplementação (Tabela 3). A maior prevalência de anemia foi encontrada no grupo 2, resultando em risco de 2,11 (IC 95%:1,04; 4,31) vezes maior de uma criança suplementada por este esquema apresentar anemia em comparação àquelas suplementadas com a dose diária (Tabela 4).

A regressão múltipla linear mostrou que os menores valores de Hb também foram encontrados no grupo 2, com em média 0,7 g/dL de Hb a menos que o grupo 1 (p=0,015; IC 95%: 0,1;1,3; erro-padrão=0,3).

Maior percentual de crianças (18,8%) do grupo 2 desenvolveu anemia grave, comparado ao grupo 1 (5,9%), embora não tenha havido diferença estatisticamente significante. Essa variável foi influenciada somente pelo tempo de suplementação, sendo menos prevalente nas crianças com maior tempo de suplementação (Tabela 4).

Já em relação às variáveis interrupção da suplementação, adesão ao suplemento e efeitos adversos não foram encontradas diferenças significantes entre os grupos.

Após a análise multivariada foi calculado o poder entre as variáveis respostas e as covariáveis (administração do sulfato ferroso e tempo de suplementação). O poder do teste para a Hb capilar foi de 0,74, para a anemia de 0,51 e para anemia grave de 0,89. O baixo poder do teste para Hb e anemia explica-se pelo pequeno tamanho amostral ao final do estudo.

 

DISCUSSÃO

A baixa efetividade alcançada por programas de suplementação profilática de anemia implementados no Brasil nos últimos anos ainda constitui desafio para saúde pública, haja vista as elevadas prevalências da doença. A quantidade de ferro elementar administrada e a forma mais adequada de administração para a prevenção da anemia em lactentes ainda são objetos de discussão.

Ainda que, no presente estudo tenham sido observadas reduções nos níveis de Hb nos dois grupos, as maiores médias deste parâmetro e menor prevalência de anemia foram encontradas nas crianças suplementadas diariamente.

Em estudo realizado por Silvae com lactentes não anêmicos, foram comparados dois grupos de suplementação diária a um grupo semanal que seguiu a dosagem de 25 mg de ferro. Após quatro meses de intervenção, encontrou-se maior incidência de anemia no grupo semanal (27,6%) e menores níveis de ferritina sérica, embora não tenha havido diferença estatisticamente significante entre os níveis médios de Hb. Outro estudo realizado para avaliar o impacto do PNSF, porém sem avaliação inicial da Hb dos lactentes, mostrou a falta de efetividade do esquema intermitente proposto pelo Ministério da Saúde. Observou-se somente para o grupo diário aumento médio na concentração de Hb em comparação com o controle, e efeito dose-resposta da suplementação sobre a prevalência de anemia.7

Em contrapartida, estudos realizados por Ferreira et al8 e Monteiro et al12 encontraram bons resultados com a utilização de esquemas semanais de suplementação, recomendando sua utilização. No entanto, esses estudos utilizaram dosagens superiores à preconizada pelo PNSF. Tal achado remete à possível insuficiência da dosagem proposta pelo PNSF/MS e não à inferioridade do esquema semanal com relação ao diário. No presente estudo, verificou-se baixa efetividade da dosagem do PNSF em condições normais de campo e sem supervisão, visto que 43,5% das crianças, inicialmente não anêmicas, desenvolveram a deficiência mesmo sendo suplementadas.

Embora não tenha sido encontrada diferença estatisticamente significante, houve elevado percentual de anemia grave no grupo semanal em comparação ao diário. A anemia grave tem relevância clínica, uma vez que essa escala de anemia contribui diretamente para a mortalidade entre mulheres e crianças.16 Portanto, a continuidade da suplementação é fundamental para a prevenção da anemia grave.

Nesse sentido, o impacto preventivo da suplementação é influenciado pela baixa adesão, além da interrupção precoce do uso do suplemento. Esses aspectos vêm sendo reportados como entraves ao sucesso da suplementação com sais de ferro.14 Neste contexto, foi proposta a dosagem semanal como estratégia para melhorar a adesão, tanto pela menor freqüência de administração, quanto por reduzir efeitos adversos ao medicamento.18

O presente estudo não encontrou diferença estatisticamente significante na presença de efeitos adversos entre o grupo diário e o semanal. Yurdakök et al22 também observaram percentuais similares de ocorrência de efeitos adversos em lactentes suplementados diária e semanalmente, indicando a ausência de benefícios de um esquema frente ao outro.

Além disso, a diferença de avaliação da adesão entre os grupos de suplementação pode ter contribuído para a ausência de diferença estatística observada em relação ao abandono da suplementação e adesão. Cerca de 70% das crianças reavaliadas tiveram boa adesão para as duas formas de suplementação. Não obstante, 33 crianças haviam interrompido a utilização do suplemento e foram excluídas das análises; 82 crianças que não compareceram à reavaliação não foram consideradas no percentual de adesão. O baixo percentual de crianças que completaram o estudo vai ao encontro do trabalho de Bortolini & Vitolo,2 que reportaram limitada adesão à prática da suplementação, tanto no grupo diário (35,7%) quanto no semanal (44,6%).

Ainda, as crianças avaliadas possuíam baixo nível socioeconômico, expondo-as a vários fatores de risco para a anemia,ª constituindo-se em um grupo vulnerável e prioritário. Silva et al15 constataram que as crianças de famílias com renda per capita de até um salário mínimo tiveram risco adicional de 57% de apresentar anemia.

Um dos fatores associados à renda é o baixo consumo de alimentos ricos em ferro, o que não foi encontrado no presente estudo. Ainda que o consumo de frutas cítricas e hortaliças verde-escuras tenha sido superior ao de outros estudos,3,13 o aumento de consumo desses alimentos deve ser estimulado, por serem mais baratos e poderem ser produzidos em hortas familiares.

Embora o presente estudo tenha como foco principal a suplementação medicamentosa profilática, deve-se considerar ainda a possibilidade de desenvolvimento de estratégias inovadoras capazes de reduzir as prevalências de anemia em crianças e que apresentem baixo custo e fácil operacionalização, como fortificações de diferentes alimentos, ou mesmo a veiculação de sulfato ferroso em água de creches e residências.1,6 Qualquer medida de controle da anemia deve estar associada a ações de educação nutricional e sensibilização dos indivíduos envolvidos.

Entre as possíveis limitações do presente estudo está a diferença do tamanho amostral entre os grupos, devido à distribuição das crianças ter sido realizada respeitando-se a exigência do serviço de saúde local, em que todas as crianças não suplementadas anteriormente deveriam ser incluídas na suplementação semanal. Este fato também incorreu em tempo superior de suplementação para o grupo diário, o que poderia constituir-se em um viés. Porém, esta hipótese foi rejeitada pelos resultados das análises estatísticas realizadas.

A ausência de um grupo controle foi importante limitação do estudo, pois restringiu a possibilidade de análises comparativas mais acuradas. Entretanto, considerando a grande vulnerabilidade das crianças, não seria ético negar a suplementação preventiva.

Outra limitação foi a ausência de avaliação de indicadores mais sensíveis da deficiência de ferro como a ferritina sérica e a transferrina, utilizando-se somente da Hb como indicador da anemia. Todavia, considerando que estas análises teriam custo mais elevado e implicariam realização de teste mais invasivo, optou-se por não avaliar esses parâmetros. Isto não comprometeu a comparabilidade dos resultados, pois a maioria dos estudos encontrados utiliza somente a Hb como parâmetro de avaliação da anemia.

O método indireto de avaliação da adesão por meio de entrevistas foi escolhido pelo baixo custo e fácil operacionalização, mas possui o viés da superestimativa da adesão, pois o indivíduo pode esconder do entrevistador a forma como realizou o tratamento. Entretanto, essa limitação é discutível para qualquer tipo de levantamento, pelo constrangimento do entrevistado, sua vontade de responder o que seria correto e pela pressão, mesmo que não intencional, da inquisição.11

As possíveis limitações relatadas não invalidam ou diminuem a relevância clínica da superioridade do esquema diário em comparação ao semanal.

Sendo assim, conclui-se que o esquema diário de ferro na dosagem de 1mg de ferro/kg, recomendada pela SBP, apresentou melhor indicador de impacto sobre os valores médios de Hb e prevalência de anemia quando comparado à dosagem semanal de 25 mg de ferro recomendada pelo PNSF, além de não diferir quanto aos efeitos adversos e adesão ao suplemento. Portanto, a dosagem diária recomendada pela SBP se mostrou mais efetiva na prevenção da anemia em lactentes entre seis e 18 meses de idade.

Entretanto, houve baixa adesão à suplementação nos dois grupos estudados, representada pelo elevado percentual de interrupção da suplementação e pela proporção de utilização incorreta do medicamento. Há necessidade de uma política de sensibilização e conscientização sobre a importância da suplementação profilática com sais de ferro, tanto para mães quanto para profissionais de saúde. Independentemente da dosagem e esquema escolhidos, a conscientização mostra-se como aspecto fundamental para o incremento da adesão à suplementação.

A dosagem semanal recomendada pelo PNSF necessita ser reavaliada, no sentido de aumentar sua efetividade na prevenção de anemia em lactentes atendidos pelos serviços públicos de saúde.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Rosângela Minardi Mitre Cotta
Universidade Federal de Viçosa
Departamento de Nutrição e Saúde
Av. PH. Rolfs, S/N, Campus Universitário
36570-000 Viçosa, MG, Brasil
E-mail: rmmitre@ufv.br

Recebido: 8/1/2009
Revisado: 5/8/2009
Aprovado: 20/8/2009

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Sociedade Brasileira de Pediatria. Temas de nutrição em pediatria. Rio de Janeiro; 2001. (Edição Especial).
b Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual operacional do Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Brasília; 2005 (Série A. Normas e Manuais Técnicos).
c Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Dados populacionais 2007. Brasília; 2007[citado 2008 mar 04]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?ibge/cnv/popmg.def
d Secretaria Municipal de Saúde de Viçosa. Serviço de Vigilância Epidemiológica. Viçosa; 2007.Artigo baseado na dissertação de mestrado de Azeredo CM, apresentada à Universidade Federal de Viçosa, em 2008.
e Silva DG. Prevenção da anemia e da deficiência de ferro no segundo semestre de vida com diferentes suplementações de ferro [tese de
doutorado]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo; 2007.