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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.3 São Paulo June 2010  Epub May 14, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010005000012 

Inquérito de saúde: comparação dos entrevistados segundo posse de linha telefônica residencial

 

Pesquisa de salud: comparación de los entrevistados según pose de línea telefónica residencial

 

 

Neuber José SegriI; Chester Luiz Galvão CesarI; Marilisa Berti de Azevedo BarrosII; Maria Cecilia Goi Porto AlvesIII; Luana CarandinaIV; Moisés GoldbaumV

IDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IIIInstituto de Saúde. Secretaria de Estado da Saúde. São Paulo, SP, Brasil
IVDepartamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina de Botucatu. Universidade Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil
VDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina. USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar diferenças quanto a características sociodemográficas e relacionadas à saúde entre indivíduos com e sem linha telefônica residencial.
MÉTODOS: Foram analisados os dados do Inquérito de Saúde (ISA-Capital) 2003, um estudo transversal realizado em São Paulo, SP, no mesmo ano. Os moradores que possuíam linha telefônica residencial foram comparados com os que disseram não possuir linha telefônica, segundo as variáveis sociodemográficas, de estilo de vida, estado de saúde e utilização de serviços de saúde. Foram estimados os vícios associados à não-cobertura por parte da população sem telefone, verificando-se sua diminuição após a utilização de ajustes de pós-estratificação.
RESULTADOS: Dos 1.878 entrevistados acima de 18 anos, 80,1% possuía linha telefônica residencial. Na comparação entre os grupos, as principais diferenças sociodemográficas entre indivíduos que não possuíam linha residencial foram: menor idade, maior proporção de indivíduos de raça/cor negra e parda, menor proporção de entrevistados casada, maior proporção de desempregados e com menor escolaridade. Os moradores sem linha telefônica residencial realizavam menos exames de saúde, fumavam e bebiam mais. Ainda, esse grupo consumiu menos medicamentos, auto-avaliou-se em piores condições de saúde e usou mais o Sistema Único de Saúde. Ao se excluir da análise a população sem telefone, as estimativas de consultas odontológicas, alcoolismo, consumo de medicamentos e utilização do SUS para realização de Papanicolaou foram as que tiveram maior vício. Após o ajuste de pós-estratificação, houve diminuição do vício das estimativas para as variáveis associadas à posse de linha telefônica residencial.
CONCLUSÕES: A exclusão dos moradores sem linha telefônica é uma das principais limitações das pesquisas realizadas por esse meio. No entanto, a utilização de técnicas estatísticas de ajustes de pós-estratificação permite a diminuição dos vícios de não-cobertura.

Descritores: Levantamentos Epidemiológicos. Inquéritos de Morbidade. Coleta de Dados. Telefone, provisão & distribuição. Viés de Seleção. Interpretação Estatística de Dados. Amostragem.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze differences in sociodemographic characteristics associated with health in individuals with and without a residential telephone line.
METHODS: Data from the ISA-Capital 2003 (2003 Health Survey), a study performed in the city of São Paulo, Southeastern Brazil, were analyzed. Residents who had a residential telephone line were compared to those who reported not having a telephone line, according to sociodemographic, lifestyle, health status and health service use variables. Bias associated with non-coverage of the population without a telephone line was estimated, decreasing after the use of post-stratification adjustments.
RESULTS: Of all the 1,878 interviewees aged more than 18 years, 80.1% had a residential telephone line. By comparing groups, the main sociodemographic differences among individuals who did not have a residential telephone line were the following: younger age, greater proportion of black and mixed individuals, smaller proportion of married interviewees, and greater proportion of unemployed individuals with a lower level of education. Residents without a residential telephone line had fewer health tests performed and smoked and drank more. In addition, this group took less medication, considered themselves to be in worse health conditions and used the SUS (National Health System) more frequently. When excluding the population without a telephone line from the analysis, estimates of dental consultations, alcoholism, drug use and SUS use to have a Papanicolaou test performed were those showing the highest bias. After post-stratification adjustment, there was a decrease in the bias of estimates for the variables associated with ownership of a residential telephone line.
CONCLUSIONS: The exclusion of residents without a telephone line was one of the main limitations to the studies performed in this way. However, the use of statistical techniques of post-stratification adjustment enables a reduction in non-coverage bias.

Descriptors: Health Surveys. Morbidity Surveys. Data Collection. Telephone, supply & distribution. Selection Bias. Data Interpretation, Statistical. Sampling Studies.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar diferencias con relación a características sociodemográficas y relacionadas con la salud entre individuos con y sin línea telefónica residencial.
MÉTODOS: Fueron analizados los datos del Inquérito de Saúde ([Encuesta de Salud] ISA-2003), un estudio transversal realizado en Sao Paulo, Sureste de Brasil, en el mismo año. Los moradores que poseían línea telefónica en su residencia fueron comparados con los que dijeron no poseer línea telefónica, según las variables sociodemográficas, de estilo de vida, estado de salud y utilización de servicios de salud. Fueron estimados los vicios asociados a la no cobertura por parte de la población sin teléfono, verificándose su disminución posterior a la utilización de ajustes de post estratificación.
RESULTADOS: De los 1.878 entrevistados encima de 18 años, 80,1% poseían línea telefónica residencial. En la comparación entre los grupos, las principales diferencias sociodemográficas entre individuos que no poseían línea residencial fueron: menor edad, mayor proporción de individuos de raza/color negro y pardo, menor proporción de entrevistados casada, mayor proporción de desempleados y con menor escolaridad. Los moradores sin línea telefónica residencial realizaban menos exámenes de salud, fumaban y bebían más. Asimismo, ese grupo consumió menos medicamentos, se auto evaluaron en peores condiciones y usaron más el Sistema Único de Salud. Al excluirse del análisis la población sin teléfono, las estimativas de consultas odontológicas, alcoholismo, consumo de medicamentos y utilización del SUS para realización de Papanicolaou fueron las que tuvieron mayor vicio. Posterior al ajuste de post estratificación, hubo disminución del vicio de las estimativas para las variables asociadas con la pose de línea telefónica residencial.
CONCLUSIONES: La exclusión de los moradores sin línea telefónica es una de las principales limitaciones de las investigaciones realizadas por ese medio. Sin embargo, la utilización de técnicas estadísticas de ajustes de post estratificación permite la disminución de los vicios de no cobertura.

Descriptors: Health Surveys. Morbidity Surveys. Data Collection. Telephone, supply & distribution. Selection Bias. Data Interpretation, Statistical. Sampling Studies.


 

 

INTRODUÇÃO

Os inquéritos populacionais de saúde vêm se desenvolvendo nos países industrializados desde a década de 1960 e têm sido usados como instrumentos para formulação e avaliação das políticas públicas.19 São importantes para a análise do estado de saúde das populações e para a avaliação do acesso e utilização dos serviços de saúde, oferecendo subsídios para planejar investimentos e serviços em redes básicas e hospitais. Além disso, permitem avaliar a eqüidade existente no atendimento às necessidades de saúde da população.6

Inquéritos de base populacional podem ser realizados entrevistando-se frente a frente um respondente ou por meio de questionários auto-respondidos, serviço postal (carta) ou até mesmo por meio eletrônico (email). Outra forma de se obterem os dados para um inquérito é por meio de questionário aplicado às pessoas sorteadas ou seu representante (proxy), que respondem às perguntas em sua própria residência, via telefone.

Uma das principais vantagens das entrevistas via telefone em relação às entrevistas domiciliares é a oportunidade de se monitorar e controlar a qualidade dos dados à medida que são coletados.13 Outra grande vantagem é a capacidade de gerar resultados rápidos, fruto da velocidade de obtenção e processamento dos dados.17

Entretanto, a principal desvantagem dos inquéritos por telefone é a limitada abrangência dos respondentes, uma vez que apenas pessoas com linhas telefônicas residenciais podem ser contatadas, o que acaba restringindo a população-alvo, podendo gerar vício nos resultados das pesquisas.

Em 2003, Monteiro et al16 (2005), em pesquisa telefônica (Simtel) realizada para monitorar fatores de risco para doenças crônicas no município de São Paulo, SP, concluíram que esse método produziu estimativas confiáveis, mostrando-se adequado. Porém, os resultados obtidos pelos autores estiveram relacionados a uma taxa de cobertura média estimada de 84,9% e não foi possível discutir as diferenças existentes entre as populações com e sem linha telefônica residencial no município.

Desde que as entrevistas via telefone começaram a ser usadas com mais freqüência, tem surgido a preocupação em comparar os resultados de inquéritos domiciliares com inquéritos via telefone, principalmente para se conhecerem as conseqüências que a exclusão dos moradores sem linha telefônica residencial poderia ocasionar.9,11 No entanto, tais comparações são assunto quase inexplorado no Brasil, e muito pouco se sabe sobre as diferenças entre os entrevistados que possuem e os que não possuem linha telefônica residencial em seus domicílios.

O objetivo do presente estudo foi analisar diferenças quanto a características sociodemográficas e relacionadas à saúde entre indivíduos com e sem linha telefônica residencial.

 

MÉTODOS

Foram utilizados os dados do Inquérito de Saúde no Município de São Paulo, (ISA-Capital 2003), um estudo de corte transversal para análise das condições de vida e de saúde da população e uso de serviços de saúde, por meio de entrevistas domiciliares, com metodologia e questionário semelhantes ao inquérito ISA-SPª realizado no ano anterior.

No ISA-Capital 2003, foram entrevistadas 3.357 pessoas no ano de 2003, sorteadas por meio de amostragem por conglomerados em dois estágios (setor censitário e domicílio). Estimou-se um tamanho mínimo de amostra de 420 pessoas para cada domínio de idade e sexo (menores de um ano, um a 11 anos, 20 a 59 anos, masculino e feminino, e 60 anos e mais, masculino e feminino), tendo por base a estimativa de uma prevalência de 50%, com nível de confiança de 95%, erro de amostragem de 0,06, efeito de delineamento de 1,5, além das possíveis perdas.b

As informações foram obtidas por meio de questionário, estruturado em blocos, aplicado por entrevistadores devidamente treinados, respondido diretamente pelos moradores sorteados.

Foram comparadas as pessoas com 18 anos ou mais segundo a posse da linha telefônica residencial no domicílio e de acordo com as variáveis:

• sociodemográficas: sexo, idade, naturalidade, raça/cor, religião, situação conjugal, escolaridade do chefe de família, atividade remunerada, renda per capita e característica do domicílio (definido como adequado, quando a habitação fosse casa ou apartamento, com abastecimento de água e esgoto, e apresentasse instalação sanitária interna e iluminação elétrica);

• de estilo de vida: índice de massa corpórea - IMC, tabagismo e alcoolismo, utilizando a classificação Cage (positivo ou negativo);14

• de morbidade: presença de doenças crônicas, (hipertensão e diabetes), presença de deficiência física, ocorrência de acidentes e/ou de violência nos 12 meses anteriores à entrevista, morbidade referida nos 15 dias anteriores à entrevista e auto-avaliação de saúde;

• uso de serviços: procura por serviços de saúde na ausência de eventos mórbidos, hospitalização nos 15 dias anteriores à entrevista, tipo do serviço de saúde procurado, cobertura pelo SUS dos exames de Papanicolaou, mamografia e próstata, consultas odontológicas e consumo de medicamentos nos três dias anteriores à entrevista.

Para a comparação entre os grupos com e sem linha telefônica residencial, foi verificada a existência de associação entre as variáveis de interesse e a posse de linha residencial por meio do teste qui-quadrado, sendo consideradas estatisticamente significantes as associações em que o valor p fosse menor que 0,05.

Para avaliar o efeito que a não-cobertura da população sem linha telefônica residencial teria nas estimativas do inquérito, foram estudados, para as variáveis associadas à posse de linha telefônica residencial, o vício associado à não-cobertura e a razão de vício.1,3,7,12,18

O vício (v) é dado pelo produto entre a proporção da população sem linha telefônica residencial e a diferença entre os grupos com e sem telefone, da seguinte forma:

Para as variáveis de estilo de vida, estado de saúde e utilização dos serviços de saúde associadas à posse do telefone, foi estimado o vício da não-cobertura pela expressão, equivalente à anterior:

sendo pcom telefone a estimativa da proporção da população comtelefone da amostra e ptotal a estimativa da proporção da população total (total da amostra com e sem telefone).

A razão de vício (rv), que permite dimensionar as alterações em potencial do nível de confiança dos intervalos de confiança, provocadas pela presença do vício, foi estimada pela fórmula:

sendo ep (pcom telefone) o erro padrão expresso da seguinte maneira:

Consideramos que valores superiores a 0,40 para a razão de vício alteram o nível de confiança dos intervalos de confiança.1,3,7

Foi verificado também se os vícios diminuíram com a utilização de ajustes de pós-estratificação segundo variáveis sociodemográficas.5 Para tanto, foram calculados pesos, cuja aplicação permite igualar a composição sociodemográfica da amostra da população com linha telefônica residencial àquela referente à amostra total do inquérito ISA-Capital 2003.

Para o ajuste de pós-estratificação, foram consideradas as mesmas variáveis utilizadas pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel);c sexo, idade dividida em seis categorias (18 a 24, 25 a 34, 35 a 44, 45 a 54, 55 a 64 e 65 e mais anos de idade) e a escolaridade do indivíduo em três níveis (zero a oito, nove a 11 anos e 12 e mais anos de estudo), totalizando 36 estratos sociodemográficos.

Após os ajustes, foram novamente estimados tanto as proporções de interesse para a população com linha telefônica residencial como os vícios associados à não-cobertura do telefone. Essas novas estimativas de vício e razão de vício foram comparadas às anteriores para a avaliação do efeito da pós-estratificação.

Para a análise dos dados foi utilizado o módulo survey, do pacote estatístico Stata em sua versão 9.2, que considera na análise os diversos aspectos do delineamento complexo de amostragem.

 

RESULTADOS

De um total de 3.357 pessoas entrevistadas, 3.333 responderam à pergunta sobre a posse de linha telefônica residencial no domicílio. Dessas, 1.860 tinham 18 anos ou mais, das quais 80,1% (1.486) disseram possuir o aparelho no ano de 2003 em sua residência.

De acordo com a Tabela 1, foi encontrada diferença estatisticamente significante em relação a todas as variáveis analisadas, com exceção do sexo (p = 0,898). No segmento sem telefone, houve maior proporção de pessoas naturais de outro estado, de cor de pele não branca, evangélicos, de menor escolaridade, que não trabalhavam e que moravam em domicílios "não adequados"a quando comparados ao grupo com linha telefônica residencial.

 

 

Para a idade, também foi encontrada diferença estatisticamente significante entre os grupos (p < 0,001). Para o grupo que possuía linha telefônica residencial, a média de idade encontrada foi maior (41,6 anos contra 35,6 do grupo sem telefone).

Levando em consideração a renda em salários-mínimos, os moradores sem linha telefônica residencial possuíam as menores rendas. Apenas 2,5% ganhava cinco ou mais salários mínimos e a média desse grupo atingiu apenas um salário mínimo. Já entre os moradores com telefone, a média foi significativamente maior (3,8 salários mínimos), e o percentual de entrevistados que ganhavam cinco ou mais salários subiu para 19,3% (p < 0,001).

Em relação aos comportamentos relacionados à saúde e à presença de morbidade (Tabela 2), houve diferença significativa entre os grupos quanto a: tabagismo, dependência de álcool, hipertensão e auto-avaliação de saúde.

 

 

Quanto ao uso de medicamentos nos três dias anteriores à entrevista também foi encontrada associação estatisticamente significante com a presença de linha telefônica residencial (p < 0,001). Apenas 34,2% dos entrevistados que não possuíam o aparelho referiram ter consumido algum tipo de medicamento, contra 51,0% do grupo que possuía linha telefônica residencial.

Associações estatisticamente significantes foram encontradas também entre a posse do telefone e a realização de exames de próstata e mamografia. Já para o exame de Papanicolaou não foi detectada diferença estatisticamente significante entre os dois grupos (Tabela 3).

 

 

Com relação ao tipo do serviço procurado, para os três exames avaliados (Papanicolaou, mamografia e próstata) houve diferença estatisticamente significante entre os grupos com e sem telefone (p < 0,001), sendo o SUS responsável pela grande maioria dos atendimentos e pela cobertura dos gastos do grupo sem linha telefônica residencial. Embora também utilizasse o SUS, o grupo com linha residencial apresentou menor percentual.

Em relação à realização de consultas odontológicas, o percentual dos entrevistados que não possuíam linha telefônica residencial e consultaram o dentista no ano anterior à entrevista foi de apenas 33,9%. Já para o grupo com telefone, esse percentual atingiu os 50,6% (p = 0,001).

A Tabela 4 mostra os vícios das estimativas associadas à não-cobertura da população sem telefone, antes e depois do ajuste de pós-estratificação das variáveis associadas à posse do telefone. Antes do ajuste, nenhuma das variáveis obteve razão de vício inferior a 0,40, limite considerado aceitável para esse indicador.

Para as estimativas em que a razão de vício foi maior que 1,0 (prevalência de hipertensão, tabagismo, realização de exame de próstata, auto-avaliação em saúde, consumo de medicamentos, Cage positivo, realização de consultas odontológicas e utilização do SUS para mamografia e Papanicolaou), os níveis de confiança associados aos intervalos de confiança construídos seriam inferiores a 83%.7

Após o ajuste de pós-estratificação, no entanto, foram observadas reduções nas razões de vício em todas as variáveis analisadas. As maiores diminuições se deram nas estimativas em relação à utilização do SUS para as consultas odontológicas, Papanicolaou e exame de próstata, prevalência de hipertensão e exame de próstata (reduções superiores a 50%).

Aproximadamente 25% das variáveis analisadas apresentaram estimativas da razão de vício inferiores a 0,40 após o ajuste e somente para uma delas (prevalência de Cage positivo) esse estimador continuou superior a 1,0.

 

DISCUSSÃO

As principais diferenças encontradas entre indivíduos com e sem linha telefônica residencial foram em relação à idade (os entrevistados sem linha telefônica residencial são mais jovens), à naturalidade (mais de 50% dos moradores sem linha telefônica residencial vêm de fora do estado de São Paulo), à raça/cor (quase a metade dos moradores sem linha telefônica residencial é da raça/cor negra e parda, enquanto no grupo com linha telefônica residencial esse número não chega a 30%); em relação à situação conjugal, apenas 27,8% dos entrevistados sem linha telefônica residencial é casada, percentual maior foi encontrado no grupo com linha telefônica residencial (45,2%); quanto à atividade remunerada, aproximadamente 13% do grupo sem linha telefônica residencial está desempregada e possui menor escolaridade (menos de 1% desse grupo possui 12 ou mais anos de estudo), já na parcela com linha telefônica residencial, apenas 7,7% está desempregada e a escolaridade é maior (26,2% possui 12 ou mais anos de estudo).

Os moradores sem linha telefônica residencial realizam menos exames de saúde, fumam e bebem mais (28,6% contra 19,3% e 17,8% contra 6,4%, respectivamente). Eles também consomem menos medicamentos (34,2% contra 51,0% no grupo com linha telefônica), se auto-avaliaram em piores condições (13,6% contra 7,3%) e usam mais o Sistema Único de Saúde (SUS).

Os resultados obtidos mostraram que os entrevistados sem linha telefônica residencial diferem em aspectos demográficos, socioeconômicos e geográficos; em particular, notou-se que a falta do aparelho foi mais comum entre os moradores que têm menor poder econômico, menos oportunidade de acesso aos serviços de saúde e utilizam em grande maioria o SUS.

A realização de estudos de corte transversal por meio de inquéritos de saúde possui grande importância para a gestão pública, embora não permitam estabelecer relações de causa e efeito. As entrevistas realizadas via telefone são usadas como uma alternativa viável em relação ao tempo e ao custo em estudos de corte transversal. Alguns autores,2,8,15 no entanto, recomendam cuidado quando alguns subgrupos populacionais têm baixa cobertura de telefone, sugerindo a incorporação de outros meios para coleta de dados.

O vício associado à não-cobertura dos entrevistados sem telefone depende de dois fatores. Um deles se refere à diferença entre os entrevistados que têm e os que não têm linha telefônica residencial e o outro à proporção da população sem telefone. Portanto, como esperado,2,4,9 esses dois fatores tiveram influência nas estimativas de vício encontradas no presente trabalho.

No município de São Paulo, a taxa de cobertura de linha telefônica residencial, que segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD)d era em torno de 77% na época do presente estudo (2003), permitiu que as diferenças entre as estimativas para a população total e para o grupo de moradores com telefone levassem à introdução de vício.

Similarmente aos resultados encontrados no ISA-Capital 2003 em São Paulo, Weeks et al20 (1983) e Ford9 (1998) também concluíram que a posse do telefone aumenta com a idade, sendo menor entre os moradores com menores escolaridade e renda nos EUA. Outros resultados semelhantes aos do estudo nos EUA9 foram observados em relação à raça, escolaridade, situação conjugal, estado de saúde, prevalência de tabagismo e prevalência de diabetes. Ford9 (1998) também afirma que, quando a taxa de cobertura é baixa (menor que 50%), as estimativas obtidas por meio de entrevistas via telefone podem ser seriamente comprometidas.

Resultados análogos aos obtidos no presente estudo também foram encontrados por Marcus et al15 (1986), nos EUA. Os autores também observaram que o grupo dos entrevistados sem linha telefônica residencial referiu pior auto-avaliação em saúde, teve menor média salarial e o percentual de brancos nesse grupo foi menor quando comparado ao grupo que possuía linha telefônica residencial no domicílio. Outra semelhança entre os estudos foi em relação à hospitalização, para a qual não foi detectada diferença estatisticamente significante entre os grupos.

Bernal & Silva3 (2009) também encontraram significantes diferenças entre os grupos com e sem linha telefônica residencial; seus resultados foram semelhantes aos deste trabalho em relação à escolaridade, raça, idade, auto-avaliação de saúde e prevalência de diabetes.

O Vigitel, que contou com uma cobertura semelhante (76,1%) ao ISA-Capital 2003 de domicílios atendidos por linhas telefônicas no município de São Paulo, também aplica ajustes de pós-estratificação, a fim de minimizar o vício trazido pela ausência de dados por parte da população sem telefone. Por meio de procedimentos semelhantes, o Behavioral Risk Factor Surveillance System, nos Estados Unidos, também utiliza a pós-estratificação para produção de seus resultados. A principal diferença é que o sistema de vigilância americano substitui a escolaridade pela raça/cor.5

Keeter10 (1995) sugere que alguns moradores que passaram a possuir linha telefônica residencial há pouco tempo possam servir de base para caracterizar a população sem telefone e mesmo estimar vícios de não-cobertura. Ele comparou essas duas parcelas da população e detectou importantes semelhanças quanto a variáveis sociodemográficas.

Já Frankel et al8 (2003) discutem que moradores que tiveram interrupção recente na linha telefônica têm perfil semelhante aos moradores que nunca tiveram aparelho em casa. Dessa forma, utilizar as estimativas desses moradores para representar a parcela da população sem telefone foi importante para reduzir os vícios da não-cobertura em entrevistas por telefone. A redução do vício foi maior nas variáveis com maior associação com a posse do telefone, o que também foi verificado no presente estudo.

O uso do celular para realização de inquéritos via telefone já vem sendo utilizado nos EUA (Blumberg et al4 2006). Acredita-se que com o aumento do uso do celular nos últimos anos alguns moradores tenderão a substituir a linha telefônica residencial pelo celular, por questões principalmente econômicas.10

No Brasil, moradores com perfil socioeconômico mais baixo já adquirem diretamente o celular, pela facilidade e baixo custo. Dessa forma, visando minimizar o vício da não-cobertura, tais moradores poderão ser entrevistados seguindo os novos avanços das pesquisas via celular, ou mesmo entrevistados em seus próprios domicílios.

Os resultados do presente estudo mostraram que as populações com e sem telefone são diferentes quanto a diversas características. Tais diferenças, aliadas à taxa de cobertura de linha telefônica residencial observada na cidade de São Paulo, geraram vício nas estimativas obtidas para a parcela da população com linha telefônica residencial.

Como afirmado anteriormente, a exclusão dos moradores sem aparelho telefônico é uma das principais limitações das pesquisas realizadas via telefone. No entanto, esse obstáculo não deve ser considerado um impedimento para sua realização, uma vez que a utilização de técnicas estatísticas, tais como a aplicação de ajustes de pós-estratificação, permitem a diminuição dos vícios de não-cobertura. É preciso ainda considerar que os levantamentos via telefone servem não apenas para se conhecer o estado de saúde da população de maneira ágil, mas também contribuem para a orientação no planejamento de ações e novas políticas de saúde pública.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Neuber José Segri
Av. Dr. Arnaldo, 715 - Cerqueira Cesar
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: neuber@usp.br

Recebido: 22/4/2009
Aprovado: 4/12/2009

 

 

Artigo baseado na dissertação de mestrado de NJ Segri, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, em 2008.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.

a César CLG, Barros MBA, Alves MCGP, Carandina L, Goldbaum M. Saúde e condição de vida em São Paulo - Inquérito Multicêntrico de Saúde no Estado de São Paulo - ISA-SP. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 2005.
b Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Estadual Paulista, Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, Secretaria Municipal da Saúde. Inquéritos de saúde no Estado de São Paulo. São Paulo; 2006[citado 2008 set 19]. Disponível em: http://www.fsp.usp.br/isa-sp
c Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006. Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre freqüência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2006. Brasília; 2007.
d Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional por Amostra de Domicílios 2003, microdados [CD-ROM]. Rio de Janeiro, 2007.

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