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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.3 São Paulo June 2010 Epub May 07, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010005000009 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Fatores associados à incapacidade funcional dos idosos no Brasil: análise multinível

 

Factores asociados a la incapacidad funcional de los ancianos en Brasil: análisis multinivel

 

 

Luciana Correia AlvesI; Iúri da Costa LeiteII; Carla Jorge MachadoIII

ICentro de Saúde Escola Germano Sinval Faria. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP). Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIDepartamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. ENSP. Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIICentro de Desenvolvimento e Planejamento Regional. Faculdade de Ciências Econômicas. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a influência dos fatores demográficos, socioeconômicos, de condições de saúde e do contexto das unidades da federação na incapacidade funcional dos idosos.
MÉTODOS: Estudo transversal que utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A amostra foi constituída de 33.515 indivíduos com 60 anos ou mais de idade. A variável dependente foi a incapacidade funcional, mensurada pela dificuldade por subir ladeira ou escada. As variáveis independentes foram divididas em dois níveis: individual (características demográficas, socioeconômicas e relativas à saúde) e de contexto (Índice de Gini e Produto Interno Bruto per capita por unidade da federação em 2000). Um modelo de regressão logística multinomial multinível foi utilizado para estimar o efeito das variáveis independentes na incapacidade funcional dos idosos.
RESULTADOS: A incapacidade funcional foi associada com fatores demográficos, socioeconômicos e de saúde. Em nível individual, o sexo, a educação, a renda, a ocupação, a autopercepção de saúde e as doenças crônicas foram os fatores mais fortemente relacionados. Em nível de contexto, a desigualdade de renda exibiu uma importante influência.
CONCLUSÕES: A autopercepção de saúde é o fator mais fortemente relacionado com a incapacidade funcional dos idosos no Brasil, seguida das doenças crônicas. Sexo, ocupação, escolaridade e renda também são altamente associados. Ações que abordam os principais fatores associados à incapacidade funcional podem contribuir significativamente para o bem-estar e qualidade de vida dos idosos.

Descritores: Idoso. Idoso Fragilizado. Capacidade funcional. Fatores Socioeconômicos. Análise Multinível. Estudos Transversais. Saúde do Idoso. Qualidade de Vida.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la influencia de los factores demográficos, socioeconómicos, de condiciones de salud y del contexto de las unidades de la federación en la incapacidad funcional de los ancianos.
MÉTODOS: Estudio transversal que utilizó datos de la Pesquisa Nacional por Muestra de Domicilio (PNAD) de 2003, del Instituto Brasilero de Geografía y Estadística y del Instituto de Pesquisa Económica Aplicada. La muestra fue constituida de 33.515 individuos con 60 años o más de edad. La variable dependiente fue la incapacidad funcional, medida por la dificultad para subir ladera o escalera. Las variables independientes fueron divididas en dos niveles: individual (características demográficas, socioeconómicas y relativas a la salud) y de contexto (Índice de Gini y Producto Interno Bruto per capita por unidad federación en 2000). Un modelo de regresión logística multinomial multinivel fue utilizado para estimar el efecto de las variables independientes en la incapacidad funcional de los ancianos.
RESULTADOS: La incapacidad funcional fue asociada con factores demográficos, socioeconómicos y de salud. En nivel individual, el sexo, la educación, la renta, la ocupación la autopercepción de salud y las enfermedades crónicas fueron los factores más fuertemente relacionados. En nivel de contexto, la desigualdad de renta exhibió una importante influencia.
CONCLUSIONES: La autopercepción de salud es el factor más fuertemente relacionado con la incapacidad funcional de los ancianos en Brasil, seguido por las enfermedades crónicas. Sexo, ocupación, escolaridad y renta también son altamente asociados. Acciones que abordan los principales factores asociados a la incapacidad funcional pueden contribuir significativamente para el bienestar y calidad de vida de los ancianos.

Descriptores: Anciano. Anciano Frágil. Acondicionamiento Físico. Capacidad funcional. Factores Socioeconómicos. Análisis Multinivel. Estudios Transversales. Salud del Anciano. Calidad de Vida.


 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil vem sofrendo um rápido e acentuado processo de envelhecimento e de aumento da longevidade populacional. Com a aceleração desse processo, há um aumento da prevalência das doenças crônico-degenerativas e da incapacidade funcional.1

A incapacidade funcional pode ser definida pela dificuldade ou necessidade de ajuda para o indivíduo executar tarefas cotidianas básicas ou mais complexas necessárias para uma vida independente na comunidade, como, por exemplo, tarefas relacionadas à mobilidade.2 Embora a presença de doenças crônicas seja importante, suas conseqüências funcionais possuem implicações mais visíveis e perceptíveis para os idosos, uma vez que o prejuízo funcional ocasiona maior vulnerabilidade e dependência na velhice.12

A incapacidade funcional do idoso pode ser determinada pelas atividades de vida diária (AVD), pelas atividades instrumentais de vida diária (AIVD) e pela mobilidade física.2

Fatores individuais têm sido apontados como responsáveis pelo processo de incapacidade funcional. Estudos prévios mostram que o declínio funcional está relacionado com fatores demográficos, socioeconômicos e de condições de saúde.1,4,5,6 Entretanto, são poucos os estudos no Brasil que focalizam a relação dos determinantes da incapacidade funcional entre os idosos.8,19,24

Contextualmente, as condições socioeconômicas podem explicar as variações regionais e a grande diversidade nos níveis de saúde e incapacidade funcional entre os idosos. A desigualdade de renda pode ocasionar efeitos contextuais ou extraindividuais, no ambiente social, que afetam a saúde. Para Porell & Miltiades21 (2002), o impacto de condições socioeconômicas adversas na saúde dos indivíduos é maior nas regiões com elevada desigualdade na distribuição de renda. Segundo Kaplan et al13 (1996), elevada desigualdade de renda mensurada em nível nacional, estadual ou de comunidade está associada com pior saúde da população.

O Brasil está entre os países com graus mais elevados de desigualdade social. Estudo utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) indicou que a capacidade funcional dos idosos é fortemente influenciada pela situação socioeconômica.15 É provável que os indivíduos que residam em áreas com melhores condições socioeconômicas apresentem maior acesso aos bens e serviços médicos e, conseqüentemente, sejam capazes de manter uma boa saúde e capacidade funcional ao longo do tempo.21 Contudo, não existem no Brasil estudos que investiguem as relações entre as desigualdades socioeconômicas das unidades da federação (estados e Distrito Federal), importantes espaços geográficos de aplicação das políticas públicas, e incapacidade funcional dos idosos.

O objetivo do presente estudo foi analisar a influência dos fatores demográficos, socioeconômicos, de condições de saúde e de contexto das unidades da federação na incapacidade funcional dos idosos.

 

MÉTODOS

Estudo transversal desenvolvido com base em dados da PNAD-2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)ª e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).b Em 1998, a PNAD incluiu em seu questionário um suplemento saúde cujas informações deveriam ser coletadas a cada cinco anos, sendo 2003 a informação mais recente disponível.

Este estudo incluiu indivíduos com 60 anos ou mais de idade, cujos dados foram obtidos pela PNAD por meio de entrevistas domiciliares. Foram excluídos 1.527 idosos que deixaram de responder às perguntas das variáveis do estudo. A amostra estudada foi composta por 33.515 idosos.

A variável dependente foi a incapacidade funcional. Para mensurá-la foi utilizada a variável de mobilidade física "habilidade para subir ladeira ou escada", considerada um indicador robusto do declínio funcional futuro entre os idosos.12 Ademais, a escolha pelo indicador de mobilidade física em detrimento das AVD decorre da sua capacidade de detectar um estágio precoce das perdas funcionais, permitindo a discriminação da incapacidade na comunidade.17 O entrevistado respondeu à seguinte pergunta: "Tem dificuldade, normalmente, para subir ladeira ou escada?". Quatro categorias foram utilizadas na classificação quanto à incapacidade funcional: não tem dificuldade, tem pequena dificuldade, tem grande dificuldade e não consegue.

As variáveis independentes foram subdivididas em dois níveis: individual e de contexto. Em nível individual, as variáveis foram classificadas em três blocos: o demográfico, o socioeconômico e o de saúde. As variáveis demográficas foram: idade (considerada como contínua porque a perda da incapacidade guarda uma relação direta com o avançar da idade), sexo, arranjo familiar [mora sozinho(a) e mora acompanhado(a)], raça/cor (branca, preta e parda) e situação de domicílio (urbana e rural). Na PNAD, os indivíduos se autoclassificam quanto à raça/cor em: branco, preto, amarelo, pardo e indígena. Foram excluídos os indígenas, amarelos e os que não declararam a raça/cor porque possuíam freqüência relativa inferior a 1%. As variáveis socioeconômicas foram: escolaridade (sem escolaridade, 1-4, 5-8, 9-11 e 12 anos ou mais de estudo), renda mensal familiar (menor que um salário mínimo, um a três, três a cinco, cinco a dez e dez ou mais salários mínimos) e ocupação [ocupado(a) e não-ocupado(a)]. O salário mínimo se refere ao valor de abril de 2003 (R$ 240,00). As variáveis de saúde incluídas foram: a autopercepção de saúde (muito bom, bom, regular, ruim e muito ruim), presença de artrite/reumatismo, câncer, hipertensão, diabetes, bronquite/asma, doença cardíaca, insuficiência renal crônica, depressão, problema na coluna, tuberculose, tendinite/tenossinovite e cirrose auto-referido (dicotomizado em sim e não), internações hospitalares nos últimos 12 meses (sim e não) e filiação a plano privado de saúde (sim e não).

As variáveis independentes de contexto incluídas foram: Índice de Gini b e Produto Interno Bruto (PIB)c per capita por unidade da federação (UF) em 2000.

De acordo com Pinheiro & Torres20 (2006), indivíduos residentes na mesma UF são mais semelhantes no que se refere aos problemas de saúde quando comparados àqueles residentes em outra UF, por serem submetidos ao mesmo contexto (condições socieconômicas, fatores culturais, entre outros). Assim sendo, dentro da UF as observações não seriam independentes e haveria violação dos pressupostos dos modelos tradicionais de regressão. Tendo em vista que a estrutura dos dados é hierárquica e a variável dependente possui quatro categorias, para estimar a associação entre a incapacidade funcional e as variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde utilizou-se o modelo de regressão logística multinomial multinível, com o primeiro nível representado pelos indivíduos e, o segundo, pelas UF.9

Inicialmente, realizou-se análise de regressão logística multinomial univariada com as variáveis do nível individual. As variáveis estatisticamente significativas (p < 0,25) na análise de regressão univariada foram selecionadas para a análise multivariada. Na análise multivariada foram incluídas primeiramente as variáveis do nível individual e, em seguida, as variáveis do nível do contexto com os coeficientes fixos. A avaliação do efeito das variáveis de contexto na incapacidade funcional foi realizada pela análise da significância estatística (p < 0,05) do seu coeficiente e da redução da variância do efeito aleatório, comparativamente ao modelo apenas com as características dos indivíduos.

Os resultados do modelo final (variáveis individuais e contextuais) foram interpretados em probabilidades, calculadas para cada variável estatisticamente significativa (p < 0,05), tendo as demais variáveis centradas na média.23 O software MLwiN foi utilizado para as análises dos dados.22

 

RESULTADOS

A idade dos idosos variou de 60 a 106 anos (Tabela 1), e as idades média e mediana foram 69,8 e 68 anos, respectivamente (DP = 7,7). A população era predominantemente feminina (56,1%) e 87,1% dos idosos moravam acompanhados; 84,2% residia em área urbana; 55,7% referiu sua cor como branca; 37,8% não tinha escolaridade; 37,5% recebia de um a três salários mínimos; 32,8% era ocupado. Quanto aos aspectos de saúde 35% avaliou sua saúde como boa; 12,7% relatou internação hospitalar nos últimos 12 meses e 28% possuía plano de saúde. A hipertensão arterial foi a doença crônica mais freqüente (48,9%), seguida por problema na coluna (36,8%), artrite/reumatismo (28,5%), doença cardíaca (17,4%) e diabetes (12,9%) (Tabela 1).

 

 

As estimativas dos coeficientes dos efeitos fixos e aleatórios dos modelos com as variáveis do nível do indivíduo e modelo final estão na Tabela 2. O modelo com as variáveis do nível do indivíduo mostrou que parte da variabilidade na probabilidade de o idoso ter pequena dificuldade, grande dificuldade e não conseguir subir ladeira ou escada foi explicada pelo nível da UF (σ2j = 0,054; 0,091; 0,150; p < 0,05, respectivamente).

Controlados os fatores do nível do contexto, houve redução de 13%, 36,3% e 36,7% da variância do efeito aleatório, que continuou estatisticamente diferente de zero para as três categorias da variável dependente, indicando ainda existir variabilidade no nível contextual, que poderia ser reduzida com a inclusão adicional de variáveis desse nível no modelo. A inclusão das variáveis de contexto no modelo não ocasionou modificações importantes nas estimativas dos coeficientes das variáveis individuais.

A interpretação do modelo final foi feita em termos de probabilidades (Tabela 3). A probabilidade de o indivíduo conseguir subir ladeira ou escada diminuiu com o avançar da idade (0,60 aos 60 anos e 0,24 aos 85 anos) e aumentou na categoria não consegue (0,04 aos 60 anos e 0,21 aos 85 anos). O sexo feminino exibiu maior probabilidade de possuir grande dificuldade (0,21) e não conseguir (0,09) comparativamente aos homens (0,15 e 0,07, respectivamente). A probabilidade de os idosos que moravam acompanhados não conseguirem realizar a atividade foi maior relativamente aos que moravam sozinhos (0,08 e 0,06, respectivamente). Quanto à situação de domicílio, os idosos que residiam no meio rural apresentaram maior probabilidade de não conseguirem comparativamente aos residentes no meio urbano (0,10 e 0,08, respectivamente). Ter cor de pele preta e parda reduziu a probabilidade de os idosos não conseguirem (0,07). Quanto à escolaridade e à renda, com o aumento dos níveis, aumentou a probabilidade de os idosos conseguirem realizar a atividade. Renda menor que um salário mínimo aumentou a probabilidade de não conseguirem (0,09). Os idosos ocupados caracterizaram-se por menor probabilidade de possuírem grande dificuldade (0,15) em relação aos não-ocupados. Já os idosos não-ocupados apresentaram probabilidade elevada (0,11) de não conseguirem em comparação aos ocupados (0,04).

Relativamente aos indicadores de saúde, os idosos que autoperceberam a sua saúde como ruim (0,25) e muito ruim (0,43) eram muito mais propensos a não conseguirem realizar a atividade. Quanto às doenças crônicas, a ausência de problema na coluna aumentou a probabilidade (0,49) de os idosos conseguirem subir ladeira ou escada. Os portadores de artrite, diabetes, bronquite, hipertensão, doença cardíaca, insuficiência renal crônica, depressão e tuberculose apresentaram probabilidade aumentada de ter grande dificuldade (probabilidades de 0,24; 0,21; 0,27; 0,20; 0,25; 0,22; 0,21; 0,32, respectivamente) em comparação àqueles sem essas doenças (probabilidades de 0,16; 0,18; 0,18; 0,17; 0,17; 0,18; 0,18; 0,18, respectivamente). A presença de câncer aumentou a probabilidade de não conseguirem (0,11) realizar a atividade em comparação àqueles que não a possuíam (0,08). Tendinite e cirrose não mostraram associação estatisticamente significativa. No caso de ocorrência de internações hospitalares nos últimos 12 meses, os idosos mostraram probabilidade elevada de grande dificuldade (0,22) de não conseguirem subir ladeira ou escada (0,15) relativamente aos que não estiveram internados (0,18 e 0,07, respectivamente). Idosos que possuíam plano de saúde tiveram probabilidade inferior de apresentarem grande dificuldade (0,16) para realizar a tarefa, comparativamente aos que não tinham (0,19).

No que tange às variáveis de contexto, o Índice de Gini em 2000 apresentou associação estatisticamente significativa com a incapacidade funcional dos idosos.

Os idosos que residiam em UF com níveis maiores de desigualdade econômica exibiram probabilidades mais elevadas de ter grande dificuldade (0,21) ou não conseguir (0,09) subir ladeira ou escada em comparação aos idosos residentes em Estados com menores desvantagens econômicas (0,16 e 0,07, respectivamente). O PIB em 2000 não mostrou efeito estatisticamente significativo na incapacidade funcional dos idosos.

Na Tabela 4 são apresentadas as probabilidades para as categorias da variável sexo, considerando-se diferentes níveis do efeito aleatório na categoria ter grande dificuldade. Em áreas situadas na média, a probabilidade de uma mulher apresentar grande dificuldade revelou-se 45% maior relativamente àquela dos homens (0,214/0,147). Entretanto, essa probabilidade pode aumentar consideravelmente se compararmos mulheres residentes em áreas situadas a dois DP acima da média com homens residentes em áreas situadas a 2 DP abaixo da média (218%). Devido à sobreposição, a probabilidade de apresentar grande dificuldade pode ser maior entre os homens se compararmos, por exemplo, homens residentes em UF a 2 DP acima da média (0,218) com mulheres residentes em UF situadas a dois DP abaixo da média (0,144).

 

 

DISCUSSÃO

O modelo de regressão logística multinomial possibilitou desagregar a capacidade funcional em mais de duas categorias.1 Alguns aspectos, entretanto, limitam o uso desses modelos. Em primeiro lugar, a incapacidade funcional poderia ser entendida como ordenada e o risco ser estimado em relação à categoria imediatamente anterior. Contudo, ainda que exista uma ordenação subjacente, a comparação dos tipos de incapacidade com a capacidade plena permite avaliar o efeito das diversas variáveis, tendo a mesma linha de base de comparação, o que faz sentido, pois, idealmente, todos os idosos poderiam ser capazes. Outro aspecto importante do processo de modelagem foi a utilização de modelos multiníveis que permitiram estimar de forma mais precisa os parâmetros associados com as variáveis individuais e as contextuais simultaneamente.

Em nível individual, os resultados indicam que a incapacidade funcional esteve altamente associada com o sexo. As mulheres idosas eram mais prováveis de apresentar maior prejuízo funcional do que os homens, resultados que corroboram os de Giacomin et al8 (2008). Algumas hipóteses poderiam explicar essa diferença. A primeira está associada à maior sobrevivência das mulheres. A segunda refere-se à maior prevalência de condições incapacitantes não-fatais entre as mulheres. A terceira seria atribuída à habilidade de a mulher reportar maior número de condições de saúde em relação aos homens da mesma idade.18

O presente estudo mostrou que o avançar da idade aumentou a probabilidade de o idoso apresentar comprometimento da capacidade funcional, concordando com estudos prévios.11,16

A raça/cor preta e parda se mostrou fator protetor da incapacidade funcional, contradizendo os achados de Guralnik & Kaplan10 (1989) nos EUA. É possível que idosos pretos e pardos em nosso estudo fossem mais saudáveis relativamente aos brancos, dado que aqueles com pior saúde podem ter experimentado maiores taxas de mortalidade. Cabe lembrar que no Brasil raça/cor está diretamente associada com a situação socioeconômica do indivíduo.

Residir em área urbana foi fator protetor para a incapacidade funcional, contradizendo resultados de Parahyba et al19 (2005) no Brasil. É provável que os idosos que residam em áreas urbanas apresentem melhores condições de vida, maior disponibilidade e acesso aos serviços preventivos e de assistência médica básica ou especializada.

Morar acompanhado revelou-se fator determinante para a incapacidade funcional. Idosos que moram acompanhados são mais prováveis de não conseguirem subir ladeira ou escada comparativamente aos que moram sozinhos. Nossos achados corroboram os de Rosa et al24 (2003), sugerindo que idosos que moram sozinhos provavelmente são mais saudáveis e independentes.

Quanto maiores o nível educacional e a renda, menor a probabilidade de o idoso reportar uma pior capacidade funcional, o que confirma achados prévios.4,15 A educação determina diversas vantagens para a saúde porque influencia fatores psicossociais e de comportamento.7 Indivíduos idosos com nível educacional mais elevado são menos prováveis de se expor aos fatores de risco para doenças e de se submeter a condições de trabalho inadequadas. Maior educação favorece o acesso a: informações, modificação do estilo de vida, adoção de hábitos saudáveis e procura dos serviços de saúde.25 Provavelmente, os idosos mais pobres procuram menos os serviços de saúde, possuem pouco acesso aos tratamentos e medicamentos. A ocupação também exerce efeito protetor. O idoso ocupado tem menor probabilidade de apresentar pior capacidade funcional. Esses resultados estão de acordo com os reportados por Cheng et al6 (2002) nos quais indivíduos idosos ocupados apresentam poucas dificuldades com as atividades de vida diária quando comparados àqueles que não trabalham. É razoável supor que idosos que trabalhem sejam mais independentes e saudáveis.

Em relação à autopercepção de saúde, a probabilidade do grau de dependência aumentar foi maior para os idosos que avaliaram a sua saúde como ruim, confirmando achados prévios.14

As doenças crônicas apresentaram forte influência na capacidade funcional do idoso. Alves et al1 (2007) investigaram a influência das doenças crônicas na capacidade funcional dos residentes do município de São Paulo, SP, em 2000, observando que as condições crônicas exerciam significativa influência na dependência funcional e que a doença cardíaca, a doença pulmonar, a hipertensão e a artropatia apresentaram os maiores efeitos.

Quanto às internações, as associações encontradas foram coincidentes com as do estudo de Boyd et al5 (2005), no qual os idosos se tornaram mais vulneráveis ao declínio funcional e à dependência após a hospitalização.

Observou-se importante relação entre filiação a plano de saúde e incapacidade funcional. Os idosos filiados a plano de saúde tiveram menor probabilidade de não conseguirem subir ladeira ou escada. Embora não tenha sido encontrada literatura sobre a relação entre plano de saúde e incapacidade funcional do idoso, é provável que indivíduos com plano de saúde procurem mais freqüentemente os serviços de saúde e tenham maior adesão aos tratamentos, contribuindo para uma melhora na capacidade funcional.

Os resultados mostraram efeito da desigualdade de renda das UF sobre a incapacidade funcional dos idosos, mesmo quando controlada pelo nível médio de renda (PIB). Embora haja ampla literatura sobre a relação entre desigualdade de renda e estado de saúde, os estudos ainda são escassos no Brasil. Os principais resultados indicam ausência de relação entre desigualdade de renda e estado de saúde. Entretanto, Noronhad (2005) possui achados que revelam que os indivíduos que residem em localidades mais desiguais têm menores chances de serem saudáveis, efeito este que expressaria mais as características associadas ao contexto em que o indivíduo está inserido do que a privação de recursos materiais ou o menor poder de compra pelos indivíduos mais pobres.

Outros achados do presente estudo mostram que os idosos que residem em estados mais desiguais têm maior probabilidade de apresentarem prejuízo funcional. Os mecanismos pelos quais a desigualdade de renda afeta a incapacidade funcional no Brasil podem ser explicados considerando as particularidades da realidade brasileira. O País apresenta uma das piores distribuições de renda do mundo e é caracterizado pela presença de desigualdades tanto individuais como regionais, definindo, de um lado, localidades e regiões mais ricas, com indicadores socioeconômicos e de saúde semelhantes ao de economias mais desenvolvidas, e, de outro lado, localidades e regiões muito pobres, como as observadas nas UF do Norte e Nordeste do País. A presença dessas desigualdades resulta em distribuição desigual de recursos entre as localidades e, conseqüentemente, acesso menos eqüitativo a bens e serviços importantes para o nível de saúde do indivíduo e da população, tais como serviços de saúde, educação e saneamento básico.3

A investigação da relação entre incapacidade funcional e fatores individuais e contextuais relacionados à situação econômica é relevante, devido às profundas disparidades socioeconômicas observadas entre os indivíduos e entre os estados. Não encontramos na literatura brasileira referência a estudo que avalia o efeito da desigualdade de renda sobre a incapacidade funcional nas UF e analisa as características dos indivíduos e de contexto, considerando a estrutura hierárquica dos dados.

Mesmo após controlar por variáveis do nível do contexto, verificou-se a existência de variabilidade ainda a ser explicada. Desse modo, futuras pesquisas poderiam investigar outros importantes aspectos do nível do contexto relacionados à incapacidade funcional dos idosos no Brasil.

Quanto às limitações do estudo, os poucos trabalhos sobre análise multinível e incapacidade funcional na literatura internacional, a ausência de estudos no Brasil e a diferença quanto às variáveis de contexto utilizadas na análise dificultaram a comparação entre os presentes achados. Outra limitação refere-se ao desenho transversal, impossibilitando inferências causais.

A identificação de fatores associados com a incapacidade funcional dos idosos fornece elementos relevantes para as medidas de prevenção e intervenção e é fundamental na sociedade atual. O estudo sugere que políticas focalizadas para a redução das desigualdades sociais e econômicas devem ser incentivadas, como por exemplo: garantir a educação nas fases iniciais da vida e a continuidade do idoso no mercado de trabalho. Finalmente, o presente estudo reforça a importância de estratégias voltadas à manutenção da saúde e de uma vida livre de incapacidade, com ações de ordem preventiva e a organização do sistema de saúde de forma a atender às necessidades reais dessa parcela da população que mais cresce no País, possibilitando que os indivíduos possam envelhecer de forma mais saudável, vivendo os anos adicionais de vida com qualidade.

 

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Correspondência | Correspondence:
Luciana Correia Alves
Sala da Coordenação de Ensino e Pesquisa
CSEGSF
R. Leopoldo Bulhões, 1480 - Manguinhos
21041-210 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: luciana.alves@ensp.fiocruz.br

Recebido: 4/2/2009
Aprovado: 4/12/2009
LC Alves foi apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo nº 141861/2005-3; bolsa de doutorado).

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio 2003 - Disponível em CD-ROM.
b Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. [internet] [citado 2008 abr 21] Disponível em: http://www.ipeadata.gov.br/ipeaweb.dll/ipeadata?65370046
c Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produto interno bruto dos municípios: 1999-2002 [internet]. Rio de Janeiro, 2005 (Contas nacionais, 14). [citado 2008 abr 23] Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/pibmunicipios/2002/pibmunic2002.pdf
d Noronha KVMS. A relação entre o estado de saúde e a desigualdade de renda no Brasil [tese de doutorado]. Belo Horizonte: Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais; 2005.