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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.2 São Paulo Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000200006 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores associados ao uso pesado de álcool entre estudantes das capitais brasileiras

 

Factores asociados al uso pesado de alcohol entre estudiantes de las capitales brasileras

 

 

José Carlos F GaldurózI; Zila van der Meer SanchezII; Emérita Sátiro OpaleyeII; Ana Regina NotoI,II; Arilton Martins FonsecaII; Paulo Leonardo Sirimarco GomesIII; Elisaldo Araújo CarliniII

IDepartamento de Psicobiologia. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). São Paulo, SP, Brasil
IICentro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas. Departamento de Psicobiologia. Unifesp. São Paulo, SP, Brasil
IIIRecuperadora Nacional de Crédito. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a associação entre o uso pesado de álcool entre estudantes e os fatores familiares, pessoais e sociais.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado com estudantes de dez a 18 anos de escolas públicas de 27 capitais brasileiras, em 2004. Os dados foram coletados por meio de questionário anônimo, de autopreenchimento, adaptado de instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde. A amostra representativa, composta por 48.155 estudantes, foi estratificada por setores censitários e por conglomerados (escolas). Associações entre o uso pesado de álcool e os fatores estudados foram analisadas por meio de regressão logística, considerando nível de significância de 5%.
RESULTADOS: Do total de estudantes, 4.286 (8,9%) fizeram uso pesado de álcool no mês anterior à entrevista. A análise por regressão logística mostrou associação entre relações ruins ou regulares com pai (OR=1,46) e mãe (OR=1,61) e uso pesado de álcool. Seguir uma religião (OR=0,83) mostrou-se inversamente associado a este tipo de consumo de álcool. A prática de esportes e o fato de a mãe se percebida como liberal não mostraram significância no modelo. Houve maior prevalência de uso pesado de álcool entre os estudantes que trabalhavam.
CONCLUSÕES: Ligações familiares mais coesas e seguir uma religião podem prevenir o uso abusivo de álcool entre estudantes.

Descritores: Estudantes. Consumo de Bebidas Alcoólicas. Características da Família. Fatores Socioeconômicos. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la asociación entre el uso pesado de alcohol entre estudiantes y los factores familiares, personales y sociales.
MÉTODOS: Estudio transversal realizado con estudiantes de diez a 18 años de escuelas públicas de 27 capitales brasileras, en 2004. Los datos fueron colectados por medio de cuestionario anónimo, de auto-completación, adaptado de instrumento desarrollado por la Organización Mundial de la Salud. La muestra representativa, compuesta por 48.155 estudiantes, fue estratificada por sectores censitarios y por conglomerados (escuelas). Asociaciones entre el uso pesado de alcohol y los factores estudiados fueron analizadas por medio de regresión logística, considerando nivel de significancia de 5%.
RESULTADOS: Del total de estudiantes, 4.286 (8,9%) hicieron uso pesado de alcohol en el mes anterior a la entrevista. El análisis por regresión logística mostró asociación entre relaciones malas o regulares con padre (OR= 1,46) y madre (OR =1,61) y uso pesado de alcohol. Seguir una religión (OR=0,83) se mostró inversamente asociado a este tipo de consumo de alcohol. La práctica de deportes y el hecho de que la madre se perciba como liberal, no mostraron significancia en el modelo. Hubo mayor prevalencia del uso pesado de alcohol entre los estudiantes que trabajaban.
CONCLUSIONES: Uniones familiares más coherentes y seguir una religión pueden prevenir el uso abusivo de alcohol entre estudiantes.

Descriptores: Estudiantes. Consumo de Bebidas Alcohólicas. Composición Familiar. Factores Socioeconómicos. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

As primeiras exposições ao uso de álcool ocorrem freqüentemente na infância e adolescência, período de vulnerabilidade do indivíduo sob o ponto de vista social e psicológico. Nesta fase, é comum a busca por novas experiências, aliadas a comportamentos de impulsividade, ansiedade, insegurança, insatisfação e agressividade.4 O uso de álcool preenche todos os requisitos para complementar uma adolescência em desarmonia: prazer imediato, transgressão, fuga por meio do prazer solitário, jogo com a morte, necessidade de poder, inconformismo, necessidade de liberdade, aceitação e respeito com colegas/amigos.3

Embora a maioria dos adolescentes experimente bebidas alcoólicas, uma pequena parte pode desenvolver um uso problemático, trazendo graves conseqüências para sua vida futura.21 Estudos mostram que a precocidade de uso de álcool é um dos fatores mais relevantes para o beber pesado no futuro.27 No Brasil, o álcool tem uma ampla disponibilidade comercial entre os jovens, ainda que proibido por lei, e figura como elemento de grande aceitação cultural, difundido em todas as classes socioeconômicas.19

Além da vulnerabilidade do adolescente e facilidade de uso de álcool, outros fatores associados ao uso têm sido estudados, como características da relação familiar. Estudos afirmam que maior uso de substâncias pelos filhos está associado a pais que exercem pouco controle sobre os filhos ou não se preocupam com seus hábitos, bem como a falta de diálogos entre eles. Fatores pessoais e sociais como não praticar uma religião, pouca aderência às atividades escolares e pressão de amigos usuários de drogas estão também implicados com consumo abusivo.9

Outros fatores podem estar associadas com o uso ou não uso de substâncias como, por exemplo, trabalhar e praticar esportes. O adolescente que trabalha está mais sujeito a maior uso de drogas. Alguns autores sugerem que este comportamento ocorre pelo contato com adultos no ambiente de trabalho, estresse, baixo compromisso com a escola, aumento de renda, que permitem maior consumo de substâncias e transição precoce para papéis de adulto.24

Embora se associe atividade esportiva a um desenvolvimento de comportamentos saudáveis, evidências apontam uma controvérsia quando se trata de álcool. Alguns estudos indicam o esporte como fator protetor, outros não encontraram qualquer associação e a maioria apresenta uma correlação positiva entre o uso de álcool e atividade esportiva.16

Portanto, conhecer os fatores associados ao uso de drogas por adolescentes pode subsidiar campanhas preventivas e permitir intervenções sobre estes comportamentos.23 Tendo em vista a difusão cultural do consumo do álcool na sociedade, o uso dessa substância deve ser bem investigado entre jovens, objetivando inibir um possível progresso de uso problemático.

O presente estudo teve por objetivo analisar a associação entre o uso pesado de álcool entre estudantes com os fatores familiares, pessoais e sociais.

 

MÉTODOS

Foi realizado um estudo transversal entre estudantes de dez a 18 anos de idade, do ensino fundamental e médio de escolas públicas em todas as capitais brasileiras. Foi calculada uma amostra representativa, estratificada por setores censitários de cada cidade e suas respectivas características socioeconômicas, e por conglomerados, correspondente às escolas selecionadas. Foi realizado sorteio sistemático realizado em duas fases: primeiro por escola, depois por sala de aula, conforme proposto por Kish.12

Os dados foram coletados por meio de um questionário anônimo de autopreenchimento com questões fechadas, adaptado de um instrumento da Organização Mundial da Saúde.22 O questionário foi aplicado em sala de aula, coletivamente e na ausência do professor para diminuir vieses de sub-relato, entre os meses de abril a junho de 2004. Cada sala de aula recebeu apenas uma visita dos aplicadores que, devidamente treinados, explicaram os objetivos do projeto aos estudantes. Para garantir o anonimato, uma urna foi utilizada para que os próprios estudantes depositassem os questionários após preenchimento. O questionário continha questões sobre freqüência e padrão de uso de drogas, bem como dados demográficos, de freqüência escolar, prática esportiva, religião e trabalho. Além disso, foram incluídas no questionário questões sobre relacionamento familiar e percepção quanto ao controle exercido pelos pais. O instrumento apresentava uma escala socioeconômica da Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado. Para aumentar a confiabilidade das respostas, foi incluída no questionário uma questão de uso de droga fictícia.

Alguns procedimentos foram adotados para detectar e corrigir erros de digitação, como respostas com valores impossíveis. Além disso, realizou-se sorteio de 10% do total de cada cidade, para conferir manualmente os questionários de forma integral. Os erros de digitação atingiram no máximo 2% do total de 2.166.975 dados digitados. O fato de cada uma das questões ser composta de vários itens permitiu a realização de testes de coerência interna, por exemplo, responder não ao item "uso na vida" e sim ao "uso no ano" caracterizava um tipo de incoerência e o dado era excluído.

Os questionários com erros de digitação foram corrigidos e as incoerências foram revistas manualmente. Questionários com resposta afirmativa para a droga fictícia ou com mais de três questões anuladas ou em branco foram excluídos da amostra. A composição final da amostra foi de 48.155 estudantes, caracterizados na Tabela 1.

 

 

Foi considerado usuário de uso pesado de álcool o estudante que ingeriu bebida alcoólica por 20 dias ou mais no último mês ou que realizou no mínimo seis episódios de embriaguez no mesmo período. Do total estudado, 4.286 alunos (8,9%) foram classificados como sendo usuário pesado de álcool.

Foram aplicados pesos de distribuição na amostra, permitindo expansão dos dados para a população-alvo. A fração de expansão é dada pela divisão do total de salas de aulas pelo número de escolas da amostra, predizendo que cada estudante tenha a mesma probabilidade de ser incluído na amostra.12

O banco de dados utilizado foi dividido em duas partes: uma com 70% dos registros (base de desenvolvimento) utilizados na estimação dos parâmetros do modelo de regressão logística e, os 30% restantes foram utilizados para validar o modelo (base de validação). A validação consistiu em avaliar estatisticamente a diferença entre os valores do indicador receiver operating characteristic (ROC) a partir das duas sub-amostras.

Inicialmente, como análise preliminar, foi realizada análise bivariada com um nível de significância de 20%, a fim de separar as variáveis que seriam modeladas por regressão logística, para a qual considerou-se um nível de significância de 5%. Todos os procedimentos de regressão logística e validação do modelo utilizaram diretrizes propostas por Hosmer & Lemeshow.10 As variáveis de interesse consideradas foram: gênero, idade, relação com pai e com a mãe, relação entre os pais, percepção quanto ao controle exercido pelo pai e pela mãe, defasagem escolar, religião, esporte e trabalho. Para os cálculos foi utilizado o software de domínio público R (R Project for Statistical Computing).

Os participantes foram orientados quanto à voluntariedade de participar da pesquisa e liberdade em desistir a qualquer momento ou de deixar questões em branco. O termo de consentimento livre e esclarecido foi assinado apenas pelos diretores das escolas. A pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (0718/03).

 

RESULTADOS

Na análise bivariada, todas as variáveis foram significativas a 80% de confiança.

A Tabela 2 apresenta os resultados do modelo da regressão logística final (valores de p, odds ratio e intervalo de confiança), com nível de significância de 5%.

O perfil do estudante com chance potencial de ter feito uso pesado de álcool foi: ter mais de 15 anos de idade, relação ruim ou regular com pai e mãe, pais separados, perceber o pai como liberal, não ter filiação religiosa e ter trabalho formal.

Considerando os valores de p mais significativos (< 0,001) e OR mais distantes de 1,0, os fatores mais associados ao uso pesado de álcool no mês anterior à pesquisa foram: trabalho formal (OR=1,84), idade superior a 15 anos (OR=1,75) e relacionamento ruim ou regular com a mãe (OR=1,61).

O trabalho formal aparece como a variável mais fortemente associada ao uso pesado de álcool por adolescentes. Estudantes com vínculos empregatícios tiveram 84% a mais de chance de ter feito uso pesado de álcool, comparado aos que não tinham trabalho formal.

A prática de esporte e a percepção de ter uma mãe liberal não apresentaram significância estatística e foram desconsiderados. A percepção de personalidade liberal do pai mostrou-se associada ao uso pesado de álcool pelos estudantes (OR=0,87; p=0,01).

Entretanto, das variáveis analisadas sobre a família, a percepção que o estudante tem sobre a personalidade liberal de seu pai não apresentou maior associação com o desfecho, mas sim o relacionamento estabelecido entre eles. Uma relação ruim ou regular com a mãe aumentou em 61% a chance de o adolescente ser usuário pesado de álcool. O mesmo ocorreu numa relação negativa com o pai, embora com menor poder (aumento de 46% da chance). Neste modelo, ser adepto de uma religião diminuiu em 17% a chance de ter feito uso pesado de álcool considerando-se as demais variáveis adotadas na construção do modelo.

A comparação estatística dos valores do indicador ROC entre as bases de desenvolvimento e validação indicou não haver diferença estatística entre as duas curvas ROC avaliadas (p=0,76).

 

DISCUSSÃO

A utilização de questionário de autopreenchimento em sala de aula é o método mais utilizado para identificar prevalência de uso de drogas entre estudantes por ser economicamente mais viável, ter baixo índice de recusa e garantia de anonimato.22 No entanto, apresenta algumas limitações. Primeiramente, a avaliação em sala de aula pode excluir estudantes que abandonaram a escola ou que faltaram no dia da aplicação do questionário, uma vez que podem se ausentar freqüentemente ou apresentar problemas graves em decorrência do uso de substâncias. Além disso, as respostas obtidas são relatos de consumo de drogas, e não medidas do consumo em si, o que pode levar a sub-relato dos casos reais por receio de fornecer a informação ou super-relato por falsidade dos dados.

Da mesma forma, os resultados não podem ser extrapolados à realidade dos estudantes de ensino privado no Brasil, pois representa apenas a população estudantil da rede pública.

O uso cultural de álcool é permissivo no Brasil, sendo sua publicidade bastante apreciada por sua qualidade e criatividade. Adolescentes e adultos jovens estão particularmente expostos a ela, sendo inclusive sua população-alvo.17 O consumo de bebidas alcoólicas no Brasil só é legalmente permitido para maiores de 18 anos de idade; no entanto, não há efetividade no cumprimento desta lei e adolescentes podem facilmente comprar bebidas alcoólicas.13

Adolescentes que consomem bebidas alcoólicas podem ter conseqüências negativas diversas, desde problemas sociais e nos estudos, até maiores agravantes como praticar sexo sem proteção e/ou sem consentimento, maior risco de suicídio ou homicídio e acidentes relacionados ao consumo.8 Nesse sentido, diversas pesquisas têm buscado identificar fatores associados ao uso de álcool e outras drogas nesta faixa etária da população.18 Numa amostra representativa dos estudantes de escolas públicas das capitais brasileiras, 8,9% dos adolescentes terem feito uso pesado de álcool no mês anterior à pesquisa pode ser um indício de uma séria questão de saúde pública.

Estudos em adultos indicam que indivíduos do sexo masculino estão mais propensos a uso pesado de álcool e a ter maiores prejuízos em decorrência de seu uso, enquanto as mulheres sofrem mais com a violência relacionada a seu consumo.a Os dados desse levantamentoa apontam leves diferenças entre os gêneros quanto ao consumo pesado de álcool, no qual meninos têm 10% a mais de chance de beber pesado em comparação às meninas. No entanto, dados recentes de um levantamento epidemiológico entre estudantes norte-americanos não encontraram diferenças significativas no consumo pesado de álcool entre o sexo feminino e masculino.6

Fatores de estrutura e relacionamento familiar têm sido extensivamente estudados em relação ao uso de álcool.5 Corroborando outras pesquisas, o presente estudo mostrou que o uso pesado de álcool teve associação com mau relacionamento com pai e mãe, percepção de que o pai é liberal e ter pais separados.26 No entanto, a força de associação entre o relacionamento com os pais e o consumo pesado de álcool foi maior naqueles cujos pais transpareceram ser liberais, sugerindo que a qualidade da relação deve ser mais valorizada frente a comportamentos que visam monitorar o adolescente. Ver os pais como liberais pode ser uma forma de mascarar relacionamentos de incompreensão, rejeição ou abandono.26

Similar ao encontrado na literatura,25 ser afiliado a qualquer religião se mostra associado negativamente ao maior consumo de álcool entre adolescentes e jovens. Não estão claros ainda quais os mecanismos mais implicados nesta constatação: aspectos de domínio público da religião, como a participação em grupos religiosos1 ou o caráter relativo ao domínio privado, como a prece individual e a importância dada à religião.15 Um dos poucos estudos qualitativos sobre o tema corrobora achados quantitativos, indicando que a maior diferença entre adolescentes brasileiros de classe social baixa usuários e não-usuários de drogas era a religiosidade desse e de sua família. Nesse estudo os autores observaram que 81% dos não-usuários de drogas praticavam a religião professada por vontade própria e admiração e que apenas 13% dos usuários de drogas faziam o mesmo.20

Lorente et al14 (2004) encontraram uma relação positiva entre o uso de álcool por estudantes franceses praticantes de algum esporte, sendo mais evidente ainda entre os que praticavam esportes coletivos frente aos esportes individuais. Da mesma forma, Eitle et al7 (2003) concluíram que havia maior força de associação entre os estudantes que jogavam futebol. Por outro lado, em nosso estudo, praticar esportes não esteve associado ao uso pesado de álcool por adolescentes. Uma possível hipótese para este resultado foi uma limitação da interpretação da questão pelos alunos, que podem ter considerado a prática de educação física, disciplina obrigatória nas escolas, como "prática de esportes", dado o elevado número de respostas positivas para esta questão.

Entretanto, apesar da associação positiva entre a atividade esportiva e uso de álcool, esta relação parece variar em função de fatores como raça, sexo, identidade, o tipo de esporte, o número de participantes e da atividade extracurricular padrão.16 Sendo assim, estudos mais aprofundados sobre esse tema devem ser incentivados, preferencialmente com metodologia qualitativa.

O uso pesado de álcool foi maior entre os estudantes que trabalham comparado aos que não trabalham. Esse tema também não é consenso na literatura. Alguns estudos postulam que o adolescente que não trabalha é inclinado a gastar seu tempo livre com álcool e outras drogas,2 enquanto outros afirmam que o trabalho é um fator de risco para o uso de substâncias entre adolescentes.11

No presente estudo, trabalhar apresenta-se como o fator mais fortemente associado ao uso pesado de álcool, seguido da idade superior a 15 anos. O maior acesso à compra de bebidas alcoólicas devido à renda própria possivelmente é um dos fatores implicados no consumo pesado de álcool maior entre adolescentes trabalhadores. Outro motivo seria o tempo de exposição a um ambiente extra-familiar, que aliado à assunção de papéis adultos, promoveria uma independência precoce e afastamento da supervisão dos pais, fator previamente discutido como associado ao uso pesado de álcool.23,24

Concluindo, a despeito de suas limitações como estudo transversal, o presente estudo identificou que o uso pesado de álcool entre estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública das capitais brasileiras está associado a variáveis pessoais e familiares. Enquanto manter um bom relacionamento com os pais e seguir uma religião parecem negativamente associados ao uso pesado de álcool, trabalhar se mostrou como o fator mais positivamente associado. A prevenção deste comportamento não depende apenas de programas por parte do poder público ou privado, mas também do fortalecimento da estrutura familiar e vínculo religioso.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
José Carlos F. Galduróz
R. Napoleão de Barros 925
Vila Clementino
04024-002 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: galduroz@psicobio.epm.br

Recebido: 9/3/2009
Revisado: 16/7/2009
Aprovado: 5/8/2009
Pesquisa financiada pela Secretaria Nacional Antidrogas da Presidência da República Federativa do Brasil (Convênio nº 11/2004).

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Pyne HH, Claeson M, Correia M. Gender dimensions of alcohol consumption and alcohol-related problems in Latin America and the Caribbean. Washington: The World Bank; 2002. (World Bank Discussion Paper, 433).

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